Como vimos nos capítulos anteriores, a polidez manifesta-se como um fenômeno lingüístico que ocorre com bastante freqüência nas interações sociais, constituindo-se como uma meta social. Contudo, ao buscar fontes para a constituição desta investigação, verificamos que a maior parte dos trabalhos realizados sobre o fenômeno da polidez lingüística restringe-se às interações face a face, fato incompreensível, dada a grande ocorrência de interações mediadas pelos meios de comunicação de massa, principalmente pela internet.
Sabendo-se que a internet se configura como um dos meios de comunicação mais populares da atualidade20 e que as salas de bate-papo podem ser percebidas como espaços autênticos de interação; não seria estranho supor que os participantes de uma sala de bate-papo, assim como em interações face a face, buscam aproximar-se e distanciar-se dos demais mediante o uso da polidez lingüística.
Deste modo, esta pesquisa tem como objetivo principal analisar de que forma os participantes de uma sala de bate-papo empregam as estratégias e regras pragmáticas de polidez lingüística em suas interações e com que finalidade eles as utilizam. Para atingir o propósito principal desta pesquisa, foi preciso:
• propor uma nova categorização para as estratégias de polidez lingüística estipuladas por Brown; Levinson (1987), de modo que as metas sociais e comunicativas dos participantes das interações realizadas na sala de bate-papo estejam evidenciadas;
• estabelecer uma correlação entre as categorias de estratégias de polidez lingüística e as
20 De acordo com TIC Domicílios (2008), aproximadamente a metade da população brasileira já realizou alguma
regras pragmáticas de polidez lingüística, a fim de compreender e delimitar o uso da polidez nas interações estabelecidas pelos internautas na sala de bate-papo para maiores de cinqüenta anos;
• identificar as estratégias de polidez lingüística pertencentes à categoria inclusão e a
manutenção do ouvinte na interação mais utilizados pelos participantes da sala de bate- papo pesquisada;
• compreender as possíveis funções que a categoria simpatia do falante em relação ao
ouvinte assume no corpus;
• observar a funcionalidade das estratégias pertencentes à categoria geração de expectativas
do ouvinte em relação às ações do falante no espaço de interação virtual;
• verificar a usabilidade das estratégias da categoria geração de expectativas do falante em relação às ações do ouvinte no espaço de interação virtual;
• observar se os participantes da sala de bate-papo pesquisada utilizam as estratégias pertencentes à categoria busca pela harmonia interacional, foco da teoria da polidez lingüística, como o principal propósito de interação no ambiente virtual;
• identificar as estratégias de polidez lingüística da categoria marcação das posições dos
interlocutores da interação D e P mais utilizadas pelos participantes da sala de bate- papo, que propõem evidenciar a distância social e o poder construídos no decorrer das interações (assimetria);
• identificar a freqüência e os propósitos que levam os participantes da sala de bate-papo pesquisada a utilizar as estratégias de polidez lingüística pertencentes à categoria redução
do peso e da responsabilidade de um ato ameaçador de face (FTA).
Deste modo, assume-se como hipótese básica desta investigação que o ambiente virtual e a possibilidade de anonimato, proporcionada por este, interferem diretamente no comportamento lingüístico dos participantes da sala de bate-papo, levando à escolha proeminente de estratégias que visam à integração e à manutenção no grupo em detrimento das que buscam reduzir os conflitos na interação.
Como já foi estipulado no Capítulo 1 desta dissertação, para cada objetivo de polidez que o participante possa vir a ter em suas interações com os demais na sala de bate-papo, construímos uma categoria de análise, composta por duas ou mais estratégias de polidez
lingüística, que podem manifestar-se mais ou menos proeminentes no corpus pesquisado.
Sendo assim, propomos as seguintes hipóteses, como tentativa de explicitar as questões citadas anteriormente.
• As estratégias da categoria inclusão e manutenção do ouvinte na interação são bastante utilizadas pelos participantes da sala de bate-papo, especialmente a estratégia “use marcadores de identidade e grupo no discurso”, mais especificamente pelo uso de vocativos, que sinalizam a busca pela afinidade entre os participantes da sala.
• A categoria simpatia do falante em relação ao ouvinte é bastante utilizada nas interações sociais estabelecidas nesta sala de bate-papo, principalmente como um suporte para a realização de estratégias de polidez lingüística presentes em outras categorias, como a categoria “inclusão e manutenção do ouvinte na interação”.
• A geração de expectativas do ouvinte em relação às ações do falante é uma categoria de estratégias de polidez lingüística pouco observada nas interações realizadas na sala de bate-papo pesquisada, pois a natureza virtual do que pode ser prometido ou ofertado não proporciona a efetivação desses atos de fala.
• A categoria geração de expectativas do falante em relação às ações do ouvinte é bastante recorrente nos diálogos realizados na sala de bate-papo pesquisada, uma vez que auxilia na construção da imagem do falante, potencializando a sua face positiva por meio das ações do ouvinte.
• A categoria busca pela harmonia interacional nem sempre compreende o interesse básico dos interlocutores da sala de bate-papo, pois por se tratar de um ambiente virtual, os falantes sentem-se mais à vontade para extravasar seus desejos e sentimentos, que nem sempre condizem com os dos demais participantes, provocando, assim, possíveis conflitos interacionais .
• A marcação das posições dos interlocutores na interação (D e P) é uma categoria pouco observada na sala de bate-papo pesquisada, dada a ampla simetria existente neste tipo de ambiente interacional.
• A categoria redução do peso e da responsabilidade com o ato ameaçador de face (FTA) é pouco utilizada pelos participantes da sala de bate-papo pesquisada, uma vez que eles já possuem o anonimato do ambiente virtual como uma ferramenta eficiente de preservação de faces.
Depois de elaborar as hipóteses desta investigação, foi preciso escolher um método de pesquisa que possibilitasse uma observação mais direta do fenômeno e que, ao mesmo tempo, não interferisse na espontaneidade das interações que ocorriam na sala de bate-papo pesquisada. Para tanto, adotamos uma variação da pesquisa etnográfica, a ciberetnografia (HINE, 2005).
Nas próximas seções abordaremos as particularidades e a importância destes métodos de pesquisa científica para a presente investigação.