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Internkontroll og risikostyring

In document Årsrapport 2018 (sider 36-39)

4. Styring og kontroll i virksomheten

4.3. Internkontroll og risikostyring

Em Janeiro de 1917 foi, finalmente, assinada uma convenção militar entre Portugal e o Rei- no Unido, na qual se previam as obrigações aceites por ambas as partes no que concernia ao apoio a dar mutuamente. No essencial, o armamento, munições, o transporte e a defesa marítima dos navios com tropas ficava a cargo dos britânicos, sendo que Portugal forne- cia homens, peças de artilharia (as que ainda existiam em depósito, no país), fardamento, animais de tracção, veículos automóveis e hipomóveis, material sanitário e outro equipa- mento. Não estava prevista nenhuma data para deixar de se fazer o transporte de tropas. A organização da força ficava a cargo do Exército português e, na fase inicial, combinou-se enviar uma divisão reforçada, ou seja, cerca de trinta mil homens. Exactamente, porque não era definitivo o contingente a mandar para França, deu-se-lhe a designação de Corpo Expedicionário Português (CEP), embora o ministro da Guerra, Norton de Matos, previsse, segundo os seus melhores cálculos, colocar nas trincheiras três divisões reforçadas (Fraga, 2010, 284-307), formando três Corpos Expedicionários.

Depois de instalado o CEP, e após várias alterações orgânicas, no mês de Outubro, ficou assente, entre Portugal e o Reino Unido, que as forças nacionais passavam a constituir um corpo de exército a duas divisões sem serviço de aviação e artilharia pesada. Em Novem- bro, o general-comandante e toda a tropa assumiram a defesa de um sector de trincheiras, com cerca de onze quilómetros de extensão, entre as cidades de Armentières e Béthune, na Flandres francesa, quase frente a Lille. Todavia, em Setembro, o Governo britânico tinha cortado o serviço marítimo de transporte de tropas portuguesas para França (Meneses, 2018, 142-143). Londres, mais uma vez, jogava uma cartada decisiva em relação, agora, à presença militar portuguesa nas trincheiras.

Olhando objectivamente, sejam quais forem as explicações arranjadas para justificar a decisão britânica, para a supressão dos transportes de tropas, sabendo que Portugal não tinha condições para suprir o corte, só se pode concluir que, fosse qual fosse o preço, o Governo de Londres desejava levar à exaustão o CEP até que em Lisboa se aceitassem as condições impostas pela Inglaterra.

Quais eram essas condições?

Temos de recuar aos meses de Agosto e Setembro de 1917. Os comandos militares britânicos em França punham em dúvida a possibilidade de as duas divisões portuguesas formarem um corpo de exército com capacidade de resistir ao desgaste que a simples presença nas trincheiras imporia, já que ia deixar de haver ou já deixara de haver transporte de tropas para colmatar as baixas do CEP (Meneses, 2018, 123-124). Assim, Lord Derby, ministro da Guerra britânico, em Setembro, escreveu uma carta ao ministro da Guerra português,

Norton de Matos, propondo que as tropas do CEP recuassem para zona menos perigosa, se sujeitasse as mesmas a um enquadramento maior por parte de oficiais britânicos e que, em caso de empenhamento nas trincheiras, ficasse uma única divisão em linhas e a outra servisse de suporte e reserva de pessoal à retaguarda (Fraga, 2010, 480). Claro que esta pro- posta foi violentamente recusada pelo ministro português. Mesmo correndo o risco de não haver mais transportes de tropas – sempre se podia fazer pressão sobre o Governo do Reino Unido – Lisboa preferiu jogar forte e manter o corpo de exército em linhas.

Aparentemente, embora o desgaste se fosse fazendo sentir, dado que o sector português não era excessivamente massacrado e nem oferecia condições para sobre ele haver uma grande ofensiva, a decisão de Lisboa – pesem embora todas as reclamações do coman- dante do CEP, general Tamagnini de Abreu e Silva, homem que compreendia mal a verda- deira missão da tropa que comandava – terá visado forçar o Governo de Londres, depois do Inverno de 1918 a disponibilizar mais navios para completar os efectivos em falta. No entanto, tudo leva a crer, a disposição do War Office ia no sentido oposto: levar o CEP até à exaustão e obrigar Lisboa a reconhecer que tinha de aceitar algumas das condições britânicas. Nenhuma das partes, em Novembro de 1917, poderia imaginar que, em Abril de 1918, porque no mês de Março não choveu como de habitual na zona da Flandres fran- cesa, o Alto Comando Alemão ia determinar uma grande ofensiva exactamente na frente do sector português. Muito menos, poderia Norton de Matos e Afonso Costa, imaginar que o antigo ministro plenipotenciário em Berlim, major doutor Sidónio Pais ia comandar um golpe militar para derrubar o Governo.

Foi, precisamente, o golpe de Sidónio Pais, nos primeiros dias de Dezembro de 1917, que determinou toda a mudança operada no mês seguinte. Vejamos com um pouco mais de pormenor.

No nosso livro (Fraga, 2010, 439-523) fazemos uma descrição bastante completa das consequências do golpe militar de Sidónio Pais na condução da política de guerra.

Ao contrário do que foi propalado e ganhou raízes, Sidónio Pais não foi germanófilo, nem praticou uma política germanófila. Foi, isso sim, anglófilo até ao limite possível, pois cedeu em tudo o que havia a ceder à vontade britânica. Logo após a vitória no Parque Eduardo VII, foi visitado, ainda no acampamento, pelo general Barnardiston, acompanhado da es- posa e de um outro oficial. Basta este facto para evidenciar o apoio directo ou indirecto do Governo de Londres, tal como o denunciou, na época, Bernardino Machado, exilado em Paris. Mas o citado general britânico tinha incumbência mais precisa do que a simples manifestação de apoio: ele pretendia fazer aceitar por Sidónio Pais o plano de alteração or- gânica do CEP, empenhando somente uma divisão na frente e ficando a outra na retaguarda como depósito e reforço de pessoal. Era a machadada final no corpo de exército português e no CEP, pois a divisão empenhada na frente ficaria a fazer parte de um corpo de exército britânico e a da retaguarda limitar-se-ia a manter o treino e a instrução de todos os mili- tares que tivessem de marchar para as primeiras linhas. O CEP seria uma unidade teórica, sem qualquer empenhamento táctico e, muito menos, estratégico. O general-comandante seria exclusivamente responsável pela aplicação das penas disciplinares.

Foi isto que Sidónio Pais aceitou no dia 18 de Janeiro de 1918. Todavia, esta nova organi- zação não foi posta em prática logo de imediato, porque, devido ao empenhamento das di- visões do Reino Unido em toda a frente, faltavam efectivos para guarnecer a pequena frente portuguesa. Assim, com base neste exíguo facto, fica provado que a verdadeira intensão

britânica não tinha natureza militar, não sendo, por conseguinte, nem de ordem táctica nem estratégica; era, exclusivamente, de ordem política, pois, se o não fosse, tinham-se, com antecipação, calculado as necessidades em homens para cobrir a retirada das divisões do CEP! Isso não foi feito, em tempo algum, quer pelo War Office, em Londres, quer pelo estado-maior de Sir Douglas Haig, em França. Contudo, absolutamente certo era o des- gaste do corpo de exército português, pois as primeiras unidades a terem contacto com o inimigo entraram em linhas em Abril de 1917 e por lá se mantiveram até aos primeiros dias de Abril de 1918. Nenhuma tropa, sob comando superior britânico, esteve tanto tempo em trincheiras e sujeita ao fogo alemão.

O mês de Março foi altamente desgastante para o CEP, pois, do lado germânico, estava já a preparar-se uma enorme ofensiva contra o sector português e os flancos britânicos que ladeavam o corpo de exército nacional. Nesse mês, o moral das tropas portuguesas caiu à vertical. Todas as noites houve bombardeamentos das linhas, dos postos de comando dos batalhões, das brigadas e, até das divisões. O serviço de informações do estado-maior do CEP fez saber ao Alto Comando Britânico as desconfianças que tinha sobre a eventualidade de um ataque alemão, porém os britânicos, porque não tinham possibilidades de substituir por unidades suas as duas divisões portuguesas, protelaram até aos primeiros dias de Abril a entrada em vigor da nova organização do CEP. Só já em última instância procederam a essa alteração. Contudo, deve dizer-se, para que a História o registe para sempre, a 2.ª divisão – aquela que ficou em primeiras linhas, nas trincheiras – ocupou o mesmo espaço que as duas divisões do CEP ocupavam anteriormente. Ou seja, enfraqueceu-se, com plena consciência, a defesa do sector e essa ordem foi dada pelo Alto Comando Britânico. Era ine- vitável que, em caso de ataque germânico, a 2.ª divisão cedesse e fosse incapaz de oferecer uma resistência credível.

O peso da responsabilidade histórica terá falado mais alto do que a imprudente vontade de esmagar o CEP e terá levado o Alto Comando Britânico a determinar que a 2.ª divisão portuguesa saísse da frente no dia 9 de Abril de 1918 e caminhasse para a retaguarda, onde iria gozar um merecido repouso. Mas, quando a ordem foi dada, já vinha tarde, pois, às quatro horas e quinze minutos de dia 9, os alemães iniciaram um ataque feroz sobre toda a frente portuguesa, começando por um destruidor bombardeamento (Fraga, 2010, 401- 438) que causou trezentos e noventa e oito mortos e levou ao aprisionamento de seis mil quinhentos e oitenta e cinco militares (Oliveira, 1994, 123).

Desapareceu, assim, a expressão da vontade política dos revolucionários republicanos que sonharam ser possível impor Portugal à Grã-Bretanha com igual peso soberano na or- dem internacional. O que restou do CEP passou a fazer trabalho de tropa de engenharia, abrindo trincheiras e estradas para os combatentes britânicos passarem rumo às primeiras linhas. Só já nas últimas semanas de guerra, em Outubro de 1918, foi possível organizar três batalhões que foram integrados em grandes unidades britânicas e tomaram parte na perseguição das forças alemãs em fuga, para lá do rio Escalda.

Conclusão

Depois do armistício e do fim da guerra, na conferência da paz, Portugal ainda foi repre- sentado por Afonso Costa, que optou por ficar a viver em Paris após a morte de Sidónio

Pais, da sua libertação e em seguida à reposição da ordem alterada pela Monarquia do Nor- te, em 1919. Houve uma tentativa de o trazer, de novo, ao cargo de Presidente do Ministério (designação, então, usada para o Primeiro-Ministro), mas recusou, por achar não estarem reunidas condições para tal.

Na conferência da paz, Afonso Costa, pela última vez, ainda deu largas ao seu sentido

revolucionário conseguindo para Portugal, como compensação de guerra, para além de

avultada soma de dinheiro, que chegou para pagar a dívida de guerra à Grã-Bretanha, a entrega de navios germânicos que serviram para, com eles, se fundarem quatro grandes companhias de transportes marítimos, modernizando aquilo que, pelo esforço nacional, nunca seria modernizado.

É verdade que, após o regresso das tropas a Portugal, por cá houve muita instabilidade política, alguns atentados à ordem pública com crimes hediondos, mas a culpa de tal esta- do de coisas, ao contrário do que alguns historiadores procuram concluir, não é nacional. Realmente, é preciso contextualizar a situação interna portuguesa com aquilo que se pas- sava um pouco por toda a Europa, desde a Alemanha à Espanha.

Os circuitos comerciais haviam sido rompidos com a guerra, gerando níveis de inflação altíssimos, desemprego e fome. Este cenário gerou, naturalmente, instabilidade social e esta, na esperança de encontrar uma solução, gerou instabilidade política. Ora, Portugal, sendo um país dependente das importações estrangeiras, ao mesmo tempo que importava os produtos necessários ao consumo interno, importava a inflação e tudo o mais que vinha arrastado por ela. A História da segunda parte da 1.ª República – de 1918 a 1926 – está ligada à História da Europa do pós-Grande Guerra: ascendência política dos militares nas ques- tões nacionais e incapacidade de os partidos políticos encontrarem soluções apropriadas para o equilíbrio da vida.

Associado ao quadro que acabamos de traçar estão causas tipicamente portuguesas agra- vadas com a mudança do regime monárquico para o republicano. Com efeito, como vimos, o atraso nacional era transversal a toda a actividade social e económica e o impulso que a República, através do Partido Democrático, pretendeu dar à evolução gerou uma reacção, que elegia a tradição, o obscurantismo e a religiosidade como salvação do descalabro re- publicano. Essa foi a superestrutura que sustentou a Ditadura Militar entre 1926 e 1928 e serviu de apoio à definição do Estado Novo de António de Oliveira Salazar, que, em nome da ordem, do equilíbrio orçamental, da paz social e da acalmia da luta partidária, impôs uma ditadura retrógrada, que se prolongou no tempo até colocar Portugal, cada vez mais, fora do tempo da Europa e da modernidade de então. Só já na segunda metade dos anos 50 do século XX é que houve a percepção de que se impunha acelerar o passo para chegar a certos níveis sociais, económicos e educacionais europeus e, nessa altura, abriram-se as portas à cultura cinematográfica e à televisão, bem como a uma ligeira modernização literária. O verdadeiro salto para um mundo modificado fez-se depois de 25 de Abril de 1974, com a aceitação do direito de as colónias ascenderem à independência e a abertura à democracia com integração no Mercado Comum.

Em conclusão, não se pode dizer que a beligerância, na Grande Guerra, tenha sido um mal ou uma decisão errada; ela foi a decisão que parecia mais acertada para a época de modo a tentar garantir a saída de uma tutela amarfanhadora dos brios nacionais. À belige- rância na Grande Guerra não se pode opor a neutralidade colaborante – como lhe chamou Salazar – na 2.ª Guerra Mundial, pois, cada uma das conjunturas era distinta e determinan-

te de objectivos nacionais diferenciados. Por isso, a História não deve julgar, mas simples- mente contar e explicar.

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Do paradigma da guerra ao paradigma da paz: O

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