3. Metode
3.10 Om intervjuprosessen
Até que ponto a procedência dos entrevistados (se cabo-verdianos ou timorenses) influencia a estrutura de participação e a seleção das estratégias de polidez feita por eles. O quadro 12 faz referência ao tipo de estrutura predominante nas interações dos estudantes dos dois países. Verificamos que o tipo mais frequente para os cabo-verdianos foi o tipo 01, composto por dois documentadores e um entrevistado, esse tipo possibilita uma boa dinâmica na troca de turnos e os documentadores por vezes se unificam em busca da resposta. Nesse tipo de estrutura a tensão sobre os entrevistados parece ser maior porque os documentadores insistem em fornecer pistas para que eles cheguem à resposta prevista no QFF.
Quadro 12-As estruturas de participação e suas ocorrências por procedências.
Tipo 01 Tipo 02 Tipo 03 Tipo 04 Tipo 05
CV TL CV TL CV TL CV TL CV TL
10 5 5 6 3 0 1 1 1 8
Fonte: Elaboração Própria
A estrutura mais frequente nas entrevistas com timorenses foi a do tipo 05, composta por apenas um documentador e um entrevistado. Essa interação possui uma ratificação imediata dos interagentes, geralmente possui um volume considerável de fala do documentador, que se desdobra a criar pistas e exemplos para facilitar ao entrevistado que encontre a resposta prevista pelo QFF. Há picos de simetria em alguns momentos das interações, mas podemos notar nesse tipo de entrevista a forte tendência à assimetria dada a atitude do documentador em segurar o turno por um longo tempo,o repasse do turno foi feito partindo do que Galembeck (2010) chamou de passagem requerida, assinalada por uma pergunta ou por marcadores que buscam a confirmação do ouvinte.
Outra estrutura que se destacou foi a do tipo 02, composta por um documentador, um entrevistado e um ouvinte não ratificado, que por poucas vezes se apresentava na interação, para dar uma pista sobre a resposta ou questionar alguma pergunta feita pelo doc.1.
A estrutura do tipo 03 ocorreu somente nas entrevistas com os cabo-verdianos, mostrou um bom engajamento dos envolvidos, é o tipo que reúne maior número de interagentes e possibilita a um maior trabalho de proteção a face.
Outro desdobramento dessa seção é a correlação entre a procedência e a seleção de estratégias de polidez, com intuito de verificar quais as estratégias foram mais usadas pelos falantes de Cabo Verde e de Timor Leste. Vejamos a tabela 27, abaixo.
Tabela 27-Marcadores de atenuação e a procedência dos sujeitos da pesquisa.
PAÍSES DE ORIGEM DOS
ENTREVISTADOS NÚMERO DE OCORRÊNCIAS
SOMA
01 Cabo Verde (H/M) 83
02 Timor Leste (H/M) 356
SOMA 439
Fonte: Elaboração Própria.
Os resultados contidos na tabela 27 registram 356 ocorrências de marcadores de atenuação para o Timor Leste, contra 83 para os cabo-verdianos. Como já mostramos em outro item a atenuação se desdobra em quatro, o que lhe dá amplitude para tratar sobre outros marcadores que fazem parte desse grupo: os marcadores hedges, os marcadores de opinião, os marcadores de rejeição e distanciamento. Os marcadores hedges, conforme Brown e Levinson (1987), exercem o papel de modalizadores do discurso, o que permite ao falante modificar o grau de comprometimento com aquilo que enuncia, pode ser parcialmente verdadeiro (evitando ser categórico).
Pela representação numérica das ocorrências, podemos constatar que os timorenses estavam bem mais preocupados do que os cabo-verdianos em minimizar qualquer tipo de ameaça à face do seu interlocutor ou à sua própria face. Para evitar o comprometimento com os enunciados proferidos utilizaram, em maior número, os marcadores de atenuação como estratégias de polidez para manter uma harmonia interacional.
Esperávamos que comportamentos diferentes estivessem presentes nos dois países, uma vez que representam comunidades de fala diferentes, possuem diferentes valores e habilidades linguísticas. Além de que o contexto cultural de uma sociedade segundo Ndolerire (2000) está presente nos significados socioculturais, nas unidades e variedades
linguísticas, assim também como normas sociais como expressões de agradecimento, camaradagem, consideração e expressões de cortesia.
A atenuação esteve mais presente na fala dos timorenses, talvez pelo receio do impacto que poderiam causar numa interação com estrangeiros (documentadores brasileiros), que foi menos sentida pelos cabo-verdianos. Um ponto a favor dos cabo-verdianos é seu reconhecido conhecimento da língua portuguesa, que pode facilitar sua interação com os brasileiros diminuindo a força do impacto com falantes do português. Já os timorenses, confirmado por suas próprias falas no interior da entrevista, têm pouco conhecimento da língua portuguesa, pois em Timor Leste há muitas línguas de comunicação, sendo o bahasa indonésio, o tétum e o inglês línguas concorrentes nesse país.
Ainda sobre a procedência, verificamos na tabela 28 abaixo, as ocorrências dos marcadores de aprovação/concordância cujo número de ocorrências é maior para Cabo verde, verificamos que o uso de atenuação não foi estratégia favorecedora da polidez para os cabo- verdianos, contudo a aprovação /concordância os favoreceu.
Tabela 28-Marcadores de aprovação e a procedência dos sujeitos da pesquisa.
PAÍSES DE ORIGEM DOS
ENTREVISTADOS NÚMERO DE OCORRÊNCIAS
SOMA
01 Cabo Verde (H/M) 115
02 Timor Leste (H/M) 99
SOMA 214
Fonte: Elaboração Própria.
Com maior número de ocorrências de aprovação/concordância para Cabo Verde, podemos supor que os estudantes desse país optaram pela estratégia “evite discordância”, “busque concordar”, de Brown e Levinson (1987). Pois aí está em jogo a face de um estrangeiro, frente a frente com documentadores brasileiros. O impacto entre culturas pode ser prejudicial ao andamento das entrevistas, como uma forma de amenizar esse impacto os cabo- verdianos usaram uma estratégia de polidez baseada na aprovação.
Tabela 29-Marcadores de argumentação e a procedência dos sujeitos da pesquisa.
PAÍSES DE ORIGEM DOS
ENTREVISTADOS NÚMERO DE OCORRÊNCIAS
SOMA
01 Cabo Verde (H/M) 33
02 Timor Leste (H/M) 35
SOMA 68
A tabela 29 traz os dados a respeito do uso de argumentação, considerando a procedência dos entrevistados, recorreram mais vezes aos marcadores de argumentação os entrevistados do Timor Leste, o que é um ponto a favor da preocupação com a sua imagem pública. O uso dos argumentadores caracteriza uma interação em que os envolvidos buscam o entendimento, a compreensão, muitas vezes tentam modificar alguma pendência ocorrida no inicio da interação. Podemos observar, também, que a maior incidência desse fenômeno ocorreu em posição medial, o que nos leva a conjecturar que no início do turno houve algo que precisou ser negociado, com a utilização dos argumentadores.
A tabela seguinte, de número 30, sintetiza as ocorrências dos marcadores de busca de aprovação, esse marcador vem ao encontro da estratégia de polidez, busque concordar, evite discordância. Ambas as estratégias são voltadas para o equilíbrio social, interacional. A posição desses marcadores é geralmente o final do turno conversacional, é constituído por expressões bem curtas, como né? Tá? Não? Não é? Assemelham-se com as tag question e são usadas para buscar a anuência do seu interlocutor.
Tabela 30-Marcadores de busca de aprovação e a procedência dos sujeitos da pesquisa.
MARCADORES DE BUSCA DE
APROVAÇÃO NÚMERO DE OCORRÊNCIAS SOMA
01 Cabo Verde (H/M) 157
02 Timor Leste (H/M) 123
SOMA 280
Fonte: Elaboração Própria.
O uso de marcadores de discordância foi bem maior para os cabo-verdianos, 131 ocorrências, contra 23 atribuídas ao Timor Leste. A correlação desse marcador com uma estratégia de polidez bald record, caracteriza-se pelo desejo de ser sincero, claro , verdadeiro, de ser reconhecido como aquele que abre mão dos rodeios, dos pormenores, em nome da clareza, da rapidez do discurso. As ocorrências majoritariamente no início do turno podem indicar a rapidez do entrevistado em querer responder, cooperar de certa forma. No corpus, verificamos que a discordância ocorreu predominantemente de forma mais direta, mas há casos em que ela se realizou com um equalizador diminuindo o impacto sobre a face do interlocutor.
Nos estudos de Dias (2010) os curitibanos mostraram maior probabilidade de serem mais diretos na realização de seus pedidos, contrariamente aos uruguaios que pareceram mais indiretos nos mesmos contextos. É possível que os cabo-verdianos tenham
uma propensão maior para serem mais diretos que os timorenses, considerando o uso de marcadores de discordâncias. Contudo, precisamos considerar que a concordância pode ser feita por meio de ação reparadora também.
Tabela 31-Marcadores de discordância e a procedência dos sujeitos da pesquisa.
PAÍSES DE ORIGEM DOS
ENTREVISTADOS NÚMERO DE OCORRÊNCIAS
SOMA
01 Cabo Verde (H/M) 131
02 Timor Leste (H/M) 24
SOMA 155
Fonte: Elaboração Própria.
Assim como a discordância, os marcadores de identidade de grupo também apresentaram maior número de ocorrências para os cabo-verdianos, como podemos verificar na tabela 32. Tomando o número de ocorrências como um parâmetro, podemos interpretar que os cabo-verdianos apresentaram maior engajamento com os documentadores, outro fator a favor da maior proximidade dos cabo-verdianos com os documentadores brasileiros está relacionado ao fato dos primeiros, sempre que utilizavam um marcador de identidade de grupo, faziam-no referindo-se a uma ação ou sentimento partilhado com os brasileiros, já os timorenses, referiam-se mais a uma identidade com seu povo, com sua pátria.
Tabela 32-Marcadores de identidade de grupo e a procedência dos sujeitos da pesquisa.
PAÍSES DE ORIGEM DOS
ENTREVISTADOS NÚMERO DE OCORRÊNCIAS
01 Cabo Verde (H/M) 69
02 Timor Leste (H/M) 31
Fonte: Elaboração Própria.
Os dados encontrados para os cabo-verdianos (69 ocorrências) são superiores em relação aos de Timor Leste (31 ocorrências), o que aponta para uma maior integração desses entrevistados com os documentadores. Foram os cabo-verdianos que mais buscaram se aproximar, criar um ambiente de interação, indo além das respostas que lhes foram solicitadas. Foram, também, os que mais usaram termos do dialeto do português brasileiro, como certas gírias presentes em nosso dia a dia. Notamos na interação com os cabo-verdianos que eles têm interesse em se aproximar dos brasileiros, são mais espontâneos, parecem valorizar sua face positiva, levando-nos a vê-los como pessoas que se integram.
Brown e Levinson (1987) referem-se a esses marcadores em situação de bilinguismo, mencionando que nessa situação é comum a alternância de códigos em benefício do falante, é possível, então, que os cabo-verdianos tenham selecionado sua variedade linguística com intuito de elevar sua face positiva, por isso tenham usado uma variedade mais próxima do português brasileiro. Em pesquisa sobre o inglês e o espanhol Gumperz (1982 ) percebeu que o espanhol era usado sempre que seus falantes queriam demonstrar maior envolvimento pessoal, enquanto o inglês era usado em situações de maiores generalizações e distanciamento.
Os marcadores de „silêncio‟ tiveram uma diferença significativa entre as duas nacionalidades, enquanto os timorenses silenciaram 544 vezes diante das perguntas realizadas, os cabo-verdianos silenciaram menos da metade, 240 vezes, o que pode mostrar que os primeiros, romperam a máxima da quantidade, comunicando menos do que seria necessário. Ou a sua comunicação por meio da ausência de palavras podem sugerir a preservação de suas próprias faces, diante de perguntas que buscavam uma palavra em especial, de falantes que tinham uma visão diferenciada da língua portuguesa.
Tabela 33-Marcador não linguístico „silêncio‟ e sua relação com a procedência dos sujeitos da pesquisa.
PAÍSES DE ORIGEM DOS
ENTREVISTADOS NÚMERO DE OCORRÊNCIAS
01 Cabo Verde (H/M) 240
02 Timor Leste (H/M) 544
Fonte: Elaboração Própria.
O uso mais frequente de marcadores de grupo associados ao desejo de ser cooperativo, de participar ativamente da interação exagere (interesse, aprovação, simpatia) os cabo-verdianos, como já dissemos anteriormente, mostraram um bom engajamento, a julgar pelo uso de marcadores de identidade de grupo e pela menor ocorrência de „silêncio‟ como resposta. Outro fator que pode corroborar para a construção de uma imagem positiva tal como a sua preservação é a utilização do marcador não linguístico „riso‟, que veremos em seguida.
A tabela 34 sintetiza as ocorrências do marcador „riso‟ em relação à procedência dos sujeitos da pesquisa. Com 250 ocorrências para os cabo-verdianos e 211 para os timorenses, tais números dão indicativos de que os entrevistados de Cabo Verde parecem mais simpáticos, cooperativos, brincalhões, adotam a estratégia brinque para deixar o
interlocutor mais à vontade (faça piadas). As piadas podem potencializar a identidade de grupo, uma vez que para causarem o riso necessitam de conhecimento prévio, além do conhecimento linguístico porque muitas piadas são construídas por uma quebra de expectativa realizada em torno da língua, que pode ser no âmbito da unidade de sentido (coerência) ou de uma estrutura sintática ou vocabular.
Tabela 34-Marcador não linguístico „riso‟ e sua relação com a procedência dos sujeitos da pesquisa.
PAÍSES DE ORIGEM DOS
ENTREVISTADOS NÚMERO DE OCORRÊNCIAS
01 Cabo Verde (H/M) 250
02 Timor Leste (H/M) 211
SOMA
Fonte: Elaboração Própria.
Em se tratando da procedência, aspectos culturais e sócio-históricos estão envolvidos, o que pode possibilitar, por exemplo, uma aproximação muito maior dos cabo- verdianos com os brasileiros é o conhecimento da língua portuguesa. Embora ambos tenham conhecimento da língua portuguesa, dado o período de dominação da coroa portuguesa sobre os dois países, por razões políticas, o Timor Leste tem um pequeno contigente de pessoas que falam a LP, sendo a terceira língua mais falada. Já os cabo-verdianos dão um status maior para essa língua, embora a língua de maior espontaneidade seja a língua cabo-verdiana, os estudantes dessa nacionalidade mostraram muitas similaridades com a variedade do português brasileiro, sem desmerecer as marcas do português europeu, principalmente no vocabulário..