Com o avanço das tecnologias, os indivíduos ampliaram suas possibilidades de comunicação e manifestação. Não é proposta desta pesquisa compreender se essa ampliação tem sido positiva ou negativa, mas compreender a construção de narrativas midiáticas para falar sobre o outro no jornalismo de caráter policial. Segundo Donskis (2014, p.12), fazemos parte da nova narrativa humana que saiu do épico, da saga e do romance para se projetar nas telas de TV e nos monitores dos computadores ou aparelhos de celulares. Por isso, afirma Donskis, a partir das reflexões baumanianas:
Unificar pensamento e ação, abertura pragmática e ética, assim como razão e imaginação, se torna um desafio para o jornalismo, exigindo não apenas a estratégia sempre autorrenovada de representar e elaborar o mundo, apreender e debater os problemas, promover o diálogo – mas também um tipo de escrita que não crie barreiras onde estas deixaram de existir há muito tempo. O desafio é uma busca da sensibilidade, de novas formas de agir de maneira adequada aos seres humanos, busca que, em estrita colaboração com as ciências humanas e sociais, cria um novo campo global de compreensão mútua, crítica social e autointerpretação. Sem a emergência desse tipo de campo, não fica claro o que está à espera da filosofia, da literatura e do jornalismo. Se eles caminharem juntos, vão sobreviver e se tornar mais importantes que nunca. Caso se separem ainda mais, todos nos tornaremos bárbaros (BAUMAN; DONSKIS, 2014, p. 13).
Nesta perspectiva, duas manifestações do novo mal serão identificadas pelos autores: a insensibilidade ao sofrimento humano e o desejo de colonizar a privacidade alheia. A primeira manifestação pode ser observada nas narrativas sobre violência construídas no jornalismo policialesco da Amazônia paraense.
Portanto, o mal não está confinado às guerras ou às ideologias, segundo Donskis (2014, p. 16), mas se “revela com mais frequência quando deixamos de reagir ao sofrimento de outra pessoa, quando nos recusamos compreender os outros, quando somos insensíveis e evitamos o olhar ético silencioso”. Assim, destacamos o ódio como um mal na contemporaneidade.
O ódio, tanto quanto o amor ou qualquer outro sentimento, faz parte da natureza humana e por isso não pode ser ignorado ou ter sua existência negada. Góes (2004, p. 9) explica que “fonte de representações e desejos inconscientes, o ódio se apresenta com várias
faces, sendo o narcisismo uma das mais salientes, à revelia de nossa percepção e cognição e do bloqueio de nosso acesso à inteligência”.
Muito mais do que um sentimento negativo e de aparência agressiva, o ódio pode se apresentar, em um primeiro momento, em uma atitude amistosa, acolhedora e que aproxima. Porém, aos poucos ele mostra sua real intenção, que é se autoafirmar e destruir o outro, visto como inimigo ou o dono do objeto de desejo daquele que odeia.
Na compreensão do que seria o ódio, devemos entendê-lo de forma conceitual em que:
Etimologicamente a palavra ódio provém do latim odium e é sinônimo de inimizade, aversão, fastio, indignação, cólera, furor e pode ser definido como sentimento de profunda inimizade, paixão que conduz ao mal que se faz ouse deseja a outrem. Ira contida, rancor violento e duradouro. Viva repugnância; repulsa, horror. Aversão instintiva, antipatia. (MOURA, 2016, p. 13).
Mas sua delimitação é configurada de forma complexa, considerando as várias áreas do conhecimento de sua compreensão. E é com o criador da Psicanálise, Sigmund Freud que iniciamos nossas reflexões. Segundo Freud (2004), o ódio antecede ao amor e seria fonte de obtenção do desprazer. Sua função seria perturbar o equilíbrio do sujeito e ele estaria presente no indivíduo desde as suas primeiras relações.
Freud (1930) considera que o homem tem tendência a agressividade, logo este sujeito não é um ser pacato que só reage quando é atacado. Pelo contrário. Para o autor essa agressividade seria uma espécie de empecilho para o desenvolvimento da cultura, considerada por sua vez como a “pulsão da vida”, enquanto a “pulsão de morte” seria a própria agressividade e a hostilidade.
O pesquisador acredita que amor e ódio têm aspectos radicalmente distintos, mas enxerga que há algo, uma espécie de “pulsão”, que pode transformar facilmente um no outro, pois são sentimentos geralmente dirigidos a um mesmo objeto, ou seja, extremos de uma mesma paixão. Para o autor, tanto um quanto outro estão associados à sexualidade do indivíduo, o que significa dizer que não é somente o amor que impulsiona e alimenta o desejo do sujeito, as perversões sexuais, por exemplo, podem ter origem em sentimentos de ódio e repulsa que ocasionam impulsos/desejos mal resolvidos.
Freud aponta que os pares antiéticos que estão relacionados ao amor são: amar/odiar; amar-odiar/indiferença; e amar/ser amado. Logo, a relação estabelecida pelo autor é que o amor andará sempre de mãos dadas com o ódio, daí a explicação para a confusão feita entre ambos. É o que o autor chamará de ambivalência afetiva (FREUD, 1915).
O psicanalista francês Jacques Lacan é autor do termo “amódio”, usado para mostrar o quanto amor e ódio são sentimentos entrelaçados. Segundo ele, não há nenhum amor sem ódio e somente “a verdadeira amor desemboca no ódio”17
. Todos os seres humanos têm a capacidade de amar e odiar com a mesma intensidade, por mais que sejam treinados social e moralmente para abafar sentimentos negativos dentro de si, pois ele é o elemento responsável por desestabilizar a harmonia, daí o motivo da sua negação no processo civilizatório. (LACAN, 1985).
Amor, ódio e ignorância são o trinômio passional ao qual Lacan acredita serem as paixões fundamentais dos seres. O ódio está presente na vida dos indivíduos em todas as esferas (macros e micros) e, segundo Lacan, somente este sentimento é capaz de justificar a destruição do outro.
Se o amor aspira ao desenvolvimento do ser do outro, o ódio quer o contrário, seja o seu rebaixamento, seja a sua desorientação, o seu desvio, o seu delírio, e daí a negação detalhada, a sua subversão. É nisso que o ódio como amor é uma carreira sem limite (LACAN, 1986, p. 364).
O ódio pode ser um sentimento calculado, segmentado, socialmente aceito e brutal, pois tem a capacidade de destruir tudo aquilo que há por onde passa. Não se trata, portanto, de um sentimento que repele, principalmente se suas causas e consequências forem justificadas pelo bem de todos. O ódio mobiliza a agressividade e a crueldade colocando uns contra os outros. Não há limites para ele e isso se torna ainda mais perigoso quando sua existência é negada, e no silêncio da ausência de discussões ele ganha raízes e forças para se perpetuar. O ódio está sempre no outro e nunca em nós mesmos.
O filósofo André Glucksmann (2007), um dos principais autores contemporâneos sobre os discursos de ódio, afirma que sobreviver neste século é sobreviver ao ódio. Filho de judeus alemães que fugiram do nazismo, o autor sentiu o ódio de muito perto quando escapou ainda criança dos campos de concentração, durante o Holocausto.
O ódio existe, todos nós já nos deparamos com ele, tanto em escala microscópica dos indivíduos como no cerne das coletividades gigantescas. A paixão por agredir e aniquilar não se deixa iludir pelas magias das palavras. As razões atribuídas ao ódio nada mais são do que circunstâncias favoráveis, simples ocasiões, raramente ausentes, de liberar vontades de destruir simplesmente por destruir. (GLUCKSMANN, 2007, p. 11).
Falar e não ouvir, ignorar opiniões, diferenças, não reconhecer todos como cidadãos, achar que seus direitos são superiores ao dos outros ou ‘alimentar’ sentimentos de raiva são aspectos que em comum habitam o campo da intolerância, e levam a outros sentimentos de
natureza negativa como o descaso e o ódio. De acordo com Glucksmann (2007, p.83), “para o ódio não existem fatos, apenas interpretações”.
O ódio acusa sem saber. O ódio julga sem ouvir. O ódio condena a seu bel- prazer. Nada respeita e acredita encontrar-se diante de um complô universal. Esgotado, recoberto de ressentimento, dilacera tudo com seu golpe arbitrário e poderoso. Odeio, logo existo. (GLUCKSMANN, 2007, p. 11).
O autor também vai refletir sobre o paralelismo entre amor e ódio, consideradas paixões de importância equivalente e que jamais se interferem, o que se mostra uma visão contrária às afirmações de Freud e Lacan. Segundo o autor, a partir do pensamento de Heidegger, há nesses sentimentos “duas maneiras de ser (Grundweisen) fundamentais que irrigam inteiramente a existência (Dasein).” (HEIDEGGER, 1971 apud GLUCKSMANN, 2007, p. 191). O autor vê amor e ódio como dois trens que passam lado a lado, seguindo caminhos opostos, que em algum momento se cruzam, mas que jamais se tocam. Segundo Heidegger,
Depois de eclodir, o ódio não se dissipa, ele apenas cresce e se cristaliza, corrói e devora nossa essência. Essa inacessibilidade constante que se estabelece na existência humana pelo ódio não o torna, porém, nem recluso, nem cego, mas lúcido e deliberado. A cólera faz perder o juízo. O ódio exacerba a consciência e a capacidade de reflexão de quem o possui, até alcançar os requintes mais sutis de perversidade. O ódio nunca é cego, mas sim clarividente; apenas a cólera é cega. O amor nunca é cego, ele também é clarividente. Somente o estado de enamoramento é cego, instável e imprevisível; mas esse é um afeto, não uma paixão. Cabe à paixão expandir- se para além dela mesma e tomar conta de tudo. No ódio se produz, igualmente, esse tipo de expansão, porque ele persegue sem cessar e por toda parte seu objeto. (HEIDEGGER, 1971 apud GLUCKSMANN, 2007, p. 50- 51).
Para Glucksmann (2007, p. 188), o ódio nunca se dá por satisfeito, por mais devastadoras que sejam as suas ações. “É o ódio de si que brota o ódio pelo outro”, em outras palavras, odiamos no outro aquilo que se encontra mal resolvido em nós mesmos, aquilo que não pode ser verbalizado ou discutido, ou seja, está escondido. Por isso, enxergar essa condição em outro indivíduo desperta nossos maiores temores, logo colocamos para fora nossos sentimentos de rejeição e raiva em forma de intolerância e ódio.