Foram avaliadas variáveis relacionadas aos perfis sorológicos da LVC (Anexo 14) e diversas interações foram testadas resultando no modelo final de regressão (Anexo 15), composto por seis variáveis, com nível de significância p < 0,05. A modelagem foi testada e considerada adequada pelo teste de Hosmer-Lemeshow com valor da probabilidade >0,05.
4.16 Características da população humana - entrevistados
Foram visitados 957 domicílios distribuídos em 34 bairros de Juatuba no momento da 1ª coleta. O critério de retorno às coletas subsequentes foi o cão inicialmente selecionado na pesquisa, por isso muitos entrevistados não foram necessariamente os mesmos que responderam ao 1º questionário, mas eram, também, responsáveis pelo animal na residência. Foram 595 e 433 os entrevistados na 2ª e 3ª etapas da coleta de sangue do cão, respectivamente.
Estas visitas foram bem aceitas pelos moradores dos domicílios amostrados que permitiram a entrada da equipe de campo em suas residências para o preenchimento dos questionários e coleta de sangue do animal participante do estudo.
4.16.1 Perfil demográfico e socioeconômico do entrevistado
A faixa etária predominante entre os entrevistados foi de 26 a 50 anos (49,7% n=476), seguida das faixas de 51 a 65 anos (25,8% n=247), de 18 a 25 (14,1% n=135) e de 66 a 103 anos (9,8% n=94), conforme mostra a tabela 19. A idade média foi de 43,3 anos, mediana de 44 anos e desvio padrão de 18,4. Os entrevistados com idade avançada possuíam cognição preservada.
Sobre a escolaridade destes entrevistados, verificou-se proporções aproximadas entre os 30,8% com ensino primário (n=295), 27,4% com ensino fundamental (n=262) e 28,1% com ensino médio (n=269) e proporções menores entre os 7,5% (n=72) que não possuíam algum grau de instrução e os 5,5% (n=53) que possuíam ensino superior ou mais. Faltaram registros em 0,6% (n=6) dos questionários. Estes dados constam na tabela 19.
Em relação ao quantitativo de moradores por imóvel visitado, verificou-se predomínio de 77% (n=737) de 2 a 5 moradores, dos quais 37,3% com 2 e 3 moradores e 39,7% com 4 e 5 moradores; seguidos de 14% (n=134) com 6 ou mais moradores e 7,4% (n=71) com até 1 morador. O restante de 1,6% (n=15) o entrevistado não soube responder ou não foi registrada a resposta no questionário (Tabela 19). Mais da metade dos imóveis (53,7%, 514/957) contou com a presença de 4 ou mais moradores. 0% 10% 20% 30% 40% 50% Proporção dos sinais clínicos
Quanto ao nível socioeconômico, a renda familiar ficou concentrada na faixa até três salários mínimos, representada por 80,8% (n=773) dos entrevistados, sendo que 32,1% (n=307) responderam até um salário mínimo. Outros 10,4% (n=100) responderam que a família recebia entre três e cinco salários mínimos, e 5,0% (n=48) acima de cinco salários mínimos (Tabela 19). Em 2010 o salário mínimo era de R$510,00 (quinhentos e dez reais).
Ao comparar a frequência das variáveis relacionadas aos entrevistados (idade, escolaridade, número de moradores e número de salário mínimo por imóvel) por grupo, levando em consideração o resultado sorológico do cão positivo em um grupo e no outro os cães negativos e com resultado indeterminado, não foi observada diferença significativa entre os
mesmos, com exceção da variável renda familiar. Esta, acima de um salário mínimo, juntamente com as variáveis água tratada e presença de rede de esgoto, compondo a variável nominada ERA (OR=0,46 p=0,01), apresentou 0,46 vez a chance do cão se infectar para a LV, ou incremento na chance de 2,2(1/0,46) vezes de estar protegido para LV morando em imóvel com estas características quando comparado aos outros com renda familiar inferior e sem os serviços citados de saneamento básico.
Observa-se na tabela 19 que a renda familiar até 3 salários mínimos dos entrevistados do grupo de cães positivos apresentou maior proporção (82,7%) quando comparada ao grupo dos resultados sorológico negativo e indeterminado (80,2%).
Tabela 19: Distribuição de frequências das variáveis relacionadas à idade, escolaridade e condições socioeconômicas dos entrevistados em Juatuba, 2010 a 2011.
Variável Resultado IFI positivo=26,4% negativo + indeterminado=73,6% Total n=253 %=100,0 n=704 %=100,0 n=957 %=100,0 IDADE 18-25 48 19,0 87 12,4 135 14,1 26-50 128 50,6 348 49,4 476 49,7 51-65 52 20,6 195 27,7 247 25,8 66-103 25 9,9 69 9,8 94 9,8 sem registro 0 0,0 5 0,7 5 0,5 ESCOLARIDADE analfabeto 22 8,7 50 7,1 72 7,5 primário 66 26,1 229 32,5 295 30,8 fundamental 82 32,4 180 25,6 262 27,4 Médio 70 27,7 199 28,3 269 28,1 ≥ 3º grau 12 4,7 41 5,8 53 5,5 sem registro 1 0,4 5 0,7 6 0,6 Nº MORADOR ≤ 1 17 6,7 54 7,7 71 7,4 2-5 197 77,9 540 76,7 737 77,0 ≥ 6 37 14,6 97 13,8 134 14,0 sem registro 1 0,4 5 0,7 6 0,6 não sabe 1 0,4 8 1,1 9 0,9 Nº SALÁRIO MÍNIMO ≤ 1 94 37,2 213 30,3 307 32,1 > 1 e ≤ 3 115 45,5 351 49,9 466 48,7 > 3 e ≤ 5 24 9,5 76 10,8 100 10,4 > 5 12 4,7 36 5,1 48 5,0 não sabe 8 3,2 28 4,0 36 3,8
4.16.2 Conhecimento do entrevistado sobre a leishmaniose visceral
Para não influenciar nas respostas foram feitas perguntas abertas sobre o conhecimento do entrevistado em relação aos quesitos transmissão, reservatório, sintomas e medidas preventivas da LV.
Dos 957 entrevistados, 845 (88,3%) responderam que já tinham ouvido falar ou que conheciam a LV (Tabela 20). Quando perguntados sobre como se dá a transmissão da doença e quem transmite 38,0% (n=364) responderam não saber, 33,1% acertaram a resposta e 28,8% (n=276) se confundiram. Sobre o reservatório 55,6% (n=532) dos entrevistados disseram não saber, 26,2% responderam coerentemente e 18,2% (n=174) se confundiram. Sobre os sinais clínicos no cão, 66,1% (n=633) afirmaram não saber, 25,4% (n=243) responderam corretamente e 8,5% (n=81) se confundiram. Outra pergunta foi sobre as ações de prevenção e controle da doença e 72,2% (n=691) dos entrevistados disseram desconhecer, 18,6% (n=178) responderam pelo menos uma ação correta e 9,2% (n=88) se confundiram ou citaram ações inespecíficas para a LV. A maioria, 85,1% (n=814), não realizava nem uma medida de prevenção para si, 80,1% (n=767) não realizava medida de prevenção para o cão e 71,2% (n=681) também não adotava para o ambiente. Dos 14,1% (n=135) entrevistados que disseram realizar medidas de prevenção para si mesmo 0,9% (n=9) citaram o uso de repelente, 1,4% (n=13) cuidados gerais como ir ao médico e evitar o “mosquito”, 11,8% (n=113) ações inespecíficas a exemplo higienização, não entrar em contato com o cão doente e outras como uso de luvas e botas. Dos 18,9% (n=181) entrevistados que disseram realizar alguma medida de prevenção para o cão 2,0% (n=19) citaram a sorologia, 0,8% (n=8) a vacina, 3,4% (n=33) o uso de inseticida ou coleira com produto químico, 0,5% (n=5) a eutanásia dos
cães sororreagentes e os outros 11,4% (n=109) ações inespecíficas (cuidar, dar banho, não deixar ir á rua, observar) e 0,7% (n=7) equivocadas (usar raticida, cuidar da água, prender o cão). Dos 28,3% (n=271) que disseram realizar medidas de prevenção para o ambiente 6,2% (n=59) citaram aplicação de inseticida, 0,8% (n=8) retirada de lixo e matéria orgânica, 19,7% (n=189) ações inespecíficas (limpeza de modo geral) e 1,6% (n=15) ações equivocadas, como eliminar os ratos. Ao comparar os dados da tabela 20 do grupo dos positivos observam-se proporções semelhantes ao outro grupo (sorologia negativa e indeterminada), porém maiores quanto ao número de entrevistados dos cães positivos que não sabem sobre a transmissão e ações de prevenção e controle da LV, assim como respostas erradas neste grupo quanto ao reservatório e sintomatologia da doença.
As respostas foram individualmente avaliadas para comprovar o conhecimento ou não da referida doença. Observou-se que muitas respostas estavam relacionadas à leptospirose, raiva, dengue e esquistossomose. Outras citavam o ar, fezes, lixo, água contaminada e saliva como responsáveis pela leishmaniose. Sobre o agente transmissor além de flebotomíneo/mosquito- palha, foram citados: carrapato, caramujo, rato, cavalo, mico, vaca, cabrito, galinha, cão e gato. Sobre o reservatório foram registradas respostas citando água parada, larva, pernilongo, sujeira e urina. A baba foi o sinal clínico mais comum citado pelos proprietários que responderam equivocadamente sobre a sintomatologia da doença.
Foi perguntado aos 957 entrevistados sobre a ocorrência da LV e 5,1% (n=49) afirmaram já ter tido casos caninos no próprio domicílio e 8,8% (n=84) na vizinhança. Os que não souberam responder foram 63,7% (n=610) em ambos os lugares.
Tabela 20: Conhecimento do proprietário sobre a leishmaniose visceral por grupo de cães com resultados negativo, positivo e indeterminado na IFI, Juatuba, 2010 a 2011.
Variável Resultado IFI positivo=26,4% negativo + indeterminado=73,6% total n=253 %=100,0 n=704 %=100,0 n=957 %=100,0 CONHECE/OUVIU SOBRE A LV Não 30 11,9 82 11,6 112 11,7 Sim 223 88,1 622 88,4 845 88,3 SABE TRANSMISSÃO resposta incorreta 69 27,3 207 29,4 276 28,8 resposta correta 86 34,0 231 32,8 317 33,1
disse não saber 98 38,7 266 37,8 364 38,0