[…nos museus, o exercício regular das acções que ajudam a evitar a degradação dos bens culturais é variável, consoante o grau dos conhecimentos técnicos em presença, mais do que em consequência das condições e dos meios disponíveis.] IPM
A política de conservação nos museus portugueses tem vindo a transformar-se profundamente nos últimos anos. Surgindo inicialmente como uma actividade mais ligada à conservação curativa afirma-se, cada vez mais, como uma prática de prevenção e de controlo das principais causas de deterioração.
Segundo definição feita pelo IPM [1], a conservação preventiva, em traços gerais, é um conjunto de acções que, agindo directa ou indirectamente sobre os bens culturais, visa prevenir ou retardar o inevitável processo de degradação e de envelhecimento desses mesmos bens. Estas acções centram-se sobretudo na premissa de que a conservação preventiva deve ser uma das prioridades das actividades de um museu. A prática continuada e correcta de um plano de conservação preventiva assegura a estabilidade dos acervos tornando assim possível o seu estudo, divulgação e exposição (CAMACHO, 2007).
Está provado que as boas práticas de conservação preventiva conduzem a uma maior longevidade das colecções e a uma melhor gestão de recursos, reduzindo a necessidade de intervenções curativas onerosas e evitando perdas patrimoniais. A Lei-Quadro dos Museus Portugueses (Lei n.º 47/2004, de 19 de Agosto) estabelece a conservação como uma função museológica obrigatória e define, nos artigos 27.º a 31.º, as principais regras que os museus devem seguir para garantir as adequadas condições de conservação aos bens culturais neles incorporados (CAMACHO, 2007).
Para dar início a uma boa estratégia e planeamento de acções, é preciso que se faça uma avaliação de riscos, onde esta é possível fazer-se mediante o conhecimento detalhado de cada situação a que as colecções e reserva se encontram. A posse de dados concretos permite elaborar uma estratégia de conservação preventiva de forma a minimizar os factores de degradação e a eliminar ou a bloquear alguns desses riscos. É importante ressaltar que estas acções e investigações não devem ser estanques, sendo necessária a revisão e manutenção constantes deste plano, conforme alterações e mudanças que surjam ao longo dos anos, como reformas no edifício, alteração de quadro de funcionários, aquisição de novas peças e mobílias do acervo, renovação de vitrinas e outros factores. Porém, é claro que para isto, é preciso haver verba disponível, e a realidade infelizmente é que estes investimentos são mínimos.
RESERVAS
Entende-se geralmente por reserva o local, visitável ou não, onde se conservam os bens culturais incorporados no acervo quando, por vários motivos, não se encontram expostos, podendo e devendo funcionar de forma complementar, como colecções de estudo, disponíveis para, em qualquer altura, poderem figurar numa exposição (CAMACHO, 2007). No caso da reserva do Museu de Arqueologia de Almada, esta é visitável e as peças tem por função servir de material de estudo para pesquisadores e historiadores, além de representarem um vasto conjunto de objectos encontrados na Quinta do Almaraz, e que reflectem a história presente daquele local e as civilizações que ali passaram.
Numa situação idealizada, a todo objecto exposto num espaço museológico ou constituindo parte das suas reservas, deveria ser possível fazer corresponder um vastíssimo conjunto de características, dentre elas: parâmetros externos, características físicas, integridade do volume, estado das superfícies, dados relativos ao fabrico e percurso histórico (ROCHA-TRINDADE, 1993).
Para que uma boa instalação e reserva se mantenham por muito tempo dentro de um museu, é preciso que este elabore um plano de estratégias de manutenção adequadas às estruturas do edifício e espaço em que as colecções se encontram. Para tanto, é preciso que haja o seguimento de regras por parte da equipa que ali trabalha e que se faça a organização e inventariação completa dos objectos. Estas acções levam a uma diminuição de custos e despesas neste sector, além de um mínimo investimento na intervenção da colecção, no caso de estragos de peças ou reformas no edifício para sua adequação (KENNE, 2002).
AGENTES DE DETERIORAÇÃO E SEUS FACTORES DE RISCO
Por agente de deterioração entende-se qualquer factor que provoque alterações indesejáveis no estado de conservação de objectos podendo actuar independentemente ou em conjunto. Actualmente reconhecem-se dez agentes de deterioração, sendo eles: forças físicas directas, acções criminosas, fogo, água, pragas (factores biológicos), contaminantes (poluentes), luz e outras radiações, temperatura incorrecta, humidade relativa incorrecta, além de problemas institucionais (WALLER, 1994; 1995).
Deve ser considerada a frequência com que ocorrem os factores de risco nas diversas situações. Por exemplo, o manuseamento pode ser ocasional, mas a forma inadequada de colocação em reserva ou a sujeição a valores incorrectos ou flutuantes de humidade relativa e temperatura pode ser permanente (CAMACHO, 2007). Adiante será discutido como estas práticas acontecem no Museu de Arqueologia de Almada (MAA), e se são factores de risco ou não. Devem ser considerados os efeitos que os factores de risco podem causar nos bens
culturais, o que depende também da sua materialidade. A queda de um objecto em vidro tem implicações mais graves que a queda de um têxtil.
ESTADO DE CONSERVAÇÃO
Também o estado de conservação é outro dado a ter em conta, como por exemplo: peças que estão quebradas e mal acomodadas em lugares não apropriados podem ficar num estado pior e que por vezes é irreparável. Na reserva do MAA existem centenas de peças e cacos peças que estão aguardando por seu restauro, onde algumas estão acomodadas em caixas de papel cartão, podendo esta acção levar a novos estragos, fora o facto deste material orgânico não ser apropriado, devido emissão de substâncias que podem vir a deteriorar e causar manchas nas peças, além da fragilidade do suporte.
Segundo premissas da UNESCO, os vidros são geralmente resistentes a mudanças atmosféricas normais. Variações rápidas de temperatura e humidade relativa devem ser evitados, pois os vidros podem ser danificados em condições de humidade elevada ou muito baixa. Recomenda-se segundo este documento, um máximo de 60% e mínimo de 45% de Humidade Relativa. Porém, é de entendimento actual que estes valores já foram alterados e que recomenda-se idealmente taxas de 30% a 40%. De uma maneira geral, a temperatura das reservas deve se manter entre 18ºC e 22ºC, dependendo de cada sala e material ali colocado.
Abaixo está uma tabela desenvolvida para melhor perceber quais são os agentes de deterioração e riscos a que a colecção de vidros arqueológicos sofre dentro da reserva do MAA:
Tabela 6.1.1 – Agentes de deterioração encontrados no Museu de Arqueologia de Almada, segundo
classificação do CCI.
Factores de Riscos encontrados na
Reserva Riscos Específicos Tipo Material
A ge n te s d e Det e ri o raç ão Ve ri fi cad o s Forças Físicas Queda de prateleiras e de objectos 2 Peças em vidro de diferentes composições químicas, períodos e características, além de dimensões (tamanhos e formas) Manuseamento Incorrecto 2 Falta de espaço 3
Acções Criminosas Roubo 1
Ataque Biológico Microorganismos 2
Contaminantes Pó e Sujidade 2 Deterioração de identificação peças 3 Negligência Armazenamento Incorrecto 3 Registo Incorrecto 2 Abandono da colecção 1