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8 Appendix

8.2 Interview questions and answers

Até o Século XVIII, a Filosofia do Direito se desenvolve influenciada pelo jus naturalismo. O Direito é fundamentado em valores naturais e não nos ditames da norma estatal. A validade desse Direito natural advém de si mesmo e sua legitimação se encontra em uma ética superior. O justo é o ideal que se aproxima do bem comum; uma norma só é válida quando for justa. No jus naturalismo, os princípios gerais possuem caráter meramente informativo, sem qualquer eficácia sintática normativa. Ainda assim, cabe aos princípios a difícil tarefa de decifrar as verdades objetivas oriundas da Lei divina e humana de forma metafísica e abstrata, apenas no campo ético-valorativo do universo jurídico.

O Direito natural, de acordo com sua doutrina específica, não é criado pelo ato de uma vontade humana, não é o produto artificial, arbitrário do homem. Ele pode e tem de ser deduzido da natureza por uma operação mental. Examinando-se cuidadosamente a natureza, em especial a natureza do homem e de suas relações com outros homens, podem-se encontrar as regras que regulam a conduta humana de uma maneira correspondente à natureza, e, portanto, perfeitamente justa. Os direitos e deveres do homem, estabelecidos por essa Lei natural, são considerados inatos ou congênitos ao homem, porque implantados pela natureza e não a ele impostos ou conferidos por um legislador humano; e, na medida em que a natureza manifesta a vontade de Deus, esses direitos e deveres são sagrados (KELSEN, 2005, p.14).

Com uma carga normativa insuficiente as leis naturais se demonstram incapazes de reger até mesmo as relações interpessoais de baixa complexidade, o que evidencia a superação histórica do jus naturalismo perante uma sociedade insatisfeita e à mercê da justiça fundamentada tão somente na reta razão. ―A razão humana, desde então, será por consequência, o único guia‖ (DAVID, 1998, p.37).

Na transição entre o Estado liberal e o Estado social, a carência científica e o caráter transcendental do Direito natural fortifica o movimento positivista. No campo filosófico, o positivismo transmite às teorias uma conotação científica que ao ser utilizada na apreciação das inclusões humanas resulta em uma nova ciência jurídica, com características similares às das ciências exatas. ―Com o Estado legalista, o Direito passou a ser algo do Estado, abandonando-se o Direito costumeiro e concebendo-se a ordem jurídica como uma rede cerrada de normas positivas‖ (SALDANHA, 2000, p. 25).

De início, os princípios gerais são inseridos nos códigos apenas para estender sua eficácia legal e tapar vazios normativos, constituindo meras pautas programáticas supralegais. No positivismo, o poder normativo se torna cada vez mais objetivo e faz com que Direito e moral se distanciem. Fatos e valores são analisados por juízos distintos, sem qualquer apego ao âmago social. As características da particularidade, mutabilidade e utilidade — típicas do Direito positivo — superam a universalidade, a imutabilidade e a bondade do jus naturalismo. Ocorre que o movimento positivista se demonstra incapaz de exaurir todas as situações passíveis de serem legalmente previstas. Assim, até mesmo os adeptos ao jus positivismo são obrigados a reconhecer a existência das ―lacunas do Direito‖ que passam a ser suprimidas com a aplicação do Direito natural.

Enquanto os jus positivistas, para serem coerentes até o fim, excluindo o recurso ao DIREITO natural, negaram a própria existência das lacunas, os escritores do século XVII e XVIII não a negam absolutamente e afirmam, ao contrário, que em tal caso o juiz deve resolver a controvérsia aplicando o Direito natural. Essa solução é perfeitamente lógica para quem admite que o Direito positivo se funda (através do Estado e do contrato social que faz surgir este último estado de natureza) no Direito natural: vindo, aliás, a faltar o primeiro, é evidente que deve ser aplicado o segundo. Para usar imagens, diremos que o Direito positivo não destrói, mas sim recobre ou submerge o Direito natural; se, portanto, há um ―buraco‖ no Direito positivo, por meio deste se vê aflorar o Direito natural; ou se preferir, a ―submersão‖ do Direito natural não é total, porque, acima do nível do Direito positivo, algumas ilhotas ainda afloram (BOBBIO, 2006, p.42).

Ainda que para alguns esses dois movimentos interajam, formando uma ideologia jurídica que se complementa, o abandono das questões éticas e a interpretação das normas de acordo com os interesses dos líderes governistas —- e não em consonância com a vontade social — contribuem para o declínio do positivismo.

A derrocada política do positivismo abre alas para um novo movimento, idealizado na Hermenêutica de Textos Constitucionais que aceitam e blindam os direitos fundamentais. A novel interpretação pós-positivista reaproxima Direito e moral. As normas são submetidas desde seu nascedouro a uma valoração legitimada na própria Constituição e posteriormente se exteriorizam sob a forma de princípios.

A juridicidade dos princípios passa por três distintas fases: a jus naturalista, a positivista e a pós-positivista.

A primeira – a mais antiga e tradicional – é a fase jus naturalista; aqui, os princípio habitam ainda esfera por inteiro abstrata e sua normatividade, basicamente nula e duvidosa, contrasta com o reconhecimento de sua dimensão ético-valorativa de ideia que inspira os postulados de justiça. [...]

A segunda fase da teorização dos princípios vem a ser a jus positivista, com os princípios entrando já nos Códigos como fonte normativa subsidiária.

[...]

A terceira fase, enfim, é a do pós-positivismo, que corresponde aos grandes momentos constituintes das últimas décadas do século XX. As novas Constituições promulgadas acentuam a hegemonia axiológica dos princípios, convertidos em pedestal normativo sobre o qual assenta todo o edifício jurídico dos novos sistemas constitucionais (BONAVIDES, 2004, p. 259; 262; 264).

No pós-positivismo, as normas programáticas mantêm seu papel de normas-tarefas, albergando em si programas a serem cumpridos. Já os princípios extrapolam o limiar das lacunas normativas para atuar em uma perspectiva dogmática como frações edificadoras das ações de Direito. Os princípios deixam o jus privatismo dos códigos e passam para o jus publicismo das Constituições, auferindo dimensão e vitalidade. Na Constituição, os princípios compõem um conjunto ordenado e aberto de normas voltadas para a consolidação indistinta de direitos privados e públicos, em especial os direitos fundamentais. Nesse novo contexto social, os princípios se firmam como a pedra angular de toda a ciência jurídica e revelam na materialização de seus enunciados a essência do Direito e da justiça.

Princípio é, por definição, mandamento nuclear de um sistema, verdadeiro alicerce dele, disposição fundamental que se irradia sobre diferentes normas compondo-lhes o espírito e servindo de critério para a sua exata compreensão e inteligência, exatamente por definir a lógica e a racionalidade do sistema normativo, no que lhe confere a tônica e lhe dá sentido harmônico. É o conhecimento do princípio que preside a intelecção das diferentes partes componentes do todo unitário que há por nome sistema jurídico positivo. Violar um princípio é muito mais grave que transgredir uma norma. A desatenção ao princípio implica ofensa não apenas a um específico mandamento obrigatório, mas a todo sistema de comandos. É a mais grave forma de ilegalidade ou inconstitucionalidade, conforme o escalão do princípio atingido, porque representa insurgência contra todo o sistema, subversão de seus valores fundamentais, contumélia irremissível a seu arcabouço lógico e corrosão de sua estrutura mestra (BANDEIRA DE MELLO, 2009, p.948-949)

O movimento pós-positivista marca a conversão dos princípios gerais do Direito em princípios Constitucionais. A Constituição é a norma fundamental positivada, que ocupa no ordenamento uma posição privilegiada, dotada de superioridade jurídica, conteúdo intangível e linguagem exclusiva, na qual as normas infraconstitucionais buscam seu fundamento de validade. Eles traduzem os mandamentos constitucionais de convalidação, os quais devem ser observados para o reconhecimento desse atributo indispensável entendido como a aptidão formal ou material para figurar no sistema jurídico.

Nesse período, os princípios agem como um mecanismo diretivo entre as normas infraconstitucionais e a Constituição. Se houver correlação entre ambas, aquelas se integram ao sistema; caso contrário, não.

[...] o conceito de sistema, no Direito, está ligado ao de totalidade jurídica. No conceito de sistema está, porém, implícita a noção de limite. Falando-se em sistema jurídico surge assim a necessidade de se precisar o que pertence ao seu âmbito, bem como se determinar as relações entre sistema jurídico e aquilo a que ele se refira, embora não fazendo parte de seu âmbito, é aquilo a que ele não se refira de modo algum (FERRAZ JÚNIOR, 1976, p. 129). Ao servir de elo de legitimação para as normas infraconstitucionais o campo de atuação dos princípios não se restringe mais às situações em que os interesses envolvidos são exclusivos das partes. Pelo contrário, a incidência principiológica se destina à prevalência dos valores essenciais de todo o ordenamento em detrimento daqueles particulares. ―Os princípios constitucionais consubstanciam as premissas básicas de uma dada ordem jurídica, irradiando- se por todo o sistema‖ (BARROSO, 1998, p.143). O alcance aberto dos princípios estabelece uma conexão estrutural entre os bens jurídicos individuais e os grupais, pois ainda que indiretamente a aplicação irrestrita de um princípio vinculará as relações entre partes.

Os princípios constitucionais são aqueles que guardam os valores fundamentais da ordem jurídica. Isto só é possível na medida em que estes não objetivam regular situações específicas, mas sim desejam lançar a sua força sobre todo o mundo jurídico. Alcançam os princípios essa meta à proporção que perdem o seu caráter de precisão de conteúdo, isto é, conforme vão perdendo densidade semântica, eles ascendem a uma posição que lhes permite sobressair, pairando sobre uma área muito mais ampla do que uma norma estabelecedora de preceitos. Portanto, o que o princípio perde em carga normativa ganha como força valorativa a espraiar-se por cima de um sem-número de outras normas (BASTOS, 2001, p. 161).

Os princípios fundamentam a aplicação e interpretação do Direito e podem materializar-se em graus variados, de acordo com as possibilidades fáticas e jurídicas. Independentemente dos níveis, exige-se um coeficiente mínimo de facticidade e juridicidade para o aperfeiçoamento do princípio. Se apenas as condições fáticas são favoráveis à sua concretização, falta-lhe fundamentação jurídica e, por via de consequência, validade. Já se estão presentes apenas as condições jurídicas, não há pressuposto fático para sua subsunção. Assim, o equilíbrio entre as possibilidades fáticas e jurídicas é determinante para que um princípio se erija como uma máxima capaz de refletir sua verdadeira finalidade e baldrame constitucional.