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está ligado a linhas de pensamento distintas. Existem duas perspectivas principais que guardam em comum o entendimento de relações sociais como vantagens e que divergem no nível em que se constroem tais vantagens – individual ou coletivo. Como exemplo da primeira abordagem, o capital social é tomado como bem privado, pertencente aos indivíduos, a exemplo de redes de conhecidos profissionais. Já quando entendido como bem coletivo, refere-se às externalidades que as redes podem criar (BORGATTI e JONES, 1998; MARTELETO e OLIVEIRA E SILVA, 2004).

A segunda linha de argumentação, que tem seu ícone em Putnam (2006), oferece maiores subsídios para refletir sobre questões referentes às relações sociais e o desenvolvimento sustentável. Nessa visão, o capital social é visto como uma resposta ao dilema neoclássico da ação coletiva (ABRAMOVAY, 2000). O capital social é entendido como o resultado de conexões entre indivíduos que, por sua vez, refletem na coordenação humana e, consequentemente, nos diferentes desempenhos socioeconômicos dos locais (PRETTY, 2003; PUTNAM, 2006).

Os estudos de Putnam (2006) que popularizaram a nomenclatura capital social dizem respeito à coesão social, ao desenvolvimento regional e à sociedade cívica na Itália, valorizando perspectivas culturais, socioestruturais e de integração social. Entende-se, por essa teoria, que na medida em que o capital social diminui os custos de transação e as incertezas a cooperação fica facilitada. Em outras palavras, as relações de confiança fortalecem a cooperação e a redução dos custos de transação por causa das economias resultantes da falta de necessidade de monitoramento dos demais.

A cooperação institui “um seguro entre os parceiros” (BIRNBAUM, 1995, p. 263), indispensável para a criação de laços sólidos de confiança e a formação de uma verdadeira comunidade em que os participantes aderem a valores comuns ou a instituições. Sobretudo, a melhor solução para os envolvidos só pode ser alcançada “através da cooperação, da comunicação, de informação, de encontros permanentes” (BIRNBAUM, 1995, p. 263).

Dialogando com outras abordagens teóricas, as pressuposições que cercam a teorização do capital social levam a crer que a cooperação fica facilitada na medida em que os grupos são homogêneos, o que mostra a tendência a cooperar com os semelhantes, como já apontava Axelrod (1990), e quando a cultura política estimula a cooperação entre os indivíduos, o que está ligado às tradições históricas – o que pode nos remeter a North (1990). Fica claro que dentro da abordagem do capital social destacam-se quatro aspectos: (1) relações de confiança; (2) reciprocidade nas trocas; (3) regras comuns; (4) sanções/punições aos desvios.

Segundo Putnam (2006), a confiança lubrifica a vida social, na medida em que é o contexto para quaisquer transações, incluindo as econômicas, o que reduz as possibilidades de oportunismo e corrupção. A cooperação, normalmente, pede certo nível de confiança mútua para que alcance o resultado esperado, que tende a variar de acordo com o risco assumido e com o interesse dos participantes na ação (GAMBETTA, 2000).

Quando o capital social é alto em certos grupos, as pessoas têm segurança para investir coletivamente, pois sabem que as demais vão fazê-lo. Isso evita as limitações da ação coletiva quando se sabe da existência do carona, retomando contribuições de Olson. Em outras palavras, “confiar em alguém significa que mesmo que a pessoa tenha chances, não está propensa a agir de modo que cause danos a nós” (GAMBETTA, 2000, p. 216). Assim, as responsabilidades e obrigações mútuas geram um ambiente em que são reduzidos os custos de transação que dizem respeito à coerção, podendo aumentar a eficiência, coincidindo com a teorização de North (1990).

Confiança, por sua vez, é estudada por Locke (2001) segundo dois vieses:

• sociológico, na linha de Putnam (1996), em que é vista como construção histórica determinante para a cooperação e o desenvolvimento;

• econômico, principalmente baseado em Axelrod (1990), em que a confiança é tida como expressão do interesse individual, ou seja, uma resposta racional, em vez de cultural, dos atores ao ambiente em que vivem.

Locke (2001) entende que ambos os autores crivam uma linha de raciocínio muito estática e pessimista e faz a opção por uma abordagem entendida por ele como mais otimista. Em seus estudos empíricos com pequenos produtores na Itália e no Brasil, o autor conclui que confiança/cooperação pode ser criada mesmo em ambientes em que parece não existir previamente. Considerando a história do local, o baixo estoque de capital social e

falta de pré-requisitos, a cooperação surge porque os produtores constatam que a falta dela e de confiança prejudicaria a competitividade de todos, e talvez inviabilizasse a indústria local, fazendo com que eles se reúnam por causa de interesses próprios (LOCKE, 2001). A partir das experiências narradas, três elementos são chaves para a construção da confiança e da cooperação: interesse próprio dos atores, em um primeiro momento; política governamental que encoraje manutenção das associações, em um segundo momento e, por fim, autogovernança que aja na perpetuação das relações e ações conjuntas (LOCKE, 2001).

“Cooperação e confiança, porém, não são sinônimos” (MACIEL, 2001 p. 287), ponto em que Locke (2001) pode ser criticado. A posição do autor é questionável a partir do resgate de situações em que existe cooperação mesmo que não haja confiança. O exemplo clássico seria a estratégia tit-for-tat, em que a regra é a reciprocidade, e não a confiança, para que se estabeleça a cooperação. Assim, pode ser considerada errônea tal superposição de conceitos.

Quando inserida a problemática da sustentabilidade como um padrão do desenvolvimento a ser promovido, o capital social é frequentemente referido como uma força motriz para obtenção de melhores indicadores tais como: incrementos econômicos, de saúde e educação, redução de taxas de criminalidade32 e gestão coletiva mais eficiente dos

recursos naturais compartilhados (OSTROM, 1990). Há estudos que trazem evidências de que alto capital social está atrelado a melhorias econômicas e de bem-estar, visto que os grupos com maior conectividade tendem a ter rendas mais altas, melhores níveis de saúde e educação, além de mais ligações construtivas com o governo (PRETTY, 2003; MARTELETO, 2004). Gillinson (2004) coleciona exemplos que levam a crer que o capital social, em função da sua regra de reciprocidade, pode levar a impactos positivos de redução da pobreza e maximização da equidade, o que mostra ligações com dimensões socioeconômicas cruciais da sustentabilidade.

Quanto à dimensão ambiental, Ostrom (1990) leva a pensar na promoção da sustentabilidade ao afirmar que a intensidade de interações proporciona laços mais densos entre as pessoas. Assim, é possível aprender em quem confiar, como se organizar, desenvolver normas conjuntas e padrões de reciprocidade e possuir capital social para construir arranjos institucionais que resolvam os dilemas do uso dos bens comuns por meio do manejo comunitário. Entretanto, existem alguns efeitos danosos – inclusive do ponto de vista da sustentabilidade – em situações em que são encontrados altos índices de capital

32 Social Capital FAQ – The Saguaro Seminar for Civic Engagement in America: grupo formado por Putnam e

colaboradores na Universidade de Harvard. Disponível em http://www.hks.harvard.edu/saguaro/primer.htm. Acesso em 28 mar. 2008.

social, como o encorajamento do etnocentrismo, a exclusão dos diferentes ao grupo (GILLINSON, 2004), a perpetuação de relações de exploração e desigualdade (PRETTY, 2003).

A suposição que embasa as inferências de resultados positivos para o desenvolvimento local é de que o “capital social captura a ideia de que vínculos sociais e normas são críticos para a sustentabilidade” (PRETTY, 2003, p. 1912). A noção de capital social recebe, no entanto, a crítica por seu uso indiscriminado (MARTELETO, 2004) e que, por vezes, soa como a “utopia perdida de toda sociedade” e a saída para todas as lacunas de desenvolvimento (GILLINSON, 2004, p. 27). Da literatura do capital social é também criticável a pressuposição do antagonismo entre cooperação e conflito. Como ilustração, tem-se a passagem em que Pretty (2003) afirma: “em uma sociedade [...] cheia de quebras e conflitos, arranjos cooperativos são menos propensos a emergir”.