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INTERVJUOBJEKT 3 Fase 1: Informasjon

In document Bacheloroppgave i kampanjeplanlegging (sider 25-29)

Após o episódio mencionado do encontro com o cartaz na entrada do CSU Presidente Médici, os judocas João Baiano, Isaac, Salomão, Everaldo, George e Márcio fizeram uma aula experimental com Zé Renato. Durante curto período, Everaldo Monteiro de Assis, cujas iniciais lhe conferiram o codinome Ema, conciliou os treinamentos do judô e da capoeira, até que a identificação com a prática da capoeira foi determinante para o abandono dos treinos de judô. De acordo com Assis (2013), esse fato produziu certo receio do pai, que, apesar de ter respeitado a vontade do filho, teria achado inconveniente largar essa arte marcial na faixa roxa. Outra afirmação contundente é a de que nem o jogo da capoeira, nem maculelê existiam em Fortaleza e que a prática do maculelê se mostrava ainda mais misteriosa, já que a capoeira tinha sido mostrada pela mídia em algum momento.

Vimos esse cartaz, foi em março para abril de 74[...]. Nós tínhamos todo apoio para praticar capoeira. Então a capoeira foi inserida pelo mestre Zé Renato na época, e logo ela tomou um impulso grande e a adesão foi grande também dos jovens daquela região, da Vila Militar, Jardim União. Veio muita gente praticar, mas o grupo principal era esse, era o mais adiantado e que fazia apresentações [...] Em 74 já tinha apresentação, por que a função do Centro Social era mostrar o trabalho à população. (ASSIS, 2013).

A parceria entre a capoeira e o grupo folclórico do CSU, assim como no discurso dos mestres entrevistados anteriormente, também se mostrou relevante. De acordo com Assis (2013) em 1974, o grupo de capoeira do referido CSU já era solicitado pela professora de folclore Socorro Pinto, para exibições em diversas ocasiões. Posteriormente Maristela Ataíde de Holanda assumiu o grupo folclórico e a parceria com os jovens capoeiristas que se apresentavam quase que semanalmente nos bairros de Fortaleza. Zé Renato permaneceu na liderança do grupo por pouco mais do que dois anos, momento em que viajou para assumir um cargo em Brasília. A contribuição de assistentes sociais e sociólogos, mais precisamente do sociólogo Bernardo Portela, foi fundamental para organização de várias atividades que envolviam o grupo de capoeira.

Antes de sair pra dar aula por aí a gente acampava no feriadão e nas férias, juntava a mochila, acampava e ia pro alto da Serra de Maranguape pra procurar pau de berimbau e de maculelê. Todo mundo de mochila, de barraca, era um grupo!(VASCONCELOS, 2013).

O grupo recreativo, já mencionado por João Baiano, o GRER, era composto por capoeiristas que se reuniam para acampar, tocar berimbau, jogar capoeira e maculelê. Um discurso recorrente entre os integrantes desse antigo grupo era o de que nesses momentos de lazer não havia bebidas alcoólicas, nem qualquer espécie de drogas. O que movia essa interação eram a aventura da viagem e o prazer da descoberta da capoeira, um momento de experiências práticas e em contato com a natureza, no jogo, na musicalidade, na luta e na aquisição e confecção de materiais. Nesse grupo, formou-se uma forte corrente de amizade, uma espontânea relação entre lazer e aprendizagem de grande significado para vida de todos adolescentes que dele participaram.

De acordo com Assis (2013), o tempo que Zé Renato teve com o grupo foi de grande relevância para o ensinamento dos conteúdos próprios dessa atividade, já que iniciou aí o aspecto filosófico, lúdico e musical com o aprendizado do toque do berimbau, do pandeiro, do tambor e do maculelê. Uma das peculiaridades desse grupo de capoeira e do GRER era a prática do, até então desconhecido, maculelê. A primazia da prática do maculelê ainda não foi questionada, porém é ressaltada com grande entusiasmo por mestre Everaldo Ema, que escutou atenciosamente, no momento da entrevista, a explicação de Zé Renato sobre a forma e o local onde aprendeu e recriou essa prática.

Em minhas andanças [...] Na Bahia e no Rio [...] Tem uma luta chamada a luta dos cacetes. Eu sabia desde criança a luta dos cacetes! Aí misturei uma coisa com outra. A luta dos cacetes era matuto, coisa do Ceará mesmo. Você vê no Rio Grande do Norte, na Paraíba, no Ceará e no Piauí. Os lugares que tinha, desapareceu, não sei porquê! Nós, eles aí quando menino, que a gente ia pro sítio dum amigo meu que lutava cacete. Aí nós lutava com ele, tudo tinha um motivo. Tudo que criei ou recriei, tudo eles que foram meus parceiros. Era uma escola, nossa capoeira era uma escola! (VASCONCELOS, 2013).

O potencial criativo de Zé Renato é evidenciado por mais uma vez nesse depoimento, assim com o espírito cooperativo do ressurgimento de uma manifestação cultural. Conforme já discutimos no segundo capítulo deste trabalho, admitimos mestre Zé Renato como pioneiro na formação de mestres no Estado, já que existem vestígios de capoeiristas mais antigos, como os estudantes de Medicina da Bahia. Somente grandes líderes e mestres possuem a capacidade de causar profunda identificação e sentimento de pertença em outros seres de determinada comunidade. Mesmo com a partida de Zé Renato é possível perceber que a vontade de aprender e a união entre os membros do grupo foram bem solidificadas e serviram como motores para a constante experimentação e continuidade da prática.

Certa feita fizemos a Noite do Rock! A gente promovia uma noite de rock no Centro Social pra arrecadar dinheiro pra gente viajar. Fomos pra Recife de trem jogar a capoeira lá! Fomos fazer capoeira na Paraíba e também fomos de trem pra lá! Isso mais ou menos em 77, 78. Esse grupo começou a chamar atenção do folclore, balé, música, dança, teatro. O professor Moraes colocou Bernardo Portela que era sociólogo para acompanhar o grupo. Aí Bernardo veio acompanhar a gente, ele acampava com a gente! Parece que ele foi intimado na Polícia Federal na época porque nós fizemos uma noite de rock e o cartaz tinha É proibido fumar! A polícia federal entrou lá. Teve que dar explicação! Naquela época era governo militar e a polícia era regida por militares. O Bernardo acompanhou muito o grupo, até essa fase de fazer uma proliferação maior da capoeira a gente contou com ele. (ASSIS, 2013).

A participação do sociólogo Bernardo Portela na implantação da capoeira em Fortaleza foi de grande relevância na valorização do professor, conforme veremos em seguida. Por enquanto, ressaltamos os aspectos educacionais das experiências dos jovens capoeiristas do CSU Presidente Médici, o que lhes garantiu os conhecimentos básicos para formação como mestre de capoeira. Paralelamente a isso, esses jovens

continuavam os estudos regulares e formais. A forma de Zé Renato ministrar aula de capoeira serviu de modelo a esses alunos e ainda é lembrada por Everaldo Ema quando são descritos a “conversaterapia” depois dos treinos e a profunda sensação de relaxamento. Interessante é nos deparar com um aspecto metodológico comum entre professores de Educação Física na elaboração de aulas práticas, em sequência à parte principal da aula finalizar com o que se chama de Volta à calma e Relaxamento. Durante o período em que esteve no CSU Presidente Médici são comuns relatos de dedicação e aulas bem elaboradas por mestre Zé Renato, de forma que as experiências de pouco mais do que dois anos de docência fossem o suficiente para recepção, internalização e proliferação da capoeira pelos próprios alunos.

[...] então foi assim que a gente recebeu a capoeira e nós fizemos isso e uma coisa a mais porque a vida foi nos ensinando, os contatos, nós aprendemos com as pessoas. Tudo foi somando, somando, somando. Esse lance foi bem legal!(ASSIS, 2013).

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