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Que tipo de público tinha o teatro de Fortaleza em 1918, quando surgiu o Grêmio Dramático? Edigar de Alencar, comentando o fracasso de um espetáculo, informa-nos que:

Por volta de 1918 foi representado no Teatro José de Alencar por um grupo de amadores o drama com tinturas de mágica – A Invasão da

194 QUINDERÉ, 2008, p. 23-24, grifo nosso.

195 TINHORÃO, Ramos. Música Popular: teatro e cinema. Petrópolis: Vozes, 1972, p. 67. 196 QUINDERÉ, 2008, p. 24.

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Bélgica – de Carlos Severo. Um fracasso.O espetáculo patriótico não sendo muito bem realizado resulta sempre em desastre, não se salvando as intenções. Com uma plateia como a cearense, muito

pilhérica e nem sempre bem comportada, dificilmente a

representação medíocre transcorre com calma.197

Os jornais da época de Carlos Câmara no teatro (1919 a 1939) aludem à plateia do Grêmio Dramático Familiar sob dois aspectos: o quantitativo e o dito qualitativo. A expressão “a casa esteve à cunha”, figura tão frequente nos não menos frequentes comentários sobre as burletas de Carlos Câmara quanto à ressalva do caráter familiar e seleto do público198.

Adolfo Carneiro testemunhou que:

No Grêmio, quase se conheceu a glória. Seus espetáculos

conseguiram arrastar para o teatrinho incômodo, no bairro de Joaquim Távora, um público seleto, que se agachava para passar na pequena e estreita porta, indo até o fundo do quintal, onde estava armado o palco.199

E acrescenta que “Toda Fortaleza, representada por todas as classes sociais, assistiu ali às peças de Carlos Câmara. Toda gente assobiava as suas músicas, cantava as coplas e repetia as finíssimas pilhérias e anedotas admiravelmente encaixadas no enredo das peças”, e para finalizar:

Via-se, nas noites de espetáculo, dezenas de automóveis nas

portas do acanhado teatro. Seus proprietários, ao saírem após

terminada a função, o fígado desopilado pelas espontâneas gargalhadas, chegavam-se ao José Pamplona e recomendavam-lhe, encarecidamente, reservar suas cadeiras para o próximo festival. O Grêmio foi uma prova frisante de quanto pode uma instituição

organizada sob segura direção e orientada no interesse de bem

servir ao público.200

O público do Grêmio era composto de todas as classes sociais. Do mais humilde à autoridade máxima do Estado, o governador. Como o terreno do teatrinho era (inicialmente) de terra batida, “A cadeira do governador J. Tomé de Sabóia enterrava-se tanto na areia que precisava o povo ir ajudar a retirá-la.”201

197

ALENCAR, 1985, p. 73-74.

198 GUILHERME, 1981b.

199 CARNEIRO, 1985, p. 58, grifo nosso. 200

Ibidem, p. 59, grifo nosso.

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Mas se a longo prazo venceu a corrente que empregava o teatro paroquial, o teatro musical não morreu totalmente. O sucessor de Carlos Câmara, no gênero e seu continuador no Grêmio, foi Silvano Serra que depois se firmaria na comédia de costumes. Para Adolfo Carneiro:

Silvano Serra escreveu Trinca de Damas e Tudo na Sombra, ambas musicadas pelo inspirado compositor conterrâneo que foi Paulo Neves. A primeira, uma burleta fina, leve, bem urdida, desopilante, de difícil montagem, um primor de diálogo com um desfecho encantador, não alcançou meia dúzia de representações. A segunda também não alcançou o sucesso que merecia, por ser uma magnífica comédia, delicada, que poderia figurar no repertório de qualquer grande companhia.202

E aponta as causas:

O público estava viciado com as pilhérias de Carlos Câmara,

encantado com seu humorismo, embasbacado com os seus coronéis, docemente embalados pelas canções de seus galãs. Os amadores viviam perfeitamente identificados com a escola de teatro criada pelo seu comediógrafo. Sim, porque Carlos Câmara criou uma “nova ordem” em teatro, desconhecida de todos e em tudo: melodia e humorismo, um misto de revista e drama, que soube explorar com argúcia. E esta “nova ordem” domina ainda em nossos dias, porque não possuímos um autor mais profundo do que o saudoso burletista, alguém que, com inteligência, urdisse as tramas admiráveis, os enredos interessantíssimos e purezas sociais que caracterizariam o teatro moderno.203

Esse público, totalmente heterogêneo, é que fez o Grêmio apresentar e remontar os mesmos textos, despertando, em nós, a curiosidade para saber o total de récitas, numa época em que não era hábito esse tipo de registro.

B. de Paiva calcula em cerca de 400 o número de récitas de todas as peças de Carlos Câmara pelo Grêmio Dramático Familiar. Provavelmente o número é subestimado. O Grêmio durou 21 anos, estreando em agosto de 1918 e encerrando suas atividades em abril de 1939, tendo uma fase de temporada fraca (janeiro 1924 a junho 1925), portanto, uns 236 meses. Como dava espetáculos, normalmente e com certa regularidade nos fins de semana (sábados e/ou domingos), e cada mês tem, em geral, 4 fins de semana, chegamos a 944, que deve ser uma estimativa mais aproximada, embora para cima. Como deveria haver algum tipo de intervalo,

202

CARNEIRO, 1985, p. 60.

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acreditarmos que 800 seria o número de récitas mais provável, mas estamos no terreno da especulação.

O repórter que o entrevistou em 1923, escreveu que “Carlos Câmara é um esforçado escritor de teatro, já tendo meia dúzia de apreciadas vaudevilles com mais de 30 encenações cada uma: A Bailarina, O Casamento da Peraldiana, Zé Fidélis, Calú, Alvorada e, por último, Os Piratas.”204 Isso para suas cinco primeiras peças.

Adolfo Carneiro em 1943, historiando a atividade do Grêmio, escreveu: “O Grêmio montou peças de diversos autores, escritas para seus amadores, nenhuma logrando o sucesso das burletas de Carlos Câmara, pois estas eram buriladas pelo espírito arguto de seu autor, inegavelmente o único comediógrafo que gozou, no Ceará, o prazer espiritual de ver suas produções alcançarem, sem esforço, perto de

cinquenta representações cada uma.”205 Isso para uma cidade de 100 mil habitantes.

204 CÂMARA, Carlos. Inquérito literário. O Nordeste, Fortaleza, 11 maio, 1923. 205 CARNEIRO, 1985, p. 60.

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3 UM TEATRO FALADO EM BRASILEIRO

A verdade é que nem sempre os autores sabem reconhecer as suas obras-primas. Sobretudo quando estas lhe brotam da imaginação sem qualquer esforço, com a espontaneidade e a naturalidade dos organismos vivos.206

Assim Renato Viana avaliou a obra dramática de Carlos Câmara, no Almanaque do Ceará, de 1922:

Depois que me meti em teatro, e que escrevi peças, e que discuti teatro no Brasil, é a primeira vez que sinto as emoções de um teatro brasileiro, escrito por brasileiro, representado por brasileiro e falado em brasileiro. Falado em brasileiro! Que deliciosa surpresa para um escritor brasileiro!

Que tipo de teatro era esse, quais suas características, o que lhe é peculiar? É o que veremos neste capítulo.

Não seria incorreto dizer que Carlos Câmara foi a maior figura da história do teatro cearense de todos os tempos. Toda afirmação desse tipo parece precipitada ou leviana, levando-se em conta as diferenças de geração, o momento histórico, e os diversos ramos da atividade teatral, que não inclui somente a dramaturgia, mas a cenografia, a direção, a interpretação, entre outras, que, pela efemeridade do espetáculo, não podem ser devidamente julgadas pela posteridade, ficando assim o texto e os dramaturgos como grande referencial para julgamento da história. É uma distorção, mas é assim que tem acontecido. Levando isso em conta, Carlos Câmara seria realmente o nome que parece sintetizar todo o teatro que se fez no Ceará, mutatis mutandis cuja importância, digamos, é de um Shakespeare, no contexto cearense, já que o dramaturgo inglês no imaginário popular é o maior teatrólogo do mundo.

Feita esta ressalva, é bom dizer que Carlos Câmara também atuou como ensaiador, produtor, não sendo aquele intelectual distante que escreve para o palco,

206 PRADO, Décio de Almeida. Posfácio. In: AZEVEDO, Arthur. O Tribofe. Rio de Janeiro: Nova Fron-

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longe do convívio dos ensaios e do calor do fazer teatral. Sua importância vem não somente de seus textos, mas de sua atuação no seu Grêmio Dramático Familiar, um grupo com 21 anos de atuação, o qual a cidade abraçou e que construiu seu teatro com dinheiro oriundo principalmente da bilheteria.