Nos tempos passados as mulheres se cansavam em torno dos armários enormes cheirando a alfazema. A velha casa tradicional tinha por base a abundância de roupas brancas e grande cuidado, escrupulosa atenção era empregada na escolha dos finíssimos tecidos, dos bordados maciços, das refinadas rendas.
Tudo era criado para o bem-estar e a alegria de pelo menos uma geração e não eram raros certos lençóis, com preciosos bordados, verdadeiramente jóias de família, passarem de mães a filha durante anos e anos.
Os amplos armários, os móveis conservadores parecem terem desaparecido na noite do tempo e o previdente amor desapareceu com a vida moderna.
Vida feita de superficiais aparências, mas também de enérgico trabalho que absorve na sua rede a mulher de hoje, a qual não tem tempo nem vontade de amontoar linhos sobre linhos, rendas sobre rendas.
A necessidade, pois, se reduz ao necessário, não dizemos por uma vida, mas por muito, muito menos, e o sincero perfume de alfazema se esvai como um mito no ar fremente de agitação.
Tudo caminha, tudo se envolve nas contingências modernas. Nas salas de jantar, por exemplo, para conservar uma agradável sensação de espaço e de conforto, foram banidos sem mais cerimônia o bufê e o etager, altas tradições da família de trinta anos atrás: temos observado, em quase todas as casas, especialmente nas cidades, que existe somente a mesa indispensável, uma espécie de estante recoberta de vidro, algumas cadeiras e um par de poltronas. Um armário de vidro é pendurado ou incrustado à parede mais larga e serve para guardar talheres, porcelana e prataria. 152
Esta matéria nos revela alguns hábitos realizados no ambiente doméstico que tratavam de limpeza e arrumação e nos apontam objetos da cultura material nas residências fortalezenses no início do século XX. Geralmente, objetos grandes, pesados, detalhados, onde muitos figuravam e eram vistos como “[...]
verdadeiramente jóias de família, passarem de mães a filha durante anos e anos”. A
relação que os indivíduos estabeleciam com os objetos eram de caráter íntimo, muitas peças ficavam gerações dentro das famílias. Com a produção em massa, e apropagação do consumismo, os objetos passaram a ser produzidos em moldes uniformes e a descartabilidade passou cada vez mais a caracterizar o consumo
129 destes artefatos. Como já foi citado, “os objetos viam o nascimento e a morte de
gerações humanas. Atualmente, são os homens que assistem ao inicio e ao fim dos objetos” 153
Observamos também a afirmativa que assinala uma aceleração dos ritmos de trabalho e dos modos de vida cotidiana. A matéria sugere a entrada das mulheres no mercado de trabalho: “Vida feita de superficiais aparências, mas também de
enérgico trabalho que absorve na sua rede a mulher de hoje, a qual não tem tempo nem vontade de amontoar linhos sobre linhos, rendas sobre rendas”. O tempo
relegado às atividades femininas passou a ser dividido com tarefas fora do lar, em escritórios, lojas, salões de beleza, indústrias (têxtil, essencialmente), escolas, etc.
Duas prerrogativas do “modo de vida moderno” são destacadas na fonte citada. “Melhor sensação de espaço e conforto”. Como vemos em algumas residências, determinados cômodos como a sala de jantar (copa) sofreram uma reconfiguração no seu espaço, fazendo desaparecer e aparecer objetos e mudando sua espacialidade.
Na copa, eram guardados os artefatos de louça e algumas vezes objetos representantes de distinção social, como as geladeiras que costumavam ser postas na sala de jantar – copa -, para dar visibilidade e status às famílias fortalezenses na década de 1950, que de alguma forma buscavam participar de uma sociedade que utilizava objetos técnicos e modernos. Portanto, mesmo que a maioria das casas ainda fossem espaçosas, este cômodo começou a se transformar e no decorrer das décadas de 1940 a 1970 foi ocorrendo uma transição na estrutura arquitetônica da casas e seus cômodos que associavam o espaço da copa à cozinha, e não mais à sala de jantar.
A matéria supracitada continuava:
A idéia se generalizou: basta substituir a cama propriamente dita por um divan-leito, abolir os armários com grandes espelhos, juntando uma mesa com poltronas pequenas, uma estante aberta para os livros, uma lâmpada de mesa, uma mesa-carrinho para o chá, harmonizando e ligando todo o arranjo com um belo tapete de sóbrio jogo de cores e aí está o antigo quarto transformando em acolhedora sala-de-estar.
Nesse quarto-saleta a escolha das cores é a base da sua elegância, jogando sempre sobre cores únicas e suaves; rosa antigo, verde claro, ciclame, amarelo trigo, cinza.
130 O modernismo permite e sugere elegantes fusões de tons rosa nas paredes e verde suave nos estofados ou vice-versa; amarelo trigo com cinza ou com ciclame.
A coberta do divan-leito, com fundo marfim e raminhos de flores, ou toda em lista; para as poltronas, geralmente, tecido sem desenho definido, que não destoe das paredes ou de tipo de coberta do divan-leito.
As vidraças e janelas com grandes cortinas em tulle creme dão ao ambiente um aspecto muito convidativo. 154
Aqui continuamos a discussão desta tendência arquitetônica, que lançava dicas e formas de dar um tom mais moderno para os lares, rearranjando os espaços em nome do conforto e bem-estar. Primeiramente, parecia haver uma crítica a essa tendência que bania certos objetos e transformava os espaços tradicionais das casas. Mas no segundo momento, passou-se claramente a indicar formas de reaproveitar alguns cômodos e dar-lhes outras configurações e funções utilitárias (transformando quartos em saletas de estar), não sem também invocar objetos tradicionais, como o carrinho de chá.
Esta mescla de elementos tradicionais e modernos indica justamente esse momento de transição, que foi transformando alguns ambientes domésticos, excluindo e/ou incluindo objetos. São indicadas a abertura e ampliação do leque de opções e combinações que o modernismo trazia, possibilitando a decoração dos lugares com tendências mais maleáveis. Vemos também como já existia um estudo que relaciona o arranjo dos móveis e a escolha das cores com a sensibilidade humana, invocando alegria, conforto e atratividade.
Objetos tradicionais citados acima – Bufês e Stagers – eram em certos casos suprimidos por armários de cozinha e peças embutidas. “O bufê, cujo uso foi analisado por Suzanne Tardieu, apareceu com a multiplicação dos objetos, cerâmicas, louças que não podiam mais guardar apenas sobre tábuas ao ar livre ou pendurados. Ele foi seguido mais lentamente pelos armários e pelas cômodas”. 155 Estes itens, como bufês, armários e guarda-louças, eram também símbolos de riqueza familiar.
No entanto, neste período, havia domicílios que adotavam os diferentes estilos, e mesmo os conjuntos com peças tradicionais anunciavam seus arquétipos modernos. Vejamos um anúncio no jornal “Unitário” do ano de 1963.
154 Jornal Unitário. Fortaleza, 29 abr. 1951. 155 ROCHE, Daniel. Op. Cit.
131 MAIS DE 30 MODELOS A SUA
ESCOLHA
Como numa passarela V. vê em exposição nas LOJAS LAR ELEGANTE as mais acreditadas marcas de salas e copas de fórmica. É um encanto à vista o seu lindo colorido!
... e como são práticas, higiênicas e modernas! Quanto à facilidade para pagar à vista, com desconto em 4 meses, pelo preço de à vista em até 7 meses, sem entrada... e até em 15 mêses como V. viu acima. 156
Essa propaganda de conjuntos para sala e copa, modelos do ano de 1963, ainda apresentava estes espaços integrados (Figura 8). Vemos a presença do conservador bufê que adquiria formas mais sofisticadas e modernas, somando o papel de guardar os
diversos utensílios domésticos, substituindo outros móveis numa única peça mobiliária. São móveis feitos com matérias de fácil limpeza (vidro e fórmica), apregoando higiene às peças, ajeitando portas e prateleiras de forma prática, e fabricados com designes modernos. Ela (a mesa) se cercava de um grande número de móveis anexos e de acessórios, louças, talheres, pratarias e panos. E foi ao redor da mesa de jantar que a alimentação foi transfigurada em relações sociais e elemento significador de hábitos e práticas culturais do cotidiano. 157
Este caso ajuda a elucidar o caráter lento e multitemporal das transformações efetivas na cultura material e nos hábitos e práticas cotidianas dos fortalezenses, assim como nas relações com os objetos e seus usos e as funções atribuídas a eles. Não era difícil, pois, a convivência de diferentes objetos representativos de tempos passados e rústicos (tradicionais e rurais) e tempos futuristas e sofisticados (modernos e urbanos).
156 Jornal Unitário. Fortaleza, 21 jul. 1963, p.11. 157 ROCHE, Daniel. Op. Cit.
Figura 8 – Propaganda de conjuntos para sala.
Jornal Unitário, Fortaleza, 21 jul. 1963, p.11.
132 É no domínio do mobiliário em que se podem expressar também as marcas regionais, mais fortes quando não marcam apenas a estrutura, mas a ornamentação e a organização. O emprego de madeiras, vidros e plásticos ajudam a entender as exigências especificas da região e perceber o caráter particular de uso e consumo de certos artefatos, equipamentos e utensílios do lar. Em entrevista oral, Dona Hermosa lembra certa particularidade encontrada em Fortaleza até a década de 1970: “Era uma região que tinha muito cupim porque tinha muito cajueiro”.
Atentar para o fato de Fortaleza possuir muitos cajueiros, ambiente bastante propício à proliferação de cupins, faz refletir justamente sobre a escolha de materiais alternativos que fossem resistentes a estes insetos ou mesmo de madeiras nobres, mais fortes e duradouras. No entanto, eram poucas as famílias que tinham condições de possuir móveis de jacarandá (madeira nobre e bastante utilizada na fabricação de móveis), sendo a maioria de imbuia (madeira de baixa qualidade, mais popular), ficando assim sujeitas à convivência com tal problema de conservação dos móveis, constantemente atacados por esses bichinhos comumente encontrados nas casas da capital cearense.
É interessante sempre atentarmos para certos objetos que figuravam como destaque no arranjo das salas e possuíam significado social para as famílias tradicionais até a década de 1950.
Os pianos, até a década de cinqüenta, ainda figuravam como artefato de status em alguns lares fortalezenses. Representavam a tradição de famílias abastadas, em que filhas prendadas precisavam aprender a tocar um instrumento, geralmente o piano, até mesmo pelo seu porte elegante e seu som refinado.
Era comum vermos em propagandas a venda de pianos (Figura 9) em lojas
especializadas, sobretudo pianos alemães, e ainda observarmos anúncios de “vendem-se pianos” na seção de anúncios populares dos diversos jornais de circulação local, principalmente a partir da década de 1950.
Figura 9 – Anúncio dos Pianos Brasil.
Jornal Correio do Ceará. Fortaleza, 13 jun.1958, p.02.
133 Tal objeto seria gradativamente excluído do ambiente domestico, muito devido a seu tamanho, peso e dificuldade de manutenção, pois a agilidade e aceleração da vida moderna pareciam suprimir objetos fora dos padrões de espacialidade e praticidade.
No ambiente da sala, encontram-se também cortinas. Elemento que dá requinte ao cômodo e traz proteção contra o sol, além de regular a luminosidade do lugar. Para falar sobre isto, destacamos um anúncio do ano de 1964 na Revista de circulação nacional Fatos & Fotos, que apesar de ser produzida e editada em Brasília, tinha muito boa recepção e circulação em Fortaleza:
ENTRETELAS E GANCHOS Magi-Prega
Encaixam sem costura das pregas e dos ganchos.
O mais rápido, prático e perfeito método de confeccionar e instalar cortinas no mesmo dia.
Para lavar, é fácil: basta retirar os ganchos e recolocá-los.
ENTRETELAS MAGI-PREGA
também em nylon permanente. A venda nas boas casas do ramo. 158
As residências de Fortaleza, devido a constantes e fortes ventos e também ao excesso de calor e luz, de muito, utilizavam cortinas, panos e tecidos. Como vimos na análise do artigo sobre “a casa moderna” no jornal “Unitário” de 11 de Fevereiro de 1951, as casas “antigas/tradicionais” eram cheias de tecidos pesados, repletos de bordados e adornos pouco práticos.
Esses pequenos objetos (entretelas e ganchos - Figura 10), imperceptíveis, invisíveis, escondidos atrás de panos e telas, era ponto fundamental na colocação e fixação das cortinas. Estes ganchos e entretelas carregavam uma evidência das novas necessidades exigidas por um novo modo de vida. Economizavam tempo e dinheiro e podiam ser utilizados de diferentes maneiras.
Pequenos objetos escondem uma grande função e sabemos que muitos ficam invisíveis aos nossos olhos, mas que sem eles o conjunto não ficaria bem colocado
158 Revista Fatos & Fotos. Brasília. Ano IV. Nº 164, 21 abr. 1964, p.62.
Figura 10 – Anúncio de pregas para cortinas.
Revista Fatos & Fotos. Brasília. Ano IV. Nº 164, 21 abr. 1964, p.62.
134 ou um objeto não funcionaria da forma ideal. Devido às constantes retiradas das cortinas para lavagem, logo se desenvolveram essas pequenas peças, que facilitavam o trabalho doméstico.
Eram esses objetos invisíveis que compunham a funcionalidade das cortinas, além da praticidade de instalação. O próprio nome do produto – Magi-Prega – remonta a uma discussão do maravilhoso e do mágico que cercava o universo da modernidade técnica, em que aparelhos e coisas pareciam funcionar movidos por forças invisíveis e misteriosas.
A fim de refletir sobre o desenvolvimento de materiais e produtos que modificavam as condições de temperatura e ventilação dos cômodos, cito um anúncio do jornal “Correio do Ceará” de 1958 que destacava a eficiência térmica do fôrro EUCATEX:
Proteção contra frio e calor só com fôrro de EUCATEX ISOLANTE (12mm). Chapa de fibra de madeira com 12mm de espessura de 60x60cm, 1,22x2,44m ou 1,22x3,5m. 12mm de Eucatex isolante tem o poder de isolar calor e frio igual a laje de concreto de 47cm de espessura. Fôrro de Eucatex isolante é bonito, custa pouco e é fácil de aplicar, recebendo qualquer tipo de pintura, inclusive colação.
Seu lar deve lhe oferecer conforto térmico durante todo o dia e à noite, isto é, temperatura ambiente sempre amena. Para isso é necessário que suas dependências estejam defendidas dos excessos de calor no verão e de frio no inverno que invadem a casa pelo telhado. É preciso que sua casa esteja isolada com fôrro de Eucatex Isolante.
EUCATEX ISOLANTE – EUCATEX ACÚSTICO – EUCATEX DURO –