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5.4 Research Variables

5.6.4 Interpreting the Coefficients

Desde seu nascimento, como qualquer outra ciência, a sociobiologia não teve consenso sobre seus fundamentos. Dawkins acreditavam que bastava a seleção a nível gênico e que a seleção de grupos poderia ser abandonada por motivos pragmáticos. E.O.Wilson acreditava que não se poderia abandonar a seleção de grupo. A adesão de Wilson à seleção de grupo fez com que muitos etólogos resistissem ao rótulo de “sociobiólogos”, Dawkins chamou o programa de Wilson de “pre-revolutionary”, enquanto Wilson ao defender que o foco seria no genótipo e não nos genes, disse que ele, Wilson “did not make the same mistakes as Dawkins.” (apud SEGERSTRÅLE, 2000, p. 127). Muitos sociobiólogos

passaram a considerar a seleção de grupo como “great heresy”, “non-darwinianian”, ou mesmo “morta”.

E.O.Wilson ultimamente tem destacado cada vez mais a importância da malfadada seleção de grupos, integrada numa perspectiva multiníveis. Tal perspectiva tem recebido atenção renovada em setores da biologia externos à sociobiologia. No interessante artigo intitulado “Rethinking the Theoretical Foundation of Sociobiology” escrito por E.O.Wilson e David Sloan Wilson (2007) chamam a seu favor não menos que Charles Darwin e mesmo o famoso Adaptation and Natural Selection de George C. Williams, tido regularmente como inauguração da perspectiva do gene como único ou principal foco da seleção. Wilson & Wilson ressaltam com citações destes autores de que estes não só não fecharam as portas para a seleção de grupo, bem como as aceitavam (desde que numa perspectiva multiníveis). Destacavam ainda que “The rejection of group selection in the 1960s was not based upon a distinguished body of empirical evidence” (p. 332), mas sim por questões metodológicas (por ser mais parcimoniosa) e que uma questão central à sociobiologia, a da evolução do altruísmo deveria ser revista, já que teorias que tentaram “explain the evolution of apparent altruism without invoking group selection... have failed” (p. 331) 67. E isso vale para a evolução de colônias de insetos, antes explicada pela seleção de parentes68. Assim, Wilson chama a atenção para a necessidade de revisão substancial nos fundamentos da teoria sociobiológica. A seleção de parentes “ergueu e caiu”, a seleção de grupo “nasceu, morreu e ressurgiu”. David Sloan Wilson e o principal advogado da sociobiologia, E.O.Wilson, chamam a atenção de que a sociobiologia não está consistente com o resto do conhecimento em biologia. Diziam eles, que apesar do ressurgimento da seleção de grupo:

“Instead, sociobiology proceeded along a seemingly triumphant path based entirely on the calculus of individual and genetic self-interest, under the assumption that group selection can be categorically ignored.” (WILSON e WILSON, 2007, p. 331).

67

Quanto a este mesmo ponto, ver também o artigo “Kin Selection as the key to Altruism: Its Rise and Fall” de Wilson (2005).

68

“a growing body of research has disclosed that colonies of social ants and wasps are often founded by unrelated queens; that workers do not show preference for their own mothers in multiple-queen colonies, only occasionally for their sisters; and that colonies remain well organized and stable even in the extreme cases when the workers composing them are only very distantly related or not at all... In short, the critical binding force of colony evolution appears to be ecological natural selection operating at the level of the colony, a level that comprises both colonies versus individuals, and colonies versus other colonies” (WILSON, 2005, p. 163, itálicos adicionados).

Posto o dissenso, em qual sociobiologia deveriam as ciências sociais se basear? Na sociobiologia fortemente baseada no gene como foco da seleção ou na perspectiva multiníveis e sua ecological natural selection? Certos comportamentos humanos existem para o bem do grupo, do indivíduo ou de seus genes, ou de uma mistura destes elementos? Deveria confiar na ciência mais extensamente aceita no momento, ou deveria apostar em alguma vanguarda científica, que poderia tanto se tornar a próxima verdade aceita, como também poderia malograr?

Estes exemplos reforçam a idéia de que as ciências naturais estão em constante mudança, e qualquer tentativa de se embasar o conhecimento em teorias científicas, mesmo nas teorias das Hard sciences, corre o risco de em poucos anos ver sua base se desmanchar. Quanto menos se tiver de tomar partido em certas questões, melhor. E acredito que as ciências sociais podem se desenvolver independentemente de tais disputas.

Como foi dito anteriormente, a sociobiologia não é uma teoria, mas um campo. Um de seus maiores problemas é a questão do altruísmo, e a sociobiologia tem algumas diferentes teorias básicas para explicá-lo. A primeira teoria na ordem de preferência dos sociobiólogos é a “seleção de parentes” (kin selection), que diz que quanto mais próximos geneticamente os indivíduos, maior será sua cooperação, e quanto mais distantes geneticamente, maior será sua oposição. A segunda seria o “altruísmo recíproco”: eu ajudo você agora, e você me ajuda quando eu tiver dificuldades. Haveria ainda a “reciprocidade indireta” proposta por Richard Alexander, onde o altruísmo ocorreria na presença de um público interessado, podendo assim aumentar a reputação do indivíduo enquanto “bom cooperador”, e com isto aumentando as chances de receber benefícios posteriores. Haveria ainda formas mais gerais. Kanazawa (2001, p.1146) evoca ainda “Troca Generalizada” (“generalized exchange”) – expressão que talvez tenha sentido muito próximo, senão idêntico, ao que alguns chamaram de “reciprocidade generalizada” ou “reciprocidade forte” – que procura descrever, por exemplo, a ajuda que um motorista dá outro que nem o conhece. Neste caso, o motorista que auxilia agora pode receber ajuda de outro motorista anônimo em uma ocasião futura. Segundo Kanazawa, “The norms prescribing mutual help, when strictly enforced, clearly result in Pareto-optimal outcomes, because everybody benefits from such generalized exchange” (2001, p. 1146).

Diante de tal diversidade de teorias base, fica difícil a sociobiologia deixar de “prever” qualquer evento. Ajudou alguém mais próximo geneticamente? Graças à seleção de parentes, óbvio! Não ajudou alguém mais próximo geneticamente, mas sim alguém mais distante? Não se preocupe, foi altruísmo recíproco, e se mesmo assim não der certo, tente

“reciprocidade indireta”. De qualquer modo a sociobiologia “sai ganhando”. Qual o critério para sabermos a priori qual altruísmo acontecerá no caso específico? Não me parece que tenham tal critério69. Por que não explicar os casos de ajuda aos parentes como casos de altruísmo recíproco? Afinal, não se tem a consiliência como modelo científico? Tal recurso foi chamado por Dunbar de “relutância super-kuhniana” (KITCHER, 1987, p. 107).

A sociobiologia não representa a Biologia Evolutiva como um todo, e a Sociobiologia Humana não representa a Sociobiologia como um todo. Não temos, portanto, motivos para, aderindo ao princípio consiliente, adotar justamente alguma das vertentes da sociobiologia.