tudo do texto literário
O instrumento metodológico que defendemos nos estudos da narrativa contem- porânea se sustenta na concepção de texto de Adam (1990) e na noção de hermenêu- tica, presente nos trabalhos de Paul Ricoeur. Nosso intuito é propositivo no sentido de demarcar o distanciamento epistemológico existente na pesquisa contemporânea sobre narrativa, a qual precisamos revisar, de maneira que não se caia nas amarras do estruturalismo exacerbado, mas também não se careça de procedimentos teórico- metodológicos que sirvam como sustentação do trabalho de produção e recepção de texto literário.
Um primeiro posicionamento não explicitamente comparado, mas teoricamente posto é quanto ao pensamento estruturalista que tem servido de parâmetro teórico- metodológico para a linguística no que diz respeito à análise de narrativa. E aqui, estamos tomando como referência de diálogo um importante expoente da linguís- tica contemporânea: Jean-Michel Adam. Este é, em muitos momentos desta tese, tomado como sustentação teórica, mas essa sustentação não é total, pois em outros momentos discordamos de seu modelo. Por exemplo, não é difícil de perceber, neste autor, uma nítida dicotomia teórica. Por um lado, na sua concepção de texto salienta perspectivas multidimensionais (dimensão composicional, dimensão pragmática, ...) como ferramenta de análise textual; por outro lado, nos seus exercícios de análise de narrativa, acentua a dimensão composicional do texto, expressa na sua proposta de sequência textual, a partir da ideia de unidade inerente às macroproposições. No entanto, da sua noção de texto, caremos com a abordagem conguracional que, sem dúvida, apresenta estratégias de textualização fundamentais para nossa proposição de uma hermenêutica narratológica.
O segundo posicionamento é também nos distanciarmos dessa perspectiva abso- luta de fragmentação textual e das proposições enunciativas, pois defendemos que toda produção do texto tem suas mediações. Nem tudo é fruição puramente, como nem tudo está estruturalmente determinado. Mas, entre o incondicionado do pensar e as marcas fronteiriças do texto, existe a experiência humana. Mesmo na produção
literária, a "variação imaginativa"6 da experiência com o texto congura-se como
acontecimento.
Em Adam (1990), o texto literário tem caráter heterogêneo e interdiscursivo. O texto na sua formatação pragmática expressa as práticas de linguagem. E em Ricoeur (1994, 1995, 1997) o texto ccional estabelece mediações entre mundos discursivos, ou precisamente, entre o mundo do texto e o mundo do leitor. O texto literário não padece de uma dispersão de sentido ou problema de coerência textual de modo que não sejam permitidas interações, pois existem, na construção da narrativa, processos de mediações hermenêuticas entre os seus constituintes: tempo, sujeito e intriga.
Considerando a concepção de texto de Adam (1990, 21), veremos que a forma- ção constituinte do texto passa por um processo de construção que tem seu nas- cedouro nas práticas discursivas desencadeado por múltiplos processos, tais como: a formação discursiva, os interdiscursos e os discursos de ação. As formações dis- cursivas explicitam tanto as instituições discursivas como as formações imaginárias com suas interações sociais. Os interdiscursos compreendem os gêneros e subgê- neros dos discursos. Estes processos ganham incorporação linguística através das enunciações conguradas nas orientações argumentativas, ou seja, enunciação, se- mântica/referência seguidas de proposições textuais. Por último, o texto está an- corado em duas dimensões de textualização: a dimensão sequencial e a dimensão pragmática (conguracional), como podemos ver na na gura 1 (ADAM, 1990).
Esta noção de texto de Michel Adam é imprescindível para que possamos pro- por ferramentas teóricas e metodológicas com um mínimo de cienticidade para o pensamento da cultura contemporânea. Para operar com texto, faz-se necessário es- tabelecer uma interação sócio-discursiva proeminente, particularmente, na narrativa ccional.
Seguindo a perspectiva de texto discursivo em Adam, entendemos a narrativa como um produto de uma construção textual tanto no seu plano estrutural como na sua orientação pragmática7, que é o plano da interação com as situações de mundo.
6Termo cunhado por Ricoeur (1997) no sentido de estabelecer uma relação entre a experiência do
tempo histórico e a experiência da cção em torno do tempo. A cção, diria eu, é uma reserva de variações imaginativas aplicadas à temática do tempo fenomenológico e a suas aporias (RICOEUR, 1997).
7(...) a pragmática compreende o estudo das relações que a língua estabelece com o mundo
Figura 1: A dimensão sequencial e a dimensão pragmática
Neste sentido, cabe considerar a obra Tempo e Narrativa de Paul Ricoeur (1994), que é passa pela leitura que o autor faz da Poética de Aristóteles.
Por tratar de narrativa, esta obra vai adequar-se muito bem à fundamentação de nosso projeto, pois, através do estudo da tríplice mimese, o autor articula três momentos da compreensão textual.
A primeira mimese denominada por Adam (1992) de plano da preguração, é o momento de angariar material para fornecer a textualidade. É a intriga como composição de ações enraizadas no pré-construído, ou seja, a intriga como represen- tação de ações que se sustentam nos saberes dos sujeitos e se conguram como a memória do que o texto leva em conta, para se apresentar de forma inteligível. Para compor a narrativa, o escritor, ou o historiador, se apoia no pressuposto de obser- vação do leitor. Portanto, para estabelecer a intriga no texto, é necessário antes
pré-compreender o que se dá com o agir humano, levando em conta a sua semântica, seu simbolismo e sua temporalidade, com o propósito de favorecer a conguração da narrativa.
A segunda mimese, que se situa no plano da sucessão e da conguração, é a sistematização do enunciado, ou seja, o objeto da narrativa. Construir uma intriga é articular um conjunto de sucessões de ações e dar-lhes uma coerência de um todo organizado que tem um começo e um m, separados ou juntos e em algum momento do texto, facilitando a compreensão do leitor (ADAM; REVAZ, 1997).
Neste momento da conguração da narrativa, os constituintes de base do texto literário (sujeito, tempo e intriga) têm função de mediação, mediação entre acon- tecimentos individuais e a história como um todo, ou seja, a história narrada. É pensando de forma dialética que aceitamos a mimese II como o momento da con- guração textual. Este traço é um dos argumentos que denem a função mediadora desses constituintes. Outro argumento coloca a intriga como mediação dominante por seus caracteres temporais, como arma Ricoeur (1994, 104):
na medida em que o ato de tecer a intriga combina em propor- ções variáveis duas dimensões temporais, uma cronológica, a outra não-cronológica. A primeira constitui a dimensão episódica da narrativa: caracteriza a história enquanto constituída por aconte- cimentos. A segunda é a dimensão congurante propriamente dita, graças à qual a intriga transforma os acontecimentos em história.
O terceiro momento da mimese, ou plano da reguração, institui a interseção entre o mundo do texto e o mundo do leitor. A interseção do mundo congurado pelo poema e do mundo no qual a ação afetiva exibe-se e exibe sua temporalidade especíca (RICOEUR, 1994, 110) explicita a atividade da reguração. Este momento
é o processo de reconguração da narrativa, ou seja, é a experiência que a leitura desencadeia através da interseção leitor sobre o mundo narrado e mundo das ações deste sujeito empírico. A reguração é o efeito produzido pelo texto, não é exterior ao próprio texto e à sua signicação. Portanto, a narrativa realiza seu propósito comunicativo de sentido quando é restituída ao tempo do agir em mimese III. Por isso, a conguração da sequência do texto nos coloca o problema do tempo pensado em conceito. Para Ricoeur (1994, 111), na medida em que o mundo que a narrativa regura é um mundo temporal, a questão que se coloca é de saber qual socorro uma hermenêutica do tempo narrado pode esperar da fenomenologia do tempo.
Portanto, operar com hermenêutica do texto narrativo é lidar com cada parte do texto como um todo, esboçado através das três mimeses. Isso signica que, em torno da conguração efetuada pela relação entre os sujeitos discursivos, desdobram- se dois processos que são levados em conta neste círculo tridimencional. O círculo conguracional se torna assim uma das mimeses (II), que agora se encontra entre duas outras. Ela é precedida pela preguração ou mimese I e sucedida pela regura- ção ou mimese III. Nós poderemos apresentar as três mimeses da seguinte maneira (FERREIRA, 1999):
Figura 2: A conguração do texto narrativo
Estas três mimeses constituem um processo de conguração ou unidade global do texto, com o qual Paul Ricoeur tenta demonstrar que o tempo é estruturado como uma narrativa (récit). A passagem pela narrativa marca a elevação do tempo do mundo do texto ao tempo do mundo do homem. Essa noção de tempo se dá num processo de negociação através do sujeito presente nos três momentos da mimese.
Assim, pelo processo das três mimeses, Ricoeur edica conjuntamente uma te- oria do texto e uma teoria da ação. As mimeses descrevem o duplo aspecto do texto. De um lado, ele não é a coisa à qual ele se refere, quer dizer, ele não se metamorfoseia com sua referência, mas de outro lado, ele invoca o referente, ele é uma "representação"ou "imitação"daquilo a que ele se refere. Este duplo aspecto condensa a força e a fraqueza do texto, de onde se origina o funcionamento dialético das três mimeses.
Portanto, a partir da noção de narratologia contemporânea, que estamos as- sumindo, desenvolveremos, nos capítulos seguintes as noções contemporâneas dos constituintes de base (sujeito, tempo e intriga), que sustentam a concepção de nar- rativa e um esboço metodológico desta teoria. Este estudo nos insere na perspectiva da linguística textual que contém a teoria da narrativa como estratégia de textuali-