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2. GENERAL BACKGROUNDS

2.3. Diseases and Therapies

Durante o período em que estivemos na sala de aula do Laboratório de Ensino de Patologia (LEP) procuramos entender aspectos de como essa cultura da sala de aula (GREEN, BLOOME 1997; CASTANHEIRA, 2001; 2004; GREEN, DIXON e ZAHARLIC 2005) era construída. Ou seja, buscamos identificar alguns tipos de

situações sociais (SPRADLEY, 1980) dessa disciplina, a qual se relaciona aos

momentos em que os participantes, em um dado espaço social, estiveram desenvolvendo algum tipo de atividade. Nestas situações sociais, foi possível notar algumas estruturas de participação (BLOOME et al, 2004, p. 28) as quais foram entendidas como “expectativas compartilhadas pelos participantes com relação aos padrões dos protocolos de troca de turno para um tipo específico de situação ou evento”124. Na observação das pessoas agindo e interagindo umas em relação às outras foi possível identificar algumas funções sociais e significados que os

124“[...] shared expectations among participants regarding the patterns of turn-taking protocols for a particular type of situation or event.” (BLOOME, et al, 2004, p. 28)

participantes atribuíram ao evento, ou à uma dada situação. Como aponta Bloome et

al (2004), tais estruturas de participação ao mesmo tempo em que definem a natureza

do evento também são definidas por esta.

4.1.1.1 - Tempos demarcados para se fazer coisas diferentes

Uma primeira característica a ser destacada é que, nesta sala de aula, há uma delimitação temporal para se desenvolver diferentes atividades. Observamos que, sob o comando da professora-formadora, era criada uma oportunidade para os participantes se engajarem em uma nova atividade. Ou seja, quando alguém estava fazendo sua apresentação - quer seja professora, convidado ou licenciando - de uma forma geral, essa pessoa a fazia de forma ininterrupta. Intervenções da audiência, nesse caso, pareciam ser vistas como algo inapropriado. Somente após encerrada sua exposição, havia um comentário da professora-formadora, convidando os outros a se pronunciarem. Assim, os estudantes-professores participavam em momentos mais pontuais, geralmente, após a professora-formadora convidá-los, nominalmente, a se pronunciarem. A seguir, trazemos um fragmento extraído da transcrição do Evento 3, que exemplifica um comando da professora-formadora para que sejam iniciados os comentários sobre sua exposição feita na aula: “O que vocês acham dessa discussão?

Vocês acham importante? Dentro do contexto que vocês estão vivendo, o que vocês acham? Vamos começar, André, o que você acha?” (Maria, Evento 3, Linhas 106 à 115)

Em alguns momentos, havia, até mesmo, um ligeiro reordenamento das carteiras, em formato de semicírculo, de modo a formar uma disposição mais propícia para o debate125.Essa característica da turma trouxe algumas facilidades e limitações no desenvolvimento da pesquisa. Por um lado, além de clarear os limites (espaciais e temporais) entre as diferentes atividades da disciplina, ela também tornava mais explícitos os momentos nos quais encontraríamos as pessoas interagindo. Por outro lado, contudo, ela originava algumas limitações, na medida em que, via de regra, os debates restringiam-se ao final das aulas. Nesses momentos, em geral, a turma encontrava-se mais esvaziada devido à saída de alguns estudantes, assim como o

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debate não se estendia muito devido ao tempo reduzido que restava para o término do horário letivo de aula.

4.1.1.2 - O respeito à fala do outro e a tendência ao consenso

Possivelmente relacionada à característica anterior, também notamos que nesta sala de aula as pessoas tendem a respeitar quando o outro está se pronunciando. Assim, foram raros os momentos em que alguém sobrepunha à fala do outro, alterando o seu tom de voz. Os participantes tendiam a se pronunciar quando o outro já havia encerrado sua fala.

Por outro lado, também observamos que divergências de opiniões entre os participantes não eram comuns. Diferenças de opinião e conflitos não estiveram tão explícitas nesse contexto. Nesta sala de aula, observamos que as interações mais comuns entre os participantes aconteciam em um tipo de complementação da fala do outro. O Quadro 4.1, a seguir, traz um exemplo de interação entre os participantes, quando um licenciando (o André) complementa a fala da professora126.

Quadro 4.1 – Representação de parte da transcrição do Evento 1, ilustrando o momento em que André intervém complementando a fala de Maria.

Linha Falante Unidade de Mensagem

143 Maria Não,

144 eu também,

145 eu também começo a pensar...

146 que realmente,↑

147 quando você fala em drogas

148 e quando...

149 você começa a pensar na cabeça do adolescente, 150 eu penso a mesma coisa que você.

151 [Pausa]

152 Cláudio Hum.

153 Maria Talvez envolver mais os alunos... 154 André ...problematizando questão.

Algumas dessas características apontadas, como o respeito à fala do outro, possivelmente, têm relações com o fato de serem estudantes universitários. Portanto, entendemos que estudos com adultos bastante escolarizados podem trazer algumas diferenças quando comparados a investigações que se desenvolvem, por exemplo,

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Optamos por trazer transcrições por meio de quadros quando há alternância entre os falantes. Acreditamos que esta é a forma mais clara de representar para o leitor, a interação entre os participantes.

com crianças, nos anos iniciais de suas atividades escolares. Além disso, pontuamos que tais comportamentos e algumas características relacionadas às formas de agir dos licenciandos, seguramente, também mantém relações com caraterísticas e tradições do Instituto de Biologia que dizem sobre o que é ser “um bom aluno” neste espaço social.

4.1.1.3 - Construção de reflexões coletivas localizadas em perfis de atuação de outros profissionais

Observamos que, nesta sala de aula, reflexões coletivas são construídas em torno da atuação de diferentes perfis profissionais. O perfil do professor de Ciências da Natureza e Biologia não é o único, e, em grande parte das aulas e do curso, não é nem tomado como o central nas discussões. Assim, são, frequentemente, trazidas para o debate, reflexões sobre as atividades de outros profissionais, em especial, aqueles ligados à área da saúde, por exemplo: o médico, o patologista, o veterinário e o

pesquisador acadêmico no campo das Ciências Biológicas. Nessa direção,

obviamente, são também referenciados contextos de atuação profissional, para além da escola, como por exemplo: hospitais; laboratórios de pesquisas em Ciências Biológicas; universidades e consultórios médicos.

Em, praticamente, todas as apresentações dos licenciandos a maior parte do tempo é destinada para a discussão de conteúdos teórico-conceituais, principalmente ligados ao campo da Patologia, da Saúde, da Saúde Pública, da Fisiologia, da Histologia, da Bioquímica, dentre outros. Os momentos para se discutir conteúdos do campo de Ensino de Saúde e de Ciências, ou do campo da Educação são, via de regra, pontuais. Ou se reserva a breves momentos no interior de uma dada aula sobre conteúdos da área das Ciências Biológicas e da Saúde127, ou, quando, são destinadas, aulas específicas da disciplina com temas na área da Ensino e Educação128. Assim, quando

127Estamos referindo-nos às aulas sobre os temas: Alimentos de origem animal – como atestar sua

qualidade? O que é SIF? Vamos decifrar alguns rótulos de alimentos? (3)Distúrbios circulatórios (4); Hábitos e doenças cardiovasculares (5); Inflamação e autoimunidade (6); Doenças infectocontagiosas relevantes no Brasil (7); Drogas lícitas e ilícitas;; Posse responsável e sua importância na promoção de saúde (8); Zoonoses: o que são e como preveni-las (9); DSTs (10);Câncer (11); Hábitos e Câncer (12); Desequilíbrio socioambiental e doenças (13)

128Estamos referindnos às aulas sobre os temas: Saúde como Tema Transversal: como os temas saúde

comparadas às principais discussões, nesta sala de aula, há poucas referências à escola, à sala de aula da educação básica, aos alunos e às atividades profissionais docente.