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O levantamento apresentado no capítulo anterior pela Cabi acerca das 83 incubadoras de empresas em funcionamento no Canadá expõe como nenhuma delas se caracteriza como incubadora cultural, excetuando-se, talvez, a Incubadora de Moda, localizada em Toronto, na província de Ontário. A Toronto Fashion Incubator (TFI) apresenta-se como um espaço para empreendedores no campo da moda, oferecendo oportunidades para criação, serviços de consultoria e newsletter, centro de pesquisa com

informações sobre o mercado da moda local e internacional, um prêmio de concorrência interna entre as incubadas de CDN$ 25 mil, dentre outras ações26

Serge Bourassa, diretor de uma das incubadoras que constam na lista da Cabi em Quebec, província enfatizada neste trabalho, o Centro de Empresas e de Inovação de Montreal (Centre d´entreprises et d´innovation de Montréal – Ceim, que reúne as principais iniciativas de incubação da cidade), confirmou o desconhecimento de iniciativa canadense de incubadoras artístico-culturais, na transposição do modelo tradicional de incubação. Bourassa ressaltou que a ocorrência de uma clientela formada por 25% da demanda junto às empresas incubadas no Canadá – conforme atesta o primeiro campo da TAB 8 – pode ser explicada por algumas iniciativas de incubadoras e incubadas na prestação de serviços de softwares e outros programas de computação para clientes ligados à área do cinema, da animação ou do videogame, por exemplo27. Ou seja, existem algumas ações diluídas dentro de algumas empresas incubadas por incubadoras tecnológicas canadenses, que são voltadas, esporadicamente, para setores da cultura como os citados, mas através do viés tecnológico.

Contudo, o setor público da cultura no Quebec expõe uma série de iniciativas nas quais o processo de incubação está dissociado de seu modelo tradicional, mas vinculado à idéia de programas de fomento para empresas culturais e artistas. No modelo quebequense, a ocorrência de incubadoras artístico-culturais se dá através de cooperativas e/ou centros culturais e artísticos, que vão assumir esse processo sendo no todo ou, em boa parte, subsidiados, pelo governo do Quebec. Em especial através das ações dos governos municipais e, no lado provincial, pela Sodec e pelo Calq.

Dominique Jutras, ex-diretor da Sodec e atualmente à frente do OCCQ, aponta que a defesa do Quebec, através do Canadá, pela Convenção da Diversidade Cultural, mostra como a lógica do mercado não deveria prevalecer sobre a da produção artística. “Por isso a ausência de incubadoras de empresas artístico-culturais no Canadá, em especial no Quebec, e a presença do governo nas filières produtivas artísticas, que incluem processos de incubação em suas instituições e apoio às suas empresas e artistas, mas não nos mesmos termos do que se vê, por exemplo, no caso dos EUA”28. Jutras explica que o governo do Quebec apóia ações de fomento artístico através do Calq e da Sodec: o primeiro voltado para o artista; a segunda, para a empresa artística-cultural ligada ao livro, disco, filme (a lógica de fluxo editorial sob a indústria cultural, mais concentrados nos grandes centros urbanos), mas também ao artesanato (com iniciativas mais distribuídas pela província).

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O processo de incubação artística encontra, portanto, no Quebec, estas duas instituições que se complementam: de um lado, os artistas, talvez, “em uma dimensão emergente e aí, [por outro] seguidamente a empresa. É realmente o tecido industrial (...) completam-se os dois organismos”29, afirmam Marielle Audet e Godi Sagou. Eles esclarecem que é, de fato, o governo o principal financiador de ações na área da incubação artística, priorizada de forma diferente do modelo “mise en marché” que se verifica nos EUA. Mas existem, no Quebec, associações profissionais que podem oferecer cursos de

marketing específicos para os artistas, se for o caso: Enquanto numa incubadora haveria

seleção dos artistas, tais associações profissionais oferecem os cursos seguidamente “e qualquer um, a partir do momento em que paga, pode ter acesso a estes cursos”.30

Enquanto o Calq oferece bolsas e subvenções a artistas e organizações artísticas sem fins lucrativos, podendo algumas dessas ações acontecer sob forma de contrapartida, a Sodec também pode financiar grupos culturais sem fins lucrativos através do exame da proposta. Mas mesmo no caso de empresas – somente culturais –com fins lucrativos, existe um instrumento de renúncia fiscal, o crédito de imposto (crédit d´impôt) que abate em até no máximo 15% do valor do empreendimento, não sendo financiada a totalidade da produção. “É somente uma parte da produção. Em contrapartida, pode haver um número ilimitado de artistas que vêm protocolar [seu pedido] e, se preenchem os critérios, terão direito ao crédito de imposto”. O apoio é indiscriminado àqueles que preenchem os requisitos para o abatimento solicitado, pois se defende a lógica de que “cada vez que o Estado oferece um crédito de imposto, ele sabe que será reembolsado, de certa maneira, pelas despesas que vão gerar, talvez, a atividade econômica e cultural”.31

De qualquer forma, a Sodec não opera como uma incubadora artístico-cultural: ela simplesmente avalia as propostas das empresas e libera, diretamente, os financiamentos. “Não há um acompanhamento ao longo de toda a duração de vida do projeto (...) ajuda-se em sua criação em nível financeiro”.32

Mas Sagou e Audet enumeram várias instituições mantidas ou financiadas pelo governo do Quebec que atuam em áreas de suporte à criação e à inovação artísticas, mas

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incluindo-se nos termos similares à incubação artística como na interface entre arte e tecnologia, caso da Société des Arts Technologiques (SAT), Alliance NumériQC33 , mas também através do RCAAQ34.

O Regroupement des Centres D´Artistes Autogérés du Québec (RCAAQ), ou Agrupamento dos Centros Artísticos de Autogestão do Quebec, é formado por cerca de 60 cooperativas artísticas de toda a província que oferecem programas de residência artística. Uma dessas cooperativas, a Méduse, reúne 10 produtores e difusores artísticos (Antitube,

La Bande Vidéo e Spirafilm – audiovisual; l'Atelier de la mezzanine, l'Œil de Poisson, VU e Engramme – artes visuais, sendo os dois últimos voltados para a fotografia e a estampa,

respectivamente; Les Productions Recto-Verso – arte multidisciplinar; Avatar – áudio, som e eletrônica e CKIA FM 88,3 – uma rádio local).

Criada em 1995, a cooperativa ocupa um edifício de 4 mil metros quadrados em uma área próxima ao centro histórico do Quebec e tem como objetivo “facilitar, para os artistas, o acesso aos equipamentos de ponta e aos serviços especializados, além de favorecer uma sinergia de reencontro e de troca entre os campos artísticos no seio da Méduse” (Méduse, 2008). Jocelyn Robert, diretor da Méduse, afirma que pode haver alguma semelhança da cooperativa artística com a proposta das incubadoras como desenvolver contribuições novas, oferecer circunstâncias favoráveis à sua inclusão, ao seu desenvolvimento.

Mas uma das diferenças importantes é que no caso da criação artística, sobretudo desde… poder-se-ia dizer, teoricamente, desde a Segunda Guerra Mundial, na realidade da prática, desde o meio dos anos 1960, o contexto não é mais o receptáculo neutro da intervenção. (...) No caso da arte, a arte não se põe mais apenas sobre a parede de uma galeria. Todo o contexto, feito de apresentação ou de intervenção, faz parte da ação artística. O que faz com que, desde os anos 1960, uma importância essencial - no Canadá em todo caso - foi dada à autogestão. Espera-se não somente que os artistas num contexto de incubadora possam criar novas obras, mas alterar o contexto no qual trabalham, como o contexto social, o econômico, o técnico (...) então os artistas não vêm mais apenas fazer um novo projeto, mas vêm também implicar-se no desenrolar das atividades (...) em ações em rede com outros grupos etc.35

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Mas, por outro lado, salienta o diretor que, na proposta de auto-gestão do local, qualquer conhecimento produzido por qualquer uma das empresas deverá circular abertamente entre todas as outras – especialmente em se tratando de uma incubadora artística. “Uma incubadora tecnológica, quando obtém uma expertise específica, ela a retém, porque o valor dessa expertise reside em sua unicidade. Aqui é o contrário: quando se desenvolve uma nova avaliação, compartilha-se a mesma. Por conseguinte, é uma diferença essencial”36. Ele aponta, por exemplo, que uma das empresas de Méduse desenvolveu um vídeo, mas precisava de uma trilha sonora específica – então eles recorreram ao Avatar, que tratou de encontrar a expertise necessária. Também cita que, em 2007, várias empresas precisavam de um mesmo tipo de equipamento. Juntas, buscaram o financiamento e também a expertise necessária para decidir qual tipo de equipamento e onde procurá-lo.

Com relação às incubações artísticas, na Méduse tudo pode ser completamente variável. Se no Canadá algumas organizações estipulam um número de residências fixas por ano enquanto outras oferecem por meses, semanas ou mesmo dias, na Méduse é diferente. O processo de incubação pode, inclusive, até não ser contínuo: começa em uma dada semana, seguido de uma pausa para reflexão e é retomado adiante. Uma vez avaliado como um bom projeto, o mesmo é acolhido pela Méduse, faz-se um cálculo de custo e, em seguida, junto com o artista, discute-se a melhor maneira de buscar o financiamento – inclusive, se possível, junto à iniciativa privada.

Dentre os programas de residência previstos para este ano encontra-se, pela primeira vez, um programa estabelecido em parceria com o Instituto de Artes do Pará (IAP). Pelo acordo, o IAP deve selecionar e encaminhar um artista plástico com ênfase em trabalhos visuais para uma bolsa de dois meses de incubação no VU, uma das empresas da

Méduse, até o final de 2008. Na Méduse, entre os principais parceiros, estão a prefeitura do

Quebec, o Calq e o MCCF.

No âmbito de Montreal, programas de residência artística temporária são oferecidos pelas redes públicas municipais das Maisons de la Culture. A Maison de la Culture Frontenac, situada na estação de metrô de mesmo nome e no mesmo local de uma das 44 bibliotecas municipais, é uma das 12 Maisons de la culture vinculadas à prefeitura de

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Montreal37, que oferecem residência artística para a criação no que se refere aos espaços e suporte técnico para ensaios e apresentações – não há serviços de acompanhamento artístico.

Louise Matte, diretora da Frontenac, aponta a ocorrência de 100 espetáculos por ano e especialmente nas áreas de dança, teatro e música – “excetuando-se a música clássica, pois como ficamos perto de uma capela que promove esse tipo de trabalho, preferimos que ela siga com esse perfil”38. A diretora sublinha que, além dessa espécie de rede de informações culturais entre a Maison e as instituições de seu entorno, há outra semelhante entre as demais Maisons de la Culture, no sentido de facilitar o acolhimento de propostas de apresentação e de residência artística de criação vinculadas às características regionais próximas a cada Maison.

Essa rede de informação é produzida a partir das decisões dos Comitês Municipais Interdisciplinares Setoriais (dança, música, teatro), que centralizam o recebimento das propostas dos artistas, para, uma vez examinadas e aprovadas, disponibilizá-las na rede das Maisons, a fim de que cada uma possa estabelecer, da melhor maneira, a sua programação. As Maisons, contudo, oferecem apenas o espaço de ensaio, um cachê e toda a infra-estrutura técnica de recursos humanos e materiais para os espetáculos – mas não financia diretamente seus artistas residentes, que devem buscar esse apoio, por exemplo, junto ao Calq. Esses artistas podem estar no início ou no meio de carreira, e o apoio é de ordem técnica e não artística.

Além de uma rede de Maisons de la Culture, a prefeitura de Montreal apóia diversas organizações sem fins lucrativos que possam atuar no fomento e na difusão artístico- cultural, entre as quais estão a Sociedade dos Diretores de Museus Montrealenses, o Grupo

Culture Montréal e o MAI (Montréal Arts Interculturels) que, além de difusor, atua também

com projetos na área de incubação artística e tem, como uma de suas principais metas institucionais, a promoção da diversidade cultural – aspecto importante nas políticas cultural externa e interna dos dois países estudados.

Assim, a partir do mapeamento das incubações artístico-culturais no Brasil e no Canadá, passamos ao exame mais de perto de dois processos institucionais vinculados a cada uma dessas modalidades de incubação. De um lado, o caso brasileiro da Gênesis e, de outro, o quebequense MAI.

Através dessa comparação, poderemos detalhar ainda mais as diferenças e semelhanças nesses dois processos de incubação. O brasileiro, mais vinculado a uma adaptação do processo tradicional de incubação à dimensão cultural, enquanto o

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quebequense, mais voltado a uma ampla dimensão de financiamento de incubações artísticas.