A reorganização escolar é uma proposta que consiste em dividir as escolas estaduais por ciclos e consequentemente por idades. Assim: “Com a divisão das escolas por ciclo, algumas terão apenas alunos de 6 a 10 anos; outras receberão os adolescentes de 11 a 14 anos; outras serão exclusivas para jovens entre 15 e 17 anos” (SÃO PAULO, 2016).
Na perspectiva da Secretaria do Estado de São Paulo com a reorganização, a escola passa a oferecer:
[...] uma escola mais preparada para as necessidades de cada etapa de ensino e atenta à nova realidade das crianças e jovens. As escolas que oferecem apenas um ciclo – 1º ao 5º do Ensino Fundamental, 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental ou Ensino Médio – são mais fáceis de administrar, pois a divisão permite que a equipe gestora, diretores e coordenação, tracem estratégias pedagógicas focadas nas necessidades de aprendizado do público atendido. A medida facilita também o planejamento das aulas pelos professores (SÃO PAULO, 2016).
Na prática essa medida afetaria 1.464 escolas e 1,8% das 5.147 escolas estaduais, seriam direcionadas a "outras" funções. Segundo a Secretaria Estadual, mais de “311 mil alunos” seriam realocados e mudados de suas escolas, o que consequentemente também afetariam mais de “ 74 mil” professores. (G1, 2015).
Entretanto, para pesquisadores da área da Educação, movimentos sociais, sindicatos, estudantes e professores a proposta de Reorganização Escolar não é tão simples e nem tão atrativa como a Secretaria do Estado de São Paulo alega.
Para a APEOESP que se posicionou contrária à proposta de reorganização escolar, tal projeto fecharia 94 escolas em todo o estado, e os professores temeriam
pelas mudanças que poderiam levar a superlotação de salas, suas demissões e a redução de salário decorrente da redução de jornada de seus trabalhos (REDE BRASIL ATUAL, 2015). A ANDES também se pronunciando contraria, além dessas questões destacou o aumento da distância entre a casa dos alunos e as escolas (ANDES, 2015)
Em um artigo da ANDES (2015) uma das jovens ocupantes das escolas estaduais de São Paulo, oferece uma entrevista e se posiciona explicando os motivos de ser contra a Reorganização Escolar, contando que com o fechando das escolas, o governo prejudicaria os estudantes. A estudante destaca:
Muitos estudantes terão que se mudar para escolas de outros bairros. Muitas escolas com aulas noturnas serão fechadas, apenas três ficarão abertas. Pense em quantos estudantes, que trabalham o dia todo e só podem estudar de noite, vão estudar nessas escolas. As salas vão ficar superlotadas, vai causar um estresse muito grande para os docentes, que já têm dificuldade com turmas de 30 a 50 alunos [...] A medida acaba prejudicando todo mundo, as escolas, os docentes, os estudantes, os pais [...]. (ANDES, 2015)
O autor Freitas que é especialista em políticas educacionais e que publica em seu próprio blog (2016), vários textos, alerta que a Reorganização Escolar é uma parte das tentativas de entregar a educação pública para empresários e organizações sociais que visariam as consequentes privatizações. Numa entrevista também, o autor explicou que o que justificaria essa lógica é que existiria uma crença equivocada de que a Educação não vai bem por um problema de gestão. O autor ainda explica:
Como o modelo da iniciativa privada é tido como de boa gestão, a busca pelos empresários, economistas e administradores, em substituição aos educadores profissionais, é uma tentativa de importar as formas de gestão da empresa para a educação. Não é uma estratégia nova, e já foi implementada em outros países. O resultado foi a ampliação da segregação escolar, sem melhorias significativas para a educação (OPERAMUNDI, 2017).
Freitas enfatiza a importância do movimento estudantil nas ocupações que ocorreram nas escolas paulistas e que fizeram frente a proposta de reorganização escolar. Apesar do autor mostrar preocupação em relação a “negação da política e da necessidade de uma organização mínima para se travar a luta” por parte dos estudantes, ele reconhece que o movimento colocou “boa parte dos estudantes
secundaristas como protagonistas”. Para o especialista, os estudantes ainda ensinaram que “ a escola, na forma como está organizada, não atende aos objetivos formativos dos jovens” (OPERAMUNDI, 2017).
Assim, o movimento estudantil foi uma resposta contrária a proposta da Reorganização Escolar. Neste contexto jovens estudantes da capital paulista e depois de algumas cidades do interior, ocuparam suas escolas e fizeram frente a decisão do governo estadual. O movimento teve início na Escola Estadual Diadema, no ABC Paulista e se estendeu a diversas outras escolas chegando a 200 instituições educativas, segundo a Secretaria do Estado, e às 213 de acordo com a APEOESP (G1).
No início de dezembro de 2015, diante o enfrentamento dos estudantes, o governador do Estado de São Paulo suspendeu a reestruturação e prometendo aprofundar o diálogo com pais e alunos, adiou a Reorganização Escolar do ano de 2016, afirmando que todos os estudantes permaneceriam em suas respectivas escolas. Essa decisão, em contrapartida, fez com que o secretário estadual da época se retirasse do cargo. Desde então, a proposta vem sendo implementada com o nome de “Reorganização Escolar silenciosa”, conforme denuncia o sindicato dos professores do estado de São Paulo (APEOESP, 2017).
Certas do rico arcabouço teórico existente especialmente ao que compete a área da Ciências Sociais em relação a movimentos estudantis, insurgências secundaristas, etc., e que poderiam indicar caminhos e brilhantes discussões para nosso trabalho, assumiremos nosso limite em não os incorporar. Pois, como já reconhecido no item anterior, decidimos centrar esforços a respeito das reflexões sobre a noção de relação com o saber. Contudo, acreditamos que o tempo acadêmico permitirá mais adiante, o envolvimento da pesquisadora com leituras desta área e que poderão desta maneira, somar na formação acadêmica da autora. Sendo assim, foi no contexto desse enfrentamento estudantil contra a proposta de Reorganização Escolar na cidade de São Carlos, que nosso contexto investigativo esteve repousado.