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Intersection Test

In document Reconstructive Geometry (sider 141-144)

4 Computer-Aided Geometric Design

4.2 Collision Detection

4.2.4 Intersection Test

Os aviões até a Primeira Guerra Mundial não se tornaram armas tão perigosas, mas representaram grandes mudanças na exploração de combate. É importante esclarecer que a aeronáutica militar não se iniciou com os aviões, e sim com balões de exploração. Militares brasileiros utilizaram balões pela primeira vez durante a Guerra do Paraguai, cuja principal utilização data de 25 de setembro de 1867, a vigésima ascensão de um balão e primeira com oficiais do Exército próximo às fortificações de Humaitá105. Quando do desenvolvimento do aeroplano, em princípios do século XX, a velocidade alcançada despertou interesses em seu uso. Segundo artigo da Revista Marítima, em 1909, Wilbur Wright conseguiu percorrer 100 quilômetros em uma altura de 100 metros durante uma hora e 54 minutos de voo106.

A animação em torno dos aeroplanos fez o capitão-tenente Oscar Pacheco questionar, em 1910, as feições da guerra no futuro. Para o oficial, os aviões adquiririam o maior valor de suporte às esquadras, já que a capacidade de sobrevoar alvos inimigos, bem como fortificações, portos e costas à distância e altitude suficientes para não ser atingido construiria um inimigo invencível (ainda que não atacasse propriamente os alvos)107. Por essa razão, as esquadras poderiam se preparar a inimigos tão poderosos como o HMS Dreadnought inglês. Na lógica de Pacheco, a capacidade exploratória dos aviões, por enfraquecer o elemento surpresa do inimigo, diminuiria consideravelmente o poder dos grandes encouraçados, que poderiam ser alvos específicos de uma esquadra preparada – do torpedo à aviação, os monstros mitológicos couraçados perderiam gradativamente sua força.

105 Vd. LAVENÉRE-WANDERLEY, Nelson. História da Força Aérea Brasileira 2ª ed. Rio de Janeiro:

Editora Gráfica Brasileira LTDA, 1975, p. 24.

106 Biblioteca Nacional / Hemeroteca Digital Brasileira / Revista Marítima Brasileira / 1909 / Volume 54 / A

aviação, p. 1.438.

107 Biblioteca Nacional / Hemeroteca Digital Brasileira / Revista Marítima Brasileira / 1910 / Volume 57 / O

O uso dos aeroplanos suscitou um problema nas marinhas: dadas as características e a autonomia das aeronaves, seria necessário possuir aviões e navios adaptados à missão. Haveria necessidade de aviões com hangares para um número expressivo de aeroplanos e as operações realizadas deveriam durar cerca de 45 minutos para garantir um voo em segurança e sem acidentes com dois tripulantes, um piloto e m observador, além de instrumentos de comunicação à distância capazes de emitir pelo menos sinais simples, como a posição do inimigo e a quantidade de belonaves adiante, segundo hipótese da Revista Marítima em 1911108.

Poucos anos após a publicação do referido artigo, em 1914, o capitão de corveta M. C. de Gouveia Coutinho já utilizava a expressão hydro-aviação e os aeroplanos já tinham capacidade para cerca de vinte passageiros. Quanto às funções, o capitão ressaltou do avião a substituição das funções clássicas da cavalaria no Exército e dos cruzadores na Marinha pela superioridade de exploração dele. Entretanto, em tempos de paz o aeroplano também cumpriria um papel de suma importância: o socorro marítimo. Devido à alta velocidade e raio de visão, os aviões poderiam avistar acidentes e comunicar navios de resgate com rapidez109.

É válido ressaltar que ao longo da Guerra, a Marinha de Guerra adquiriu aeroplanos para instrução militar, o que deu início à aviação naval no Brasil. Em 1916, quando foram iniciadas as negociações com os Estados Unidos pelos aviões, foram incorporados pelo aviso 3.856 de 4 de novembro três aeroplanos Curtiss F, formando a Flotilha de Hidroaviões, a qual representou os meios de funcionamento da Escola de Aviação Naval, criada pelo decreto 12.167 do mesmo ano110.

Em 1918, a Marinha dispunha de 16 hidroplanos: dois modelos Standart (biplanos de instrução), dois modelos FBA (biplano de reconhecimento), um modelo Curtiss F fabricado no Brasil (biplano de instrução), seis modelos HS (biplano de reconhecimento e caça- submarina) e quatro modelos Curtiss F fabricados nos Estados Unidos (biplanos de instrução). Todos eram desarmados e cumpriam funções de exploração. Os aviões representaram um divisor de águas considerável na conjuntura da Primeira para a Segunda Guerra, já que os navios aeródromos adquiriram em termos físicos superioridade aos encouraçados, com aviões de ataque que se utilizavam tanto de metralhadoras como torpedos e em conjunto com os submarinos, compuseram o cenário de decadência dos encouraçados pós-Guerras Mundiais.

108 Biblioteca Nacional / Hemeroteca Digital Brasileira / Revista Marítima Brasileira / 1911 / Volume 58 / O

aeroplano nas esquadras, p. 1.394.

109 Vd. Biblioteca Nacional / Hemeroteca Digital Brasileira / Revista Marítima Brasileira / 1914 / Volume 71 /

Hydro-aviação na Marinha.

110 Câmara dos Deputados / Atividade Legislativa / Legislação / Decreto nº 12.167, de 23 de agosto de 1916 /

A Primeira Guerra Mundial significou a prova de fogo do projeto de modernização das forças navais dos países envolvidos: dos grandes encouraçados aos submarinos, os avanços no material flutuante confrontaram-se. Em sentido técnico, o poder dos encouraçados foi fragilizado. Como afirmou Augusto Vinhaes, o combate do Dreadnought contra os submarinos, já que este observava, submergia e atacava sempre, enquanto aquele só fortuitamente conseguiria lançar fogo ao inimigo:

Eis-nos, de novo, em presença do lendário combate entre David e Golias: então, o pequeno pastor israelita derrubou o gigante filisteu com um pequeno calhau arremessado por tosca funda; ao passo que hoje, o minúsculo submarino submerge o colosso dos mares, com uma carga de trezentas libras de algodão pólvora, lançada de encontro as obras vivas do leviathan.111

Embora os encouraçados não tenham perdido seu prestígio por completo, a conflagração de meios diversos e poderosos, especialmente o uso dos torpedos no bloqueio do Mar do Norte imposto pela Inglaterra contra a Alemanha, como argumentou o capitão de corveta Edmundo Pereira. Os torpedos impuseram tamanha importância às marinhas que a Alemanha restringiu todos os seus encouraçados no referido mar em portos militares até que torpedeiros e submarinos pudessem destruir os navios de linha ingleses a ponto de equilibrar o conflito112.

O avanço nas tecnologias bélicas e a crença na ideia de domínio absoluto do mar deram as feições estratégicas da guerra naval, como argumentou o segundo-tenente E. W. Muniz Barreto, a bordo do contratorpedeiro Pará em 1915113. No ano em questão, dois pontos foram ressaltados pelo tenente: em primeiro lugar, o fato da Inglaterra dominar os mares em torno da Europa desde tempos de paz permitiu a superioridade de suas esquadras contra as do Império Alemão; em segundo lugar, o poder de fogo dos navios e a consciência nacionalista da guerra fez com que os adversários, mesmo sem possibilidades de vencer o conflito, causassem os maiores danos possíveis ao inimigo114. A observação do tenente Muniz Barreto é condizente com a mudança no sentido da guerra que a Primeira Guerra Mundial produziu.

As duas guerras mundiais, ou o grande processo de guerra mundial de 1914 a 1945 produziu a ideia de uma guerra total, tanto no sentido de uma para acabar com todas as outras como pelo fato de envolver tanto a população civil como militar. Não se tratava mais de

111 Biblioteca Nacional / Hemeroteca Digital Brasileira / Revista Marítima Brasileira / 1915 / Volume 74 / A

Grande Guerra, p. 1.185.

112 Biblioteca Nacional / Hemeroteca Digital Brasileira / Revista Marítima Brasileira / 1915 / Volume 74 / O

torpedo na guerra actual, p. 1.504.

113 Biblioteca Nacional / Hemeroteca Digital Brasileira / Revista Marítima Brasileira / 1915 / Volume 74 / Em

torno da conflagração da guerra europeia.

derrubar regimes políticos opostos, e sim de derrotar o inimigo em sentido amplo. A guerra total foi, na concepção de Eric Hobsbawm115, o produto da política imperialista, que amalgamou pretensões expansionistas de um capitalismo agressivo com o avanço tecnológico de meios de destruição superiores a todos os outros já produzidos. Dos torpedos aos grandes canhões, o poder de fogo das embarcações militares não lançou estilhaços apenas em combatentes, mas também em todos aqueles envolvidos em combate.

Em outro sentido, desde a obra Da Guerra, de Carl von Clausewitz116. Para Anatole Rapoport117, o principal intento de Clausewitz ao escrever, no século XVIII, o livro que se tornou um dos principais manuais militares do mundo, era demonstrar a necessidade de consciência da guerra enquanto instrumento político pelo Estado. Na lógica clausewitziana, o general é um especialista na arte de combate, e como tal, é condicionado à guerra apenas em efeito estratégico e tático. Ocorre, entretanto, que o estadista, o político enquanto norteador dos rumos de um país, e por isso mesmo, a ele caberia a direção e o controle da guerra. O inimigo enfraquecido ainda seria um inimigo, e dessa forma a ideia da sua destruição total faria sentido. Para Rapoport, o projeto de Clausewitz de usar a guerra como instrumento do Estado só seria completamente satisfeito com a Alemanha nazista.

A participação brasileira na Guerra foi efetivada pelo decreto nº 3.361/ 1917, deflagrando estado de guerra contra o Império Alemão pelo afundamento de navios mercantes brasileiros118. O Brasil acordou na Conferência dos aliados em Paris entre 3 de setembro e 20 de novembro a participação na Guerra enviando uma divisão naval, aviadores para treinamento e uma missão médica119. Assim, foi criada a Divisão Naval em Operações de Guerra – DNOG -, composta pelos cruzadores scouts Bahia e Rio Grande do Sul; pelos contratorpedeiros Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba e Santa Catarina; pelo tender Belmonte e pelo rebocador Laurindo Pitta, tendo como comandante o contra-almirante Pedro Max Fernando de Frontin. A Divisão operou especialmente na costa atlântica da África e no estreito de Gibraltar, não entrando efetivamente em confronto com frotas inimigas, mas à disposição da marinha britânica. Ainda que a participação da Marinha de Guerra brasileira

115 Vd. HOBSBAWM, Eric. A Era dos Impérios (1875-1914). Rio de Janeiro: Paz e Terra ,12ª edição, 2008; A

Era dos Extremos, o breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras, 2ª edição, 38ª

reimpressão, 2008.

116 CLAUSEWITZ, Carl von. Da Guerra [tradução Maria Teresa Ramos] – 3ª ed. São Paulo: Editora WMF

Martins Fontes, 2010 (Clássicos WMF).

117 RAPOPORT, Anatole. Prefácio. In: CLAUSEWITZ, Carl von. Op. Cit.

118 Câmara dos Deputados / Atividade Legislativa / Legislação / Decreto nº 3.361, de 26 de outubro de 1917 /

Reconhece e proclama o estado de guerra iniciado pelo Imperio Allemão contra o Brasil.

119 ARAÚJO, Johny Santana de. . ―A guerra que vai acabar com todas as guerras‖: o Brasil na Primeira Grande

Guerra – a mobilização da sociedade e o engajamento da Marinha – 1917-1918. História: Debates e

tenha sido discreta, ela adquiriu simbolismo importante, como é possível observar na homenagem feita na Revista Marítima quando de seu regresso ao país:

É cedo ainda para se poder avaliar, em toda a sua amplitude, a somma dos serviços prestados por essa benemérita Divisão da nossa Esquadra. Nem o logar se prestaria, e nem a ocasião seria própria para analysal-os. Tanto mais que, sem mesmo conhecel-os minuciosamente, não há quem não saiba que foram de tal ordem, que contribuíram, como talvez nenhum outro acto nosso, para elevar-se o nome ao nosso extremecido Brazil, entre as maiores potencias mundiais, ao mais alto fastígio120. Esse simbolismo representado pela participação na vitória aliada permitiu ao Brasil pleitear e vencer demandas junto à Liga das Nações em 1919, como lembra Francisco Doratioto, tais como a propriedade de navios alemães apreendidos durante a Guerra, o reembolso de café por casas comerciais alemães que bloquearam o pagamento e ainda a garantia da paz entre os estados121.

Creio, por fim, que a Guerra foi a prova de fogo não apenas da eficiência de navios e homens treinados no alvorecer do século XX, mas também o ambiente privilegiado, o laboratório por excelência de um projeto de modernização naval em escala mundial que tinha por maior objetivo encontrar as leis gerais da estratégia militar que permitiria os países garantir seu próprio desenvolvimento pelo poder naval. A escolha de embarcações específicas não é, portanto, pautada apenas em questões técnicas, surgiu de uma demanda por verdades históricas, verdades de uma lógica que privilegiava o mar como espaço por excelência da guerra naval e, portanto, os programas navais foram a materialização da essência do ser marinheiro após a teoria do poder naval. A palingenesia na thálassa, entretanto, não encontrava sentido no limne.

In document Reconstructive Geometry (sider 141-144)