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Participou dessa fase inicial da pesquisa – de aplicação dos questionários - um total de dez professores. Os professores, Breno, Inácio, Leonardo, Elizete e Marcos, têm entre 25 e 30 anos de profissão. Os professores, Afonso, Maria e Sandra possuem entre 20 e 25 anos de profissão. E os professores, Humberto e Laura11, têm entre 10 e 15 anos de atuação profissional. Esses dados apontam que mais da metade desses professores leciona desde a década de 1980. Todos eles ensinam há pelo menos dez anos, revelando que os sujeitos da nossa pesquisa são profissionais com bastante experiência em sala de aula e possuem uma longa trajetória docente, tendo vivenciado distintos momentos na história da educação pública brasileira. Alguns deles já estão em final de carreira e dois deles, os professores Marcos e Leonardo, já deram entrada no pedido de aposentadoria. Com raras exceções, tratamos com senhores e senhoras de cabelos brancos, com expressões faciais marcadas pela ação do tempo; alguns demonstraram inicialmente certa desconfiança quanto às nossas intenções, nos confessando, posteriormente, que chegaram a pensar que eu estava ali com o objetivo de criticá-los; outros, não conseguiam esconder o cansaço provocado por anos da extenuante rotina de sala de aula, em jornada de trabalho dupla e até mesmo tripla, sem contar os feriados e finais de semana consumidos com a preparação de aulas, elaboração e correção de provas, não esquecendo o tempo que é sugado pelo trabalho com as cadernetas, ou diários de classe.

Não obstante esse quadro pouco encorajador, estes senhores e senhoras, em sua maioria, se mostraram animados e felizes com o seu trabalho, mantendo vivo o desejo de contribuir de maneira significativa para a formação dos jovens mossoroenses, sempre procurando motivar os seus alunos a interessarem-se pelos estudos, notadamente pelo estudo da História. Também foi possível identificar entre eles o engajamento em prol de melhorias salariais e das condições de trabalho, visto que durante essa fase da pesquisa testemunhamos a forte adesão dos professores a movimentos grevistas na educação,12 o que resultou, diga-se de

11

Preferimos adotar nomes fictícios para preservar a identidade dos professores.

12 Foram duas as greves que testemunhamos. A primeira delas ocorreu na rede estadual de ensino e foi

passagem, no prolongamento dessa fase de coleta de dados, uma vez que tivemos que adiar as entrevistas. Ademais, resta dizer que os professores, em sua maioria, foram bastante solícitos, procurando brechas dentro dos seus horários de expediente para nos atender sempre da melhor forma possível.

Todos os professores atuam no Ensino Fundamental. Os professores Afonso, Leonardo, Inácio e Laura trabalham também no Ensino Médio. Os professores exercem a atividade de ensino em dois expedientes, sendo que os professores, Leonardo e Inácio, trabalham em três expedientes – matutino, vespertino e noturno. Os professores, Afonso, Breno, Laura, Leonardo e Sandra, possuem vínculo empregatício no município e no estado. Foram estes últimos que participaram da segunda etapa da pesquisa, que correspondeu ao momento de concessão de entrevista áudio gravada.

Quanto à formação acadêmica, sete professores têm graduação em História, sendo que três professoras, Maria, Elizete e Sandra, fizeram suas graduações em Ciências Sociais. O professor Humberto tem especialização em Filosofia, a professora Laura possui especialização em gestão escolar e a professora Sandra fez especialização em psicologia da educação. Todos fizeram suas graduações em Mossoró, na UERN. Nos chamou atenção o fato de que nem todos os professores tinham formação específica na área de História. De fato, identificamos que a prática de ensinar uma disciplina, na qual não se tem a formação necessária, é corriqueira nas escolas, sejam elas pertencentes à rede estadual ou municipal de educação. Uma de nossas entrevistadas, a professora Laura, traz a sua visão acerca dessa prática:

Aí no ensino médio, o estado diz que coloca cada professor na sua área, mas infelizmente não é verdade. Eu, formada em História, cheguei aqui nessa escola ensinando Ciências, Sociologia, Geografia, Artes e Filosofia. Eu tinha cinco disciplinas. Quando saía de uma sala e entrava em outra eu não sabia mais o que eu tinha dito lá na outra sala. Eu só não ensinei Química porque eu disse que não iria servir de palhaça para ninguém, porque se não, eu teria completado a minha carga horária com Química também. Então eu era assim, eu nunca aceitei pegar uma disciplina que eu não tivesse a menor condição de chegar lá na sala e falar, e não acrescentar nada, porque não combina comigo. (Entrevista Laura, p. 2).

Nacional como fora estabelecido nos termos da lei 11.738, sancionada em 16 de julho de 2008. Essa greve ganhou repercussão nacional, não apenas por ter sido a maior greve já realizada pelos professores no Rio Grande do Norte, durando 80 dias, mas também em razão da ampla divulgação, primeiramente via internet e em seguida pela grande mídia, da fala da professora Amanda Gurgel em audiência pública, realizada na Assembleia Legislativa do estado, no dia 10 de maio de 2011. A segunda greve ocorreu na rede municipal de ensino de Mossoró, deflagrada no dia 04 de abril de 2012. A greve foi motivada também por questões salariais, especificamente pelo não cumprimento, por parte da Prefeitura Municipal de Mossoró, do reajuste salarial estabelecido pelo MEC para o ano de 2012, de 22,22%, a ser pago para todos os profissionais do magistério público da educação básica, conforme a lei supracitada.

O professor Afonso também relata que já teve de ensinar outras disciplinas. No

momento, ele nos revela: “trabalho com a disciplina de História, já trabalhei com outras disciplinas como Artes, Geografia, mas atualmente eu trabalho somente com História”.

(Entrevista Afonso, 2012, p.1). O professor Inácio nos disse que atualmente ensina as disciplinas de História, Geografia e Ensino Religioso na rede municipal e na rede estadual trabalha com as disciplinas de História, Sociologia e Filosofia. A professora Sandra contou que quando fez concurso para professor do município, concorreu para uma vaga na disciplina de Geografia, mas desde que começou sua carreira profissional, trabalha simultaneamente com a disciplina de História. Praticamente todos os professores relataram experiências com diferentes disciplinas escolares.

Essa prática, já naturalizada nas escolas públicas do estado e do município, é o resultado da crônica falta de um investimento adequado na educação. Ela também se deve à necessidade dos professores em completar sua carga horária de trabalho. Muitas vezes isso acontece em razão da diminuição de turmas e até mesmo do fechamento de turnos e de escolas. A EMLS, por exemplo, que até 2010 oferecia o Ensino Fundamental (6º ao 9º ano) nos dois turnos, matutino e vespertino, em função da diminuição da demanda de alunos, oferece, atualmente, esse nível de ensino somente em um turno, o matutino. Em consequência disso, os professores perdem suas turmas, e para não terem que sair em busca de novas turmas, em outras escola - muitas delas ficam mais afastadas de suas residências - decidem completar sua carga horária com outras disciplinas.

É comum também encontrarmos professores que trabalham em mais de uma escola e que precisam se deslocar entre as instituições no mesmo turno, mantendo uma agitada rotina de trabalho. Isso acontece principalmente, mas não exclusivamente, com os professores que preferem completar a sua carga horária somente com a disciplina na qual tem formação. Na rede municipal de Mossoró, que abriga o Ensino Fundamental, são três horas- aula de História por semana, em cada turma. O professor precisa de oito turmas para fechar sua carga horária, que é de 24 horas-aula por semana. No caso da rede estadual, são duas horas-aula de História em cada turma, para o mesmo nível. O professor necessita de 12 turmas para completar sua carga horária, que também é de 24 horas-aula por semana. Contudo, não são todas as escolas que possuem um número de turmas suficientes para que os professores possam completar a carga horária. Muitos acabam acumulando mais de uma disciplina para evitar o deslocamento do qual falamos mais acima. Por isso nos deparamos tantas vezes com professores ensinando disciplinas nas quais não têm formação alguma.

Obviamente, tal situação pode acarretar inúmeros problemas para o professor que ensina História sem formação na área, uma vez que não conhece a especificidade da produção do conhecimento histórico. O conhecimento da racionalidade da História é condição sine qua nom para que o professor promova uma aprendizagem histórica eficiente, possibilitando aos alunos uma ampliação qualitativa dos potenciais da consciência histórica. (BARCA, 2008). Não atendida esta condição, podemos dizer, no mínimo, que os alunos terão maiores chances de desenvolver leituras não problematizadas do passado. Em vista de não ser possível garantir a presença de um profissional com formação em História nas salas de aula, a situação mostra também que o campo de militância por um ensino de História de qualidade ainda tem muitas batalhas a serem travadas e vencidas.