A praça em sua configuração atual conserva do primeiro projeto proposto e (parcialmente) implementado durante o regime militar sob as gestões estaduais de Faria Lima e Paulo Maluf, entre os anos 1960 e 1970, apenas o perímetro: Os elementos que compõem a sua arquitetura são completamente novos. Se, nos anos 1970, a construção da praça-edifício se propunha como “alternativa mais humanizadora” em um contexto de implementação de um ideal de planejamento urbano desenvolvimentista e rodoviarista, a atual praça-boulevard nos indica que existe uma preocupação maior com relação a uma gestão securitária dos usos da praça por parte das pessoas que nela circulam e dela se apropriam.
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É importante mencionar que, conforme expõe Yamashita (2013), a proposta pelo reaproveitamento da estrutura do pentágono por parte da Associação Viva o Centro ainda se articulava à defesa de uma grande intervenção requalificadora no local, ainda orientada pelos motes da cultura, da segurança e do consumo.
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Segundo Yamashita (2013), o projeto original de reforma da praça, redigido em 2008 pelo escritório Figueiredo Ferraz, foi modificado diversas vezes, até ser completamente refeito por outro escritório (pegar nome). Mesmo após a reabertura oficial da praça, ainda haviam obras em andamento. Nesse processo de modificações com relação ao projeto original, alguns equipamentos que comporiam a nova praça foram privilegiados em detrimento de outros – a autora menciona como exemplo de equipamentos que foram privilegiados nessas negociações as bases da Policia Militar e da Guarda Civil Metropolitana. Diversos outros equipamentos acabaram não sendo instalados (como os sanitários públicos e o “teatro de arena”, inicialmente previstos). Há, também, o caso do Centro de Informação à Mulher, organização vinculada a movimentos feministas, que atuava na praça desde 1991 mas que sequer foi contemplada no processo de reforma (a prefeitura não previu a construção de um espaço para a organização na nova praça e nem cedeu outro espaço para ela manter suas atividades em outro lugar).
Eu me lembro vagamente da praça Roosevelt antes de sua reforma completa, iniciada em 2010. Era um espaço escuro, uma pilha de concreto mal conservado e desajeitado, que parecia, pelo menos de longe, uma espécie de território contíguo ao Elevado Costa e Silva – nesse contexto, vale lembrar, o Elevado já era fechado para a circulação de automóveis depois das 22 horas, e já era ocupado (como ainda atualmente o é) por um grande número de usuários de crack que circulavam dispersamente sobre a via vazia de carros durante a madrugada. É difícil distinguir o quanto dessa visão que eu tinha daquele espaço era fundamentada no que eu havia visto de passagem em meus rolês pelo centro ou pela região da Paulista, e o quanto era ligado a um imaginário social mais ou menos difundido e mais associado ao que alguns chamariam “ideologia urbanística” do que a um conhecimento de fundamento empírico. O fato é que, na minha experiência de jovem habitante de São Paulo no final dos anos 2000, a Praça Roosevelt “em si” só passou a ser um “lugar de rolê” depois de sua reabertura, em 2012. O próprio aumento do número de pessoas que frequentam a nova praça às noites indica que eu possivelmente não sou o único a pensar dessa forma.
Atualmente, em praticamente qualquer dia da semana, a praça e seus entornos presencia uma considerável movimentação noturna, especialmente de grupos de jovens, conversando, bebendo, paquerando, andando de skate, fumando um. Aos finais de semana ou feriados essa movimentação é ainda maior. Mesmo a intensa circulação de viaturas policiais, que a praticamente todo instante transitam nas ruas contíguas e até mesmo no interior da praça, não desestimula a alta presença de pessoas às noites na praça.
Na antiga rua Martinho Prado, que após a reabertura da praça em 2012 teve seu nome mudado para “Praça Franklin Roosevelt”, podemos ver a existência de prédios mistos, de padrão estético mais ou menos semelhante com relação aos encontrados na rua da Consolação. Nas salas térreas, alguns pequenos comércios, e uma forte presença de salas
teatrais e de bares (muitos deles ligados a salas teatrais ou grupos artísticos também atuantes ali ou na região). Eu, particularmente, nunca fui a nenhum desses bares. Quando estava na Roosevelt eu preferia ou tomar uma cerveja nos botecos da rua do outro lado da praça, a Guimarães Rosa, ou entre a Nestor Pestana e a Augusta (bares de perfil menos elitizado e que vendem cerveja a preços mais baratos) ou comprar uma garrafa de vinho ou bebida destilada no minimercado que ficava no comecinho da antiga Martinho Prado, a alguns metros da aglomeração do pessoal dos “bares dos artistas”. Até para mim, um estudante universitário branco de classe média, aqueles estabelecimentos pareciam muito “gourmetizados”, muito caros e elitizados e pouco atrativos à permanência. Para parte desse público que deseja consumir produtos mais baratos, existem também os vendedores ambulantes e seus isopores carregados de bebidas, que costumam ficar próximos às escadarias da praça localizadas bem em frente aos bares.
Nos mesmos prédios que sediam esses estabelecimentos, os moradores do bairro. Eles não parecem agentes diretamente presentes nesse cenário à primeira vista. Um olhar mais aprofundado, porém, nos leva à constatação de que os “moradores da região” participam ativamente das discussões e decisões públicas em relação à praça32. Eles atuaram dessa forma no contexto da proposição e da regulamentação de sua reforma, em 2010 (especialmente através da Ação Local Praça Roosevelt, ligada à Associação Viva o Centro), e atuam no contexto atual para a implementação de uma lei que propõe a transformação da praça já reformada em parque público – Ou seja, o espaço seria cercado, teria horários estipulados de funcionamento e gestores nomeados pela Secretaria do Meio Ambiente.
Desde o contexto dos anos 2000, em que passou-se a discutir a reforma da praça- edifício inaugurada por Paulo Maluf nos anos 1970, um dos elementos recorrentemente
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Aqui, a categoria “moradores da região” aparece entre aspas porque eu me refiro mais a um grupo que se autodeclara politicamente como representante dessa parcela da população do que propriamente ao conjunto dessa parcela.
mobilizados por agentes favoráveis a uma intervenção profunda e completa naquele espaço como justificativa da própria urgência de tal intervenção – Como a Emurb e a Ação Local Roosevelt da Associação Viva o Centro – era justamente a presença de “usos insurgentes” . Era muito comum que os técnicos da Emurb ou aqueles que se identificassem politicamente como “moradores da região” atribuíssem a presença desses usos e dos tipos sociais a eles associados – os moradores de rua, os trombadinhas, as travestis, as prostitutas, os usuários e traficantes de drogas, os skatistas – às próprias características físicas, estéticas e arquitetônicas da antiga praça. Essas características presentes no projeto original, bem como a falta de cuidado do poder público em realizá-lo na íntegra e, depois de sua realização, cuidar da manutenção da praça-edifício, parecem indicar que o elemento prioritário da intervenção em um primeiro momento foi a sua “parte viária”, no caso, a construção da ligação subterrânea entre o Elevado Costa e Silva e a Avenida Radial Leste, que passa por baixo do terreno da praça.
Nesse contexto mais atual, no entanto, as discussões em torno da reforma da Praça Roosevelt (realizada entre os anos de 2010 e 2012) foram motivadas mais diretamente pela questão da apropriação do espaço por parte das pessoas. Ou, melhor dizendo, a uma tentativa de gestão dessa apropriação. A ideia dos técnicos da Emurb e daqueles que defendiam a mesma opinião era a de, a partir de uma intervenção profunda naquele espaço, o tornar menos propício a usos considerados inadequados: Um espaço aberto (a partir da demolição do Pentágono da antiga praça), bem iluminado e bem policiado, propício para modalidades de apropriação consideradas “permitidas”33 - nesse projeto era considerado de central relevância a demolição da estrutura do Pentágono.
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Se a noção de “lazeres insurgentes”, conforme já dito, possui significação bastante fluida, é possível dizer o mesmo com relação ao seu oposto, no caso, os “lazeres permitidos”. Até porque ambas essas noções são também construções políticas, como argumentarei ao longo dessa pesquisa.
Em meio a uma pluralidade de disputas políticas, as obras de reforma foram iniciadas no ano de 2010. O Pentágono foi, de fato, demolido, e o projeto da praça ao estilo boulevard foi o que acabou sendo de fato implementado (não sem inúmeras modificações, novamente). Em meio aos questionamentos ao caráter tecnocrático e unilateral de tal intervenção, podemos ver que o deslocamento produzido por essa nova territorialidade urbana do ponto de vista de sua implementação e das discussões que a viabilizaram diz respeito mais a uma mudança com relação às prioridades urbanística e gestionária envolvidas – dos carros às pessoas – do que com relação à forma com que tais intervenções foram idealizadas e realizadas.
Porém, os usos efetivos dos espaços, ainda que de alguma forma limitados ou geridos pelas intervenções idealizadas e concretizadas pelos planejadores do urbano, não se restringem a esses projetos tecnicistas e planificadores. E a Praça Roosevelt me parece um ótimo exemplo disso: Projetada enquanto um boulevard, a princípio voltada ao consumo e ao lazer mais exclusivo dos moradores da Consolação (um perfil populacional majoritariamente de classe média alta), a Roosevelt hoje em dia é um ponto de lazer na cidade de São Paulo, atraindo todas as noites um grande contingente de jovens que, muitas vezes, residem em bairros muito distantes dali. Essa tensão, entre o uso daquele espaço enquanto mancha de lazer juvenil popular noturno e lugar de lazer e consumo diurnos e elitizados, se não é visível a partir da presença direta de moradores reclamando do barulho às noites, pode ser pensada a partir da intensa e massiva presença e circulação de policiais militares e guardas civis no local.
1.5. RESISTÊNCIA CULTURAL, APROPRIAÇÕES DOS ESPAÇOS