Do Jornal Fronte Unico, Roma —30 de Junho de 1939. E da revista Il Loto - Florença, nº4 julho-agosto 1939.
Já lera A Grande Síntese quando ditada por "sua Voz" aparecera em série na revista Ali dei Pensiero de Milão. Reli-a com novo júbilo interior quando apareceu pela primeira vez em volume, publicada pela benemérita Casa Hoepli; tornei a lê-la pela terceira vez, nesta segunda edição, saída a pequeno intervalo da primeira, totalmente esgotada. E de cada vez pareceu-me ler um livro novo, ofuscante de esplendor, livro harmonioso, que tem o poder de unir as profundidades abismais da Terra com as insondáveis alturas dos céus, que é como a demonstração prática e científica do trimegistiano: “o que está em baixo é como o que está em cima”. Ler este livro é como fazer uma viagem fantástica do mundo atômico ao mundo galáctico, do microcosmo ao macrocosmo, depois repousarmos, alegres e gratos, nos paternais braços divinos. Surge então a convicção no leitor atento e livre de preconceitos doutrinais, de que este livro representa para nós uma nova Revelação. Não porque diga coisas novas em si, mas porque revela à nossa humanidade contemporânea um novo mistério do ser. Porque "Revelação" não é
apenas aquela que lança as bases de uma religião e que constitui infelizmente o rosto imutável diante da perene mutação das coisas; mas revelação é todo contato da alma humana com o íntimo pensamento que existe no criado e que revela ao homem aspectos novos e mais íntimos da Verdade única. Nesta acepção, A Grande Síntese que Pietro Ubaldi, de Gúbio, escreveu por mediunidade inspirativa é, incontestavelmente, uma nova Revelação.
Muitas críticas foram feitas à obra e ao autor — que antes deveríamos chamar seu fiel e entusiasta amanuense — não tanto pelo conteúdo, que encontrou, na Itália e no exterior, geral aprovação e admiração, como pelo método de compilação; porque até homens de reconhecida elevação intelectual, enregelados nos velhos sistemas conceituais, não admitem que A Grande Síntese seja um livro escrito por "mediunidade inspirativa", como o esclarece o próprio autor.
Não é num artigo de apreciação que convém demonstrar o engano de certas proposições. Parece-me, porém, que assim se faz a política do avestruz: cobrem-se os olhos para não ver a luz. Em sua simplicidade mais simples, a situação é esta: Pietro Ubaldi é um professor de língua inglesa num Real Ginásio de província. Com a láurea em jurisprudência, não possui nenhuma competência específica de problemas científicos, políticos, artísticos, sociais, religiosos, e eis que ele escreve de jato, sem consultar textos, um livro que tende a dar objetivos a tudo o que contém nossa vida empírica: arte, direito, ética, luta, conhecimento, dor etc. Tudo fundindo-se e canalizando-se no mesmo caminho das ascensões humanas! Além disso, o que deveria aparecer como valor comprobatório a quem não conheça por longa experiência esse fenômeno inspirativo de que Ubaldi é um testemunho magnífico, é a sua sinceridade e modéstia. Numa época em que é moda revestir-se com as penas do pavão e cobrir-se a própria nulidade com cínica desenvoltura do saber alheio, Ubaldi tem a humildade de declarar que A Grande Síntese não é propriedade sua, mas que ele foi um instrumento inteligente e consciente nas mãos de forças que o sobrepujaram. Ora, se apreciamos e admiramos o conteúdo do livro, pela altura e nobreza dos conceitos de que trata, pela profundidade dos raciocínios e a genialidade das soluções, além do que pela elegância segura do estilo, e se o autor confessa e demonstra em outro livro seu (As Noúres) que foi apenas uma antena que recebeu correntes de pensamento, temos o dever de reconhecer que esse livro apresenta uma mensagem que nos vem de fonte misteriosa e invisível, como um ensinamento e um aviso.
Que nos diz essa nossa mensagem? Não é possível dar o resumo, nem mesmo esquemático dele, porque A Grande Síntese é um livro que se lê, mas não se resume nem mesmo se critica. A matéria tratada é tão vasta e profunda, representa tão imponente massa de pensamento e de fé, tão rico e grandioso equacionamento e solução de problemas, que o trabalho de quem faz a apreciação é deveras difícil. O que se pode e se deve dizer é que A Grande Síntese nos liga intimamente à tradição mil vezes milenária do ocultismo, entendido não como um empirismo em que se retemperam tantos desocupados maníacos de aparecer aureolados de mistério, mas como uma concepção eminentemente aristocrática do saber e do poder humanos, reservados a poucos seres de exceção, capazes de penetrar além dos limites das realidades sensíveis e chegar ao conhecimento integral das leis e ao domínio inteligente e benéfico das forças que regem a vida universal.
Isto justifica ainda mais o que antes disse, isto é, que A Grande Síntese é uma revelação, no sentido de que nos dá uma parcial "desocultação" de certos conceitos e de certas leis que eram, há tempo, o apanágio cioso das assim chamadas ciências ocultas; e isto é um sinal manifesto de que efetivamente a vida é una, como é una a Verdade,. a qual é já toda contida na sabedoria antiga, vem aos poucos revelando todo o seu esplendor, proporcionando-o a
inteligência dos povos, cada vez mais aberta e receptiva. Da teoria atômica à doutrina da preexistência das almas e à pluralidade das existências terrenas; da teoria da evolução cíclica do universo à conciliação entre ciência e fé, entendidas como dois aspectos de uma mesma verdade, como duas forças invencíveis da evolução. A Grande Síntese desenvolve uma série de conceitos e de doutrinas que todos os ocultistas conhecem muito melhor que Ubaldi, mas que jamais tinham sido "desocultadas" e apresentadas ao público com a palavra convincente e simples e a fina genialidade de demonstração, com as quais Ubaldi as apresenta neste valiosíssimo livro. Mas, poderão objetar-me: que a organização da matéria era conforme à disposição planetária de nosso sistema solar; que a evolução humana se desenvolvia segundo uma lei cíclica que comporta fases alternadas de involução e evolução cada vez mais amplas, determinando de um lado a progressiva ascese dos indivíduos e as fases de decadência e de ascensão dos povos; que todas as formas da vida eram irmãs da nossa, lutando como nós para ascender à mesma meta espiritual que é o objetivo da vida humana, tudo isso já fora intuído pelos filósofos da idade clássica, desde Tales de Mileto a Zenon de Elea, desde Leucipo de Abdera a Platão de Egina, que antecipam de 2.500 anos, mais ou menos, as conquistas da ciência moderna. Isto é verdade. Mas o valor de A Grande Síntese reside justamente nisto, que ela endossa a hodierna psicologia científica como a única expressão susceptível de fazer compreender aos homens deste século a beleza inefável, e a resplendente realidade dos mistérios que foram intuídos pelos filósofos da época clássica, que a ciência oficial só agora começa a revelar e que A Grande Síntese esclarece e desenvolve.
Falei de mistérios. Evidentemente, entrando nesta atmosfera. A Grande Síntese não pode deixar de tocar num problema de importância primordial e fundamental, que é o problema e até o mistério por excelência: Deus. Em todo o desenvolvimento de A Grande Síntese, Deus está sempre presente. E é a meta luminosa para a qual conduz. Mais até, é ao mesmo tempo a vida e a meta. Mas aqui, Deus perde aquelas características antropomórficas tão queridas às religiões tradicionais, e, não sendo absolutamente algo de externo, de distinto, de estranho à sua criação, Ele se torna a grande alma que está no centro do universo, uma potência íntima a nós e a todas as coisas criadas onde opera profundamente, expandindo-se até dominar, soberana e sem contraste.
Para Ubaldi, ou melhor, para "sua Voz", a alma do homem e a alma das coisas, estão em planos diversos de evolução, expressões diversas de Deus, pois ambas tendem igualmente a Deus, obedecendo a uma única Lei, essa Lei que é a idéia central do universo, o sopro divino que o anima, o dirige, o move. Essa Lei — que é Deus — mesmo manifestando-se em mil aspectos diferentes, permanece sempre uma Lei de bondade e de justiça, que, em nosso concebível, acha sua mais digna e genuína expressão no Evangelho de Jesus Cristo, cuja substancial compreensão por parte da humanidade significará a realização do Reino de Deus.
Assim colocado o problema humano, cósmico e divino, é fácil imaginar as orientações e desenvolvimento que A Grande Síntese dá ao problema artístico e ao ético, ao social e ao da autoridade a ele ligado, e ao problema econômico. Seria interessantíssimo examiná-los um a um, mas isto excederia os limites de uma crítica. Limito-me a dizer — e é intuitivo pelo que até agora escrevi — que todos os problemas que interessam à vida associativa, desde o altíssimo e nobre da arte ao mais humano e atormentado como o econômico, desenrolam-se e se resolvem num desenvolvimento harmônico com o problema espiritual, à sombra de uma lei benéfica, única em sua essência e multíplice em suas manifestações, não estranhos, mas intimamente ligados a toda a complexa vida fenomênica; pelo que transparece evidente que toda atividade, desde a do homem a dos astros, através de mudanças alternadas de derrotas e vitórias, de quedas e
ascensões, de involuções e evoluções, converge para o mesmo alvo: unificação com o primeiro princípio, o Eterno. Falou-se de profetismo. E por que não? Se não estivermos cristalizados na idéia de que também no século XX um profeta tenha de ser necessariamente um homem que se veste com pelos de cabra e se nutre de mel silvestre e gafanhotos, como o Precursor, nada impede de considerar Ubaldi como um profeta deste atormentadíssimo nosso século, se por profeta entendemos aquele que, em tempo de crise moral e espiritual, fazendo-se eco do pensamento do Eterno, leva aos homens nova mensagem, revela aos corações ansiosos um novo mistério do Ser.
O que dá eficácia e valor a um livro é sempre a nobreza de seu ensinamento e a altura dos objetivos que se propõe atingir. Pessoalmente julgo A Grande Síntese como um livro que deve ser lido e meditado com pureza de coração e de inteligência. Sem dúvida muitas coisas são por ele demolidas; mas são demolições impostas pela necessária e urgente cura de nossa consciência moral e espiritual. São demolições que alargam o horizonte de nossa concepção e permitem que nossa alma sedenta se inebrie de uma luz mais pura e mais vivida.
(a) G. V.