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Intervju  med  journalist  Ole  Mathismoen,  Aftenposten,  28.  mars

O novo processo de estruturação produtiva pressupunha o rompimento com o paradigma anterior de qualificação tecnicista, o qual privilegiava a especialização e um determinado modelo comportamental exigido ao trabalhador. Aliado às transformações técnico-organizacionais exige a ressignificação das noções de trabalho, qualificação e formação profissional no atual processo de globalização da economia capitalista mundial.

A concepção de qualificação tecnicista foi sendo substituída pela noção de competência em mais um momento de crise do capitalismo e aumento do desemprego pela falta de postos de trabalho. A concepção de qualificação remete ao posto de trabalho, ao salário, às tarefas; a de competência, à subjetividade, à multifuncionalidade, à imprecisão. Hirata (2002), destaca que na noção de competência está ausente a perspectiva de relação social, associando a qualificação ao sujeito e a sua subjetividade, deslocando para o âmbito privado uma relação que no modelo fordista e na lógica do pacto social era essencialmente uma relação social.

A noção de competência já era estudada no campo das ciências da cognição e da lingüística desde os anos 1970 e passa a ser incorporada nos discursos dos empresários, dos técnicos dos órgãos públicos da área do trabalho e por alguns cientistas sociais de forma generalizada, indistintamente nos campos educacionais e do trabalho como se tivesse conotação universal.

Trazemos para esse texto alguns conceitos de competência seguidos de uma análise crítica. Para Desaulniers, competência é definida como a capacidade para resolver um problema em uma situação dada; logo, “trabalhador competente é aquele que sabe utilizar todos os seus conhecimentos – obtidos através de vários meios e recursos – nas mais diversas situações em seus postos de trabalho”. (DEULSANIERS, 1993, p.100). Assim entendida, corrobora-se a noção de que competência tem seu foco no indivíduo e na sua capacidade de realizar as tarefas a ele confiadas, apresentando-se desvinculada da formação profissional.

Para Stroobants, competência “representa a valorização da experiência profissional do savoir-faire oriundo da vivência pessoal, da experiência no trabalho e

das atitudes comportamentais em contraposição ao saber adquirido na escola.” (STROOBANTS, apud ARRUDA, 2000, p.24).

Segundo Isambert-Jamati, Stroobants e Tanguy, apud Arruda (2000), avaliar as capacidades de comunicação, comprometimento, autonomia, responsabilidade, inovação, mobilidade, flexibilidade nesse modelo de competência, torna-se um desafio, uma vez que a avaliação e progressão do indivíduo estão relacionadas à avaliação e recompensa de seu desempenho individual e não ao cargo ou posto de trabalho. Tanguy diz mesmo ser impossível “se desenvolver um subsistema de avaliação capaz de identificar todas as nuanças e multiplicidades que envolvem as novas qualificações para o trabalho.” (TANGUY, apud ARRUDA, 2000, p. 24).

A autora mostra que a opção pelo modelo de competências para a avaliação de desempenho é intencional por parte do sistema econômico capitalista; tal lógica provoca a desigualdade, pois tenta estabelecer um comportamento homogêneo para a subjetividade em uma situação no ambiente de trabalho; não são consideradas as diferenças de formação dos indivíduos, suas oportunidades, experiências e outras situações; também é grave o fato de que, até o momento, não se desenvolveram modelos pedagógicos que possibilitem ao trabalhador a qualificação a esse novo padrão de identidade, de reconhecimento e valorização do trabalho, para tanto são necessários pesados investimentos em qualificação e reconversão profissional. Inserir-se e manter-se competitivamente no mundo do trabalho, requer do trabalhador investimento em educação continuada e o aprimoramento de qualificações tácitas como fatores determinantes para tais objetivos.

Nessa configuração, a educação continuada e a reconversão profissional são atribuídas a um esforço individual do trabalhador, desconhecendo-se que a qualificação é um processo histórico e fatores como capacidade cognitiva e realidade sócio-econômica do indivíduo concorrem para a construção de sua qualificação. Esta é resultado de um processo de interatividade, dependente do acesso a informações e processos que constituem a formação desejada que não deve depender da história de vida e de relações materiais do trabalhador.

Diante das tendências que configuram o mundo produtivo a partir das décadas de 1980, Ramos (2001, p. 38), relata que essa nova realidade suscita, no campo acadêmico, amplos debates sobre a desqualificação, desespecialização e precarização do trabalho nas organizações capitalistas; no campo sócio-empírico, o questionamento se dá sobre a adequação e a suficiência do conceito de qualificação

como estruturante das relações de produção e dos códigos de acesso e permanência no mercado de trabalho; no campo teórico-filosófico as discussões centram-se na subjetividade dos trabalhadores. Podemos perceber que o debate permanece indefinido. E nesse contexto de indefinições “recupera-se o debate sobre a qualificação como relação social, ao mesmo tempo que se testemunha a emergência da noção de competência.” (Ramos, 2001, p. 39)

Ramos (2001, p. 40), sustenta a existência de um deslocamento conceitual considerando a qualificação como um conceito central na relação trabalho- educação, conceito polissêmico que ordenou historicamente as relações de trabalho e educativas frente à materialidade do mundo produtivo, de significados historicamente em disputa. Essa centralidade hoje é ocupada pela noção de competência e não mais pelo conceito de qualificação, apesar desse não estar superado nem substituído.

A respeito da dimensão relação social presente no conceito de qualificação discutida por vários estudiosos, Hirata (1994), chama atenção para a multidimencionalidade do mesmo, pois envolve, de um lado, a qualificação do emprego, entendida como conjunto de exigências definidas a partir do posto de trabalho, e, simultaneamente, a qualificação do trabalhador compreendida como conjunto de atributos incorporados a este de forma ampla porque inclui as qualificações sociais ou tácitas; de outro lado, o conceito açambarca a qualificação como relação social, historicamente redefinida e conflituosa entre capital e trabalho muitas vezes mediada pelo Estado; esta dimensão expressa a força de trabalho como mercadoria, onde se definem o valor de uso e o de troca da mercadoria força de trabalho.Diversamente, a noção de competência, como já ressaltamos, é marcada política e ideologicamente por sua origem no discurso empresarial, da qual está ausente a ideia de relação social, ideia central no conceito de qualificação segundo estudiosos como Deulsaniers, para a qual

competência designa saber ser, mais do que saber fazer” e implica dizer que o trabalhador competente é aquele que sabe utilizar todos os seus conhecimentos – obtidos através de vários meios e recursos – nas mais diversas situações encontradas em seu posto de trabalho" (DEULSANIERS,1993, p. 100, apud FERRETI,1997, p. 258.)

Ferreti (1997), tece considerações acerca do deslocamento da importância atribuída à qualificação formal e ao saber técnico, elementos centrais que definem a identidade do trabalhador, do seu lugar social e do seu salário para uma outra

perspectiva resumida na expressão “saber ser”, entendida como “colocar-se por inteiro, mobilizar-se completamente em direção a um fim, neste caso, a valorização do capital.”(1997, p. 258). Além disso, o autor lembra que Tanguy e Ropé afirmam ser a “competência inseparável da ação e os conhecimentos teóricos e/ou técnicos são utilizados de acordo com a capacidade de executar as decisões que a ação sugere.” (FERRETI, 1997, p. 258)

Assim entendido, para Ferreti, a noção de competência

representa a atualização do conceito de qualificação, segundo as perspectivas do capital, tendo em vista adequá-lo às novas formas pelas quais este se organiza para obter maior e mais rápida valorização. (FERRETI, 1997, p. 258)

Também para Manfredi (1998), a noção de competência constitui uma reatualização da noção tecnicista de qualificação, pois não rompe em definitivo com o modelo anterior. As diferenças ficam por conta de distinções de ordem qualitativa; a noção tecnicista do modelo de qualificação é mais restrita e limitada do ponto de vista técnico-científico, enquanto que a segunda noção, a de competência, é mais abrangente, até mesmo multidimensional porque incorpora à perspectiva técnico- operacional, dimensões de ordem subjetiva, de ordem psicossocial e cultural, no entanto, ambas definem a qualificação a partir da visão de um modelo de organização capitalista de trabalho.

A autora destaca que no Brasil diferentes estudos sobre o tema registram a combinação e a sobrevivência de várias estratégias de qualificação e requalificação do trabalho, consideradas as diferenças regionais e inter e/ou intra-setores da economia, ao lado de um novo perfil de qualificação da força de trabalho que prioriza algumas exigências para a institucionalização de um sistema de qualificação quais sejam: “a posse de escolaridade básica, de capacidade de adaptação a novas situações, de compreensão global de um conjunto de tarefas e das funções conexas”. (MANFREDI,1998). São necessárias as capacidades de abstração e de seleção, trato e interpretação de informações, atitude de abertura para novas aprendizagens e criatividade para o enfrentamento de imprevistos, além da capacidade de comunicação grupal. (MACHADO, 1996, apud MANFREDI, 1998, p. 12).

Frigotto (1995), ao qualificar as bases histórico-sociais em que se fundamentam as novas exigências educativas para a qualificação do trabalhador,

insiste em que estas se configuram como um rejuvenescimento da teoria do capital humano.