Assim como Da Vinci, Goethe também afirmou em sua obra Doutrina das
Cores - Die Farbenlehre - o princípio aéreo e distante da cor azul. Antes de nos
determos na análise desta cor, acreditamos que seja oportuno ressaltarmos algumas premissas desta obra, publicada em 1813, que instaurou a tentativa de unir a ciência e a poética. Esta produção teórica contrapunha-se formalmente à teoria física da cor de Newton, estando esta última centrada na concepção da derivação da cor a partir da luz. Contrariamente, Goethe pressupunha que a luz possuía uma afinidade eletiva com a cor e que a luz não poderia simplesmente ser composta de luzes coloridas. Segundo Marco Giannotti, no prefácio de sua tradução da Doutrina das
Cores, esta oposição refletia uma polêmica instaurada pelo idealismo alemão, que
não separava o homem do mundo: “o idealismo alemão recusa a ótica mecanicista, já que interpreta tanto a natureza quanto a arte a partir da idéia de organismo, de uma finalidade interna”.33 13839
A metáfora que Goethe atribui à teoria das cores de Newton é a de uma cidade construída precocemente e que teria sido fortificada e guarnecida a cada ataque ou conflito. Assim sendo, a afirmação de Goethe de que as cores são ações e paixões da luz, instaura um olhar humano, que, liberto de dogmatismo, elege o olho humano como um centro que observa, reflete e sintetiza.
A idéia de que a construção do mundo sensível passa necessariamente pelo olho, órgão que, em última instância, deve sua existência à luz, articula a idéia de que a cor é o meio pelo qual a natureza se revela à visão: “a cor é um fenômeno elementar da natureza para o sentido da visão, que, como todos os demais, se
33 In: GOETHE. W. Doutrina das Cores. São Paulo: Nova Alexandria, 1993. p. 37.
manifesta ao se dividir e opor, se misturar e fundir, se intensificar e neutralizar, ser compartilhado e repartido, podendo ser bem mais intuído e concebido nessas formas gerais da natureza” (GOETHE 1993:45).
Esta definição privilegia o caráter de reflexão nos fenômenos físicos de luz e de cor, mas condiciona, sobretudo, a existência da natureza à revelação desta aos sentidos. Cabe, pois, a constituição da visão baseada na luz, sendo que as cores só podem aparecer junto à luz e não como produtos de composição da luz como queria Newton.
Goethe estipulou que o círculo cromático pressupunha a complementaridade no olho de cores compostas e diametralmente opostas. “Assim, o amarelo requer o violeta, e nesta cor encontram-se o azul e o vermelho; o laranja requer o azul, que é composto pelo amarelo e pelo vermelho; o púrpura requer o verde que reúne o azul e o amarelo, e vice-versa. A despeito de considerações sobre o círculo cromático, importa salientarmos que Goethe atribuía à cor azul uma afinidade com o preto e, como já dissemos, o culto da cor azul do manto da Virgem passou antes pela cor negra do luto. A polaridade entre as cores amarela e azul determina oposições imanentes entre qualidades físicas e morais como ação, luz, força, claridade, calor, proximidade do amarelo a qualidades de privação, sombra, fraqueza, escuridão, frieza e repulsão da cor azul: “Assim como o amarelo sempre implica uma luz, pode- se dizer que o azul sempre implica algo escuro” (excerto 778) ou ainda no trecho “Na luz surge para nós, em primeiro lugar, uma cor que chamamos amarelo, e uma outra, na escuridão, que chamamos azul" (1993: 46).
Na seção destinada à cor azul, Goethe classifica esta cor como uma energia que está do lado negativo e a vê como uma contradição entre estímulo e repouso. Quanto à idéia de distância proporcionada por superfícies azuis, Goethe nos diz que
“do mesmo modo que o céu, as montanhas distantes parecem azuis, uma superfície azul também parece recuar diante de nós” (1993: 132).
Ao mencionar o fenômeno de sombras coloridas, Goethe relata impressões de uma viagem do naturalista, geólogo e físico suíço Horace Benedict Saussure ao Montblanc, na qual o cientista atribuía sombras coloridas e uma misteriosa qualidade azul ou anil ao ar a partir do fenômeno de vapores e da clareza do ambiente de montanha. Esta observação nos mostra que Goethe analisa o fenômeno das cores segundo uma ótica científica, no entanto sua obra se singulariza por instaurar uma reflexão poética. A cor azul, para ele, surge na escuridão. O princípio da cor azul ligada ao elemento escuro funda uma estética do distanciamento:
“Se a escuridão do espaço infinito é vista através de vapores atmosféricos iluminados pela luz do dia, surge a cor azul. Durante o dia, o céu, visto do lado das montanhas, é azul-real, pois apenas vapores esparsos pairam diante do escuro espaço infinito. Ao se descer em direção ao vale, o azul se torna mais claro, até que finalmente,em certas regiões e devido a vapores crescentes, ele se converte num azul tirante a branco” (1993: 85).
Ao postular que cores distintas proporcionam estados d’ânimo distintos (excerto 762), Goethe vincula os efeitos das cores sobre a visão como um meio de chegar até a alma.
A nova postura poética e científica de Goethe inaugurou um novo efeito estético e moral sobre as cores. A análise da cor ultrapassou a limitada concepção da cor enquanto mero fenômeno físico e mera disciplina pertinente à física segundo vibrações mensuráveis, que Newton legara à tradução da natureza. A obra, ao revelar traços poéticos que imiscuem aspectos de estética e linguagem, inaugura
uma nova concepção organicista da natureza que não podia ser traduzida matematicamente.
Na questão da nomenclatura, por exemplo, Goethe percebeu a flexibilidade, a tolerância e a multiplicidade de expressões gregas e latinas. À imprecisão do léxico das cores da Antiguidade, Goethe contrapõe o monossilabismo e a generalidade da terminologia alemã: Gelb, Blau, Rot, Grün – amarelo, azul,
vermelho e verde. Por sua vez, Pastoreau afirma que muitas línguas neolatinas
foram buscar a terminologia da cor azul no alemão blau e no árabe lazward.
Goethe tece ainda considerações históricas sobre a eleição de certas cores por povos divididos segundo uma dicotomia: povos calorosos como franceses, italianos e espanhóis prefeririam cores intensas como o vermelho e nuances que vão das cores ativas às cores passivas, ao passo que povos moderados como os ingleses e alemães seriam ciosos do amarelho-palha, da cor de ouro e do azul escuro. Goethe atribui a eleição de certas cores à preferência de povos primitivos por cores de bastante energia como amarelo-avermelhado. Contrariamente, os homens cultos prefeririam cores sombrias e escuras.
Como vimos, Goethe procurou associar uma reflexão naturalista, pertinente às ciências físicas, a uma visão moral e estética das cores e ele, ao associar o poeta ao cientista, inaugura uma reflexão multidisciplinar sobre a linguagem, que inclui a visão e a atividade cromática do olho, que focaliza a ação viva das cores: “Nunca se reflete o suficiente sobre o fato de que a linguagem é propriamente apenas simbólica, figurada, e de que jamais exprime diretamente os objetos, mas somente por reflexos”. (GOETHE 1993: 25) Assim, a visão era o sentido privilegiado que
fornecia ao poeta um arsenal plástico que refletia não só a riqueza como as metamorfoses da natureza.
Mas antes de nos atermos ao arsenal de imagens do Romantismo julgamos pertinente esboçarmos algumas linhas gerais deste movimento. No ensaio de Benedito Nunes,3440
lemos a definição, de Ralph Tymm, para quem o romântico “é aquele cuja insatisfação com o real se transmuda em literatura ou teoria estética”.
34 NUNES, BENEDITO. “A visão romântica”. In: Guinsburg, J. O Romantismo. São Paulo: