Em geral, todos os pareceres são favoráveis à aprovação do embaixador indicado durante o período analisado, exaltando o currículo e a experiência do indicado. Os relatores geralmente declaram abertamente seus elogios aos indicados, à sua experiência profissional e ao Ministério das Relações Exteriores ou ao Instituto Rio Branco por formarem quadros de excelência pessoal e profissional para atuarem na diplomacia brasileira, em que foram sempre acompanhados pelos seus pares, independentemente da filiação partidária do senador. Não é raro que os senadores, em meio aos elogios, declarem abertamente o seu voto favorável. O respeito dos senadores ao serviço de diplomacia do Brasil é tão grande que eles declaram a sua total preferência pela indicação de embaixadores provenientes dos quadros da carreira diplomática, em oposição a indicações meramente políticas, como afirma o Senador Cristovam Buarque:
Sr. Presidente, Srs. Senadores. Eu quero colocar, em primeiro lugar, a satisfação de ver o Presidente Lula e o Ministro Celso Amorim com essa concepção de priorizar para Embaixador e Embaixadora, servidores do Ministério das Relações Exteriores. O Brasil, hoje, vive um período em que não há um único Embaixador que não seja de carreira, até para descontentamento, talvez, de muitos de nós Senadores (risos). Mas, independente do direito do descontentamento de alguns Senadores, o importante é que isso é para o bem do Brasil e isso facilita muito o nosso trabalho. Quando o Presidente Lula, se ele decidir mandar alguém para cá alguém que não seja de carreira, obviamente vamos respeitar, mas a sabatina vai ser muito demorada. Com os nossos Embaixadores vindos do Ministério das Relações Exteriores o trabalho simplifica muito. (Sessão da CRE de 10/04/2008).
No pronunciamento acima, o senador demonstra a preferência por embaixadores formados pelo Instituto Rio Branco e prevê um processo mais difícil para quem não seja da carreira diplomática. Os senadores expressam a sua contrariedade à indicação política, não poupando elegias ao Itamaraty, ao preparo profissional dos diplomatas, à sua experiência, ao concurso duríssimo, como afirma o senador Geraldo Mesquita Júnior (PMDB-AC):
Eu quero dizer com isso o seguinte, eu já propus aqui que o Senador Buarque fosse Ministro da Fazenda, inclusive, do nosso país, para que a educação ascendesse ao seu status importante e que tem que ter. Agora, para Embaixador, não votaria nele por uma razão muito simples, eu acho que a gente deve valorizar é aqueles que se submeteram a um concurso duríssimo no Instituto Rio Branco, fazem uma carreira, vocês. Entende? [...] não se deve quebrar essa regra. (Sessão da CRE de 20/09/2007)
O pronunciamento acima enfatiza que a regra deve ser a indicação de diplomatas para o cargo de embaixador. A principal razão para o estabelecimento dessa “regra” é a experiência e o profissionalismo weberiano da burocracia diplomática44, e a violação desta regra tácita pode resultar em derrota para o indicado do Presidente da República que seja meramente político. Na verdade, as indicações meramente políticas tendem a politizar o processo de sabatina. O Senador Mão Santa (PMDB-PI) declara que indicações que não sejam de diplomatas de carreira serão passíveis de obstrução:
esse colegiado aqui tão bem presidido pelo Senador Heráclito Fortes ele, por convicção, tem as melhores intenções e aplauso a todos aqueles que fazem carreira no Itamaraty. Surge algum obstáculo quando ele é estranho. Então esse é o momento de grandeza que nós tivemos ontem no Senado começou aqui. Nós começamos a obstruir quando o Governo tentava botar nas embaixadas, companheiros, e não... é aquela sabedoria que nós viemos do povo e aprendemos: cada macaco no seu galho. (Sessão da CRE de 13/12/2007).
Em 2003, três indicações políticas do Presidente da República foram bem recebidas pela casa, pois se tratava de um ex-Presidente da República, Itamar Franco, de um ex-deputado federal, Tilden Santiago, e de um ex-Presidente da Câmara dos Deputados, Paes de Andrade. Eles tiveram as suas indicações para as embaixadas para a Itália, Cuba e Portugal, respectivamente, aprovadas, contudo a votação não foi unânime. A escolha de um ex-Presidente da República foi bem recebida pela mídia e chegou a causar um certo alvoroço na sessão da CRE, muito concorrida pelos senadores e pelos meios de comunicação. Itamar Franco tinha experiência diplomática: fora embaixador do Brasil em Portugal e na Organização dos Estados Americanos (OEA) durante o governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso. Entretanto, a indicação de Tilden
44 Pronunciamento do Senador Arthur Virgílio (PSDB-AM) em 09/12/2003: “O Itamaraty, de fato, tem
essa burocracia muito preparada e muito competente. E eu, que sou parlamentarista, tenho a impressão de que se existe um setor no País preparado para o parlamentarismo, é precisamente o Itamaraty, entre outros. Mas o Itamaraty, seguramente, oferece um dos pressupostos do parlamentarismo, que é uma burocracia consistente, preparada e capaz.”
Santiago (PT-MG), ex-deputado federal e candidato a senador derrotado, ainda que aprovada na CRE, não foi bem recebida pela mídia, a qual teceu muitas críticas ao caráter ideológico da escolha, por ser companheiro sindicalista do Presidente Lula, e da falta de traquejo diplomático do indicado45. Os três foram substituídos por diplomatas de carreira antes do fim do primeiro mandato do Presidente Lula.
A atuação de um embaixador, segundo o discurso político da CRE, deve ser a de um servidor público, desvinculado de partidarismo político, de forma a ser pragmático e não afetar as relações diplomáticas com questões ideológicas. O critério principal de aprovação de um indicado a embaixador é a sua experiência diplomática, exposta em seu currículo de serviço público, como afirma o Senador Romeu Tuma (PFL-SP):
Eu sempre aqui luto e acho importante que Diplomata de carreira não tem indicação política. Sou contra. Pouco me importa a qualidade que enseja, mas a experiência nos indica, e ela está descrita aqui no currículo de V.Sª. De forma que todos os requisitos exigidos trazem, sem dúvida nenhuma, as condições para que os Senadores decidam já para votar. (Sessão da CRE de 13/12/2007).
Durante o Governo Lula, com exceção dos três casos citados acima, as indicações de embaixadores pelo Presidente da República foram de integrantes da carreira diplomática. Desta forma, podemos concluir que uma alta taxa de aprovação dos embaixadores sabatinados pela CRE se deve, em grande parte, ao fato de a quase totalidade das indicações apreciadas pela comissão terem sido de diplomatas de carreira, cuja sabatina não demonstrou politização em relação aos indicados, uma vez que o discurso político dos senadores da CRE deixa claro que é esta a preferência dos senadores.
5.4.2. Consenso a favor da sabatina de embaixadores em sessão aberta.