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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Gosto de ser gente porque, inacabado, sei que sou um ser condicionado mas, consciente do inacabamento, sei que posso ir mais além dele. Esta é a diferença profunda entre o ser condicionado e o ser determinado. A diferença entre o inacabado que não se sabe como tal e o inacabado que histórica e socialmente alcançou a possibilidade de saber-se inacabado.

Paulo Freire.

É essa condição de, histórica e socialmente, nos sabermos inacabados, porém com perspectivas de irmos sempre mais além, que nos permite afirmar que, embora chegando as chamadas considerações finais desse trabalho - onde descrevemos e refletimos sobre uma experiência vivenciada durante dois anos, não nos sentimos concluindo ou finalizando nada em definitivo, apenas encerrando um pequeno trecho de uma longa trajetória, como uma espécie de pausa, de balanço, em busca da sistematização de elementos que nos possibilitem novas vivências e experiências na área da relação família e I.E.I, que continuamos a considerar como sendo um dos grandes desafios das instituições educativas no século XXI.

Essa compreensão acerca do nosso inacabamento, mas também das nossas possibilidades de superação de nós mesmos, é que nos impulsiona à retomarmos o nosso objetivo nesse trabalho: descrever e refletir sobre a

construção/sistematização de uma relação entre família e I.E.I, em prol do compartilhamento das ações de cuidado e educação, no contexto de criação de um Centro Municipal de Educação Infantil, e perceber que, ao

lado das grandes possibilidades e realizações já apontadas no decorrer desse trabalho, com base na experiência vivenciada, também existem lacunas, percalços e desafios sobre as quais não podemos deixar de nos referir, para que possamos estar alimentado essa capacidade de superação, buscando que ela se transforme em desejo para a busca de novas experiências, que, embora igualmente inacabadas, avançarão sempre, umas a partir das outras.

Partindo das percepções apresentadas acima, vamos agora, refletir sobre essas lacunas, percalços e desafios, iniciando pela questão sobre a qual mais refletimos ultimamente, que é a percepção de que deveríamos ter reunido mais as famílias, para que elas próprias escolhessem e opinassem, por exemplo, sobre os temas das palestras, das oficinas e, por que não, até mesmo de alguns projetos didáticos a serem trabalhados com as crianças.

Na realidade o que conseguimos perceber hoje, é que, apesar das reuniões, das discussões e das afirmações das famílias entrevistadas de que gostaram das atividades realizadas; as temáticas trabalhadas não partiram de uma necessidade expressa por elas, mas das necessidades que nós, enquanto Instituição, entendíamos que as famílias apresentavam.

Essa é uma das grandes indagações que nos fazemos agora: será que a sistematização desse compartilhamento com as famílias das tarefas de cuidado e educação das crianças, não teria sido mais efetivo se nós tivéssemos ouvido mais as mesmas, procurando sondar as demandas que elas traziam, ao invés de apenas pensar as temáticas e as ações partindo das percepções da equipe da escola?

Ou será que o caminho trilhado foi o caminho possível no início de um processo como esse, considerando, principalmente, a falta de tempo dos pais, bem como, em alguns aspectos, o desconhecimento de alguns pontos específicos e relevantes para o cuidado e educação das crianças, a escassez de tempo que os profissionais da educação, e o próprio calendário escolar, apresentam para esse tipo de atividade?

Com certeza, essa é uma indagação que não será respondida nesse momento, porém, o acompanhamento, mesmo que de longe, das ações realizadas pela Instituição no ano de 2006, quando já nos achávamos afastadas oficialmente da mesma para a escrita desse trabalho, aponta para o fato de que a busca, o investimento por parte da instituição nessa sistematização da relação família e I.E.I. continua a ser realizado, e que a participação das famílias é uma realidade muito presente e crescente na mesma, o que nos dá, pelo menos, a tranqüilidade de que as ações iniciais realizadas frutificaram na Instituição, e foram abraçadas realmente pela equipe, considerando que, mesmo com o meu afastamento, o trabalho teve

continuidade e inovações que demonstram o crescimento e fortalecimento do mesmo.

Conforme já tínhamos colocado desde a apresentação deste trabalho, reservamos este espaço das chamadas considerações finais, para fazermos, também, algumas reflexões sobre os percalços, as dificuldades, os desafios que surgiram na construção desses novos caminhos . É isto que nos propomos a fazer agora!

Agora chegou o momento de evidenciarmos um pouco os medos, as angústias, as dificuldades e as dúvidas, que também fizeram parte da experiência e foram, igualmente importantes, para as possibilidades de crescimento apresentadas que se descortinaram.

Além das questões das dificuldades do espaço físico e das ausências de professoras apresentadas pelas famílias na última entrevista, e descritas e analisadas por nós no final do capítulo 5, vamos relembrar outras questões e aspectos que também dificultaram o trabalho.

O primeiro que registramos, diz respeito a exigüidade do tempo que temos para planejar e estudar, frutos, principalmente, das duras jornadas de trabalho as quais a grande maioria das nossas professoras precisam se submeter para poderem enfrentar a árdua luta pela sobrevivência. É uma questão de ordem política, econômica, social e cultural, que acaba produzindo uma conseqüência pedagógica meio desastrosa, na medida em que influencia diretamente os processos de ensino e aprendizagem, comprometendo amplamente os mesmos.

No caso específico da Instituição, campo da experiência aqui descrita e analisada, apesar de termos o estudo mensal aos sábados e o planejamento também mensal em uma sexta feira onde as crianças eram dispensadas, conforme já explicitado no início do capítulo 5, percebemos que as duas situações, além de não serem suficientes, são extremamente inadequadas, na medida em que a primeira sacrifica mais diretamente as professoras, retirando- as do convívio familiar e das obrigações domésticas em um dia – o sábado, que poderia ser dedicado a estas situações, já que de segunda a sexta feira elas estão nas Escolas.

E a segunda acaba sendo até ilegal, na medida em que priva os alunos de um dia de aula, diminuindo assim os 200 dias letivos que são um direito dos alunos.

Em relação a estas duas questões, que foram, como já apontamos, desafios enfrentados, acreditamos que a partir do ano de 2006, com a implantação do plano de cargos, carreira e salários, que diminuiu a jornada semanal para 20 horas, sendo 16 horas em sala de aula e 4 horas, semanalmente, para planejamento, houve uma melhora dessa questão, pelo menos no que se refere a não diminuir os dias letivos e oferecer um tempo para planejamento das aulas; já que enquanto o professor titular da sala planeja com a coordenação um dia por semana, as crianças ficam com os professores de artes e educação física. É importante dizer que os professores dessas duas áreas do conhecimento, também fazem o seu planejamento em conjunto com a coordenação da Instituição em dias e horários também já previamente organizados.

Porém, uma outra questão igualmente importante e determinante para o sucesso dos processos de ensino e aprendizagem, continua sem período definido oficialmente para acontecer, que são as reuniões de estudo em grupo, bem como as reuniões com toda a equipe da Instituição para as decisões coletivas, em torno de projetos, passeios, feiras de ciências, exposições e operacionalização das propostas de interdisciplinaridade, que compreendemos relevantes de acontecerem regularmente nas instituições educativas.

Acreditamos que esta questão continua a ser um desafio, embora o grupo de estudos que se reúne mensalmente aos sábados, continue a se reunir normalmente, realizando estudos e discussões, em busca do aperfeiçoamento do trabalho da instituição.

Outra situação vivenciada na Instituição, e que se constituiu para nós em um grande desafio, foram ás mudanças de professoras ocorridas durante o biênio 2004/2005, o que, de certa forma, dificultou tanto o processo de formação continuada das mesmas, quanto o próprio andamento das turmas.

Os motivos que ocasionaram essas mudanças foram os mais variados possíveis, indo desde pedidos de demissão – por questões pessoais; passando por doenças sérias, com afastamentos prolongados; até necessidades de