• No results found

Quando Georg Büchner nasceu, a Alemanha não era uma nação, o país não passava de um território semi-feudal não unificado. As aspirações sociais dos germânicos não passavam de ideias; ideias e ideais que tiveram como maior porta-voz o sistema filosófico de Hegel. Em sua última obra Princípios da filosofia do direito, Hegel arquitetou uma teoria do Estado de acordo com seu sistema filosófico dialético. Com toda a certeza uma teoria do estado faria e fez sucesso entre os compatriotas alemães que tanto almejavam uma nação; assim, tanto os pensadores quanto qualquer alemão celebraram desde os feitos dos revolucionários franceses em 1789 até a grande campanha de Napoleão Bonaparte, a filosofia dialética de Hegel e sua teoria do estado, também haveriam de ser aclamadas em sua época. No entanto, a filosofia hegeliana nunca pôde contribuir com uma real concreção da onírica ideia germânica, Hegel concretizou a ideia de um estado, mas não pôde apresentar de fato uma teoria que

levasse os alemães à unificação e a uma constituição própria. A unificação somente viria em 1871 com Bismarck, momento em que o hegelianismo já se encontrava a muito recolhido à coxia.

Durante o que pode vir a ser entendido como a era da industrialização alemã, 1815 a 1918, a Alemanha vai passando de uma sociedade agrária para um próspero centro do capitalismo industrial, muitos de seus estados vão recebendo constituições próprias, Baviera e Baden em 1818, Württemberg em 1819, Hesse-Darmstad em 1820; contudo a tendência política predominante continuou a ser um conservadorismo reacionário, de aspirações, de espírito monárquico:

Politicamente a Confederação Germânica representou bem mais de que um simples passo em direção à unificação nacional. No mínimo, os territórios tinham aumentado seus poderes no nível regional, por uma série de razões: os governantes possuíam soberania e um poder elevado com a racionalização da administração, as melhorias na burocracia e no governo e os processos de centralização do poder estatal inaugurado em determinados Estados na era napoleônica. (...) No entanto, o mais importante nesse processo foi o fortalecimento de um Estado em particular: a Prússia. (...) A Prússia ficou com uma população equivalente a da Áustria; também ganhou condições de superar esta em termos de desenvolvimento econômico, um importante fator no século da industrialização. Contudo, constitucionalmente, tanto a Prussia como a Austria permaneceram relativamente conservadoras. A Prússia não ganhou um parlamento unido, e embora as reformas continuassem em certas províncias, o programa de reformas foi abandonado pelo rei Frederico Guilherme III. Importantes reformistas foram demitidos de 1819 a 1820. (Fulbrook, 2012: 122)

Durante as últimas três décadas a Europa conhecera um processo que converge, sob a ótica de uma análise materialista dialética, a um avanço para a emancipação do gênero humano, mesmo que esse avanço ocorra de maneira restrita e contraditória, essa convergência se faz presente: a Revolução Francesa carrega, mesmo que de modo controverso, determinados ideais iluministas à práxis, a campanha de Napoleão Bonaparte continua esse seguimento de determinado progresso. O avanço que converge à emancipação pode ser apontado no sentido de que a burguesia conquista vários progressos qualitativos à sociedade como um todo, que eram inexistentes nas sociedades do antigo regime, a revolução burguesa conquista a seu modo a ―liberdade‖, obviamente que essa conquista é controversa e um tanto quanto paradoxal, isso será debatido no capítulo 4 com mais detalhes. O que deve ficar colocado aqui, é que as

revoluções políticas e industriais conseguem banir a sociedade estamental do antigo regime, e a campanha de Napoleão contribui nesse processo ao terminar de ‗varrer‘ os vestígios do feudalismo europeu.

No entanto, assim que a campanha bonapartista é estancada, emerge na Europa uma Alemanha nascida do Congresso de Viena em 1815, ela se constituiria em 12 pequenos estados alemães que se encontravam sob o jubilo de um despótico príncipe austríaco, Klemens Metternich (Cf. Finney, 2006: 272). Metternich como figura central no Congresso de Viena, fora o responsável pela formação da conhecida Sagrada Aliança, composta entre Rússia, Áustria e Prússia. Mesmo com acesso a determinadas características da política liberal e progressista, como constituição própria, os estados alemães sofriam de um rígido cabresto reacionário, vale lembrar que a Prússia há séculos vivia sob o domínio da família aristocrática Hohenzollern e que a Rússia era czarista. Desse ponto de vista nem mesmo os teóricos que divergem do materialismo histórico discordam que a Sagrada Aliança tratava-se de talvez o maior núcleo de força reacionária na Europa:

O nome Metternich simboliza as forças da reação, sendo que seu regime se pautava por um rígido sistema de censura, espionagem, prisões e exílios de qualquer aparente intelectual de mente liberal. Professores e pensadores que faziam oposição eram removidos de suas posições no estado; texto e jornais liberais eram banidos ou proibidos; nenhuma voz popular de protesto estava a salvo. (Ibidem)37.

Mesmo nessa Alemanha, ainda existia lugar para um potencial de resistência, e a aliança entre literatura e política era propícia e fecunda. Dois movimentos importantes, que se inspiravam naqueles ideais franceses revolucionários e iluministas, e que apoiavam o pensamento socialista vigente na França se formariam nas décadas de 30 e 40. Um deles identificado com a Revolução de Julho de 1830 na França era o movimento literário denominado ―Junges Deutschland‖ (Jovem Alemanha), o outro,

37 Metternich's name still symbolizes the forces of reaction, since his regime functioned through a rigid

system of censorship, espionage, imprisonment and exile that touched virtually all liberal-minded intellectuals. Oppositional professors were removed from their positions; liberal presses, newspapers and periodicals were banned or unduly pressured; no protesting citizen's voice was safe.

mais próximo a Revolução de 1848 era conhecido como ―Vörmarz‖ (Pré-Março). O grupo de escritores Jovem Alemanha, caracterizou-se sempre por uma firme oposição aos aspectos monárquicos do império alemão, e da figura de Metternich, entre seus membros estavam presentes: Theodor Mundt (1808-61), Ludwig Borne (1786-1837), Ferdinand Kühne (1808-88), Georg Büchner (1813-37), Heinrich Heine (1797-1856), Karl Gutzkow (1811-78), Heinrich Laube (1806-84) e Ernst Willkomm (1810-86) (Cf. Ibidem: 275). A principal figura de opressão a esses escritores era o censor Wolfgang Menzel, que sob o mando de Metternich, exercia a função de encontrar e denunciar todas as publicações de caráter liberal.

Esse forte espírito ditatorial durante o período em que a Jovem Alemanha existiu, fez com que o grupo literário mantivesse sua existência como algo clandestino; de maneira alguma, o grupo de literatos chegou a estabelecer uma sede ou a formalização do grupo. Sempre através de correspondências, esses autores que partilhavam de uma mesma visão de mundo, preocupavam-se em manter toda a veiculação de suas ideias o mais longe do olhar dos censores. A principal vinculação que mantinham uns com os outros, era de fato o sonho de que a Alemanha viesse a ser uma ―nação‖ democrática.