• No results found

3. METODE

3.3 INTERVJU

Page também propõe que os vários tipos de problemas podem ser mapeados em espaços de soluções, a título de metáfora da adequação das soluções e das variáveis em questão. Esse tipo de mapeamento nos fornecerá alguns insights em relação aos problemas que estão inseridos em contextos complexos, e será uma ferramenta interessante para desenvolver algumas reflexões em capítulos posteriores.

Se pensarmos que o eixo vertical do gráfico representa a adequação das soluções, teríamos, segundo Page (2009), três tipos de espaços (no original, landscapes) de soluções.

2.6.1 Problemas simples

O mais simples desses espaços seria o que lembra o Monte Fuji, isto é, uma grande elevação em uma certa parte do gráfico, com encostas constantes em direção ao cume, sem variações. Nela a melhor solução se encontra claramente no ponto mais alto do mapa, facilmente identificável.

Os problemas que são mapeáveis nesses termos são problemas simples. Page usa como exemplo o seguinte desafio: “qual o tamanho da pá mais eficiente usada para alimentar um forno a carvão?”. Se escolhermos uma pá muito pequena, digamos, com área útil de 5 x 5 cm, ela é leve o bastante, mas não terá área suficiente para levar muito carvão (ponto A). Sua eficiência será mínima. Ao usarmos pás maiores, elas serão mais e mais eficientes, até que, a partir de um ponto, elas serão muito pesadas para ser usadas por muito tempo (ponto C) e sua eficiência começa a cair. Temos, portanto, que a eficiência cresce até certo ponto, para depois descer novamente.

Fig. 9: Problema do peso ideal de uma pá para carregar carvão Fonte: Elaborado pelo autor, baseado em PAGE (2009)

O ponto ideal, o ponto B do gráfico, corresponde ao ponto no qual a pá é grande o bastante sem ser tão pesada para que o trabalhador possa carregar muito carvão em certo período.

Fig. 10: Espaço de solução tipo Monte Fuji Fonte: Elaborado pelo autor, baseado em PAGE (2009)

Os problemas que podem ser mapeados como Monte Fuji são de simples tratamento, pois tem comportamento linear e facilmente previsível. Esses espaços de solução podem ser também representados em três dimensões, conforme a figura acima.

eixo x: peso da pá e ix o y : c a rv ã o c a rr e g a d o e m u m tu rn o d e t ra b a lh o

A

B

C

2.6.2 Relevos enrugados

Problemas mais complicados, que não apresentam uma só solução, mas no qual as soluções estão dispersas em vários “picos”, podem ser mapeados em relevos enrugados33.

Esse tipo de paisagem apresenta uma série de picos em várias posições, que correspondem a boas soluções do problema. Todo o trabalho, nesses casos, se concentra em mapear todo o espaço de solução para que possam ser descobertos os vales e os montes, isto é, onde se concentram as soluções.

Problemas que envolvem múltiplas variáveis apresentam, tipicamente, relevos enrugados, pois essas variáveis interagem entre si e moldam um espaço de solução bastante intrincado. Não há como prever como será certo trecho desse espaço de solução sem que se “vá até ele”, isto é, sem que se testem as variáveis para tal posição. Alguns problemas típicos, como o problema do caixeiro-viajante, são mapeados em relevos enrugados. Esse problema propõe o seguinte: dada uma lista de cidades e suas distâncias relativas, qual é o caminho mais curto a ser percorrido que passa por todas elas pelo menos uma vez e retorna à cidade de origem? Conforme o número de cidades a serem percorridas, o número de soluções sobe extraordinariamente, sendo muito difícil, por vezes impossível, chegar à solução mais adequada. Para esse tipo de problema, há que se calcular o total percorrido para cada combinação, o que é exaustivo para um número muito grande de cidades, mesmo para computadores.

Fig. 11: Espaços de solução enrugados (rugged landscapes) Fonte: Elaborado pelo autor, baseado em PAGE (2009)

Esse tipo de problema, apesar de extremamente complicado, não é considerado complexo pois, uma vez mapeado, não se move. Seus picos e vales ficam fixos sempre no mesmo lugar.

2.6.3 Relevos dançantes

Os problemas complexos, cujo espaço de solução é mapeado através do que Page chamou de relevos dançantes (dancing landscapes), têm como características serem adaptativos.

Se uma companhia aérea leva em conta um sem número de fatores para estabelecer uma boa estratégia comercial, as características de suas aeronaves (número de lugares, gasto de combustível), as cidades visitadas (aeroportos disponíveis, custos operacionais), as linhas disponíveis (procura por parte dos clientes) e toda a logística envolvida (uma aeronave pode ir por um caminho e voltar por outro, a demanda no transporte de carga em cada cidade), mesmo assim, o que resulta é um relevo enrugado. Mesmo com inúmeras

variáveis, o problema, uma vez definido, continua o mesmo, como no caso do caixeiro- viajante.

Mas se imaginarmos que a nossa companhia aérea tem uma ou mais concorrentes, passamos a ter uma paisagem dançante, pois a cada posicionamento nosso, haverá um contraposicionamento por parte dos concorrentes, gerando, assim, adaptação ao longo do tempo. A partir do momento em que a adaptação entra em cena, passamos a ter um problema complexo.

Fig. 12: Espaços de solução dançantes (dancing landscapes) Fonte: Elaborado pelo autor, baseado em PAGE (2009)

Trocando em miúdos, enquanto tivermos apenas as três primeiras características dos sistemas complexos — diversidade, conectividade e interdependência — teremos um espaço de solução enrugado. Quando passamos a ter adaptação, isto é, quando passamos a ter que reagir a um ambiente mutável, passamos a lidar com uma paisagem dançante.

É aí que temos, de fato, complexidade.

Nosso argumento para o estudo desses tipos de sistemas é que cada vez mais os problemas que são apresentados para a área de design são de caráter complexo, com as quatro características da complexidade presentes: diversidade, conectividade, interdependência e adaptação. Para estes tipos de problemas as soluções simples, que não

levam em conta, por exemplo, o caráter dinâmico do problema, não surtem efeito duradouro.

Esses mapeamentos nos serão de grande ajuda nos capítulos seguintes, nos quais pretendemos, inicialmente, levantar os processos colaborativos que ocorrem na web e, posteriormente, fazer um panorama das possibilidades metodológicas de projetos para a complexidade.