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Para os ribeirinhos, a fé nos procedimentos terapêuticos e nos agentes de cura que os prescrevem e/ou realizam é condição da eficácia do tratamento. Algumas expressões generalizadas e recorrentes confirmam essa idéia: “o que cura é a fé”; “se tiver fé, rapidinho que cura”; “a fé que curou ela [a pessoa]; “o que vale é a fé de quem se trata”; “com fé no remédio, a ferida sara”. Ao dizerem, recorrentemente, que “o que vale é a fé”, estão indicando que a crença é mais poderosa para a cura que as propriedades terapêuticas dos princípios ativos dos “ingredientes de remédio” (de “farmácia”, do “mato” ou da “terra”) ou os conhecimentos do médico ou do curador, os quais, por si só, não são garantia de eficácia. Em comum, observa-se a crença de que a cura se dá pela fé, tanto de quem reza quanto de quem está sendo rezado; de quem “puxa” e de quem está sendo “puxado” — nesse caso, deve-se ter “fé na mão do puxador”.

Há unanimidade quanto ao poder da “descoberta da doença” através da oração. Como dizem, “tudo reza antes pra saber que doença é”. Outra expressão comum é a de que “através da oração [se] conhece a doença”, pois aquela é “uma coisa muito profunda”. Isto é, aquele que reza precisar ter fé na própria oração, bem como conhecimento sobre as diferentes “qualidades de doenças”. Sobre o lugar da oração no diagnóstico e no tratamento da doença, Chagas me forneceu a seguinte explicação: “Vai rezar a pessoa com aquela fé e descobre o tipo de doença. É um tipo de estudo que a gente faz. Tem que lutar com a memória pra saber o que recebe na oração que vai fazer. Lá, vai saber [também] qual é o remédio que serve pra aquela doença”.

A oração também identifica se o caso “pertence” ao curador ou ao médico. Antes de iniciar a consulta, o curador ou benzedor “faz” a oração para descobrir se a doença lhe pertence ou não. Se lhe pertence, será também através da oração que ele saberá qual o remédio a ser prescrito, “ensinado”. Quando o curador é sacaca, além da oração, também os “bichos”, que se “invocam” nele enquanto está “no trabalho cuidando de uma pessoa”, descobrem qual doença está se “apoderando” dela, especialmente se quem o procurou tiver sido atacado de “mau-olhado de bicho”. Nesse caso, seja doença de médico, seja de “cigarro”, “são os espíritos que dizem”, através da reza. Laurelino, pela oração, “invocava o espírito e o espírito decidia” qual era a doença que afetava a pessoa.

Quando o rezador descobre, “na oração”, que a doença que atacou a pessoa exige poderes ou conhecimentos maiores que os seus, ele a orienta, ou aos seus familiares, para

procurar outro especialista, muitas vezes em outra localidade3. Dona Maria das Neves me explicou sua atitude, nesses casos, através de um exemplo: um dia, ela foi procurada em sua casa por uma mãe, cuja filha, que trazia com ela, estava sentindo dores. Na oração, dona Maria “viu” que a menina estava “assombrada”. Mandou, então, a mulher procurar outro rezador, dizendo: “Não é pra mim”. E concluiu: “Quando não dá pra mim, eu mando pra outro rezador”.

A oração (reza) proferida é um ato terapêutico que, além de possuir poder de cura, define a escolha, fortalece e acompanha outros procedimentos terapêuticos: reza-se para facilitar o parto e para curar diferentes doenças como a “desmintidura”, o “quebranto”, a “esipla”, a “palpitação”, etc. Dona Gracinha detalhou sua explicação: “Vai rezando, vai puxando até chegar na desmintidura; porque tem oração pra curar desmintidura”. Uma dessas orações me foi “ensinada” por ela: “Nossa Senhora do Conserto, conserta esse osso deslocado, esse nervo torcido, carne rasgada”. O puxador repete a oração enquanto massageia o lugar dolorido, durante a “puxação”: “Vai puxando e vai rezando até agasalhar a articulação no lugar”. Conclui e “fecha o tratamento em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Quando o tratamento não resulta em alívio na primeira vez, repete-se a ação, “porque tem desmintidura que tem que puxar duas vezes, que é pro osso chegar no lugar”.

Dona Felismina me explicou que há oração e benzimento para a parturiente ter um bom parto, para dar-lhe força e coragem. Reza-se para desenrolar a criança “quando está com o umbigo no pescoço” e tem uma “reza própria [diferente das outras] pra ajeitar a criança” quando não está na posição correta, com a “cabeça pro nascedor”. Segundo ela, “ajudado pela reza, é rápido pra virar a criança”.

Reza-se, também, para “fortalecer” ou “magnetizar os remédios do mato”, da “terra” ou da “farmácia”, de modo a aumentar sua eficácia terapêutica: “Reza em cima e dá pra pessoa”. Nesse sentido, tendo fé, as palavras ou expressões proferidas possuem poder capaz de ampliar as propriedades terapêuticas dos “remédios”. Pode-se concluir que os ribeirinhos acreditam que a oração é capaz de imprimir mudanças na ordem natural a partir de uma interferência de caráter espiritual.

Cada curador, benzedor, parteira ou puxador tem sua própria oração, aprendida daquele que lhe transmitiu os saberes terapêuticos ou revelada pelos “espíritos”. Como disse uma benzedeira: “cada um tem um jeito de fazer a oração”. Ao longo da vida, com base na

3 Observei esse procedimento em 1994, quando o maquinista do barco no qual eu viajava foi “atraído” pelo

Boto, no rio Arapiuns (WAWZYNIAK, 2003). Em seu itinerário terapêutico, ele procurou especialistas de cura em Santarém.

“experiência do trabalho” e na fé, cada especialista de cura reelabora sua oração segundo uma releitura individual. De acordo com Lino, essas variações ocorrem porque “a pressão mesmo vai criando”; as orações mudam ao longo da vida do especialista “dependendo da fé que [o curador] vai fazendo com Deus”. A idéia de oração aqui exposta revela algo já analisado por Mauss (1979) em seu estudo sobre a prece. Segundo ele, na prece estão contidos ação e pensamento, e há uma individualização à medida que cada crente cria sua fórmula de solicitações a uma entidade divina, sem, contudo, deixar de ser social por estar relacionada a outros fenômenos coletivos.

Dona Gracinha também me “ensinou” a sua oração para quebrante e “mau-olhado”. Na verdade, conforme salientou, é uma oração “pra benzer qualquer doença”:

Jesus, que andava no mundo benzendo os cegos, os aleijados, os cochos, os leproso, assim eu benzo a cabeça, o corpo, qualquer doença que tiver no corpo da criatura. Vou benzendo. Que não sou eu que benzo; quem benze é Jesus e Nossa Senhora, me acompanha. Com Deus Pai, com Deus Filho, com Deus Espírito Santo eu benzo em cima da cabeça dessa criatura.

Entre os comunitários, recorre-se à oração independentemente da confissão religiosa ou da especialidade terapêutica. Exemplo disso é um acontecimento relatado pela mulher de Elias Serrão, dona Raimunda, congregada da Igreja da Paz que, em anos anteriores, fez um curso de capacitação de auxiliar de saúde para atuar no serviço social da Igreja. Por essa razão ela também é muito procurada por algumas pessoas, em caso de ferimentos. Sobre o poder de cura da oração, ela contou que um dia foi procurada por um pai, que trazia um menino com o “testículo perfurado”. Ao ver o ferimento, verificou que exigia maiores cuidados e ela não dispunha, naquele momento, dos “recursos necessários”, tinha apenas alguns comprimidos de dipirona. Para não deixar o pai “desamparado”, perguntou-lhe se poderia orar pela cura do ferimento e pela recuperação do menino. Com a sua permissão, ela invocou o Espírito Santo e orou. Finalizou sua oração dizendo: “o Senhor já fez sua obra”. Pai e filho foram embora e, depois de três dias, retornaram para mostrar que o ferimento tinha sarado.

Quando os procedimentos terapêuticos adotados em nível local não “amenizam a dor”, é preciso deslocar-se para outras comunidades ou para a cidade, à procura de “recursos”.