Quando foram contatados pelas expedições compostas por índios manoki e padres jesuítas, o grupo de vinte e três pessoas era composto por cinco famílias nucleares e a residência alternava entre duas aldeias construídas próximo ao córrego chamado Escondido pelos missionários, afluente do rio Papagaio. Havia apenas um
80 Jaukai. Uma das aldeias era composta de uma grande casa, de aproximadamente 16 passos de comprimento, como descreveu o Pe. Thomaz de Aquino Lisbôa, uma roça nas proximidades e um porto onde se banhavam e buscava água. Na outra havia duas casas, além da casa do espírito-vizinho, um pouco afastada, e uma roça menor do que a da outra aldeia.
Em 1969, pouco mais de um ano antes do encontro, os missionários haviam feito um sobrevoo na região em que um seringalista havia indicado ter visto rastro de índios anos antes. Os Manoki, em 1953, também haviam alertado os jesuítas da possível existência de parentes na região. Nesta passagem aérea puderam avistar duas aldeias no córrego Rico mas, dois meses depois, a expedição organizada para alcançar a aldeia encontrou apenas uma clareira com duas casas abandonadas e sinais de acampamento, um pouco mais afastado, no mato.
As aldeias encontradas depois estavam aproximadamente a vinte quilômetros desta. Os Mỹky confirmaram as suspeitas de que haviam fugido, assustados com a passagem do avião que os localizara. Acamparam no mato e depois abriram essas duas novas aldeias (1979:11-12 e 21-23).
Entre os anos de 1972 e 1974 os Mỹky se viram envolvidos em um imbróglio a respeito de suas terras. A falta de delimitação da terra indígena permitiu que um grupo de trabalhadores contratados pelo fazendeiro Mario Tenuta se aproximasse demasiadamente da região em que viviam os Mỹky com o propósito de realizar medições para delimitar suas terras. O então chefe Tapurá impediu a finalização do trabalho ao perceber o avanço dos medidores ao argumentar que ali era terra indígena e que deveriam ter uma licença do governo. Contudo, as medições continuam e chegam até a área da antiga aldeia mỹky abandonada em 1969. Em 1973 uma estrada que dava acesso às áreas limítrofes à região do mỹky começou a ser construída, mas a promessa de que ficaria a vinte quilômetros da aldeia indígena não se cumpre, chegando a menos de cinco quilômetros da aldeia. Alguns homens mỹky começaram a contatar os trabalhadores da estrada em seus barracões em busca de ferramentas, trocadas por flechas. Não demorou muito e teve início o primeiro surto de gripe entre os Mỹky. Piúvas descascadas revelaram as três primeiras mortes no grupo – uma mulher e dois homens – após dois anos e três meses dos primeiros contatos (id:59).
81 A disputa pela terra com Mauro Tenuta continuou até 1974, quando o fazendeiro finalmente conseguiu enganar os mỹky e tomar suas terras, incluindo a aldeia onde moravam, com suas roças repletas de alimentos. Usando o nome da Funai, disse a Tapurá que o grupo deveria abandonar a aldeia e, como contrapartida, receberiam dez sacos de arroz, oito sacos de açúcar, dez sacos de farinha de mandioca, um saco de feijão, algumas ferramentas (facões, machados e foices) e vestimentas (calças, camisas e botas). Apenas dois dias após terem saído de sua aldeia, o fazendeiro já havia destruído tudo com um trator e levantado um casebre, a sede da Faze daàMalo a à i id: -9). Com o auxílio do Pe. Thomaz e do Ir. Iasi é feita uma queixa-crime contra Tenuta e o acionamento da Funai. A denúncia contra o fazendeiro também saiu nos meios de comunicação25. No mês seguinte é publicado o Auto de Reintegração de Posse em favor dos Mỹky. Entre os anos de 1976 e 1977 foi feita a medição da área indígena Menku (ibid:77), cuja homologação foi decretada em 1987, dando fim a estes conflitos.
1.1. Antigas aldeias mỹky antes do contato
A antropóloga alemã Gisela Pauli esteve na aldeia mỹky Japuíra em meados dos anos 1990 e fez um levantamento das antigas aldeias mỹky com o Vovô Xinuxi (Pauli, 1999). Segundo ele os Mỹky viviam em diversas aldeias na região do atual município de Brasnorte e em suas adjacências. Da mesma maneira como afirmam os Manoki, Xinuxi diz que conhecia pessoalmente muitas delas, algumas bastante populosas, devido às corriqueiras andanças para visitas e festas. Durante a conversa com a antropóloga ele elenca treze aldeias antigas pelo nome, relacionados ao lugar em que foram construídas. Eis algumas delas: Matapjata, pois havia uma lagoa perto da aldeia (mata: brejo; pjata: refere-se à aldeia, mas não pude traduzir o termo), Patomympjata, que ficava em região de mato baixinho, Aiopjata, onde havia muita pedra (e disse ter morado ali) e Pákjatypjata, que ficava na cabeceira da anterior (pákjaty: cabeceira) e havia muitas casas, onde morava muita gente.
A mudança de aldeia era, de maneira geral, em função do esgotamento do solo para o roçado, o que acontecia aproximadamente a cada quatro anos, segundo Pauli. A
82 distância entre o local da roça e da aldeia também poderia ser motivo para a construção de uma nova e mais próxima do roçado, bem como a vontade de fundar uma nova aldeia, por parte de alguém, ou ainda um desmembramento por conta de brigas internas a este grupo. Pauli diz que esta última razão apontada por eles diz mais respeito aos Manoki (op.cit:99). Porém, é provável que no passado, quando a população era maior do que a conhecida pela antropóloga, eventuais brigas acontecessem com uma frequência maior, ocasionando dissociações entre as famílias que moravam juntas.
Até 1969, quando foram localizadas as aldeias mỹky com 23 pessoas, grande parte da população – estimada por Pauli em mais de 250 indivíduos, segundo cálculos feitos a partir das informações de Xinuxi – foi morta por causa das doenças transmitidas pelos não indígenas que já se encontravam na região, em aproximações ocasionais, e em ataques intertribais. Segundo relatou o velho mỹky, os Nambikwara mataram uma pessoa e os Rikbaktsa, em duas invasões rememoradas, mataram muitos homens e sequestraram mulheres e crianças. A morte do homem mais velho, também fugido do massacre da aldeia manoki Tapuru, que vivia em uma aldeia próxima à estrada – e possivelmente de outros –, foi creditada ao espírito Mãkãiny. Restaram apenas nove pessoas, das quais seis estavam vivas na época da pesquisa da antropóloga (id.:77-81).
As aldeias tinham um formato circular, formando um pátio central onde eram feitas as festas e os homens fincavam estacas para amarrar suas redes em dias de ritual, pois era lá que os espíritos-vizinhos dançavam. A casa do chefe, segundo informações dos velhos mỹky, era a maior. Atrás dela havia um caminho que levava à
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Os mortos mỹky tinham um tratamento semelhante daquele dado pelos manoki. Entre estes últimos, os corpos eram lavados e inspecionados, observando a existência de sinais que pudessem revelar as causas daquela morte, tendo em vista que alguns bichos deixam marcas avermelhadas, arranhões, furos na pele, entre outros. Assim como entre os Manoki, os mortos mỹky eram embrulhados em suas redes com objetos pessoais (cera de fazer flecha, ponta de flecha, abanador, pente etc.) e depois envoltos em uma casca de piúva e enterrados dentro de sua residência, onde ficava sua rede. Um chumaço de cabelo do morto, retirado da região da nuca, era
83 queimado sobre seu túmulo para que a fumaça desprendida mostrasse a direção de onde havia vindo a sua morte – se de Inulí (traduzido por Deus ou Jesus) ou mandada por outra pessoa26. Esta prática, como veremos a seguir, acontece também atualmente e é também realizada por pessoas mỹky entre os Manoki, que disseram ter aprendido isso com eles.
1.2. Aldeias mỹky após o contato
Em meados da década de 1990 a aldeia Japuíra, dos Mỹky, era composta por doze casas, além da casa de Yetá, afastada cerca de cento e cinquenta metros do interior da aldeia, um cemitério, um galpão para o armazenamento de cana de açúcar e milho, uma casa usada pelos missionários, um barracão onde ficavam guardadas ferramentas, a escola e a farmácia. As construções estavam dispostas de maneira circular, embora não rigidamente, formando um pátio no centro da aldeia (id.:97).
Tive a oportunidade de estar na aldeia Japuíra por duas vezes, como convidada dos Manoki, para dois eventos: a inauguração de uma nova edificação da escola, em 2011 e, em 2012, para uma festa. Ambas as estadias foram de curtíssima duração, totalizando aproximadamente dois dias e meio. Não tive oportunidade de conhecer bem as pessoas ou mesmo a aldeia, portanto não fiz um croqui da mesma. Contudo, comparando com as informações dadas previamente por Pauli, pude observar que as casas, que eram inicialmente dispostas de maneira quase circular, com o aumento da população e a separação das famílias elementares em casas individuais, passaram a ser construídas no entorno umas das outras, de maneira a aumentar a área destinada às habitações. Há escola, posto de saúde, que chamam de farmácia, uma casa para a realização de eventos, cemitério, casa do vizinho mais afastada, casa de palha para os hóspedes, roça comunitária e roças familiares e um campo de terra onde jogam vôlei, olaàdeà a eça àeàfute ol.àTalàest utu aà e eteà uelasàdasà aio esàeàatuaisàaldeiasà manoki, como veremos a seguir.
26 Este tema será retomado no capítulo 6.
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