Torre (2006) destaca a recorrência de pesquisas sobre a criatividade e a baixa inserção e polinização das contribuições que as ciências envolvidas já trouxeram. O baixo impacto destas teorias sobre o avanço na solução de problemas complexos reduz os benefícios advindos do potencial das pessoas que convivem e atuam em diferentes domínios. O autor verificou que um dos fatores de relevância de um problema está na insistência em discuti-lo, pois, quanto mais recorrente e comum ele parece ser, tanto mais revela sinais de sua pouca clareza conceitual. Castro (2006), por sua vez, atribui a importância de um tema à relação que este deve estabelecer com um cenário teórico que mereça atenção permanente na literatura especializada, que é o caso da criatividade.
Esta mesma constatação não se aplica à expertise, visto que há menos insistência em pesquisá-la. Há também uma diferença importante em relação à criatividade como possível explicação para esta ocorrência. A expertise é um domínio que tende a se estruturar em torno de certezas, já que há uma predominância de delimitadores conceituais, de ordem quantitativa, com relativo consenso entre os autores, provocando a sensação de um aparente domínio dos meios de desenvolvê-la. Talvez, o pensamento de Ericsson, Prietula e Cokely (2011) tenha influenciado esta tendência a um olhar mais restrito ao desempenho em si, no campo da
expertise. Estes autores entendem que é possível criar métodos até para testar habilidades criativas e que as dificuldades para medir o desempenho de um ás não devem desestimular a ciência de persistir nesse procedimento de natureza psicométrica.
Quanto à criatividade, apesar de já ter sido reconhecida como um fenômeno complexo, multidimensional, persiste a dificuldade em compreender esta sua natureza e de se descobrir os meios de „provocar‟ a sua manifestação. E, a despeito do número excessivo de teorias e definições, talvez os avanços imprimidos ainda não tenham sido suficientemente adequados para a compreensão mais profunda e a expressão desse potencial humano. Este, muitas vezes, torna-se o ponto crucial de estagnação e o mais propício para a contribuição do diálogo envolvendo as duas áreas.
Uma visão mais reducionista circunda alguns pressupostos da expertise, desconsiderando um aspecto crucial: o construto não deve ser tomado como algo isolado, que goza da prerrogativa de que seus processos de modelagem desenvolvam-se de modo unidimensional e autossuficiente no estudo do alto desempenho. Neste sentido, devemos reconhecer e levar em conta a complexidade humana, uma vez que a expertise guarda uma relação intrínseca com a formação de pessoas para atuarem em suas áreas de interesse. Ericsson, Prietula e Cokely (2011) sempre enfatizam que uma metodologia empregada para superar a dificuldade de medir qualquer situação é “tentar reproduzir em laboratório uma situação representativa”. Isto nos leva a sugerir que tais métodos tendem a descuidar da complexidade humana e do caráter de imprevisibilidade da realidade envolvidos nos processos da expertise.
Um exemplo apresentado acerca dessa metodologia é a simulação de cenários que expõem enfermeiros de pronto-socorro a uma situação cotidiana de vida ou morte. A reação desses profissionais no laboratório é comparada aos resultados obtidos na vida real, evidenciando, segundo os autores, “íntima correlação com medidas objetivas de desempenho de experts”. Em situações reais como a da metodologia mencionada, há inúmeros fatores emocionais envolvidos que na simulação não aparecem. Por exemplo, a pressão gerada pelo risco de morte, a pressão dos superiores pelo resultado positivo do procedimento realizado, problemas pessoais mais graves que interferem na atuação do profissional em determinado período, entre outros. Precisamos nos dar conta da “inadequação cada vez mais ampla, profunda e grave” entre o modo de constituição dos saberes e as realidades ou problemas cada vez mais transversais e multidimensionais (MORIN, 2003, p. 13).
Enquanto pesquisas recentes de Kaufman (2013) sustentam esta visão de interrelação, para Ericsson (2014) parece que as críticas nesta direção não procedem. Recentemente, ao editar um volume de ensaios sobre os determinantes que influenciam o desempenho especialista ou desempenho elite, Kaufman (2013) constatou uma complexa interação de diferentes variáveis pessoais e ambientais que se alimentam e se reforçam mutuamente, em sentido não linear. O autor concluiu que uma compreensão mais completa do desenvolvimento expert, só pode ser alcançada por meio de uma integração de perspectivas. A crítica de Kaufman também sugere que a ênfase do debate nesse domínio, muitas vezes, acaba mantendo-se na relação „talento inato vs. prática deliberada‟ (ERICSSON et al, 2007; ERICSSON, 2014), e que esta dicotomia é prejudicial ao progresso científico da área em todos os sentidos (GOBET, 2013; KAUFMAN, 2013).
Ericsson (2014), em uma publicação posterior, pareceu apresentar uma réplica às críticas. Na visão apresentada por ele, características inatas não são necessariamente imutáveis e coloca algumas restrições sobre os meios de aquisição da expertise. A crítica recai sobre comparações entre os níveis normais e os níveis atingíveis pelos experts, analisando-se a partir de diferenças individuais e com amostras que Ericsson considera muito pequenas. Nesse aspecto, o autor sugere discordar dos investigadores que trabalham no âmbito das diferenças individuais, especialmente quando estes alegam que a estrutura do desempenho expert pode ser comparada ao desempenho observado na população adulta em geral. Trata-se de uma estrutura que apenas corresponde aos casos extremos (expertise) e deve ser investigada sem extrapolar esta delimitação (ERICSSON, 2014), visão que pode ser interpretada como uma barreira à ampliação do diálogo entre teorias e para diferentes perspectivas.
De acordo com algumas questões expostas até aqui, ainda não houve uma predisposição direcionada, na literatura da expertise, à investigação das possibilidades de interação com a criatividade. Na maior parte das vezes, observamos referências a fatores como talento individual, prática, treinamento, habilidades. Weisberg (2013) aproximou-se desta relação, quando sugeriu que estimular uma habilidade específica, desenvolvendo a criatividade de forma sistemática, leva muitos indivíduos a se destacarem em seu campo de atuação.
Em contrapartida, é comum e perceptível a ênfase na relação entre criatividade e outros construtos, bem como entre expertise e outros construtos. Analisando um estudo de Phillipson e Vialle (2013), os autores nos revelam que, nas últimas décadas, as investigações
relacionando talento e criatividade têm se expandido, marcadamente, nas várias configurações e domínios. Da mesma forma, talento tem sido um conceito presente na literatura da expertise. Quer seja no campo da educação de superdotados, no mundo de finanças e negócios ou em atividades de esportes, por exemplo, a pesquisa sobre o desenvolvimento de talentos e criatividade tem sido concebida como uma parte crucial para as melhorias desses campos, segundo os dois autores. Prevalece a máxima de que indivíduos talentosos que apresentam inovações criativas dominam o mundo. Isto intensifica o grande anseio por descobrir como talento e criatividade podem ser cultivados em mais pessoas.
Fiorentino (2008) já reforça que a parte do planeta mais afetada pelos efeitos da globalização, que são os países do terceiro mundo, sofre de modo mais intenso as consequências dos problemas mal resolvidos e os efeitos da ineficiência dos sistemas e serviços, passando a ameaçar o próprio futuro e as expectativas de realização e progresso. A visão de Fiorentino retrata o cenário destacado por May (1975, p. 39), autor que nos orienta a valorizar o processo criativo “como a expressão própria de pessoas normais, no ato de atingir a própria realidade” e, principalmente, agir sobre ela, transformando-a, apesar das dificuldades impostas pelo meio. Na perspectiva de Vigotski (apud PRESTES, 2012), a atividade criadora é o que leva as pessoas a modificarem o presente e construírem o futuro, visto que o cérebro não só conserva e reproduz, mas combina e reelabora de forma criadora elementos da experiência anterior edificando novas situações e novo comportamento.
Outra questão colocada por Phillipson e Vialle, torna-se um aspecto de relevância científica da presente tese. Refere-se à percepção de que há novas direções sinalizando para a relação entre o desenvolvimento de talentos e excelência, mas apenas como extensão do estudo sobre talento e criatividade, com a finalidade de subsidiar a pesquisa e orientar a prática atual e futura na área de desenvolvimento de talentos. Podemos inferir que explorar a interação dialógica entre criatividade e expertise ainda não foi suscitado até o momento, sobretudo neste enfoque em que a interação com a criatividade pode contribuir para abrir a expertise e torná-la mais acessível à população comum. Ampliando-se os benefícios da especialização, além de possibilitar-nos melhorar cada vez mais a qualidade de vida das pessoas, também nos ajudará na compreensão de alguns comportamentos do expert, no que consiste em se manterem persistentemente e apaixonadamente dedicados a um objeto de estudo, por longo tempo.
Para Gobet (2013), os estudos voltados para a investigação de questões relacionadas ao desempenho extraordinário, têm se mostrado altamente polarizados e seguem duas
tradições de pesquisa bastante definidas. De um lado, temos a tradição com base na expertise. Esta tradição enfatiza a prática e tem apresentado evidências empíricas apoiando fortemente o chunking como um mecanismo chave de aprendizagem e prática, bem como um pré-requisito para se tornar um especialista. Há um risco no chunking que é nos concentrarmos em um único „pedaço‟ da informação e perdermos a visão de conjunto, de totalidade. De outro lado, temos a tradição de pesquisa com base no talento, que se concentra, principalmente, no talento inato. Esses estudos, por sua vez, forneceram dados consistentes sobre a importância das diferenças individuais, herdadas, na parte da inteligência e memória de trabalho, considerando outros fatores, como idade inicial e lateralidade (GOBET, 2013).
Gobet (2013) pondera: para que pesquisas futuras sobre o desempenho extraordinário sejam bem sucedidas, estas duas tradições devem interagir em esforços conjuntos para compreender os processos envolvidos na expressão desses construtos. São tantas as variáveis envolvidas, que interações complexas devem ser consideradas nas investigações deste tema. Nesse sentido, Gobet declara-se preocupado em observar que alguns estudiosos, na psicologia cognitiva, mantêm-se interessados apenas em modelos computacionais. Com isto, ao invés de investigar os processos complexos, envolvidos no problema, eles concentram-se apenas em responder a perguntas binárias, como, por exemplo, se ocorrem em série ou paralelo, chunks ou não chunks, se é inato ou adquirido.
A natureza dos processos de cada campo na resolução de problemas permitiu que, abordadas sob uma visão dialógica, a expertise fosse caracterizada pelos problemas bem- estruturados ou bem definidos (ordem, determinismo6), e, a criatividade, pelos problemas mal-estruturados ou mal definidos (caos, codeterminismo7). Pelas próprias características da criatividade, esse encontro se tornou benéfico, porque os campos se opõem exatamente no que concerne à abertura e fechamento da visão, possibilitando reestruturações na área da expertise proporcionadas pela criatividade.
Abordar a expertise na perspectiva dos problemas bem-estruturados ou bem definidos ancora-se na concepção de que estes exigem a elaboração de uma representação interna específica para cada situação. Tal procedimento se ajusta à concepção de previsibilidade
6 Teoria segundo a qual tudo está determinado e todos os fenômenos da natureza estão submetidos a condições
necessárias e suficientes, elas próprias também determinadas por relações de causalidade e leis universais que excluem o acaso e a indeterminação, de tal forma que uma inteligência capaz de conhecer o estado presente do universo estaria apta também a prever o futuro e reconstituir o passado. Hipótese que defende que um fator é causado pelos fenômenos prévios ou pelos que surgem em simultâneo, sendo que, se os fatores prévios ou concomitantes forem conhecidos, é possível prever o fenômeno que vão provocar (NICOLA, 2005).
7 Semelhante à teoria do caos, supõe que todo efeito está contido na causa, e, de forma simultânea, o efeito pode
interagir com outros, gerando, até mesmo, um nível diferente de realidade das causas anteriores. A determinação é vista na simultaneidade ou no presente das relações (NICOLA, 2005).
adotada na área e a necessidade de regulação da cognição. Pressupõe a definição de um estado inicial, um conjunto de operadores e um espaço final, sugerindo uma abordagem essencialmente linear e da ordem da teoria do determinismo (SHIN et al., 2003). Por sua vez, essa concepção não se ajusta à criatividade. Neste caso, a área caracteriza-se pela existência apenas do estado inicial e pela imprecisão do caminho que leva ao espaço final, requerendo uma abordagem especulativa, de exploração de ideias com diferentes perspectivas e aplicáveis em situações que exigem inovação e originalidade para se alcançar o espaço final (AMABILE, 1996). Especialmente, nos espaços onde se busca a inovação, os problemas são conceituados como mal estruturados e abertos, sendo que, problemas desta natureza, não comportam solução única e imediata, são passíveis de interpretação e instigam a buscar uma resposta criativa (SIMON, 1973).
Todos os questionamentos sobre a expertise apresentados, neste contexto, como possibilidades de avanços, a partir da interação com a criatividade, cabem em três expressões que se referem a riscos previsíveis (STERNBERG, 2001; LEWIS, 2005):
‒ as configurações mentais, um modelo de estrutura mental estabelecido pelo expert para representar o problema que, em princípio, estaria entre as suas melhores capacidades para encontrar soluções rápidas e eficientes;
‒ o entrincheiramento, definido como estagnação em determinada estratégia, por acreditar que, se funcionou muito bem em alguns problemas, necessariamente resolverá problemas em outro contexto;
‒ a fixidez funcional, um tipo específico de configuração mental que bloqueia a percepção de que um esquema conhecido pode ser usado com uma função diferente da usual.
Nesses momentos, o expert vê-se diante do impasse de que velhos esquemas não resolvem novos problemas, exceto se aplicá-los de maneira inédita. Lewis (2005) reconhece esses efeitos como obstáculos à criatividade e à inovação, quando o conhecimento, a prática e a experiência em excesso impedem a percepção de que um procedimento com um fim determinado pode ser usado com outras finalidades e em outros contextos que não sejam os habituais. Isso costuma ocorrer, em grande parte, motivado pela falsa certeza e segurança que trazem o conhecimento na área e a experiência adquirida anteriormente, com o reforço da visão determinista.
Há situações em que o esquema consolidado pelo expert não se adapta e entra em contradição com as condições implícitas do problema podendo deixá-lo paralisado. Para avançar, a difícil tomada de decisão exige-lhe a rejeição dos esquemas que têm disponíveis, a combinação de dois ou mais esquemas ou a seleção de outros que, talvez, extrapolem todo o conhecimento, regras e linguagem do seu domínio (BROWN; VANLEHN, 1980; LARKIN, 1983). Ante tais possibilidades, existem os insights que, como um processo especial que envolve o pensamento produtivo, opõe-se ao reprodutivo e ao modo linear de tratar a informação (VANLEHN, 1989), abrindo a visão do expert para as diferentes realidades nas quais se inserem o problema.
Por sua vez, reportando-se aos indicadores da criatividade, Sternberg e Davidson (1995) sugerem que a capacidade de realizar insights exigentes supera esses bloqueios com uma solução inovadora e inesperada, levando o expert a reestruturar seus esquemas, a partir de uma nova perspectiva. Quando propriedades cognitivas operam como facilitadoras destes processos, induzidas pela flexibilidade em rever esquemas por novas perspectivas entram em ação os conceitos de alta criatividade e de criatividade quotidiana (STERNBERG; DAVIDSON, 1995).
Neste sentido, encontramos um terreno bastante propício para a exploração da interação com a criatividade. Esta percepção tomou por base, os resultados dos estudos de Chase e Simon (1973), alinhados aos de De Groot (1965/2008), para o qual o que distingue experts de novatos é a organização (chuking) e o modo como os primeiros usam o conhecimento e aplicam seus esquemas.