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Intervju med prosjektleder G

5 Presentasjon av funn – Casestudier

5.4 Casestudie 4 – Lillehammer

5.4.4 Intervju med prosjektleder G

Seguindo a trajetória delineada por David Treece dos Exilados, aliados, rebeldes (2008), compreendemos um movimento precedente que deu início na literatura e como tal, na invenção de uma tradição para o país recém-independente. O indianismo oitocentista e seus antecedentes do tema na literatura colonial são considerados a partir dos movimentos históricos, políticos e sociais do período. Wagner Camilo, ao apresentar o livro, pontua as fases apresentadas por Treece acompanhando cada imaginário pensado e atuado nesse outro momento de colonização. Assim, do índio como vítima do colonizador, entre 1835 e 1850,

75 este passa a ser figurado como aliado em benefício do conquistador, de 1850 a 1870, e na formação da civilização brasileira centralizando “novos e velhos interesses, liberais e conservadores”, como resenha Camilo, sendo o índio entre 1870 e 1888 um rebelde relativizando todos os modelos figurados e idealizados nos cânones literários.

Treece baseia sua tese apontando o paradoxo da invenção de uma tradição que encobre o domínio e extermínio dos povos originários, ressaltados por ele logo de saída:

Durante os quatro séculos entre a conquista do Brasil, em 1500, e o início da Primeira República, a população tribal indígena do território sofreu um processo destrutivo de proporções genocidas, caindo de cerca de 5 milhões ou mais para 100.000 até a virada do século vinte. (TREECE, 2008, p. 11)

O perfil destacado dos índios na tradição de pensamento nacionalista formava-se a partir de uma “mitologia integracionista” que reforçou a “pacífica” assimilação política, social e econômica. Utilizando-se em grande medida do “mito de uma identidade indígena assimilada como pedra angular étnica da autoimagem cultural do Brasil – a argamassa simbólica do processo de colaboração social e racial pelo qual foi sendo construída a nação”, segundo Treece (2008, p. 12).

Nesse contexto, portanto, se torna ainda mais notável que, durante os anos decisivos da emergência e consolidação do Estado-nação brasileiro, de fins do século dezoito ao último quarto do século dezenove, seus escritores, artistas e intelectuais tenham celebrado a história e as tradições dos povos indígenas no movimento de nacionalismo cultural mais coerente, durável e influente antes do Modernismo: o indianismo. (TREECE, 2008, p. 13)

Assim, dos poemas épicos, O Uraguai e Caramuru, da segunda metade do século XVIII à sua expressão dominante no Romantismo, estas foram as representações do “índio” que ainda hoje pairam no imaginário do brasileiro. E isso decorre dos três fenômenos apontados por Treece do movimento indianista: “a história da política indigenista oficial, a identidade sociopolítica contraditória do Estado-nação brasileiro e a construção de um índio ficcional no imaginário nacional” (2008, p. 14).

A literatura como um “discurso em evolução” utilizou-se de mitos para (re)velar processos de colonização e construção da nação, com marcas e ressignificações culturais enraizadas em nosso devir ser brasileiro. E da mesma forma o fenômeno indianista representa

76 um movimento cultural e intelectual intrinsecamente ligado às correntes políticas e ideológicas de seu tempo, tendo em si múltiplas vozes, muitas vezes contraditórias, de um discurso coletivo, como ressalta Treece (2008). Para Antonio Candido, “o indianismo serviu não apenas como passado mítico e lendário (à maneira da tradição folclórica dos germanos, celtas ou escandinavos), mas como passado histórico, à maneira da Idade Média” (1962 apud TREECE, 2008, p. 18). Assim, como pontua Treece, de um lado o “índio ficcional da imaginação romântica”, de outro, “as comunidades tribais contra as quais o Império declarou guerra repetidamente, desde suas origens” (2008, p. 18).

Dado relevante e fator de influência se destaca quanto a esse índio romântico ser tão próximo dos cavaleiros medievais europeus “transplantados para o Novo Mundo na íntegra, com todos os arreios do código cavalheiresco de comportamento e ética”, como discorre Treece (2008, p. 19) – comportamento e ética presentes na forma como são apresentadas as lendas de Couto de Magalhães.

O indianismo representa, no processo histórico da literatura brasileira, uma de suas etapas mais características, pois. Está longe de ser falso, conforme parece aos investigadores superficiais. É a manifestação de uma sociedade de senhores de terras, de regime de trabalho servil, em que apenas se esboça a classe intermediária. Nesse sentido, corresponde plenamente aos traços essenciais daquela sociedade. É a sua criação específica. Utilizando velhas ideias e conceitos seculares, traduz em termos do século XIX e em linguagem literária, o que existe de mais caracterizado no meio brasileiro. (SODRÉ, 1969 apud TREECE, 2008, p. 23)

O indianismo – nesse momento sob regime do processo civilizatório –, segundo Machado de Assis, que reconhece e admira a importância desse movimento, foi uma contribuição fundamental do Brasil à literatura ocidental, foi a espécie mais vibrante do gênero romântico:

Algum tempo, foi opinião que a poesia brasileira devia estar toda, ou quase toda, no elemento indígena. Veio a reação, e adversários não menos competentes que sinceros absolutamente o excluíram do programa de literatura nacional. São opiniões extremas que, pelo menos, me parecem discutíveis. [...] Direi somente que, em meu entender, tudo pertence à

invenção poética, uma vez que traga os caracteres do belo e possa satisfazer

as condições da arte. Ora, a índole dos costumes dos nossos aborígenes está muita vez neste caso; [...]. (ASSIS apud VERÍSSIMO, 1915, p. 423)

77 Muitos discursos históricos e sociais foram construídos para anular as raízes e contribuições dos povos tradicionais. E assim como cada língua e cultura em contato, identidades e territorialidades se redesenharam.

Eduardo Navarro, sobre as “peculiaridades entre as epopeias coloniais do Brasil”, contribui com a dimensão de tais obras:

Vemos acima os germes da Revolução próxima que fundaria simbolicamente o Ocidente, a grande Revolução Francesa, para cuja eclosão contribuiriam poderosamente os textos acerca do índio brasileiro que, desde Jean de Léry e André Thevet, eram lidos na França pela geração ilustrada que teria o papel de formular as novas concepções acerca do mundo e do homem que abalariam a antiga ordem monárquica. (NAVARRO, 2006, p. 42)

Como os decretos do Marquês de Pombal (1755) não garantiram liberdade alguma nem impediram a escravidão dos indígenas, a “troca” injusta da faina dos povos da terra com os colonos apenas fez com que as “raças tristes” que compuseram o Brasil fossem cada vez mais apagadas e subordinadas ao Império. E o breve relato de Padre Vieira, um século antes, demonstra que agora esses índios passaram apenas a ser uma única raça, inferior sempre, mas uma raça brasileira a serviço dos ‘vencedores’:

Os índios são os que fazem as canoas, as toldam, as calafetam, os que as velejam, os que as remam, e muitas vezes, como veremos, os que as levam às costas, e os que, cansados de remar as noites e os dias inteiros, vão buscar o que hão de comer eles e os portugueses (que é sempre o mais e o melhor); os que lhes fazem as casas, e se há de marchar por terra, os que lhes levam as cargas e ainda as armas às costas. Tudo isso fazem os tristes índios sem paga alguma [...]. Ao provincial do Brasil. Maranhão, 1654. (Cartas, vol. I, p. 361)

O esforço do Marquês de Pombal era retirar os indígenas da tutela dos jesuítas para que, sendo educados em escolas leigas, eles aprendessem o português, tornando-se membros “livres e plenos” da comunidade luso-brasileira, casando-se e formando a família que trabalharia nas fazendas ou ofícios e cooperaria no complexo deslocamento de povoações, da colonização e da defesa do território brasileiro.

Ainda segundo análise de Navarro, pode-se ver que entre os selvagens e a civilização não há uma “ruptura nem uma solução de continuidade”. A, digamos, antropologia desses

78 autores, de conteúdo iluminista, “prefigurando o darwinismo social” (NAVARRO, 2006, p. 43), vê o estado selvagem como aquele em que o homem civilizado já esteve.

Assim, o fato que envolve a figura do índio na literatura deve ser tomado a partir da condição contemporânea do índio como uma questão política, “envolvendo historiadores, estadistas e escritores, inclusive muitos indianistas, em debate prolongado e, com frequência, apaixonado”, de acordo com Treece (2008, p. 25).

Para além de um período de épicos, Treece sustenta que o indianismo romântico surge do “declínio da economia de exportação de minérios”, e que as obras indianistas do final do século XVIII expressavam respostas diversas à estratégia de desenvolvimento agrário protocapitalista para a Amazônia, com a escravidão indígena em um momento de expulsão dos jesuítas e “conflito histórico entre o Estado imperial, a Igreja católica e a Colônia” (2008, p. 27-28).

Assim, após consolidação da independência brasileira, o “experimento republicano” passou por prolongado conflito civil e instabilidade, não sendo indiferente às populações indígenas, ao contrário, seguiu-se em um período de seu extermínio indiscriminado. No entanto, a literatura relegou o índio a um passado mítico, sobrevivendo “no presente apenas enquanto tradição épica numa memória popular fictícia” (TREECE, 2008, p. 28). E apesar de essa relevância do tema indianista ter ficado assim reafirmada, a representação do índio como “mero símbolo da independência nacional já parecia talvez ter esgotado a sua utilidade” (idem, p. 30). E junto a “esse mito está o outro grande tema da literatura indianista associado a Alencar: a miscigenação” (idem, p. 32). Explicitando aqui movimentos de interesse já discutidos quanto à “integração harmoniosa de raças, classes e culturas”, como bem define Treece.

O índio não é mais destruído ao encontrar-se com o invasor colonial, de modo a afundar-se num passado mítico ou histórico; pelo contrário, ele sobrevive no futuro como uma força moderadora e democratizante no interior do ser social e psicológico do Brasil moderno. (TREECE, 2008, p. 32)

Os escritos indianistas do final do Império foram se distanciando “do idealismo mítico dos românticos para dedicar-se a uma descrição mais sensacionalista do caboclo, ou índio destribalizado”, como bem aponta Treece (2008, p. 33).

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