2. THEORETICAL FRAMEWORK
2.2 Masculinities & Islamism
Na análise histopatológica dos órgãos estudados, brânquias e fígado, detectaram-se alterações ao nível da estrutura do tecido branquial e hepático, entre os indivíduos controlo e os indivíduos expostos aos diferentes tratamentos.
O grau de alterações morfológicas observadas diferiu de acordo com o período de exposição e com o tratamento experimental. No entanto, também foram detectadas alterações de intensidade variável entre indivíduos expostos ao mesmo tratamento.
4.2.2.1. Brânquias
No quadro 4.6 apresentam-se os resultados das observações histológicas mais significativas ao nível branquial dos indivíduos expostos aos vários tratamentos durante o teste.
Quadro 4.6. Histopatologia das brânquias de C. auratus ao longo do teste
Fase Contaminação Descontaminação Dia 2 14 28 28
Lesão [Cu] (µg.L-1) C 37 74 37 74 37 74 37* 74* Descolamento do epitélio 0 +0 + + + + + ++ ++
Hiperplasia do epitélio branquial 0 + ++ ++ ++ + ++ + + Hipertrofia do epitélio branquial +0 + ++ ++ ++ + ++ +0 + Diminuição do espaço interlamelar 0 + ++ ++ ++ + + +0 +0 Fusão incompleta de várias lamelas 0 ++ + + + ++ + + + Fusão completa de várias lamelas 0 + + + ++ + + 0 0 Fusão completa de todas as lamelas 0 0 +0 +0 +0 +0 +0 0 0 Secreção de muco +0 ++ ++ ++ ++ + + +0 +0
Alterações nos vasos sanguíneos 0 +0 + +0 +0 +0 +0 0 0
Necrose 0 +0 +0 +0 + +0 +0 +0 +0
Legenda: C – indivíduos controlo; 0 ausente; +0 pouco presente; +presente; ++presente frequentemente; 37* e 74* indivíduos previamente expostos às concentrações nominais de 37 µg.L-1 e 74 µg.L-1, respectivamente.
Resultados
As alterações histopatológicas observadas no tecido branquial dos indivíduos expostos a concentrações subletais de cobre consistem de um modo genérico em hiperplasia, hipertrofia e descolamento do epitélio branquial, alterações ao nível das células, da segregação de muco e dos vasos sanguíneos. Os resultados da avaliação histoquímica efectuada aos cortes submetidos ao tratamento com ácido rubeânico mostram a presença de grânulos de rubeanato de cobre, de cor negra-esverdeada, indicando a presença de cobre no tecido branquial de
C. auratus. No entanto, não foi possível estabelecer uma correlação quantitativa entre os grânulos, os tratamentos e o período de exposição.
Nos indivíduos controlo, as brânquias apresentam uma estrutura normal com um evidente espaçamento interlamelar. As lamelas são bem diferenciadas e dispostas em ambos os lados do filamento branquial (Figura 4.12 A). Com base nos resultados histoquímicos, nas lâminas tratadas com Azul de Alcian observa-se uma secreção de muco reduzida (Figuras 4.13 A e B). Nas lâminas sujeitas à reacção do ácido rubeânico observam-se escassos grânulos de rubeanato de cobre, de cor negra-esverdeada, indicando uma fraca presença de cobre nos tecidos (Figura 4.14 A).
Após dois dias de exposição ao cobre em ambas as concentrações utilizadas, 37 e 74 µg.L-1, observou-se hiperplasia e hipertrofia do epitélio branquial. Foi ainda detectada a presença de aneurismas lamelares nos indivíduos expostos aos diferentes tratamentos, ainda que de forma rara e pontual (Figura 4.12 D). A colmatação branquial, que progride da base para a extremidade do espaço interlamelar, aumentou com a concentração, verificando-se os casos mais acentuados, nomeadamente a fusão completa de várias lamelas branquiais, nos indivíduos expostos à concentração de 74 µg.L-1. Para além das alterações descritas ao nível do tecido epitelial, no preenchimento do espaço interlamelar verificou-se em ambas as concentrações utilizadas um aumento de secreção de muco, revelado pela coloração de Azul de Alcian, aparentemente mais intensa nos indivíduos expostos que nos indivíduos controlo (Figuras 4.13 C e D). Nas lâminas tratadas com ácido rubeânico, observam-se grânulos de rubeanato de cobre nos indivíduos expostos em ambos os tratamentos (Figura 4.14).
Após 14 dias de exposição ao cobre, a secreção de muco continua generalizada entre os indivíduos expostos (Figuras 4.13 E e F). A observação dos cortes histológicos permite salientar as lamelas progressivamente menos identificáveis em cada uma das concentrações utilizadas, com particular evidência para a maior concentração em que se verificou o completo intumescimento do espaço interlamelar, com consequente fusão completa de todas as lamelas branquiais, e algumas zonas de necrose (Figura 4.12 F). Ao nível do epitélio também se observaram descolamentos.
Resultados
Decorridos 28 dias de exposição, observa-se que as lesões detectadas anteriormente persistem. Contudo constatou-se que a quantidade de muco é aparentemente menor (Figuras 4.13 G e H) e em alguns indivíduos a colmatação do espaço interlamelar é mais ligeira, verificando-se um aumento do espaço interlamelar (Figura 4.12 G).
Analisando em geral a fase de contaminação, em que os organismos estiveram expostos durante 28 dias a 37 e 74 µg.L-1 de cobre, e tendo em conta que a hiperplasia foi uma das lesões mais frequentes, considerou-se oportuno avaliar as brânquias dos organismos expostos de acordo com o nível de hiperplasia apresentado. Desta forma, considerou-se uma escala de 1 a 4, em que o nível 1 indica a ausência de hiperplasia, o nível 2 representa um baixo grau de hiperplasia, afigurado por uma fusão incompleta de algumas lamelas, o nível 3 corresponde a um grau mais acentuado de hiperplasia, onde ocorre a fusão completa de várias lamelas e o nível 4 corresponde à fusão completa de todas as lamelas. Os cortes histológicos das brânquias dos organismos expostos aos diferentes tratamentos foram observados e classificados de acordo com os diferentes níveis de alteração estabelecidos (Figura 4.11).
0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 37 µg.L-1 74 µg.L-1 37 µg.L-1 74 µg.L-1 37 µg.L-1 74 µg.L-1
2 dias 14 dias 28 dias
N ú m er o de i nd iví d uos Nível 4 Nível 3 Nível 2 Nível 1
Figura 4.11. Distribuição dos organismos expostos aos diferentes tratamentos durante 28 dias, nos diferentes níveis de alteração das brânquias
Resultados
Figura 4.12. Secções histológicas representativas das brânquias de C. auratus. Contaminação. A: brânquia de um organismo controlo; estrutura normal. B: (37 µg.L-1; 2 dias) estrutura branquial evidenciando a proliferação das células epiteliais na base do espaço interlamelar (seta). C: (74 µg.L-1; 2 dias) descolamento do epitélio branquial. D: (74 µg.L-1; 2 dias) aneurisma lamelar. E: (37 µg.L-1; 14 dias) hiperplasia evidente; lamelas menos identificáveis. F: (74 µg.L-1; 14 dias) completo intumescimento do espaço interlamelar; zonas de necrose. G: (37 µg.L-1; 28 dias) fusão incompleta de várias lamelas branquiais. H: (74 µg.L-1; 28 dias) aneurismas lamelares; hiperplasia notória. f, filamento branquial; l, lamela branquial; ei, espaço interlamelar; h, hiperplasia; ht, hipertrofia; d, descolamento do epitélio; a, aneurisma lamelar; n, necrose. Coloração H&E
A B C D E F G H d d a h ht h h h n n a a l ei f
Resultados
Figura 4.13. Secções histológicas representativas das brânquias de C. auratus. Contaminação. A, B: brânquia de um organismo controlo; secreção de muco reduzida. C – H: brânquias de organismos expostos a concentrações subletais de cobre. C: (37 µg.L-1; 2 dias). D: (74 µg.L-1; 2 dias). E: (37 µg.L-1; 14 dias). F: (74 µg.L-1; 14 dias). G: (37 µg.L-1; 28 dias). H: (74 µg.L-1; 28 dias). As setas indicam a presença de muco. Coloração Azul de Alcian
A B
C D
E F
Resultados
Figura 4.14. Secções histológicas representativas das brânquias de C. auratus. Contaminação. A: brânquia de um organismo controlo; fraca presença de grânulos de rubeanato de cobre no tecido. B – H: brânquias de organismos expostos a concentrações subletais de cobre (37 µg.L-1; 74 µg.L-1), presença constante de grânulos. B: (37 µg.L-1; 2 dias), detecção de grânulos ao nível das células periféricas, em contacto com o meio. C: (37 µg.L-1; 2 dias). D: (74 µg.L-1; 2 dias). E: (37 µg.L-1; 14 dias) F: (74 µg.L-1; 14 dias). G: (37 µg.L-1; 28 dias). H: (74 µg.L-1; 28 dias). As setas indicam grânulos de rubeanato de cobre, indicativos da presença de cobre no tecido. Coloração Ácido Rubeânico
A B
C D
E F
Resultados
No final da fase de descontaminação, de um modo geral, observou-se uma reversibilidade das alterações histopatológicas, com excepção do descolamento do epitélio branquial verificado frequentemente (Figura 4.15).
Figura 4.15. Secções histológicas representativas das brânquias de C. auratus após descontaminação. A: separação do epitélio respiratório nas brânquias dos organismos descontaminados (descolamento do epitélio branquial). B, C: estrutura branquial evidenciando uma ligeira colmatação do espaço interlamelar (seta), ligeiro descolamento do epitélio. h, hiperplasia; d, descolamento do epitélio. Coloração H&E. D: as setas indicam a presença de muco. Coloração Azul de Alcian
A B C D d d d d d d d h
Resultados
4.2.2.2. Fígado
Com base nas observações efectuadas nos cortes histológicos do fígado verifica-se que, comparativamente com os indivíduos controlo, os indivíduos expostos às concentrações subletais de cobre de 37 e 74 µg.L-1 apresentam alterações no parênquima hepático (Figura 4.16).
Nos indivíduos controlo, o fígado apresenta uma estrutura normal: um parênquima hepático homogéneo, constituído por um sistema de hepatócitos de forma poliédrica bem definida e sustentado por uma rede de sinusóides. Os hepatócitos apresentam ainda grande volume citoplasmático e um núcleo esférico e central (Figuras 4.16 A – B).
Nos indivíduos expostos observaram-se alterações ao nível da organização dos hepatócitos. Essas alterações consistem essencialmente na perda de aderência entre os hepatócitos e na desorganização da estrutura celular, demonstrada pela desintegração da membrana citoplasmática e, em alguns casos, pela presença de núcleos picnóticos (Figuras 4.16 C – F). De um modo geral, ao longo da fase de contaminação verificou-se que a degeneração e a perda de integridade do tecido hepático se acentuaram com o aumento da concentração e com o período de exposição, pelo que se considerou útil o estabelecimento de uma escala de alteração do tecido hepático. A escala é composta por 5 níveis de alteração. O nível 1 indica a ausência de alterações ao nível da organização e estrutura dos hepatócitos; no nível 2 consideram-se os indivíduos em que os hepatócitos mantêm a sua forma poliédrica bem definida, apesar da diminuição do volume citoplasmático; o nível 3 corresponde a um nível mais acentuado de alteração, onde os hepatócitos perdem a sua forma poliédrica, passando a estar indefinidos; no nível 4 consideram-se os indivíduos em que se verifica uma grande diminuição do volume citoplasmático, não são visíveis hepatócitos bem definidos e o tecido hepático está degenerado; no nível 5 de alteração, consideram-se os indivíduos em que se verifica acentuada degenerescência hepática, indicando perda de integridade.
Após observação, os cortes histológicos do fígado foram classificados de acordo com os diferentes níveis de alteração considerados (Figura 4.17).
Resultados
Figura 4.16. Secções histológicas representativas do fígado de C. auratus. Contaminação. A, B: fígado de um organismo controlo; estrutura hepática normal, nível de alteração 1. C – F: fígado de organismos expostos a concentrações subletais de cobre (37 µg.L-1; 74 µg.L-1). C: nível de alteração 2. D: nível de alteração 3. E: nível de alteração 4. F: nível de alteração 5. vh, ramificação da veia porta hepática; hp, hepatócito; cb, canais biliares; s, sinusóide; p, núcleos picnóticos. Coloração H&E
A B vh s C D E F cb hp p
Resultados 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 37 µg.L-1 74 µg.L-1 37 µg.L-1 74 µg.L-1 37 µg.L-1 74 µg.L-1
2 dias 14 dias 28 dias
N úme ro d e i nd iví duo s Nível 5 Nível 4 Nível 3 Nível 2 Nível 1
Figura 4.17. Distribuição dos organismos expostos a concentrações subletais de cobre, pelos diferentes níveis de alteração do tecido hepático
Com base nos resultados histoquímicos, nas lâminas sujeitas à reacção do ácido rubeânico, observou-se, aparentemente, um maior número de grânulos de rubeanato de cobre nos indivíduos expostos aos diferentes tratamentos (Figuras 4.18 B-F) do que nos indivíduos controlo (Figura 4.18 A).
Resultados
Figura 4.18. Secções histológicas representativas do fígado de C. auratus. Contaminação. A: fígado de um organismo controlo; fraca presença de grânulos de rubeanato de cobre no tecido. B: (37 µg.L-1; 2 dias), detecção de alguns grânulos C: (74 µg.L-1; 2 dias), detecção de grânulos perto das sinusóides. D: (37 µg.L-1; 14 dias). E: (37 µg.L-1; 28 dias) F: (74 µg.L-1; 28 dias). As setas apontam grânulos de rubeanato de cobre, indicativos da presença de cobre no tecido. Coloração Ácido Rubeânico
A B
C D
Resultados
No final da fase de descontaminação, as alterações histopatológicas observadas no tecido hepático dos indivíduos previamente expostos a concentrações subletais de cobre evidenciam uma certa reversibilidade (Figura 4.19).
Figura 4.19. Secções histológicas representativas do fígado de C. auratus após descontaminação. Coloração H&E
A B
C D
Discussão
5. Discussão
5.1. Toxicidade Aguda
A análise dos resultados obtidos nos testes de toxicidade aguda, mostra que a mortalidade aumentou com as concentrações de cobre na água e com o período de exposição, pelo que os valores da concentração letal média (CL50) diminuíram de acordo com o aumento do período
de exposição, obtendo-se para as 96 horas os valores da CL50 do cobre de 158 µg.L-1 para C. carassius e de 366 µg.L-1 para C. auratus.
Diversos estudos já realizados mostram a existência de diferenças na sensibilidade e consequente tolerância à toxicidade do cobre entre espécies de peixes de água doce. O estudo efectuado por Shyong e Chen (2000) mostra a maior sensibilidade de Zacco barbata (CL50 96h: 79 µg.L-1) à exposição ao cobre do que Varicorhinus barbatus (CL50 96h:
246 µg.L-1), observando-se que a toxicidade dos metais estudados (Cu, Hg e Cd) em Zacco
barbata seguiu uma sequência pouco frequente: Cu> Hg> Cd, o que indica que para esta espécie a toxicidade do cobre é mais elevada do que a do mercúrio. Os estudos realizados por De Boeck et al., (2000, 2004) mostram que a truta arco-íris (Oncorhynchus mykiss) (CL50 96h: 3,3 µM – 210 µg.L-1) é três vezes mais sensível à exposição ao cobre que a carpa
comum (Cyprinus carpio) (CL50 96h: 10,4 µM – 661 µg.L-1) e quase sete vezes mais sensível
que a carpa gibel (Carassius auratus gibelio) (CL50 96h: 22,0 µM – 1398 µg.L-1). De modo
análogo, os resultados obtidos no presente estudo sugerem que os indivíduos pertencentes a cada uma das espécies analisadas possuem diferentes níveis de tolerância ao cobre, sendo os indivíduos da espécie C. carassius os mais sensíveis.
A toxicidade do cobre para as diversas espécies de peixes de água doce depende de vários parâmetros, como por exemplo a dureza (Alabaster e Lloyd, 1980; Peres e Pihan, 1991a). A dureza da água (dada essencialmente pela concentração de carbonato de cálcio, CaCO3) é
reconhecidamente um factor que influencia a biodisponibilidade do cobre (Alabaster e Lloyd, 1980; Peres, 1991; Peres e Pihan, 1991a), uma vez que os iões de cobre ao complexarem com o carbonato de cálcio diminuem a sua disponibilidade na água e consequentemente a sua toxicidade (Mazon e Fernandes, 1999). Assim, pode recorrer-se a um factor de correcção relativo à dureza para os valores de CL50 que contribui para a sua normalização e, logo,
possibilidade de comparação entre os resultados obtidos por diversos autores (por exemplo, De Boeck et al., 2004). O valor da toxicidade aguda em C. auratus de acordo com os critérios de qualidade da água do ambiente para o cobre da EPA (Environmental Protection Agency,
Discussão
EUA) (U.S. EPA, 1985) é 157,1 µg.L-1, normalizado para uma dureza da água de 50 mg.L-1 CaCO3. Normalizando os resultados obtidos neste estudo, para uma dureza de 50 mg.L-1
CaCO3, utilizando a mesma fórmula de conversão utilizada pela EPA, em que a CL50 em
50 mg.L-1 =eln (CL50) - 0.9422 × (ln (dureza) - ln (50)), obtêm-se para CL50 (96h) os valores de 67 µg.L-1
de cobre para C. carassius e de 156 µg.L-1 de cobre para C. auratus, valor este similar ao anteriormente apresentado para a mesma espécie.
Contudo, verifica-se a existência de uma grande variabilidade relativamente aos valores de toxicidade aguda (96 h) do cobre para C. auratus apresentados por diversos autores (Quadro 5.1). Os valores de toxicidade aguda (96 h) do cobre, para C. auratus, fornecidos pela base de dados da EPA (http://mountain.epa.gov/ecotox/), variam entre 36 e 1380 µg.L-1 de cobre total (Pickering e Henderson, 1966; Mayer e Ellersieck, 1986, respectivamente). A variação destes valores pode dever-se à falta de uniformidade nas condições de execução dos diferentes trabalhos, quer resultante dos organismos utilizados, quer das características da água, as quais podem alterar as formas químicas em que o tóxico se apresenta.
Quadro 5.1. Valores da CL50 (96h) de cobre para as duas espécies utilizadas, C. carassius e C. auratus Espécie Dureza (mg.L-1 de CaCO3) CL50 (96h) (µg.L-1) Referência
Carassius carassius 123,7 158 Presente estudo
Carassius auratus 20 36 Pickering e Henderson, 1966
Carassius auratus 52 300 Tsai e McKee, 1980
Carassius auratus - 1380 Mayer e Ellersieck, 1986
Carassius auratus 72,5 – 80,3 288 Ling et al., 1993
Carassius auratus - 150 Hossain et al., 1995
Carassius auratus 175 Muhvich et al., 1995
Carassius auratus 123,7 366 Presente estudo
Carassius auratus gibelio 292,4 1398 De Boeck et al., 2004
No presente trabalho, a determinação da CL50 do cobre para C. auratus revelou-se
particularmente importante como justificação para a escolha das concentrações subletais utilizadas no teste de toxicidade crónica.
Discussão
5.2. Toxicidade Crónica
O estudo dos efeitos da exposição de C. auratus ao cobre, ao longo do teste de toxicidade crónica, efectuou-se em brânquias e no fígado devido à sua natureza altamente vascularizada e à sua importância como locais de toxicidade e acumulação de cobre. Os resultados parecem evidenciar a acumulação significativa de cobre e alterações histopatológicas em ambos os tecidos, brânquias e fígado, dos indivíduos expostos a concentrações subletais do metal.
5.2.1. Concentração de cobre
Neste estudo, os resultados da concentração de metal nos tecidos mostram que os teores de cobre determinados, 18,3 – 21,0 µg.g-1 de peso seco nas brânquias e 88,0 – 129,5 µg.g-1 de peso seco no fígado, nos indivíduos controlo são da mesma ordem de grandeza dos obtidos por outros autores (Quadro 5.2).
Quadro 5.2. Concentração de cobre (µg.g-1 de peso seco) em ciprinídeos
Espécie Órgão Cu Referência
Cyprinus carpio brânquias 12,7 – 16,4 Peres e Pihan, 1991b
Cyprinus carpio brânquias 21,0 Muramoto, 1980
Carassius carassius brânquias 25,9 Drbal e Budejovice, 1976
Carassius auratus brânquias 18,3 – 21,0 Presente estudo
Cyprinus carpio fígado 66,7 – 69,8 Peres, 1991
Cyprinus carpio fígado 174,2 Peyghan et al., 2003
Carassius auratus fígado 55,9 – 64,6 Jacobson e Reimschuessel, 1998
Carassius auratus fígado 88,0 – 129,5 Presente estudo
Através dos ensaios de exposição a concentrações subletais de cobre, nomeadamente 37 e 74 µg.L-1 e da determinação dos teores do metal nas brânquias e no fígado dos indivíduos expostos a cada um dos tratamentos, é possível comparar a evolução de cobre no tecido branquial e no tecido hepático de C. auratus, ao longo de todo o ensaio, como se mostra nas figuras 5.1 e 5.2.
Discussão 0 10 20 30 40 50 60 70 80 0 2 14 28 56 Dias C u ( µ g. g -1 p es o s eco ) 37 µg.L-1 74 µg.L-1
Figura 5.1. Evolução de cobre (µg.g-1 de peso seco de órgão ±σ) nas brânquias de C. auratus. Indivíduos expostos à concentração de 37 e 74 µg.L-1 durante a fase de contaminação. (–) fase de contaminação, (--) fase de descontaminação. * Diferenças significativas em relação ao controlo (p <0,05)
0 100 200 300 400 500 600 0 2 14 28 56 Dias Cu ( µ g .g -1 p es o s eco ) 37 µg.L-1 74 µg.L-1
Figura 5.2. Evolução de cobre (µg.g-1 de peso seco de órgão ±σ) no fígado de C. auratus. Indivíduos expostos à concentração de 37 e 74 µg.L-1 durante a fase de contaminação. (–) fase de contaminação, (--) fase de descontaminação. Existem diferenças significativas (p <0,05): * em relação ao controlo; ** em relação aos indivíduos expostos ao fim de 14 dias
A análise dos resultados permite constatar que os teores de cobre mais elevados são observados no fígado, em qualquer um dos tratamentos, sugerindo que este órgão possui maior capacidade para acumular cobre do que as brânquias, reflectindo provavelmente funções diferentes na homeostasia do cobre e nos processos de desintoxicação metálica. Estes resultados são similares aos resultados obtidos por De Boeck et al., (1997) e Peyghan et al., (2003), Arellano et al., (1999) e por Mazon e Fernandes (1999), que mostraram que as
* * * * * * * * *, ** * * *
Discussão
concentrações de cobre foram mais elevadas no fígado do que nos outros órgãos de Cyprinus
carpio, de Solea senegalensis e de Prochilodus scrofa, respectivamente, expostos a cobre. De um modo geral, cada órgão acumula uma determinada concentração de metal de acordo com as diferentes funções fisiológica e bioquímica que desempenha. Considera-se que as brânquias são a principal via de entrada de cobre, particularmente em peixes de água doce, devido à sua extensa área de contacto com a água e à estreita barreira que separa o exterior do interior do organismo. Contudo, a acumulação de cobre é menos evidente nas brânquias do que no fígado. A absorção de metal através das brânquias (Grosell e Wood, 2002; Handy et al., 2002; Grosell et al., 2002; Campbell et al., 1999) parece resultar de uma combinação entre o metal absorvido pela superfície branquial e a sua posterior transferência através das brânquias, o que pode sugerir um processo contínuo de transferência do cobre para a corrente sanguínea. Assim, é geralmente aceite que o metal que entra através das brânquias e, menos intensamente através da superfície do corpo, é transportado para o fígado através da corrente sanguínea, onde é metabolizado e posteriormente excretado através da bílis (Mazon e Fernandes, 1999). Quando ocorre a exposição a concentrações elevadas de cobre e a capacidade de remoção do fígado é excedida, as formas mais tóxicas do cobre podem ser transportadas através da corrente sanguínea até outros órgãos (Laurén e McDonald, 1987a, b). O aumento dos níveis de metal na água conduz à produção de proteínas com afinidade para os metais, tais como as metalotioninas, que se relacionam com mecanismos de desintoxicação (Roesijadi, 1992). Para além disso, também o sistema lisossomal desempenha um papel importante na acumulação e homeostasia do cobre. Paris-Palacios e Biagianti-Risbourg (2006) expuseram dois ciprinídeos, Brachydanio rerio e Rutilus rutilus, ao cobre e considerando que os lisossomas desempenham um papel chave na biodisponibilidade e no armazenamento do metal, admitiram que a acumulação de cobre nos nucléolos dos hepatócitos de ambas as espécies, se deveu à saturação da capacidade de armazenamento dos lisossomas.
Neste estudo, analisando em particular a acumulação de cobre nas brânquias, verifica-se que, em ambos os tratamentos, a acumulação deste metal foi significativamente mais elevada nos peixes expostos do que nos peixes controlo, a partir do segundo dia de exposição (p <0,05). Contudo, desde o segundo dia até ao final da exposição verificou-se uma estabilização da concentração de cobre. Estes resultados parecem indicar que se atingiu um estado estacionário de acumulação nas brânquias ao fim de dois dias de exposição, o que está de acordo com trabalhos anteriores. Segundo Grosell et al., (1996), no estado estacionário a concentração de cobre no tecido branquial deve ser constante, ocorrendo quando a entrada de cobre pela
Discussão
membrana apical é igualada pelo transporte através da membrana basolateral para o sangue. O estado estacionário de acumulação de cobre também foi observado após 2 – 3 dias de exposição em Anguilla anguilla (Grosell et al., 1996), em Oncorhyncus kisutch (Buckley et
al., 1982) e em Solea senegalensis (Arellano et al., 2000). Dang et al., (1999) observaram que a concentração de cobre nas brânquias de Oreochromis mossambicus atingiu o estado estacionário ao fim de 11 dias de exposição a 200 µg.L-1 de cobre.
Os resultados obtidos após a fase de descontaminação mostram uma tendência para a diminuição dos níveis de cobre no tecido branquial apesar de os teores ainda apresentarem uma diferença significativa (p <0,05) em relação ao controlo. Em Solea senegalensis