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Max é uma criança do sexo masculino, com onze anos e sete meses de idade no momento da avaliação neuropsicológica. O diagnóstico de Asperger foi fornecido pela neuropediatra que o acompanha de modo sistemático. Destaca-se que o pseudônimo Max remete a um dos integrantes do atual tema de interesse da criança, a saber, Big Brother Brasil.

Etapa 1 – Análise qualitativa do sintoma:

ANAMNESE COM A MÃE DE MAX:

As informações registradas sobre o histórico clínico de Max foram fornecidas pela mãe da criança, durante entrevista clínica realizada em fevereiro de 2013. O relato indica forte vínculo afetivo na relação mãe-filho. A mãe de Max dedica-se à inserção da criança em equipe multiprofissional a fim de fomentar o desenvolvimento de habilidades sociais e linguísticas da criança. Até o momento da presente avaliação, Max estava em acompanhamento com fonoaudiólogo, psicólogo clínico e neuropediatra na rede particular de saúde.

Max nasceu de parto cesáreo, após 8 meses de gestação. O pré-natal foi realizado adequadamente, sem nenhuma intercorrência clínica no período pós-natal. Nos primeiros meses de vida, foi uma criança muito quieta: não chorava, era “todo molengo” (sic). Ele começou a andar e falar palavras isoladas (como mamãe) aproximadamente com 1 ano de idade. Aos 3 anos de idade, começou a ler sozinho, mas ainda por volta dos 4-5 anos de idade, poucos entendiam o que ele falava. Aos 5 anos, a comunicação social da criança melhorou, ainda que por meio do uso de palavras isoladas.

A mãe de Max afirma que o filho sempre utilizou gestos para se comunicar e frequentemente repetia histórias dos desenhos favoritos. Quando pequeno, adorava brincadeiras de montar e para onde fosse tinha que levar as peças de armação. Ela relembra

que Max tinha “manias” (sic), dentre elas, todas as roupas e objetos pessoais tinham que ser

na cor amarela.

Ele também associava pessoas a números específicos de repetição, por exemplo, antes de

estabelecer comunicação com a mãe, Max repetia a palavra “mãe”, três vezes: “mãe, mãe, mãe vou à escola hoje à tarde” (sic). Max não sabia o nome próprio dos colegas de sala, mas

os associava ao número da lista de chamada.

Ele obteve diagnóstico clínico de Transtorno de Asperger aos 6 anos de idade. A mãe relata que foi difícil perceber o atraso no desenvolvimento, porque Max era filho único até então. As características comportamentais concernentes ao diagnóstico clínico tornaram-se evidentes quando a criança ingressou na escola. A instituição começou a desconfiar de possível quadro clínico, uma vez que Max frequentemente não respondia à professora, nem

olhava nos olhos dos outros, “como se estivesse no mundo dele”, informa a mãe (sic).

No período em questão, a mãe começou a observar que o filho confundia-se com a

colocação do pronome na frase, por exemplo, ele dizia: “filho, eu vou sair” (sic). Max perguntava: “eu”? (sic). Como se o “eu” presente na frase da mãe, se referisse a ele, Max. Ou seja, a criança confundiu o “eu”, pronome pessoal da primeira pessoa do singular, com o “você”, pronome de tratamento pessoal. Seu uso verbal se dá na segunda pessoa, porém,

conjugado como a terceira pessoa (ele).

Max demorou a compreender o conceito de tempo e comumente confundia claro/escuro. No momento da presente avaliação, apresentava dificuldades para entender antônimo. O discurso da mãe sugere que ele precisa de um tempo específico para responder a perguntas, muitas deles, sobre o cotidiano escolar – “eu faço uma pergunta a Max, mas ele demora um

tempinho para me responder. Às vezes, isso me tira do sério” (sic).

Certo dia, Max demonstrou estar muito chateado com a mãe porque ele solicitou pegar um lápis que estava em cima da mesa, quando, na verdade, o mesmo estava embaixo da

mesa. Segundo relato, Max ficou “paralisado” (sic) tentando entender o que realmente a mãe

queria, já que o objeto não estava no lugar indicado. Também em certo dia, Max demonstrou

estar “transtornado” (sic), porque, brincando, a mãe o chamou de papagaio. Ele já solicitou

substituir psicólogo clínico que o acompanhava, porque, sem autorização, o profissional pegou um pouco da pipoca que o Max estava comendo.

Max é designado como tendo dificuldades para demonstrar sentimentos. Certo dia, ele

ficou sem entender o motivo pelo qual uma criança chorava pele morte de um gato: “por que ele chora? Todo mundo, inclusive animais, morrem!” (sic), disse Max. Ele possui

dificuldades para reconhecer quando a mãe está triste. Frequentemente confunde tristeza com

cansaço: “às vezes, eu chego em casa cansada, mas Max acha que estou triste. Para ele, inveja, raiva, ódio e tristeza é uma coisa só” (sic), informa a mãe.

Max começou a ler com 3 anos de idade. As dificuldades escolares atuais circunscrevem- se à aparente incredulidade sobre frequentes brincadeiras irônicas dos pares para com ele. Max ainda adora relacionar pessoas a números. A mãe afirma que ele demonstra interesse intenso pelo Big Brother Brasil, programa de entretenimento vinculado a uma rede de televisão brasileira.

Max é descrito como criança que não se opõe ao estabelecimento de relações, gosta de estar em diferentes âmbitos sociais e é um aluno colaborativo, mas apresenta dificuldades para ler os contextos, o que culmina com posturas, por parte dos colegas, sugestivas de

bullying.

DESENHO HISTÓRIA COM TEMA:

Concernente ao desenho história com tema “eu e minha família”, verifica-se desenhos

figurativos constituídos por personagens com cabeça e corpo, acompanhado de sugestiva clivagem funcional da condensação de figuras continentes e irradiantes que haviam constituído a figura-girino do Max (Grieg, 2004).

Conforme figura 50, ainda não se observa traços precisos, e diferenciações dos personagens gráficos ocorrem no rosto, acompanhado pelo nome próprio de cada membro familiar representado.

Figura 50: desenho história do Max sobre o tema "Eu e minha família"

No desenho história com tema, Max desenhou o tema “Eu e minha família”, mas recusou o desenho “Eu e minha escola”. Conforme figura 50, o desenho história com tema “Eu e minha família” foi caracterizado pela presença da criança, pais e irmão caçula. Verifica-se

padrão. Ao apresentar a família, Max utiliza o pronome pessoal da primeira pessoa do singular (eu) para referir-se a si mesmo. Tal fato evidencia-se em outros momentos do processo avaliativo, nos quais Max diferencia os pronomes eu-você: “Eu acertei a tarefa que

você passou?” (sic), pergunta ele ao avaliador.

Contudo, no tema “Eu e minha escola”, Max optou por escrever o seguinte parágrafo: “Tenho muitos amigos na escola, ainda bem, pois nasci com Síndrome de Asperger, e minha mãe tinha medo disso. Na escola eu sou bom em muitas matérias, as professoras são legais, a sala é bonita, tem ar-condicionado. Eu sou do 6º ano A. Sou muito inteligente” (sic).

No trecho em questão predomina a descrição da estrutura física da escola e de como Max é caracterizado enquanto aluno. Ele afirma saber do diagnóstico de Transtorno de Asperger, diz ter muitos amigos, mas, em seguida, apresenta o medo da mãe atrelado à possibilidade oposta (não ter amigos).

Conforme anamnese, a mãe tenta clarificar situações, expressões, sugestivas de bullying. Embora precise de certo tempo para entender, quando compreende, a mãe afirma que o filho consegue perceber melhor as situações negativas que podem perpassar o seu cotidiano escolar.

O avaliador perguntou a Max o que ele comumente faz com os amigos na escola. A criança respondeu que frequentemente ajuda os colegas na realização de atividades escolares e avisa aos amigos desinformados quando tem prova.

Em entrevista escolar, a coordenadora responsável pelo 6º ano do Ensino Fundamental relatou situação na qual Max sugere não ter compreendido o contexto posto. Certo dia, colegas da sala de aula estavam programando atividades de lazer para o final de semana. Max ouviu a conversa e, empolgado, informou a coordenadora o que iria fazer no final de semana.

Desconfiada, a profissional conversou com um dos colegas de turma do Max, quando soube que ele não foi efetivamente convidado, nem o envolveram nos detalhes da programação.

A coordenadora afirma que Max frequentemente é isolado dos pares nas atividades de lazer, mas ele frequentemente está envolvido em atividades escolares (atividade em grupo, por exemplo). A mãe acredita que os pares o envolvem em atividades escolares, porque frequentemente Max as efetiva com qualidade, mas afirma que comumente precisa ligar para as demais mães de crianças que estudam com ele, a fim de ter certeza se o filho foi convidado para programação de lazer.

Conforme resultados do IMHSC-Del-Prette (posteriormente detalhado), Max indica dificuldade significativa para agir em situações que envolvem empatia/civilidade e participação. Ou seja, ele frequentemente possui entraves em contextos onde habilidades de afirmação, defesa de direito e autoestima tornam-se imprescindíveis. Dificuldades em envolver-se e comprometer-se com o contexto social também são significativas.

RESPOSTA DO CBCL (RESPONDIDO PELA MÃE DE MAX):

Em todas as escalas fornecidas pelo CBCL, o comportamento de Max pode ser classificado como Clínica, Limítrofe ou Não-Clínica, segundo amostra normativa de pares de Achenbach (1991, citado por Garzuzi, 2009). No entanto, torna-se imperativo frisar que tais classificações não configuram um diagnóstico, apenas circunscrevem a categoria na qual a criança ou adolescente encontra-se, conforme respostas fornecidas pelos pais ou responsáveis legais.

A primeira escala fornecida pela CBCL refere-se à Escala de Competência Social, relacionada a problemas no desempenho de variadas atividades (brincadeiras, jogos, execução de tarefas), no relacionamento com pessoas (familiares, amigos) e desempenho escolar (Borsa & Nunes, 2008).