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A primeira problemática na abordagem a Duarte Barbosa reside, desde logo, na

existência de três homónimos contemporâneos, o que tem dificultado a estabilização de

uma biografia para este autor.

Alguns estudiosos, como Diogo Barbosa Machado

51

, Augusto Reis Machado,

responsável pela introdução e notas da edição da Agência Geral das Colónias de 1946, e

Joaquim Veríssimo Serrão, provavelmente partindo da Introdução à primeira edição

portuguesa do Livro de Duarte Barbosa

52

, veicularam a tese de que o seu autor fosse

muito provavelmente parente de Fernão de Magalhães, além de um viajante experiente

que teria visitado terras asiáticas atraído pela vida, comércio, usos e costumes das

populações. Teria regressado do Oriente em 1515, terminando a redacção da sua obra

no ano seguinte e tomando parte na viagem de circum-navegação em 1519, durante a

qual teria sido morto pelos indígenas do Pacífico em 1521.

Esta tese inicial terá partido da leitura enviesada dos cronistas João de Barros,

Fernão Lopes de Castanheda e Jerónimo Osório, entre outros. Todavia, já Mansel L.

Dames, que, a partir da primeira edição portuguesa, traduziu e anotou a obra de Duarte

Barbosa para o inglês, em 1865, avança com uma outra alternativa, embora a considere

pouco provável: é que o Duarte Barbosa, cunhado de Magalhães e seu companheiro na

expedição, não seja o autor do Livro, mas uma pessoa completamente diferente

53

.

Com efeito, desde 1898 que o erudito Sousa Viterbo admitiu a existência de três

Duarte Barbosa na Índia, mais ou menos contemporâneos e exercendo ofícios

semelhantes: o parente de Fernão de Magalhães, o escrivão de Cananor e um piloto.

Baseou-se para tal em documentos que transcreve:

50 Idem, p. 93.

51 Autor da primeira referência bibliográfica a Duarte Barbosa. Cf. Diogo Barbosa Machado, Bibliotheca Lusitana, vol. I, Coimbra, Atlântida Editora, 1965, pp. 727-728.

52 Segundo Luís de Albuquerque, a primeira edição foi publicada por iniciativa da Academia das Ciências

de Lisboa, na colecção Notícias para a História e Geografia das Nações Ultramarinas (tomo II, n.º VII, Lisboa, 1813), Cf. Duarte Barbosa, Livro do Que Viu e Ouviu no Oriente, edição de Luís de Albuquerque, Lisboa, Publicações Alfa, 1989, p. 169.

53 Mansel L. Dames (ed.), Introduction, in The Book of Duarte Barbosa, vol. I, London, The Hakluyt

«Em presença de todos estes elementos históricos, somos levados a crer que no primeiro quartel do século XVI houve, pelo menos, três indivíduos com o mesmo nome de Duarte Barbosa, todos os três exercendo a sua actividade na Índia e quase por igual forma. A biografia do parente de Magalhães (…) precisa, portanto, em nosso humilde entender, de ser remodelada, sendo submetida a uma nova e profunda análise que decida, em sentença final, se foi ele efectivamente o autor da obra que se divulgou em seu nome, ou se antes se deva atribuir ao escrivão de Cananor, que tanto se prezava de saber a língua e de conhecer as coisas da terra.»54

Em 1963, o estudioso G. Schurhammer ocupou-se do problema dos três

homónimos e, apoiando-se nos historiadores João de Barros e Gaspar Correia, bem

como em documentos das chancelarias reais

55

, concluiu que Duarte Barbosa, o autor do

Livro do que viu e ouviu no Oriente, foi o escrivão da feitoria de Cananor que Gaspar

Correia conheceu directamente na Índia:

«(…) não escreuerei nada das terras, gente, e trato porque houve alguns que n’isso se ocuparão, do que vi alguns volumes e mormente um liuro que d’isso fez Duarte Barboza, escrivão da feitoria de Cananor (…)»56

Sendo sobrinho de Gonçalo Gil Barbosa, foi com este que Duarte Barbosa

embarcou pela primeira vez para a Índia na armada de Pedro Álvares Cabral. Em

Cananor desempenhou o cargo de escrivão da feitoria e opôs-se à política imperialista

de Afonso de Albuquerque, o que lhe terá custado algumas represálias, nomeadamente,

o ter sido relegado para o lugar de segundo escrivão, de menor categoria e salário, facto

de que se queixa numa carta enviada a D. Manuel a 12 de Janeiro de 1513

57

.

Posteriormente foi mesmo transferido, compulsivamente, para a feitoria de Calecute

58

,

onde conheceu Gaspar Correia quando partilharam uma escrivaninha na feitoria

59

. Terá

vindo a Portugal em 1516, «já que o seu nome volta a aparecer numa ementa da

Carreira da Índia, fazendo parte da tripulação de um navio da armada de João da

Silveira que zarpou de Lisboa em Abril de 1517»

60

. Ter-se-á encontrado com a armada

do governador Lopo Soares, que vinha da expedição ao Mar Vermelho, e poderá ter

54 Cit. por Luís de Albuquerque in Duarte Barbosa, op.cit., edição de Luís de Albuquerque, pp. 173-174. 55 «Referimo-nos: à carta de Tristão de Ataíde para o conde do Vimioso (D. Francisco de Portugal), vedor

da Fazenda de D. João III, pedindo um alvará para Duarte Barbosa; à carta de Manuel de Vasconcelos para D. João de Castro, datada de Cananor, de 9 de Abril de 1546, informando ter dado ordem ao feitor para ir morar em casa de Duarte Barbosa; à carta do guazil de Cananor para D. João de Castro, de 22 de Maio de 1547, em que este pede que lhe seja remetido, depois de confirmado, o alvará concedido a um filho de Duarte Barbosa.» in Maria Augusta da Veiga e Sousa, Introdução, in Duarte Barbosa, O Livro

de..., op. cit., vol. 1, pp. 16-17.

56 Gaspar Correia, op. cit., vol. I, p. 2.

57 Cf. Afonso de Albuquerque, op. cit., vol. III, pp. 48-50. 58 Idem, vol. VII, p. 105.

59 Gaspar Correia, op. cit., vol. I, p. 357.

participado ou assistido ao ataque a Zeilã, regressando depois à feitoria de Cananor em

1518. No ano seguinte encontrou-se com um escrivão de nome João Serrão (pessoa

diferente do informador de Fernão de Magalhães que se chamava João Rodrigues

Serrão). Em 1529, ainda mantinha o seu cargo de escrivão e serviu de intérprete nas

negociações para a paz com o Samorim. A morte deste Duarte Barbosa aparece situada

entre Setembro de 1546 e Maio de 1547

61

.

Para além do Livro, ficaram-nos duas cartas em seu nome: uma de 12 de Janeiro

de 1513 para D. Manuel e outra de 15 de Janeiro de 1529 para D. João III.