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Interpreting the detailed dottogram to analyse Norway Salmon

A premissa fundamental implícita nesta reflexão é a de que a educação como prática fundamental da existência histórico-cultural do homem precisa ser continuamente revista, para não se perder na intensidade das mudanças vivenciadas na contemporaneidade.

A história das ideias pedagógicas demonstra que a instituição escolar continuamente se posiciona a serviço dos interesses dos grupos majoritários, tanto política como economicamente falando. Constituindo espaço de produção de saberes e sentidos, e compondo um tecido social mais amplo, porém, é genuinamente contraditória, e paradoxalmente também foi palco de inúmeros movimentos de subversão à ordem estabelecida, revelando-se potencialmente emancipatória.

É válido destacar o fato de comungarmos com os teóricos que acreditam na ideia de a escola poder vir a ser uma instância de democratização intelectual, cultural e política. Para tanto, defendem o argumento de que os educadores devem trabalhar numa perspectiva que concebe o aluno como um ser em formação, porém ativo e reflexivo, e o ensino-aprendizagem numa perspectiva interdisciplinar. Entre as ciências humanas que auxiliam na mediação da prática pedagógica, a Psicologia ocupa lugar de destaque, por ajudar não só a decifrar o educando como também a possibilitar ao professor se interpretar, conhecer-se, descrever-se, enfim, narrar-se.

Dentre as muitas vertentes que essa disciplina utiliza para explicar o sujeito, elegemos a matriz sociocultural, para nos conduzir nos desafios desta investigação. Entre os motivos da escolha, destacamos o fato de focalizar os indivíduos dentro da sua historicidade.

Para fazer a trilha proposta, no entanto, uma questão prévia se impôs: foi preciso refazer um pouco os caminhos percorridos pelos autores, na feitura de suas produções, para que pudéssemos ter uma compreensão geral das suas obras e selecionar, entre tantos trabalhos, os que melhor fundamentariam nossa trajetória. Nessa travessia, pudemos constatar como os discursos, tanto orais quanto escritos, carregam em si as marcas do tempo e do lugar onde foram proferidos. E, no caso, intriga-nos sobremaneira a influência do contexto social e político em que viveram os pensadores em foco, em

suas escolhas teóricas, e o fato de, mesmo tendo se passado aproximadamente setenta anos, ainda são de uma atualidade impressionante.

Os três protagonistas da história que agora iremos narrar em poucas palavras viveram na Rússia, no início do século XX. Enquanto os governos da maioria dos países europeus adotavam regimes político-liberais, a Rússia ainda era governada por uma monarquia absolutista (o czarismo), que era apoiada pela Igreja Cristã Ortodoxa e pela nobreza rural (proprietária de grande parte das terras cultiváveis e de onde normalmente se originavam os oficiais do Exército). Em 1904, por uma disputa territorial, o Governo declarou guerra contra o Japão, saindo derrotado em 1905, agravando ainda mais a pobreza do País e a insatisfação do povo. Quando teve início a Primeira Guerra Mundial, no ano de 1914, já era o maior país da Europa, com uma população de aproximadamente 175 milhões de pessoas, formada por diversas etnias, com línguas e tradições diferentes.

A Rússia viveu um processo de industrialização provocado pela Revolução Industrial, de forma singular, ou seja, foi impulsionada e fomentada pelo próprio império, fazendo com que a burguesia liberal da época permanecesse submissa às ordens do czar. Há exemplo de outras sociedades objetos dessa realidade, houve um grande êxodo rural, e parte da classe trabalhadora, que em sua maioria era camponesa, tornou-se o novo proletariado fabril. Cabe chamar a atenção para o fato de que, desde então, os grandes centros urbanos passaram a ter todos os problemas estruturais que as ocupações não planejadas provocam, tornando-se insustentáveis com os invernos rigorosos.

Após inúmeras greves, levantes populares e matanças coletivas por parte do Governo, que tentava a todo custo se manter no poder, a união do conjunto das forças políticas de oposição (socialistas e liberais burgueses) conseguiu romper com o imperialismo czarista e assumir o governo em 15 de março de 1917. De acordo com estudiosos do assunto, essa mudança se deu em três fases que não iremos detalhar neste trabalho31: a revolução branca, a revolução vermelha e a guerra civil.

Com o governo provisório, alguns direitos foram recobrados e houve certa abertura política, possibilitando o retorno de exilados, como Lênin, que logo assumiu a liderança da oposição e organizou o Partido dos Bolcheviques. Insatisfeitos com a

31 Sobre esse assunto ver: História Global Brasil e Geral, volume único, de Gilberto Cotrim, 2002 e

participação do país na Primeira Guerra Mundial e com a situação política interna, os bolcheviques, com o apoio do exército vermelho liderado por Trotsky, e da população, fizeram a Revolução em outubro do mesmo ano e saíram vencedores. Após a guerra civil, o país e a sociedade estavam economicamente arrasados. O novo Governo, liderado por Lênin, Trotsky e Stalin, tinha entre os principais desafios vencer a fome e a insatisfação popular, gerada por tanta miséria. Com a instalação do modelo socialista e a morte de Lênin em 1924 (ano em que Vygotsky fundou a sua Escola Psicológica), instalou-se o Regime Totalitário Stalinista, que durou até 1953. Trotsky se opôs ao governo, foi perseguido e morto no México em 1929. Ironicamente, a URSS se tornou, nas mãos do ditador, uma das maiores potências econômicas do século XX, inclusive lançando em órbita, no ano de 1957, o primeiro satélite construído pelo homem, o Sputnik, comprovando o seu desenvolvimento científico e tecnológico. As produções dos intelectuais de esquerda foram proibidas durante todo o regime. Esse foi o principal motivo de conhecermos tão tardiamente essa riqueza. Às obras escolhidas de Vygotsky, por exemplo, só tivemos acesso em espanhol.

Lev Semiónovitch Vygotsky (1896-1934) tinha formação em Direito, Filosofia e Medicina32 (esta última interrompida por sua morte prematura aos 37 anos) e deixou uma obra conhecida de aproximadamente 150 produções, sendo outros tantos destruídos pelo regime stalinista. Alexander Romanovich Luria (1902-1977), psicólogo e médico, tornou-se um dos mais renomeados neuropsicólogos mundiais, até morrer aos 75 anos33. Alexis N. Leóntiev (1903-1979), um dos mais importantes psicólogos russos, também fez parte, junto com os demais, do Instituto de Psicologia da Universidade de Moscou.

Ao fazermos um mapeamento das principais obras desses extraordinários pensadores, deparamos vasto número de contribuições em diversos campos do saber, porém observamos que uma de suas principais preocupações foi redesenhar a Psicologia moderna, investindo numa perspectiva científica e histórico-cultural, por entenderem que WDQWRD³YHOKD psicologia empírico-VXEMHWLYD´ como os novos modelos mecanicistas e organicistas baseados no idealismo filosófico que preponderavam tanto nas escolas ianques (behaviorismo) quanto nas europeias (gestaltismo, freudismo, etc) se

32 'H DFRUGR FRP &DUPR   ³*XLOOHUPH %ODQN  ´ DILUPD TXH VHQGR R VHJXQdo dos oito

filhos de uma promissora e bem instruída família da comunidade judaica de Gomel, tornou-se amante da Literatura, da História e da Psicologia, além de ler e falar oito idiomas, a saber: russo, alemão, hebraico, francês, inglês, latim, grego e esperanto.

33 Impulsionado pela necessidade de auxiliar na reabilitação dos feridos de guerra, Luria desenvolveu

mostravam insuficientes para responder teórico-metodologicamente às novas questões que eram postas à Psicologia no pós-guerra.

Era notório o fato de que tentar ³GHVFUHYHUDmanifestação superior da psique: a FRQVFLrQFLD GR KRPHP´ XWLOL]Dndo uma análise atomista e funcional, e estudar as funções psicológicas particulares de forma isolada, sem considerar sua inter-relação funcional, em sua atividade, foi um erro que não se justifica, porque o postulado da unidade da consciência e dos vínculos entre certas funções era bem conhecido no campo da Psicologia da época, como observou o próprio Vygotsky. Esse fato provocou uma série de equívocos e prejuízos que comprometeram escolhas metodológicas e, consequentemente, grandes investimentos teóricos e experimentais de nomes importantes da Psicologia atual.

Ressaltamos que atingir esse objetivo não foi fácil. Para tanto, ingressaram, em 1924, no Instituto de Psicologia da Universidade de Moscou, fundaram a Escola Psicológica de Vygotsky, a Academia de Educação Comunista N. N. Krúpskaia e posteriormente o Instituto Experimental de Defectologia, que funcionaram como base de operações para os trabalhos do grupo.

Convém assinalar que Vygotsky e seus colaboradores desenvolveram a teoria histórico-cultural de evolução da psique e o método genético inspirados no materialismo histórico, cujo princípio norteador é a análise da atividade prática do sujeito. Como se sabe, os clássicos do marxismo destacaram dessa atividade, em primeiro lugar, sua condição instrumental e o caráter mediado do processo laboral por meio de ferramentas.

É interessante observar que Vygotsky, Luria e Leóntiev resolveram estudar o desenvolvimento da consciência do homem, fazendo uma analogia da relação do homem com a natureza. À medida que o indivíduo sentiu a necessidade de criar instrumentos para agir sobre a natureza, para transformá-la e dela tirar sua sobrevivência (pelo menos no início foi assim), transformou-se também. Para agir conscientemente sobre o mundo, o ser humano também precisou recorrer ao uso de suportes (estímulos-meio), o que foi dado o nome de instrumentos psicológicos. Esses instrumentos psicológicos são criações artificiais e estruturalmente são dispositivos sociais e não orgânicos ou individuais, que se destinam ao domínio dos processos psíquicos, que lhes possibilitem GHL[DUDVPDUFDVFXOWXUDLVGDVXD³HSRFDOLGDGH´SDUDDV gerações posteriores.

Convém sublinhar que, nos processos psíquicos do homem, é necessário se distinguirem dois níveis: o primeiro é a razão entregue a si mesma; o segundo é a razão (processo psíquico) armada de instrumentos e meios auxiliares. Também é necessário GLIHUHQFLDUGRLVQtYHLVGHDWLYLGDGHSUiWLFDSULPHLURD³VLPSOHV PmR´; segundo, a mão armada de ferramentas e de elementos auxiliares. Nesse sentido, tanto na esfera prática do homem quanto na psíquica, a importância decisiva estava precisamente no nível dos instrumentos. No campo dos fenômenos psíquicos, Vygotsky deu ao primeiro nível a denominação GH ³SURFHVVRV SVtTXLFRV QDWXUDLV´ H DR VHJXQGR GH ³SURFHVVRV SVtTXLFRV FXOWXUDLV´ 2SURFHVVR ³FXOWXUDO´ é o natural convertido em mediado por instrumentos ou meios auxiliares psíquicos específicos. O objetivo dessa demonstração que atraiu algumas críticas (porque havia quem defendesse todos os processos psíquicos como culturais), era apenas contrapor os dois processos com a finalidade de demonstrar as bases de sua tese sobre o valor decisivo dos instrumentos psicológicos na evolução dos

processos psíquicos.

A hipótese formulada pelo Teórico oferecia solução para o problema da reação entre as funções psíquicas superiores e elementares. As funções psíquicas elementares ou biológicas estavam relacionadas com a base dos processos psíquicos naturais e as superiores com a base dos processos psíquiFRV PHGLDGRV ³FXOWXUDLV´ Esse enfoque explicava, de maneira inovadora, tanto a diferença qualitativa entre as funções psíquicas como o nexo entre ambas (as funções psíquicas superiores surgem sobre a base das primeiras). Finalmente, as peculiaridades das funções psíquicas superiores (como seu caráter arbitrário tinha sua explicação na existência dos instrumentos psicológicos e na sua formação histórica).

Com a hipótese do caráter mediado dos processos psíquicos por meio de LQVWUXPHQWRV´ SHFXOLDUHV 9\JRWVN\ introduziu na Ciência Psicológica as diretrizes da metodologia dialética, não de modo declarativo, mas materializado em um método. Essa é a principal característica de toda a obra de Vygotsky e é precisamente dela que decorre seu êxito (LEÓNTIEV, 2004). Esse assunto foi desenvolvido em trabalhos que analisaremos com maior profundidade, por estarem diretamente ligados à temática em estudo: ³O significado histórico da crise da Psicologia, uma investigação metodológica´, escrito em 1926-27 e a ³História do desenvolvimento das funções psicológicas superiores´ de 1930-1931, ambos publicados no Brasil a partir de 1996, no

livro Teoria e método em psicologia34, e o livro Pensamento e linguagem (1933-1934), publicado no Brasil, em sua versão completa, apenas em 2001, traduzida direto do russo, com o título: A construção do pensamento e da linguagem.

É válido destacar o fato de que todas as teorias produzidas pela Escola de Vygotsky, inclusive as apresentadas nos trabalhos enumerados, foram antecedidas de vasto aprofundamento teórico e da realização de experiências práticas, utilizando o ³método histórico-genético de 9\JRWVN\´GHfundamentação marxista LEÓNTIEV, p. 461, In.VYGOTSKY, 2004).

O primeiro trabalho traz um relato minucioso da crise metodológica da Psicologia e dos seus desdobramentos para as demais ciências humanas e explicita o percurso da elaboração do método genético, que é o fundamento de toda a sua obra. No artigo sobre o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, encontramos com riqueza de detalhes a constituição e o funcionamento das funções psicológicas no ser humano, assunto que permeará toda a nossa produção, pela importância que tem no âmbito educacional.

No livro Pensamento e linguagem, sua última obra, considerada a síntese de sua intensa e breve produção teórico-metodológica, surpreendemo-nos com um verdadeiro tratado sobre a importância da linguagem para a constituição e o desenvolvimento do ser humano, além de descrever todos os passos das suas pesquisas, desde a hipótese inicial até os resultados finais, assim como as dos teóricos utilizados por ele, tanto para dialogar com trabalhos que corroborou como para refutá-los, refazendo alguns percursos. Mesmo ao discordar de muitas teorias, porém, e mostrar seus erros metodológicos e limites, sempre se referiu às produções alheias com seriedade e respeito. Por tudo o que lemos em suas publicações, sentimo-nos autorizada a afirmar que uma das principais contribuições desse autor para seus discípulos e para a ciência foi o rigor metodológico com que tratou as suas temáticas.

Entre os instrumentos psicológicos citados por Vygotsky em seu trabalho

Método instrumental em Psicologia (1930), podemos destacar a língua, as diferentes

formas de numeração e de cálculo, os mecanismos mnemotécnicos, os símbolos algébricos, as obras de artes, a escrita, os mapas, os desenhos e todos os tipos de signos convencionais. Leóntiev (In. VYGOTSKY, 2004)) ressalta que reconhece o mérito da

audácia científica de Vygotsky, ao decidir englobar numa mesma série elementos claramente incomparáveis externamente, no entanto resolveu explicitar o assunto, usando como estratégia uma pergunta que ele mesmo respondeu: - Mas o que têm em comum objetos tão heterogêneos, desde a palavra até o nó na memória? E respondeu da seguinte forma:

Em primeiro lugar que todos são criações artificiais da humanidade e que constituem elementos da cultura (por isso a denominação histórico-cultural dada à teoria de Vygotsky). Além disso, todos esses instrumentos ou estímulos-meio estiveram dirigidos para fora, para os iguais. Somente depois é que os instrumentos psicológicos se dirigiram para nós mesmos, ou seja, se convertem em um meio diretor dos processos psíquicos próprios no plano individual para depois se desenvolverem internamente. A função psíquica age de forma mediatizada desde dentro e decai a necessidade de um estímulo-meio externo (em relação ao indivíduo em questão). (LEÓNTIEV, IBIDEM).

Ao processo de produção, de socialização e de internalização dos instrumentos psicológicos e sua ação interna no plano individual Vygotsky denominou: círculo completo de desenvolvimento histórico-cultural da função psíquica.

Para descobrir que instrumento impulsionava a passagem das funções psicológicas elementares para o nível de funções superiores, Vygotsky estudou as relações entre o pensamento e a linguagem e, após confrontar-se com as principais teorias da época sobre a temática, como as de Piaget e de Stern, elaborou a teoria geral das raízes genéticas do pensamento e da linguagem. De acordo com o autor, desde os psicólogos mais antigos até os modernos, de variadas formas, chegou-se apenas a dois resultados para explicar a relação do pensamento e da linguagem. O primeiro grupo de teorias afirmava que pensamento e linguagem se identificavam; e o segundo desenvolveu a ideia de que pensamento e linguagem são independentes. Vygotsky refutou as duas vertentes. Vejamos em suas próprias palavras:

Desde a Antiguidade, a identificação do pensamento com a linguagem, tanto na linguística psicológica ± segundo a qual SHQVDPHQWR p ³OLQJXDJHP PHQRV VRP´- quanto nos atuais psicólogos e reflexólogos americanos ± para quem o SHQVDPHQWR p XP ³UHIOH[R LQLELGR QmR UHYHODGR HP VXD SDUWH PRWRUD´-, conheceu uma linha única de desenvolvimento de uma mesma ideia, que identifica o pensamento e a linguagem. (...) Se o pensamento e a linguagem coincidem, são a mesma coisa, não pode surgir nenhuma relação entre eles nem a questão pode constituir-se em objeto de estudo, uma vez que é impossível imaginar que a relação do objeto consigo mesmo possa ser objeto de investigação.

Quem funde pensamento com linguagem fecha para si mesmo o caminho para abordar a relação entre eles e antecipa a impossibilidade de resolver a questão. (2001: 3).

Ainda seguindo a linha de raciocínio do autor, isto é, a teoria fundamentada na concepção de que pensamento e linguagem são independentes entre si, ao se decompor o pensamento discursivo nos elementos que o constituem, que são heterogêneos ³SHQVDPHQWR H SDODYUD´ H ao se estudarem as suas propriedades puras, tanto do pensamento quanto da linguagem, isoladamente ou independentes um do outro, interpretam-se as relações entre eles como dependência mecânica e puramente externa entre os dois processos diferentes. Foi categórico ao asseverar que essa abordagem era incorreta, pois o método que aplicaram na decomposição desse todo em elementos isolados inviabilizava o estudo das relações internas entre pensamento e palavra. No grupo que defende a independência entre pensamento e linguagem, destacaram-se os representantes da escola de Würzburg, que consideravam a linguagem uma expressão externa ao pensamento, ou seja, tentaram libertar o pensamento de tudo o que ele tinha de sensorial, inclusive a palavra (IBIDEM).

O estudo experimental de Vygotsky teve como ponto de partida a seguinte questão:

que unidade é essa que não se deixa decompor e contém propriedades inerentes ao pensamento verbalizado como uma totalidade? Seus resultados foram os seguintes: os H[SHULPHQWRV UHYHODUDP TXH ³R HVVHQFLDO H GHWHUPLQDQWH GD natureza interna do significado (...) é que ela nunca se refere a um objeto isolado mas a todo um grupo ou classe de objetos. Por essa razão, cada palavra é uma generalização latente, toda palavra já generaliza e, em termos psicológicos, é antes de tudo uma generalização (...), é um excepcional ato verbal do pensamento, ato esse que reflete a realidade de modo inteiramente diverso daquele como esta é refletida nas sensações e percepções imediatas. Quando se diz que o salto dialético não é só uma passagem da matéria não-pensante para a sensação mas também uma passagem da sensação para o pensamento, está-se querendo dizer que o pensamento reflete a realidade na consciência de modo qualitativamente diverso do que faz a sensação imediata´ IBID, p.9).

Enfim, esses dados nos propiciam dimensionar a grandeza da aquisição da fala pela criança. Não foi exagero do pesquisador assinalar que ³ela vive uma verdadeira revolução´ sua forma de interagir e de lidar com o mundo se altera completamente. Obviamente, no princípio, a linguagem tem a função apenas indicativa e nominativa, pois ela ainda não serve para auxiliar a criança no planejamento de suas ações, porque

ainda não está equipada com os elementos que lhe possibilitam interpretar, internalizar e refletir sobre a realidade (função significativa).

Ainda tentando compreender a relação pensamento e linguagem, resolveu-se investigar a natureza do pensamento verbalizado, partindo da hipótese de que a linguagem é, antes de tudo, um meio de comunicação social, enunciação e compreensão. Obtiveram-se, então, os seguintes resultados: a linguagem exerce a dupla função de comunicação e de pensamento. Isso foi explicitado da seguinte forma: a comunicação, estabelecida com base na compreensão racional e na intenção de transmitir ideias e vivências, exige necessariamente um sistema de meios cujo protótipo (..) é a linguagem humana. As formas superiores de comunicação psicológica só são possíveis porque, no pensamento, o homem reflete a realidade de modo generalizado. Tentando explicitar com maior clareza a relação entre comunicação e generalização, (VYGOTSKY, ibdem) dá o seguinte exemplo:

Quero comunicar a alguém que estou com frio. Posso lhe dar a entender isso através de vários movimentos expressivos, mas a verdadeira compreensão e a comunicação só irão ocorrer quando eu conseguir generalizar e nomear o que estou vivenciando, ou seja, quando eu conseguir situar a sensação de frio por mim experimentada em uma determinada classe de estados conhecidos pelo meu interlocutor. É por isso que um objeto inteiro é incomunicável para crianças que ainda não dominam certa generalização. Aqui não se trata de insuficiência das respectivas palavras e sons, mas dos respectivos conceitos e generalizações, sem os quais a