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O tópico anterior estabeleceu o acontecimento histórico da transferência da capital de Goiás (engendrada nos anos de 1930) como efeito fundador da formação discursiva memorialista de Goiás. Nesse sentido, postula que, embora o memorialismo não seja uma “invenção” moderna ou contemporânea, a irrupção desse acontecimento provoca, no âmbito histórico-ideológico de Goiás na modernidade, um agenciamento de saberes que vão representar as demandas de uma nova ordem sócio-histórico-ideológica. Pela articulação de
práticas (discursivas e não-discursivas, conforme Foucault), organiza-se, portanto, sob o signo da heterogeneidade, o saber próprio de uma formação discursiva, que se constitui a partir de determinadas relações de classe e de condições de produção específicas.
Considerando-se que os saberes de uma formação discursiva se constroem no espaço necessariamente heterogêneo do interdiscurso – constituído pelo conjunto das formações discursivas –, é possível ver que ocorre, no interior desta FD, um movimento de reorganização dos seus saberes. Esse processo de reconfiguração, embora não promova a ruptura das fronteiras da formação discursiva, inscrevem, nela, diferentes formas de relação do sujeito enunciador com a forma-sujeito, instaurando, assim, novos modos de agenciar e enunciar sentidos no interior da FD.
É o que ocorre com a discursividade tematizada neste estudo. Instituídos, histórica e discursivamente, a partir do acontecimento da transferência da capital de Goiás, os efeitos de sentido sobre o velho e o novo instauram, no plano histórico-social de Goiás, uma formação discursiva marcada pela regularidade de seus enunciados. Entretanto, dada a dinâmica histórico-ideológica e a heterogeneidade do interdiscurso que constitui os saberes desta FD, desenrola-se, nos domínios da formação discursiva memorialista de Goiás, um processo discursivo que engendra a enunciação memorialista em Vintém de Cobre. Ou seja, o processo discursivo determinado pelo interdiscurso e pela conjuntura histórico-ideológica, instaura, no âmbito da FD memorialista de Goiás, a posição-sujeito hegemonicamente assumida pelo sujeito enunciador de Vintém de Cobre. Essa posição-sujeito caracteriza-se, neste estudo, por um movimento patrimonialista que, no entanto, direciona sentidos para a dessacralização do passado, e se constitui sob o signo da dispersão, nos funcionamentos discursivos de que as seqüências a seguir constituem apenas uma mostra:
Tanta pobreza a contornar.
Tanto sonho irrealizado, tanto abandono.
A pobreza em toda volta, a luta obscura
De todas as mulheres goianas. No pilão, no tacho, Fundindo velas de sebo, no ferro de brasas de engomar. Aceso sempre o forno de barro.
(VC, p. 33)
Antes de se ocupar da análise das relações entre o intradiscurso de Vintém de Cobre e o seu interdiscurso constitutivo, cabe, a este trabalho, discutir as condições de produção de uma posição-sujeito que abriga a enunciação memorialista de Vintém de Cobre e delineia as formas de relação do sujeito enunciador dessa manifestação discursiva com a formação discursiva memorialista de Goiás.
Como já se enfatizou no tópico anterior, o movimento histórico-discursivo da transferência da capital de Goiás instituiu uma cisão entre o velho e o novo, que inscreveu uma musealização de certas representações do passado. Essa dinâmica da preservação culminou, na década de 1950, com o movimento de tombamento da velha Goiás, aqui considerado como efeito fundador da posição-sujeito predominantemente assumida pelo sujeito enunciador de Vintém de Cobre.
Após a mudança da capital goiana, empreendeu-se, via IPHAN (órgão federal responsável pela criação do Patrimônio Nacional) e a partir das ações da Organização Vilaboense de Artes e Tradições (OVAT), um conflituoso processo de monumentalização de Goiás. Esse processo, que se desenrola desde a década de 1950, passou por diferentes fases, que constituíram, segundo Delgado (2005), diferentes narrativas patrimonialistas. A esse respeito, a autora assinala a divergência entre as concepções de patrimônio assumidas por diferentes gestões do IPHAN. Enquanto a narrativa patrimonialista da administração Rodrigo Melo Franco de Andrade – instituída de 1937 a 1960 – se construía em relação à história oficial, o discurso de uma outra vertente, representada pela gestão de Aloísio Magalhães – 1979/1984 – incorporava “noções oriundas do campo da antropologia”. Segundo Delgado
(2005), essa discursividade propunha que as práticas do IPHAN se ocupassem da identificação, documentação, classificação, proteção e divulgação dos bens culturais brasileiros, “produtos, sobretudo, do fazer popular, que estão inscritos na dinâmica viva do cotidiano”.
Nesse contexto contraditório, rivalizam-se, pois, uma atitude saudosista em relação ao passado – cujas representações, não raro, constituem uma elite social e afirmam o “trauma insuperável da mudança” – e uma posição preservacionista, capaz, no entanto, de vislumbrar um futuro promissor constituído pelo turismo e pelos investimentos na revitalização e conservação da cidade. Funcionando como efeito de unidade desta segunda posição, a enunciação memorialista de Vintém de Cobre se constrói, dialogicamente, constituindo efeitos de sentido que derivam para a ressignificação do passado e para a manifestação de confiança no futuro construído pelo trabalho:
Aqueles que acreditam Caminham para frente
E podem ser chamados Ludovico, Kubitschek. Aqueles que duvidam
Põem pedras e tropeços Nos caminhos dos primeiros. Jamais construtores.
Capangueiros. Aproveitadores. (VC, p. 152)
A análise desta conjuntura histórico-discursiva fundamenta alguns gestos de interpretação dos efeitos de sentido que se constituem na enunciação memorialista de Vintém de Cobre. Não se interessando, prioritariamente, pelas condições imediatas de publicação da obra Vintém de Cobre, este estudo reflete sobre a formação histórico-discursiva de uma dada discursividade, que se estabelece, sob a determinação do interdiscurso, e em meio à luta de
classes (onde, a propósito, se confrontam posições aristocráticas, favoráveis à manutenção de uma ordem tradicional ameaçada pelo tombamento de Goiás, e uma posição identificada com o novo paradigma advindo da patrimonialização e da exploração turística). Sendo assim, o fato de que Vintém de Cobre foi publicado, no ínício da década de 1980 – quando se desenvolve um surto de memorialismo iniciado, no panorama internacional, a partir dos anos de 197044 –, bem como determinados aspectos biográficos de Cora Coralina45, não são a entrada principal desta análise das condições de produção das seqüências discursivas de Vintém de Cobre. Tais elementos participam destas condições, mas não podem se sobrepor, numa abordagem discursiva, à trama interdiscursiva constitutiva da formação de uma FD e do processo que, no interior desta formação discursiva, determina a irrupção de um acontecimento enunciativo, aqui designado enunciação memorialista em Vintém de Cobre. Dessa forma, na perspectiva discursiva assumida por este estudo, tem relevância a constatação de Huyssen (2000), que identifica a:
disseminação de uma cultura da memória a partir da década de 1970, uma verdadeira musealização do mundo com marcas bastante evidentes, como a crescente preocupação com a revitalização dos velhos centros urbanos, a difusão de práticas memorialistas na literatura e nas artes visuais.
44 Ao lado de uma produção literária nitidamente memorialista, desenvolveu-se, no decorrer do século XX, um
movimento teórico de revisão crítica dos dogmas centrais da historiografia, herdados do projeto moderno/iluminista típico do século XIX. Alavancado por autores como Nietzsche, Bergson, Proust, Joyce, Maurice Halbwachs e Walter Benjamin, entre outros, este processo rompeu com uma concepção que restringia a relação com o passado à prática historiográfica tradicional. Na ótica desses autores, esta historiografia, considerada, até então, como a ciência do passado, pecava por se inscrever num modelo mimético, marcado pelo paradigma da representação, e por apagar a memória coletiva sob uma “linearidade limpa do percurso ascendente da história” (SELIGMANN-SILVA, 2003, p. 394).
45 Em 1956, localiza-se o acontecimento enunciativo que pode ser tomado como efeito inaugural da prática
memorialística de Cora Coralina. Com O Cântico da Volta – publicado imediatamente após o retorno da poetisa à sua terra natal, de onde se afastou por 45 anos –, instaura-se o movimento da escrita topográfica de Goiás (cf. DELGADO, 2005), que arregimenta uma nova identidade para o então “centro histórico e patrimonial”. Implicado no movimento de tombamento de Goiás, esse acontecimento compôs uma rede discursiva que reorganizou, via interdiscurso, a discursividade memorialista engendrada, no contexto goiano do século XX, a partir da disjunção entre o “velho” e o “novo” Goiás, derivada da transferência da capital do estado.
Da mesma maneira, pode-se ver alguma significação na retomada literária, a partir dos anos 70, de uma exploração proustiana da memória, como pintura de um “minucioso afresco da sociedade” (SANTOS, 2002). Pode-se, inclusive, confirmar a tese de Benjamin (1993, p. 41), que sintoniza a (pós) modernidade com o empreendimento da memória em Proust, onde “a volta no tempo liga-se a um desejo de vencer o tédio do presente e descortinar o passado como uma fonte de felicidade”. Ou, ainda, se pode concluir, numa reflexão sobre a ênfase nos processos memorialísticos da modernidade, que “esse fenômeno seja reativo, ou seja, que surja como reação e reavaliação das práticas do passado ou, contrariamente, como resistência à perda de um passado mais confortável, estável, previsível” (FERREIRA & ORRICO, 2002, p. 8). Todavia, diante dos propósitos estabelecidos para este estudo, é preciso considerar que “se a necessidade de memória é universal, as práticas de memorialização são culturalmente determinadas por redes discursivas que envolvem fatores de diferentes ordens – míticos, históricos, políticos, etc”. (FERREIRA & ORRICO, 2002, p. 8). Mais precisamente, é preciso reiterar a ordem da constituição discursiva do sujeito, que se dá sob a dependência do interdiscurso e determinada por condições de produção sócio-histórico-ideológicas específicas, jamais circunscritas às circunstâncias imediatas de enunciação.
Não obstante esta configuração discursiva da análise proposta neste estudo, é justamente no âmbito das situações de enunciação que residem os interesses do tópico a seguir. Nele, são discutidos elementos da cena enunciativa, que compõem as condições de produção de uma seqüência discursiva de referência, mas que, dada a natureza discursiva desta pesquisa, instauram-se frente a uma concepção do discurso como instância acontecimental.