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Assim como há diversidade em dimensões naturais como visto acima, a Amazônia é espaço de diversidade étnica e cultural, tanto dos povos que habitam primitivamente a região, quanto dos povos que nela chegaram. Esse processo de diversificação e de encontro e desencontro de povos não se dá apenas na dimensão

dialógica, mas principalmente dialética, isto é, contraditória, quando se olha para o contexto global de ocupação da Amazônia.

O jornalista Manuel Dutra entente que todo processo de dominação tenta transformar em discurso, em realidade, determinados conceitos que facilitem o processo de dominação. Para ele, por exemplo, “os europeus, espanhóis e portugueses, inventaram o índio” (MANUEL DUTRA, entrevista ao pesquisador em junho de 2013). E é preciso entender historicamente que a Amazônia foi construída ideologicamente a partir de interesses colonialistas. Para aqueles que pensam a história amazônica como a história de um vazio populacional, Dutra lembra que “em 1637 quando Cristovam de Acunha desceu de Quito até Belém ele contou 150 nações com suas línguas e culturas, somente na calha do rio Amazonas, pois não adentrou na região” (MANUEL DUTRA, entrevista ao pesquisador em junho de 2013). Segundo o professor Dutra,

a visão primeira do europeu é foi uma visão de dentro do navio para as margens dos rios. Eles não penetraram na mata, não penetraram nos afluentes como o Xingu, onde muitos povos habitam e habitavam o local. Os mundurucus só foram encontrados muito mais tarde, o que eles viram foram os Tapajó que estavam aqui na beira do rio Amazonas. Então Cristovam de Acunha contou só na beira 150 povos que ele diz com línguas diferentes, culturas diferentes, etc. Eram povos distintos, com línguas distintas, inclusive que em determinados momentos eram inimigos, que brigavam e faziam guerra. Então, havia uma diversidade grande (MANUEL DUTRA, entrevista ao pesquisador em junho de 2013).

A diversidade no espaço amazônico, de acordo com Manuel Dutra, é negada em função da necessidade de homogeneidade construída ideologicamente e historicamente para dominar. Lembrando-se ainda dos colonizadores do Brasil, ele destaca que

Para ter o controle, imagine que Portugal, um país minúsculo, paupérrimo na época, cheio de miséria, mandando seus miseráveis pra cá, tinha que assumir geopoliticamente a região. Uma das maneiras foi dizer “são índios”, como se fosse uma coisa só. E isso ficou na nossa mente hoje, como se fosse o mesmo povo, e são povos bem diferentes. Inclusive, chegou o momento em que eles criaram uma língua geral, Nheengatu, que foi uma tentativa de aprofundar essa homogeneização forçada, pra poder dominar, pra poder falar com eles, pra poder se entender com eles, pra dominar melhor. E através desse Nheengatu inventado pelos missionários se passaram então todos os conceitos que interessavam ao dominador (MANUEL DUTRA, entrevista ao pesquisador em junho de 2013).

Dutra lembra ainda das correntes imigratórias em diversos momentos da história da Amazônia. Quando Pombal decidiu trazer escravos da África, foi um

momento forte em que o capitalismo nascente precisava de mais mercadorias; Portugal precisava de mais mercadorias para fazer face à sua própria subsistência, e, permanentemente, a Amazônia foi um campo de atração. E, nos últimos cinquenta anos, com garimpos, com a busca de terras mais férteis, criou-se o mito da “terra pobre”, no entanto até hoje se mata na Amazônia por causa de terra, em um discurso contraditório, porque as pessoas se matam por algo que não tem valor. Assim,

Se você olhar mil artigos científicos [estes] dirão que as terras da Amazônia são fracas, no entanto aqui tem uma imensa produção de soja, de arroz, milho e outros grãos. Aí é bom perguntar aos cientistas onde está a fraqueza desta terra e por que as pessoas se matam tanto na Amazônia por causa de terra. Depois veio a SUDAM – Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia e junto com dezenas de outros planos como Polo Amazônia, o Projeto Grande Carajás que não era apenas a instituição de uma mina de ferro, mas o projeto de ocupação de todo o sul do Pará. E antes mesmo destes planos dos militares, os sulistas estavam chegando, vieram instalar-se na Amazônia, assim como os catarinenses também vindos pelo Projeto Rondom (MANUEL DUTRA, entrevista ao pesquisador em junho de 2013).

Além de olhares e interesses de outras regiões do Brasil, a Amazônia também é alvo dos olhares estrangeiros. Do ocidente ao oriente, ela é cobiçada como lembra Manuel Dutra:

A história também registra que quando estava terminando a guerra civil nos Estados Unidos, no correr dos anos 1860, houve a proposta da embaixada norte-americana ao Imperador de trazer a população não branca daquele país para ocupar a Amazônia, havendo essa tentativa em muitos outros momentos, sendo que, na própria história de Santarém, inúmeras famílias norte-americanas vieram aqui se instalar. E a Amazônia foi sendo vista aos olhos do mundo como um espaço aberto às necessidades dos outros, do ocidente e o oriente, pois para a Amazônia vieram vários japoneses e os chineses também tentaram vir em épocas passadas (MANUEL DUTRA, entrevista ao pesquisador em junho de 2013).

Ainda com relação ao discurso construído sobre a Amazônia como espaço vazio, ou seja, que haveria um imenso “vazio amazônico”, como se na região não existissem muitos habitantes e sim uma imensa floresta ocupada em grande parte por animais sem a presença de humanos, Dutra também afirma que esse discurso foi construído historicamente. A visão de um imenso espaço, cheio de recursos naturais e com quase ninguém foi construído ideologicamente buscando atrair o mundo para cá. Para Manuel Dutra, a Amazônia não era vazia no passado e nem é hoje. Diz ele: “Se a gente for ler o Robert Carneiro que veio aqui e pesquisou nas décadas de 1950 e 1960, vamos perceber que ele contradiz a noção do ‘vazio’. Ele

diz que a calha do rio Amazonas era ocupada de modo tênue e de modo extenso” (MANUEL DUTRA, entrevista ao pesquisador em junho de 2013). De acordo com as leituras e pesquisas de Manuel Dutra, no que diz Robert Carneiro, “não havia grandes aglomerações, mas se você saísse da Ilha do Marajó até os confins do rio Amazonas e Solimões você iria encontrar gente e isso na calha, imagina pra dentro” (MANUEL DUTRA, entrevista ao pesquisador em junho de 2013).

Com relação à diminuição da grande população que já existiu na região amazônica, Dutra é firme em reconhecer que, além do esvaziamento simbólico discursivo de interesse do colonizador, hoje um esvaziamento concreto em algumas áreas da região, com a destruição em massa de inúmeros povos e nações indígenas. Diz ele:

Esse pensamento histórico do “espaço vazio” foi construído não só no discurso, mas com ações que dizimaram povos inteiros. Segundo alguns cronistas, só no Grão Pará e Maranhão, mais de dois milhões de pessoas nativas foram abatidas nos primeiros trinta anos de colonização, por doenças, trabalhos forçados e campanhas de extermínio. Se a gente for olhar mais ao norte do continente, o Bartolomé de las Casas, que veio como soldado viu a desgraceira toda que os espanhóis estavam fazendo, matanças sistemáticas, voltou para a Espanha, tornou-se religioso franciscano e retornou como missionário e testemunha que de 13 a 15 milhões de pessoas foram dizimadas só nos primeiros 40 anos de colonização. Então houve um esvaziamento simbólico e concreto. E a noção de espaço vazio correu o mundo (MANUEL DUTRA, entrevista ao pesquisador em junho de 2013).

Assim, muitas pessoas vieram e vêm para a Amazônica ainda hoje em busca dessa imensa terra vazia, homogênea e uniforme, aberta ao mundo todo. E, assim, as ONGs hoje estão também em um vácuo, ocupando outro espaço vazio, vazio não de pessoas, mas vazio da ausência dos governos, ou do estado. Muitas instalam-se nos bolsões florestais e lá trabalham com os nativos, povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos que passam a ter contato com técnicas e tecnologias resultantes da expansão capitalista no mundo.

Não é objetivo e muito menos pretensão deste trabalho enumerar, catalogar, classificar, selecionar e analisar as organizações não governamentais presentes na região amazônica. Mas, optou-se por analisar uma delas, a ONG Projeto Saúde e Alegria (ONG-PSA), devido ao seu trabalho estar relacionado ao objeto desta pesquisa, ou seja, a dimensão de convergência em suas ações comunicativas, culturais e educacionais, do seu discurso à sua prática.