É possível falar em defesa de pontos de vista no primeiro debate, apesar de algumas falas não demonstrarem o domínio das capacidades das quais falam Dolz e Schneuwly (2004a, p. 52): „sustentação, refutação, e negociação de tomadas de posição‟. Algumas intervenções foram construídas a partir da superposição de ideias muito gerais, algumas até pouco relacionadas ao tema, constatação do que dizem Dolz, Schnewuly e Pietro (2004, p. 222) ao afirmarem que, muitas vezes, as afirmações proferidas em um debate escolar são “sem nuances” e “marcas de responsabilidade”. Os recursos argumentativos mais utilizados foram a exemplificação e a exposição de fatos.
Uma fala que pode comprovar a defesa de pontos de vista é de D3, com indícios de autoria, certo grau de argumentatividade e adequação à discussão proposta:
Moderador: D3 ((nome da debatedora)), proibir manifestações públicas de carinho
(incluindo o beijo) entre pessoas do mesmo sexo é homofobia?... um minuto para sua resposta
D3: bem... eu acho qui isso é uma imoralidade pois em todo lugá tem crianças
passando e vê uma coisa dessa não é uma coisa boa para uma criança em formação do seu caráter até pur que na igreja todos sabem que isso não pode e se a gente vê na rua fica com a cabeça doida, sem saber muito bem o que pensar (...)
A forma assertiva como D1 constrói seus argumentos, demonstrando certo conhecimento sobre as discussões empreendidas na mídia sobre o tema, também comprova a capacidade de argumentar.
Moderador: D um ((nome da debatedora)) ... a discriminação pela orientação sexual
deve ser considerada crime?... um minuto para sua resposta
D1: não... pois as pessoas precisam entendê que da mesma forma que os
homossexuais são vítima de crimes... os heterossexuais também são... não existe essa ideia de que você apanha na rua só porque alguém olha pra sua cara e diz que você é homossexual... se fosse assim não tinha nenhum deles mais vivo pois todos já estaria mortos pois tem muita gente com raiva dos gay (...)
Em contrapartida, ao responder à pergunta 5 (“O dia 28 de junho é tido como o “Dia do Orgulho GLBTT”. Em oposição, um projeto de lei do vereador Carlos Apolinário, do DEM, pastor que compunha a bancada evangélica da Câmara Municipal de São Paulo, queria criar o Dia do Orgulho Heterossexual. A proposta foi vetada pelo prefeito da cidade à época, mas você acha válida essa ideia?), D9 divaga, trazendo questões gerais, pouco adequadas ao contexto que estava sendo levantado na pergunta e sem indícios de defesa de um ponto de vista que se encaixasse na discussão proposta.
D9: Bem... eu acho que esses pulítico de hoje não estão preocupado com o povo, só
com roubar ... sempre que a gente assiste a televisão vê um MONte de denúncia de corrupção e ninguém faz nada pelo povo que é quem deveria ser os beneficiados por esse povo ganhar tanto dinheiro e não deixar nada po povo (...)
O debatedor D12 também não conseguiu desenvolver um raciocínio coerente com a questão colocada. Até começou bem, mas não sustentou seus argumentos nos 30 segundos reservados à réplica da pergunta 6 (Ao se deparar com situações em que um(a) colega da escola é vítima de xingamentos, brincadeiras e até mesmo agressões físicas por pessoas que sabem ou acreditam que sabem que ele(a) é gay, você intervém ou prefere não se meter?).
D12: sim... devemos ajudar todos aqueles que precisa e principalmente quando é uma
covardia como bater num cara que é gay... todos merece respeito e devemos tê consciência de que todos precisam ser respeitado... todos merece ser ajudado, independente se é gay ou não... por que devemos ajudar qualquer um, independente da raça, cor, religião (...)
Em termos de recursos argumentativos, há ocorrências de exemplificação. D5 afirma que há um exagero no discurso das pessoas que são agredidas e dizem que isso se deve à homofobia e cita um exemplo. Interessante perceber que, neste caso, a ideia não é introduzida pelos elementos linguísticos usuais como “por exemplo”. Neste caso, o sentido foi atualizado com a ajuda da expressão “olhe só”.
D5: ... se você fô pará pa pensá direitin... muitos deles GOstam e os menino se
aproveitam só dizendo que eles ((referindo-se aos homossexuais)) são fraco... olhe só... lá na minha outra escola tinha uma bichinha ((risos)) que vivia em cima dos meninos... eles tirava onda... jogava ela no chão... empurrava na parede... mas ela NUM SAÍA de perto... muitas vezes, a pessoa ixagera... diz que foi agredido sem nem sê, só pa chamá atenção (...)
D7 também traz um caso específico para amparar a sua tese de que qualquer pessoa que atenta contra a vida de alguém merece ir para cadeia. Aqui, o elemento introdutório do exemplo é a expressão “que nem”.
D7: o cara que é pego agredido um gay... o cara que é pego agredindo um idoso... o
cara que é pego agredindo uma homossexual... o cara que é pego batendo em um animal... todos eles merece i pa CADEIA... isso é um questão de religião... de temor a DEUS... caRAca ... será que as pessoas não têm mais temor a Deus?Que nem... lá na
minha rua tem uns menino que se junta pa bater nos boy ((garotos homossexuais))... eu sou contra...
A exposição de fatos também é um recurso possível e foi utilizado por D2. O estudante traz um fato corriqueiro, doméstico, como forma de amparar sua argumentação a respeito da questão do preconceito, em resposta à debatedora que defende a ideia de que não existe violência determinada pela orientação sexual.
Moderador: ok, D um ((nome da debatedora)) tempo esgotado... D dois ((nome do
debatedor)), trinta segundos para a réplica
D2: ((risos em tom de desdém)) você num pode tá falado sério... isso é uma educação
que a gente traz de CAsa... só pra você vê... meu pai sempre junta todos os filhos ao redó da mesa e conversa sobre tudo com a gente... todo domingo ele faz isso quase... pa gente nunca desrespeitar o próximo e nem bater... lá em casa é tudo homi (...)
Em resposta a essa colocação, D1, em seu momento de tréplica, recorre à ideia de causa e consequência, num dos poucos momentos em que as falas foram encadeadas através de conectivos de coesão, neste caso, mesmo com a interrupção para comando do moderador. Recorre, ainda, ao argumento que apela para o lugar-comum quando associa a conversa do pais com os filhos à diminuição da violência.
Moderador: tempo esgotado D dois ((nome do debatedor))... D um... trinta segundos
para a tréplica
D1: assim, meu amigo... se todos fosse assim como seu pai... o mundo seria bem
melhor... pois se os adultos converssasse... educasse melhor seus filho... a gent/num tinha essa violência toda que tem pur/ai nesse Brasil (...)