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Essa pergunta ficou por certo tempo em meu pensamento, provocando inquietação. Penso que uma Tese, não deva ter como objetivo único, e nem mesmo o principal, a atribuição de um título de doutor a outrem ou a conquista deste por alguém. Isso me causa(va) incômodo. Não pretendo (ou pretendia) fazer um trabalho para ter um título. Por mais pomposo que este seja. Trata(va)-se, individualmente (e politicamente), da busca pela construção de um trabalho que pudesse ter uma contribuição social mais consistente; que, realmente, cumprisse uma função social. Função ampla faz-se importante ressaltar.

Uma Tese deve servir a ciência certamente, mas, em especial, deve ter fins práticos (que não devem ser reduzidos, ou confundidos, com fins pragmáticos) e, estes devem estar voltados para o cumprimento de um papel, um propósito frente a sociedade. Uma Tese nunca deve ser um trabalho a mais, pautada (portanto) no trivial. Ao contrário. Deve poder causar incômodo; incomodar não somente a ciência diretamente ligada ao desenvolvimento epistemológico do trabalho, mas sim, os diversos setores da sociedade em geral; devendo proporcionar, e não somente propor, mudanças.

Definido isso (que uma Tese não deva ser qualquer trabalho e que deva cumprir uma função social), o passo seguinte deveria comportar a escolha de o quê estudar e a partir de onde (em termos de escala espacial e teórica) estudar, para, por conseguinte, definir os “por quês” de contribuir e “como” contribuir. Para um brasileiro, um brasileiro amazônida, essa é uma tarefa que, ao mesmo tempo, é pródiga e ingrata. Pródiga no sentido da amplitude em relação ao universo de observação, interpretação e análise possibilitado pela região.

Poderia estudar diferentes espaços na/da Amazônia e muito provavelmente teria um ambiente de pesquisa rico e complexo e, portanto, desafiador pela frente para dar conta. Mas, minha escolha (ou toda escolha) pressupõe deixar de lado uma infinidade de outras realidades e “recortes” que, não só são analítica e concretamente diferentes, como também possuem necessidades politicamente diferentes. A partir desta segunda definição, sobre os propósitos de uma tese, fiz a opção por atender “os pacientes” em estado mais grave. Alguns em “estado terminal” inclusive.

Da opção entre realizar um estudo sobre uma Rede Urbana em particular ou um dado Sistema Urbano, certamente valioso objeto de pesquisa, o quê, em um primeiro momento me seduzia, voltei-me, não obstante, para buscar o entendimento da questão de como a vida de determinados sujeitos sociais na Amazônia é ceifada, ainda que estes continuem a perambular pelo mundo. Seres que ocupam um lugar no espaço, mas perderam sua condição espacial (CARLOS, 2011). Transformando-se em “vagantes”, seres existenciais, seres corpóreos, porém “sem vida”.

“Vida” aqui entendida como a representação de uma condição espacial digna, onde o social e os diferentes espaços de/da sociabilidade representam mais satisfação, ao indivíduo e à coletividade, do que “lamento e dor” (MAGALHÃES, 2007). A Amazônia é um espaço onde muitos “vagantes ganham vida”, e quem atribui essa “vida” aos vagantes são, em especial, o Estado (seja este de atuação local, regional e/ou nacional) e o Capital, sobretudo, o grande capital, seja este de atuação nacional e/ou internacional. Ou seja, falar de Amazônia é (também) falar das mazelas de sua sociedade, e isso, constitui- se no ingrato da/na história desta região.

As impossibilidades de pesquisar discutir diferentes realidades nesta “formação socioespacial” (SANTOS, 2005 [1977]), trouxeram-me a necessidade de escolher. Precisava reduzir para ampliar. Fiz, então, a escolha por discutir os impactos, os agravos socioespaciais à vida das pessoas que moram e constroem suas trajetórias tendo por intuito (pensado desde o princípio ou não) enraizar-se em um dado lugar e que, em virtude de vários e distintos eventos, passam a experienciar à condição de mortos-vivos da noite para dia, tendo em vista a agressividade do que é chamado na região de “Grandes Projetos” – e aos quais vamos nos referir, tal qual SANTOS (1995) o fez como “grandes objetos” – buscando assim evidenciar as diferentes intencionalidades que acompanham a fabricação de um objeto técnico e sua implantação em um dado espaço, ou “formação socioespacial”.

Para quem um dado projeto é “grande”, no entanto, seria só uma das muitas questões a serem feitas. O fato é que, estes “grandes objetos” (SANTOS, 1995) acabam por promover, a partir de suas dinâmicas, a desestruturação da “condição espacial” de distintos e múltiplos sujeitos, promovendo assim, a morte espacial destes. Morte essa não somente expressa pela perda de um território (substrato material); ou pela perda de uma casa (entendida enquanto um bem imóvel patrimonial).

A morte, a que estamos nos referindo, é expressa a partir da perda de referência material e simbólica de um dado sujeito; o que implica, indissoluvelmente, a perda de uma dada “condição espacial” (CARLOS, 2011), de uma dada espacialidade (MASSEY, 2000; 2004; 2008). Sujeito este que teve não “somente” sua casa (seu ponto de apoio logístico, sua moradia) subtraída e destruída, tendo, portanto, algo muito maior arrancado de si, ou seja, não há de se falar em “território recurso” somente, mas, principalmente, em “território abrigo” (SANTOS, 2000). O subtraído e destruído destes sujeitos são: sua dimensão cotidiana de vida, seu modo de vida e suas referências de mundo; bem como, suas lembranças (lembranças feridas!), sua lugaridade (lugaridade agredida!), seu sentido de reconhecimento existencial e identitário.

Seus sentidos de orientação espacial foram apagados, destruídos. Alguém que comanda a matrix amazônida e que a comanda, muito possivelmente, de fora; que está longe dali, quilômetros e quilômetros, apertou o botão “delete” da vida de muitos. Mas, (pode o leitor indagar) é possível um cenário deste? É possível que isto aconteça? Isso existe na Amazônia? No que respondemos: Sim existe! E tem nome pomposo: “Belo Monte”.

O Grande Projeto em evidência neste trabalho, e sobre o qual dedicamos anos de estudo (mais de seis anos), é a Usina Hidrelétrica de Belo Monte24, objeto técnico localizado no Estado do Pará, em plena Amazônia brasileira. Por que Belo Monte? E para quem Belo Monte? São algumas das perguntas que buscamos responder ao longo do trabalho.

Não obstante, para entender a lógica da geração de energia – a partir da exploração dos rios e da degradação da vida em sua dimensão integradora, ou seja, a socioespacial –, é preciso (primeiro) entender a lógica de atuação do capital ligado à extração mineral, à expansão (ininterrupta) do agronegócio, e o aumento da demanda de diferentes setores da indústria no Brasil (setores que destinam seus produtos quase sempre à exportação). A comercialização do Alumínio no cenário internacional, por exemplo, é garantida pela construção e operação, de cada vez mais numerosas usinas eletrointensivas, indispensáveis a viabilidade desta atividade extrativa, industrial e comercial de grande impacto socioambiental.

24 A UHE Belo Monte está sendo construída no rio Xingu, em área que abrange os municípios de Vitória do Xingu, Altamira e Brasil Novo na Amazônia Oriental, Estado do Pará (sudoeste paraense).

Não obstante, a qual “Belo Monte” se faz alusão? A Belo Monte do Governo Brasileiro? A Belo Monte do empreendedor e seus apoiadores? A Belo Monte/Monstro combatida pelos defensores dos direitos humanos e dos órgãos de assistência jurídica? Ou a Belo Monte dos atingidos socioespacialmente? Falaremos sobre cada uma delas. Melhor que isso, veremos, como cada uma destas “Belo Monte”, é concebida e apresentada pelos diferentes agentes em questão e pelos distintos sujeitos socioespacialmente atingidos pela obra.

Para tanto, é importante ressaltar, que a apresentação destas “Belo Monte” é dada a partir de pesquisa realizada em diferentes documentos (a exemplo de documentos oficiais de instituições e/ou repartições públicas, de empresas, secretarias de governo, autarquias, institutos, universidades, relatórios técnicos, parecer técnico de cientistas e estudiosos do empreendimento) que foram lidos e estudados há, pelo menos, seis anos, portanto, antes do início desta tese e a partir de distintas fontes, tais como: reportagens de veículos de comunicação os mais variados (jornais televisivos, jornais impressos, site de notícias da mídia grande, sites de notícias não hegemônicos, sites de notícias contra hegemônicos, documentários, publicações científicas).

Soma-se a essas ações, uma minuciosa pesquisa de campo realizada nos

municípios (portanto, não somente nas cidades) de Altamira e Vitória do Xingu, ambas no

Estado do Pará, Amazônia brasileira tendo por intuito enxergar/conversar com os socioespacialmente atingidos pelo objeto UHE Belo Monte. Contudo, o que se fazia/fez nessas repetidas viagens25 ao referencial empírico da pesquisa, qual seja a região do Xingu – como é chamada pelos integrantes dos movimentos sociais à formação

socioespacial onde se encontra o grande objeto UHE Belo Monte – e, como se buscou enfrentar os desafios lançados e postos pelo desenvolvimento do trabalho, é o que buscamos evidenciar no item subsequente.

25 Ao todo foram seis viagens à região objeto de observações e pesquisa, tendo por intuito, ao longo destes quatro anos, o levantamento de dados e informações para a Tese. O tempo de permanência na cidade de Altamira e região variavam conforme os interesses e objetivos estabelecidos para as diferentes etapas da pesquisa. Houve ocasiões em que o tempo de permanência foi de três meses e outras, em que este tempo foi de dez dias. Os trabalhos de campo, sempre muito cansativos e caros, mostraram-se, também, recompensadores. O convívio junto aos socioespacialmente atingidos e aos movimentos sociais nos proporcionaram experiências extraordinárias, seja do ponto de vista acadêmico seja do ponto de vista humano. Em síntese, muitas foram as lições e os ensinamentos herdados a partir dos mesmos.

1.2 – Pensando o Objeto: a construção do objeto de pesquisa para além de aprioris e posteriori.

Conforme Marre (1991), quando da construção do objeto de pesquisa (de nossas pesquisas), deve-se atribuir atenção e importância às “descontinuidades” presentes na transformação do pensamento científico. Segundo este, o capital cultural assimilado pelo sujeito, dialetizado através do conhecimento dessas descontinuidades, é o passo principal, no processo de construção de um objeto científico. Afirma esse autor que, o fazer científico dar-se a partir de um recomeço crítico do passado (de um passado) e, da criação/construção de novos produtos. Não obstante, quais os caminhos (passos, fases) envolvidos na construção de um objeto científico?

Dialogando com Bourdieu e outros, Marre (1991) defende que as etapas do processo de elaboração do objeto científico encaminham-se a partir de “dois momentos”, quais sejam: a) o da proposição/construção da “dialética ascendente”; e b) da operacionalização da “dialética descendente”, sendo o da “dialética ascendente da construção do objeto” o primeiro destes. Neste primeiro momento, o importante é mostrar que, a ciência, quando da interpretação e análise da realidade, diferentemente de uma “sociologia espontânea” (a do senso comum), se faz por outras perspectivas teórico- analíticas.

Objetiva-se mostrar ainda que,

“(...) a construção do objeto, e a eficácia de um método de pensar nunca se manifesta tão bem como na sua capacidade de constituir objetos socialmente insignificantes em objetos científicos ou, o que é o mesmo, na sua capacidade de reconstruir cientificamente os grandes objetos socialmente importantes, apreendendo-os de um ângulo imprevisto” (BOURDIEU, 1989, p. 20 apud MARRE, 1991, p. 09).

Não obstante, faz-se importante ressaltar que, a construção de um objeto de pesquisa, passa antes pela escolha do tema de pesquisa, a definição do que estudar, sendo essa etapa de suma importância. Escolher um tema é eleger um dado aspecto da realidade como relevante para uma investigação e, isso, segundo Marre (1991) guarda relação com o ato de adotar uma atitude política em presença de um sistema de valores.

Sistema de valor este que, pode inclusive está ligado à crença e concepções de mundo do pesquisador o que, de forma alguma, invalida a escolha do tema26.

Não obstante, como se escolhe o tema?

Por meio da adoção de uma atitude científica! Atitude que deve ser capaz de expressar um momento de ruptura em relação a um modo menos rigoroso e sistemático de pensar. Colocado isso, podemos agora tratar sobre a definição do tema deste trabalho: os impactos, de natureza socioespacial, causados pela construção de grandes empreendimentos, “os Grandes Projetos”, à escala da vida das pessoas há muito localizadas nos espaços onde são implantados estes empreendimentos. Almeja-se, portanto, discutir as transformações socioespaciais desencadeadas por “grande projeto” de reconhecido impacto territorial à dinâmica de uma dada porção do espaço geográfico: a subregião da Transamazônica e Xingu.

Como, todavia, optamos por desenvolver o tema?

O desenvolvimento da temática proposta deu-se a partir da eleição de subtemas, dentre os quais vale destacar: a) a relação entre Estado e Capital na Amazônia e o processo de construção/reconstrução do espaço e preparação do território por meio, de um “sistema de engenharia” (SANTOS, 2004) capaz de atender aos interesses do grande capital que atua na região; b) a importância de lideranças de movimentos sociais e suas práticas de resistência e (re)existência na Amazônia paraense a partir, de uma discussão que valoriza o debate sobre o lugar e a lugaridade e; c) por fim, por meio da proposição de um debate que aborda o “desenvolvimento geográfico desigual e os direitos universais” (HARVEY, 2004), tratando assim a Amazônia sob uma perspectiva escalar (multiescalar).

Para tanto, faz-se necessário construir uma relação entre o tema (subtemas) escolhido e a abordagem teórica a ser adotada, isto porque, conforme (MARRE, 1991, p. 11),

Quando se considera a história da ciência como um todo, verifica-se que nenhum objeto relevante do ponto de vista científico foi constituído

26 Sobre este ponto afirma o autor: “[...] o fato de esse ato envolver valores próprios a uma personalidade e

relativos à sua concepção da vida, não quer dizer que o tema escolhido não seja objetivo. Pelo contrário, pode ser dotado de um significado altamente valioso, não somente para o indivíduo que o escolhe, mas igualmente para outros que adotam ou simplesmente reconhecem aquele sistema de valores .” (MARRE, 1991, p. 10).

somente a partir da observação imediata e pura do processo em si mesmo. Pelo contrário, essa observação imediata, da realidade dada na sensibilidade, tende a ser relativizada, para introduzir no modo de observar um ponto de vista teórico, que modifica substancialmente a percepção e a constituição do conteúdo empírico do objeto a ser investigado. Não se trata apenas aqui de referi o objeto a valores que orientaram sua seleção, mas de mostrar que a construção qualitativa do mesmo não ocorre sem a inserção do cientista dentro de um quadro teórico de referência, que lhe fornece um ponto de vista muito diferente da observação imediata.

Ou seja, para Marre (1991) não é possível desvencilhar teoria e prática. E, a partir de outros epistemólogos, afirma este autor que “a experimentação é teoria materializada” (BARCHELARD, 1984; 1990 apud MARRE, 1991) e que, a demonstração empírica na realidade é uma “teoria em ato” (Bourdieu, 1989 apud MARRE, 1991), demonstrando ainda, que não somente as experiências consideradas válidas pelo pesquisador são fundadoras sobre uma teoria, mas o(s) próprio(s) meio(s) pelo(s) qual(is) é possível construí-la, realizá-la, materializá-la, constituindo assim uma “teoria encarnada” (Koyré, 1966 e 1986 apud MARRE, 1991).

Não obstante, qual a importância, e quais os propósitos, de todo este cuidado metodológico? Conforme Marre,

“(...) na perspectiva ascendente e dialética de uma construção do objeto, o que se deseja salientar é justamente a introdução de um ponto de vista teórico no processo de construção do objeto. O passo que consiste em introduzir na observação uma perspectiva teórica, na realidade é, ao mesmo tempo a negação de qualquer observação imediata e sua substituição qualitativa por um modo novo de perceber o fenômeno ou processo ou fato observado. Não se vêem as mesmas coisas no fenômeno observado, se essa observação é feita a partir da observação imediata ou a partir de um ponto de vista teórico (...)” (1991, p. 12)

Outro momento na/da construção do objeto, etapa subsequente à escolha do tema e a relação deste com a abordagem teórica é o que possibilita a criação de um sistema de relações hipotéticas, capazes de estabelecer estreita ligação com processo observado. No momento da “dialética ascendente” é necessário atribuir ao objeto um tratamento teórico, posto que, é da relação entre abordagem teórica e objeto científico que surge (insurge) um conteúdo renovado e/ou original do objeto.

Renovado e/ou original, tendo em vista ser a resultante da relação empiria versus teoria estabelecida, por ocasião da construção do objeto. Para tanto, adverte-nos o autor,

deve-se ter cuidado com “os desejos de realidade”, pois existindo desacordo entre o material empírico e o (os) preceito(s) teórico(s), tem-se como produto a falsificação da teoria27.

Daí a necessidade de se aprofundar no concernente à proposição da teoria, bem como em formular (caso necessário) questões secundárias. E de pensarmos sempre em termos relacionais a partir da formulação da(s) hipótese(s) para que assim, a realidade não seja distorcida pelo acúmulo de teoria do pesquisador. Por exemplo, quando da discussão sobre os agentes contrários à construção da UHE Belo Monte e dos agentes favoráveis à mesma, um olhar apressado, poderia afirmar que, de um lado estariam os empresários e de outros os trabalhadores. No entanto, a realidade é bem mais complexa que nossas clássicas polarizações sociológicas.

Para o caso de Belo Monte, “dispositivos de alianças” foram criados como forma de “amansar” os críticos mais vorazes, silenciando-os a partir de uma espécie de cooptação econômica, mas também ideológica, jogando, dessa forma, toalhas quentes em um quadro de conflitos abertos e historicamente construído. A cooptação de lideranças indígenas e de alguns movimentos sociais (lideranças e movimentos estes que eram antes, fervorosamente, contrários a construção da UHE Belo Monte), complexifica e ao mesmo tempo destrói, a clássica polarização analítica entre burgueses e operários. No que se destaca ainda, a postura de empresários e políticos de posicionamento majoritariamente favorável à obra, mas que, vieram a mudar de lado, ao longo do processo de implantação da mesma.

A compreensão das articulações políticas que permeiam as relações que envolvem os bastidores de Belo Monte (uma plausível compreensão), deve se atentar para a existência de micropoderes locais. Seu funcionamento e articulações, bem como atentar- se para a conjuntura de interação integração de poderes (distintos poderes) em diferentes escalas de ação.

Aos moldes de Bachelard (apud MARRE, 1991), a de se falar aqui em “totalidade sintética a priori” que, nada mais são do que proposições teórico-conceituais não retiradas 27 Ou seja, “No que diz respeito à construção dialética ascendente, a relação assim formulada ou o conjunto de relações entre objeto e teoria são na realidade proposições formuladas teoricamente por antecipação. São proposições capazes de veicular e expressar as propriedades de determinado material empírico evidentemente de um modo hipotético (MARRE, 1991, p. 13)”.

diretamente da teoria, mas formuladas a partir das pressuposições da teoria. Ou seja, no próprio objeto empírico, terão de se encontradas e apontadas às propriedades que derivam das relações constituídas no (e constituintes do) nível teórico.

Para Marre (1991), é possível, a partir da escolha de um tema, desenvolver-se todo um sistema de hipóteses teóricas por meio de uma dialética ascendente! Adverte-nos, entretanto, o autor, sobre não ser possível avaliar um problema de pesquisa se não quando todo o processo ascendente tenha sido, pelo menos, formulado hipoteticamente. Essas são, em síntese, as etapas da dialética ascendente. Avancemos, então, a fase seguinte, “a construção da dialética descendente”28.

A partir do entendimento e da concordância em relação à proposição de Marre (1991), buscamos construir nosso quadro contexto hipotético, fundamentando este a partir da defesa de três premissas centrais, que se apresentam enquanto estruturantes mesmo da pesquisa. A primeira é de caráter epistemológico e refere-se ao entendimento de que o espaço geográfico deve ser compreendido, analisado e explicado como uma tríade, qual seja: o espaço-tempo (sempre como unidade); a consideração da técnica como expressão maior da força criadora e destrutiva dos homens sobre o espaço; e a escala, dimensão analítica (espacial-conceitual-metodológica) de qualquer investigação geográfica. Ainda sobre a escala, é importante ressaltar que,

Nada pode ser explicado apenas numa escala, mesmo que estejamos nos referindo à escala internacional. Toda a compreensão requer a articulação entre as escalas, ou seja, a avaliação dos modos, intensidades e arranjos, segundo os quais os movimentos se realizam e a dinâmica e os processos se desenvolvem, combinando interesses e administrando conflitos que não se restringem a uma parcela do espaço (...) (SPOSITO, 2013, p. 130).

A segunda premissa busca contemplar, de maneira mais intensa, a dimensão política dos processos de natureza social. Trata-se da leitura da ação dos movimentos sociais, que atuam na formação socioespacial do Xingu desde os anos 70 do século XX. Buscar-se-á demonstrar aqui, por meio da apresentação da fala/depoimento de alguns 28 Para MARRE (1991, p. 16): “(...) A questão que se coloca na análise da dialética descendente, agora, é saber como transformar o problema formulado em uma sequência de atos operacionais, de tal forma que se permita a concretização e viabilidade empírica da investigação. A questão não é fácil de solucionar porque ela implica como Bachelard o expressou que aquilo que foi objeto de raciocínio ascendente, na realidade