Pr. Santos considera sua escolha pelo pastorado uma obediência a um desejo divino. Ele crê na existência de Deus, e também que esse Deus requer dele dedicação exclusiva e integral de seu tempo e atividades. Apesar de terem surgido, ao longo de sua vida, diversas possibilidades de formação acadêmica e de empregos, ele descartou todas elas para se dedicar
plenamente à liderança religiosa. A convicção de prestar um serviço para Deus o tornou tão comprometido com a atividade pastoral que todas as outras perderam sentido.
Como nenhuma outra atividade o atraia, nem despertava seu interesse, ele sentiu não ter outra opção senão a de dedicar todo o seu tempo ao pastorado cristão. Outras opções existiam, mas cada vez que ele quis realizar outro trabalho sentiu-se invadido por uma sensação de vazio, até que finalmente concluiu que ser pastor era o que Deus queria para sua vida, e que então não faria outra coisa. Foi o que fez, tornou-se um líder religioso cristão, um pastor.
Ele se tornou pastor com o objetivo de apresentar às pessoas a mensagem do evangelho conforme ensinado na Bíblia. Ao ter ele mesmo contato com este conhecimento sentiu que a sua vida foi melhorada. Depois que se tornou cristão ele passou a dar mais valor a si mesmo, a ter atitudes mais positivas com os outros, e, principalmente, a ter outra perspectiva com relação à sua existência, considerando-a não mais uma vida passageira e sem sentido, mas com possibilidades da eternidade. Entendeu, então, que se o que ele aprendeu na Bíblia o fez tão bem, outras pessoas deveriam também ter acesso a esse conhecimento bíblico.
Assim, tomando como referência sua própria experiência, Pr. Santos entendeu que as demais pessoas também precisavam ter acesso às mesmas informações transmitidas pela Bíblia que ele teve, esse mesmo conhecimento. que ele considera ser um conhecimento de redenção, de valorização, de enriquecimento da vida humana. Ele não se contentou em ter tal conhecimento apenas para si, e entendeu que a melhor maneira de compartilha-lho seria se tornando pastor, assim, abandonando outros projetos que tinha para sua vida profissional, fez uma faculdade de teologia e se preparou para ser um líder religioso cristão, um transmissor do conhecimento bíblico.
Pr. Santos considera que ao transmitir tal conhecimento bíblico às pessoas está dando a elas o valor e a importância que cada uma merece. Primeiro porque as pessoas podem encontrar nele alguém que se importa com elas, e, segundo, porque lhes está dando a oportunidade de pensarem mais profundamente sobre si mesmas e a razão de suas existências.
Ele entende que o desempenho de sua atividade pastoral pode se dar por meio de diversas práticas. Para o Pr. Santos, a atividade pastoral não está restrita a apenas um procedimento, ou seja, não é somente por meio da execução dos rituais religiosos que ele pode proporcionar às
pessoas o aprendizado que elas necessitam. Para ele, um líder religioso cristão pode exercer seu pastorado em diversas linhas de ação, além de apenas cuidar de uma igreja. Assim, considera que, desde que a intenção final de alguma outra atividade seja, de alguma maneira, proporcionar às pessoas o conhecimento bíblico e o estímulo a um relacionamento pessoal com Deus, o líder religioso está cumprindo sua missão.
Mas, é quando está dando atenção às pessoas que Pr. Santos percebe estar, de fato, alcançando seus objetivos como pastor. É quando pode vê-las bem, com esperança, plenas de confiança em Deus e em si mesmas, que nota que seu trabalho pastoral sendo cumprido. Embora acredite que um pastor pode realizar seu ministério religioso exercendo alguma como cuidar de uma obra filantrópica, atuar na área acadêmica, administrar uma instituição religiosa ou algo assim, é no lidar diretamente com as pessoas que Pr. Santos acredita que seu ministério pastoral tem o foco da salvação. É, pois, quando entra em contato com as pessoas para lhes apresentar este assunto que ele se sente realizado, porque entende que assim dá atenção a uma dimensão essencial do ser humano que é a espiritualidade, e a religiosidade.
Pr. Santos evidencia compreender que focar sua atividade na transmissão do conhecimento da salvação e do relacionamento com Deus implica, também, em estimular a busca por qualidade de vida, pois considera que o aqui e agora é redimensionado pela experiência com Deus. Ele não vê dicotomia entre promover a relação das pessoas com Deus e com a esperança da vida eterna, e promover uma qualidade de vida no contexto atual da existência. Antes, ele entende que se as pessoas crêem em Deus, e se dispõem a interagir com Ele, a obedecer a Sua vontade e ter a expectativa da eternidade, então elas sentem a Sua mão guiando sua vida, e não é possível que isso não venha afetar o aqui e agora. Assim pois, a vida cotidiana das pessoas é redimensionada pela experiência de se importar com a sua dimensão espiritual.
A sua percepção de ter o aqui e agora redimensionados pela experiência religiosa inclui adotar os valores éticos do evangelho, o respeito para com o próximo, o cuidado consigo mesmo, o zelo pela saúde e aparência, bem como pela auto-imagem e auto-estima. Inclui também a busca por uma formação acadêmica, por uma relação familiar estável, por um bem-estar psico-emocional, entre outros benefícios pessoais. Para Pr. Santos a vida redimensionada pela experiência religiosa possibilita à pessoa que ela modifique para melhor sua atual vida cotidiana, enquanto se prepara para o futuro, para a vida eterna.
Em suas atividades Pr. Santos cuida prioritariamente das questões religiosas, mas também lida com questões da vida cotidiana. As pessoas o procuram e pedem orientações sobre diversos aspectos do viver, e ele lhes dá atenção quando isso ocorre, pois para ele, ser cristão não significa ficar imune e isento das situações cotidianas do viver. Antes, entende que o cristão também enfrenta problemas, e precisa estar atento a eles, para evitá-los ou resolvê-los, e mais ainda, precisam ter alguém que o ampare nestas situações. Por isso, quando muitas vezes ele é procurado pelas pessoas, compreende que também é sua função atendê-las em tais situações, e oferecer o suporte que elas necessitam.
Mas, apesar de pensar assim, e de ser requisitado pelas pessoas de sua congregação quando enfrentam problemas, o Pr. Santos é um líder religioso cristão que não buscou uma formação em psicologia. Ele não se sente preparado para atender satisfatoriamente as expectativas das pessoas em determinadas situações, e sente que muitas vezes é solicitado para ir além da sua formação, que é teologia. Mesmo assim, ele não buscou alguma formação especifica, nem mesmo em psicologia, para lidar com estas outras questões humanas.
Ele entende que o cristão tem sua vida afetada nas diversas áreas, e que muitas vezes quer orientações especificas que são mais adequadas quando dadas por uma pessoa que tem mais do que a formação em teologia, mesmo assim ele nunca desejou buscar a psicologia, porque acha que não precisa ser psicólogo para ser um bom pastor.
Alega, ainda, que não buscou uma formação em psicologia porque ele não tem tempo para clinicar, para ser terapeuta, e também porque não quer fazer as duas práticas ao mesmo tempo, ser pastor e ser psicólogo. Para ele, o trabalho pastoral ocupa demais o seu tempo, e com isso ele não tem condição de dedicar-se à prática terapêutica. Ele entende que se alguém passa tantos anos dedicando-se à formação de psicologia, não pode simplesmente concluir os estudos e não atuar como psicólogo. Então, se por causa de suas ocupações pastorais ele não vai ter tempo para atender as pessoas dentro do devido período que uma terapia requer, então prefere não fazer um curso de psicologia.
Para ele é suficiente fazer o trabalho pastoral, e, se perceber que aquilo que faz não está sendo suficiente para atender devidamente as pessoas, então ele prefere encaminhá-las a um profissional, a um psicólogo. Mais do que fazer tudo sozinho, ele acha mais adequado, indispensável até, ter parcerias com outros profissionais.
Mesmo assim, ele acha que um pastor que busca uma formação em psicologia pode fazer um trabalho pastoral mais efetivo. Embora ele mesmo não tenha buscado uma formação em psicologia, nem se interessa em buscar, Pr. Santos, contraditoriamente, entende que um pastor que tem formação em psicologia é mais eficaz em suas atividades pastorais, pois compreende melhor o ser humano, e tem recursos para realizar algum aconselhamento com mais eficiência.
Ele assume que muitas vezes se sente despreparado quando tem que realizar algum aconselhamento, e reconhece que seus colegas que têm a formação em psicologia têm melhores condições para lidar com as pessoas. Reconhece que eles têm técnicas e recursos que são importantes em algumas situações. Mesmo assim, quanto a ele, o que prefere é continuar sem uma formação em psicologia, e encaminhar a psicólogos as pessoas que estão em situação que ele reconhece não conseguir dar conta.
Pr. Santos não acha necessário fazer uma formação em psicologia, mas ao mesmo tempo não dispensa o trabalho dos profissionais dessa área. Ele é pastor, mas é ciente que a dimensão espiritual não é suficiente para resolver todas as questões das pessoas. Enquanto pastor, ele lida com os aspectos religiosos, mas, quando questões do cotidiano surgem e ele não consegue dar o apoio necessário à pessoa, ele a encaminha a um psicólogo. Faz isso porque entende que as questões psico-emocionais são complexas, e requerem a participação de um especialista.
Em sua compreensão, um líder religioso cristão não deve pretender resolver todas as questões, seja buscando outra formação para se sentir mais capacitado, seja recorrendo à prática de milagres. Para ele, Deus dotou os seres humanos com diversas habilidades, e cada um deve ser valorizado na sua área de atuação, assim, Pr. Santos entende que a sua atuação como líder religioso se dá dentro de certo limite, e quando finalmente este limite é alcançado, então ele conta com os profissionais da psicologia.
Para ele, não é necessário buscar todas as formações que acha que vão que lhe ajudar no trabalho pastoral, mas dar valor a cada área do conhecimento e trabalhar em parceria com os profissionais dessas áreas. Para ele, estes profissionais nem precisam ser membros da mesma denominação na qual ele atua, desde que respeitem a atitude religiosa da pessoa a ser atendida, e que tenham o propósito de ajudar esta pessoa.
Com tal atitude, Pr. Santos considera a psicologia e a religião como domínios que devem dialogar, respeitando cada um seus próprios limites e atribuições, bem como os limites e as atribuições do outro. Para ele, psicologia e religião apresentam atitudes que se aproximam em alguns pontos, e que se distanciam em outros. Se aproximam porque ambos atuam com o mesmo objetivo, que é promover o bem estar humano, e se distanciam porque aspectos ideológicos de cada um produzem, às vezes, discursos diferenciados.
Ele entende que a religião atende necessidades específicas que as pessoas têm no âmbito espiritual e também psico-emocional, mas que chega um momento quando ela se sente limitada, e então somente a psicologia pode fazer algo, pois considera que a psicologia tem uma forma de olhar os problemas, e um jeito de agir para ajudar a pessoa, que a religião não tem. É pela peculiaridade que cada uma possui para atender o indivíduo, que Pr. Santos considera que psicologia e religião deveriam atuar mutuamente, e terem uma relação de respeito uma à outra.
Em sua experiência como líder religioso cristão, ele sente que a parceria psicologia-religião preenche uma lacuna do seu pastorado. Embora não tenha feito uma formação em psicologia, Pr. Santos não despreza o saber que a psicologia proporciona. Ele entende que por mais benefícios que a religião proporcione às pessoas, não deve ser sua pretensão ofuscar, substituir, ou mesmo descartar, os benefícios da psicologia. Assim, enquanto líder religioso, quando necessário ele recorre ao trabalho dos profissionais da psicologia, e considera que em sua experiência pastoral a relação psicologia-religião é de complementaridade, de cooperação e não de conflito.