• No results found

8 INTERNASJONALT SAMARBEID

In document ÅRSMELDING 2015 (sider 84-90)

Pensamos que de todos os presencistas terá sido Adolfo Casais Monteiro aquele que mais convictamente procurou, para a sua obra, uma abrangência poética, estética e doutrinária, entre as encruzilhadas estéticas e históricas do seu tempo. É na

Presença, como poeta e como crítico e ensaísta, o que mais entusiasmo demonstra em

relação às grandes linhas decorrentes da revolução modernista, bem como o que melhor compreende as razões éticas dos neorrealistas que conduziram às suas opções estéticas. Age do interior da publicação no sentido de criar uma estética e uma crítica inovadoras, retomando da aventura órfica a essencial rebeldia. O valor da Presença não deverá pois ser unicamente aferido pelos valiosos materiais coligidos nos cinquenta e seis números da revista, mas também por aquilo que desencadeou em termos gerais no panorama cultural do país. Ou seja, é marcante “a sua ação crítico- pedagógica em prol da arte moderna num período em que os setores tradicionalistas, passadistas, ainda detinham um poder apreciável no campo literário”1. Casais Monteiro não esconde os seus mestres, identifica-os abertamente tanto na poesia como no pensamento crítico e reflexivo: Baudelaire, Whitman, António Machado, Fernando Pessoa e os heterónimos Álvaro de Campos e Alberto Caeiro, Mário de Sá-Carneiro (sobretudo no decadentismo de Confusão e no tédio existencial dos primeiros livros de versos), Supervielle, Manuel Bandeira, Proust, Alain, Jung, Gide, entre outros vindos sobretudo do espaço da N.R.F.. O autor de A Poesia de Fernando Pessoa surge na revista, enquanto poeta e enquanto crítico, como um autor de encruzilhada, traçando por entre o delta de possibilidades um rumo próprio do qual nunca no essencial se desviou. Esse rumo passou por uma independência absoluta em relação a qualquer credo literário, filosófico ou político, sem com isso ignorar a realidade histórica do tempo, nem as linhas ideológicas e teórico-críticas que marcaram essas décadas, integrando-as crítica e poeticamente. Não admira, por isso, que seja de entre os colaboradores da Presença aquele em cuja escrita, em simultâneo, é possível detetar todas as confluências, todas as contaminações do seu tempo nos mais diversos planos da criação, da doutrinação e da mundividência. Tudo isto enraizando numa visão pessoal, aliada a uma voz asperamente humana, que faz com que, após a passagem do tempo sobre a poeira das pequenas guerrilhas em que se envolveu, seja reconhecido

1 Fernando J. B. Martinho, Prefácio a O que Foi e o que não Foi O Movimento Presença, Lisboa, INCM, 1995, p. 13.

como um dos autores marcantes do século XX português, e aquele que por temperamento, visão do mundo, biografia, posição perante a literatura, mais se aproximou desse fecundo território intelectual em exílio que foi Jorge de Sena2. Esta generalizada atenção que a sua obra crítica e sobretudo a sua poesia suscitaram dos mais diversos estudiosos dos caminhos do Modernismo é devida certamente à “exemplaridade frontal com que ela se abriu à reflexão sobre si e sobre os abissais problemas do homem no mundo, arriscando por arrastamento a possibilidade da sua própria disforia e queda”3.

Considerando “a libertação da palavra”4 como o fenómeno central da poesia moderna, ou que atravessa o Modernismo, o autor de A Palavra Essencial (1965) apresenta-se como vitalista e voluntarista por temperamento e “criacionista” na sequência do magistério filosófico de um dos seus principais professores e mestres, Leonardo Coimbra5. Desde cedo manifesta uma funda desconfiança, no que concerne ao ato de criação artística, na pura racionalidade, no agenciamento lógico, vistos como limitação à correlação entre a ordem sensível e o entendimento para a compreensão total do homem na sua relação criativa ou recetiva com as obras de arte. Divide-se poeticamente entre um ceticismo disfórico de origem simbolista e decadentista e um

2 Quando no capítulo anterior nos referíamos à excessiva identificação entre Régio e a Presença, como se o projeto fosse obra de um homem só, pensávamos para além do mais na forma como Casais Monteiro se entregou em plenitude ao desígnio presencista. E o mesmo João Pedro de Andrade, que atrás citamos pela forma como associa quase em pleno José Régio à Presença, não deixa de reconhecer noutro passo que “Adolfo Casais Monteiro […] é um dos poetas que mais profundamente encarnam o espírito presencista, apesar de se ter revelado quando a revista já ia a cerca de dois anos do seu início. […] Mas ao mesmo tempo que pelo seu idealismo artístico e pelo ardor consciente das suas ideias, ele é bem o homem de que o movimento esteticista necessitava para que o novo sangue transfundido não deixasse a poesia portuguesa recair no mesmo marasmo de onde há pouco se erguera”. Ver João Pedro de Andrade, A Poesia da Moderníssima Geração, Porto, Livraria Latina Editora, 1943, p. 25. Claro que o percorrer este caminho estreito e difícil, entre bermas íngremes, leva a que outros vejam nisso indecisão, hesitação, ou simples e quase acrítico seguidor de outros, como é o caso, suspeito, de Gaspar Simões: “Ora se este [Casais Monteiro], poeticamente, se coloca na perspetiva de Álvaro de Campos e de Alberto Caeiro, com largas recidivas da poesia francesa da década de 30, ei-lo mais perto de um neorrealismo esteticista, digamos, que de qualquer revolucionarismo superador do suposto contra-revolucionarismo presencista. Quanto a nós há mais indecisão nas suas atitudes e ideias que vanguardismo propriamente dito, vanguardismo filiado no Orpheu. Perplexo, hesitante, nem revolucionário nem contra-revolucionário, aí o temos irremediavelmente remando nas galés do presencismo, que debalde condenou”. João Gaspar Simões, José Régio e a História do movimento da “Presença”, ob. cit., p. 25.

3Vieira Pimentel, A Poesia da «Presença» - Tradição e Modernidade, Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 1987, p. 491.

4 Adolfo Casais Monteiro, A Palavra Essencial, Lisboa, Editorial Verbo, 1972, p. 46.

5 Gaspar Simões reconhece esta marca de Leonardo Coimbra, em Casais Monteiro, perfeitamente circunscrita na Presença ou entre os presencistas; o mesmo se passa com a aproximação sustentada e esporádica ao ideário neorrealista: “Discípulo de Leonardo Coimbra, a quem, aliás, cita desde logo no ensaio de abertura das Considerações Pessoais, filósofo que nenhum dos presencistas nato jamais citará ou jamais considerará no plano em que Casais Monteiro o considerava”. João Gaspar Simões, José Régio e a História do Movimento da “Presença”, ob. cit., p. 111.

impulso arrebatado que absorve uma energia modernista de origem cosmopolita e um espírito contestatário com veios fundos na aventura rimbaldiana e no supremo magistério crítico e poético de Baudelaire. Mergulha poeticamente nos recessos do ser, no drama existencial, questionando sistematicamente os modelos teóricos ou poéticos até aí tidos por insubstituíveis, ou os que viriam a surgir pela rasura do humano em prol da conceção de uma linguagem totalizante. Esquivando-se ao poder concentracionário e despótico da razão, vem, com o passar do tempo, a moderar o seu ímpeto de tonalidades vanguardistas, compreendendo que a modernidade não foi um projecto que partiu do nada, e se situou como mais um elo da infinda cadeia evolutiva da poesia e da arte. As suas origens mais próximas terão de ser procuradas no puro movimento romântico, onde já residiam, em potência, as coordenadas do que viria a ser o movimento esteticamente revolucionário e transformador que foi o Modernismo6.

A base de toda a atividade criativa reside na poesia, aí fundamenta Casais Monteiro a sua poética e a sua estética. E no centro da criação poética está a libertação e a valorização exponencial da palavra, o que não invalida uma posição crítica a uma linha gongórica ou mallarmeana que, redutoramente, a toma sobretudo pela sua face significante. Mas a experiência presencista é aqui marcante, e o valor estético e poético da palavra só se carregará de significância quando atrás dela segregue uma verdade ontológica e carnal do homem que escreve, com ele fazendo corpo. Por conseguinte, para Casais Monteiro, “tal como a linguagem da razão, a poesia também procura uma verdade. Mas é uma verdade daquela dimensão humana em que dois mais dois não é igual a quatro. Nem por isso é uma linguagem do absurdo, muito menos do irreal. O mais estranho poder da poesia é que torna o mundo mais verdadeiro, exatamente porque nela as palavras não funcionam como sinais, ou como rótulos, mas como substitutos de alguma coisa que permanece por trás delas”7. Aqui também entronca a relação ambivalente que Casais Monteiro manteve com o Surrealismo, que, conquanto renegasse deste a sua doutrina de destruição da literatura enquanto tal, não deixa de valorizar no movimento a absoluta liberdade e

6 Cf. Vieira Pimentel, ob. cit. 568 – 570.

7 Adolfo Casais Monteiro, A Palavra Essencial, Lisboa, Editorial Verbo, 1972, p. 47. Esta visão da diversidade poética na medida em que a poesia é a manifestação radicalmente singular do indivíduo, leva-o a discordar, por exemplo, dos elementos dos Cadernos de Poesia, quando estes ostentavam o seu lema “a poesia é só uma”: “A poesia não pode ser só uma, porque o homem não o é tão-pouco”. Idem, p. 158.

espontaneidade que o caracterizam: a sua aventura pelo desconhecido do ser e da linguagem, a forma como distingue poesia e literatura, a forma como procura superar pelo modo de representação as tradicionais categorias estéticas clássicas do belo e do feio, e ainda pela forma como propõe a radioscopia estética e poética às zonas mais profundas, irracionais e desconhecidas da individualidade humana, às quais todo o movimento moderno ficou, em maior ou menor grau, indelevelmente ligado. A razão foi definitivamente posta em causa, bem como a sua pretensão de omnipotência ao nível do conhecimento, em prol da valorização de um inconsciente enquanto fonte poderosa de inspiração e criação artística e poética. Partindo dessa base, sintetiza assim o paradoxo surrealista: “Esta contradição é real, e nela se contém, simultaneamente, a razão da extraordinária vitalidade do surrealismo e da sua inviabilidade como doutrina. Por extraordinário que pareça aos ferrenhos da coerência e da racionalidade, com uma doutrina falsa podem fazer-se admiráveis obras. É que as obras não se fazem com a doutrina”8. A lição surrealista tem também o mérito de mostrar o homem estético liberto das peias civilizacionais: a moral, a política, a religião, a filosofia, a ciência, a estética. E nada melhor que a poesia para revelar este homem “nu”:

Ora a poesia é a voz do homem autêntico, ou tal se supõe ser, enquanto a da literatura seria a do homem corrompido, do homem feito já instrumento disciplinado, do homem reduzido à roda da engrenagem. A literatura, para o dizer ainda de outra maneira, seria composição, aceitando as fundamentais disciplinas racionais; o discurso é, em si, literatura, neste sentido. Só a poesia se salvará, pois, visto que ela não é, por definição, discursiva, e só dela seria, no primitivo, a sua nudez, no civilizado, a possibilidade de libertar o subconsciente”9.

Mais uma vez, Casais Monteiro é sensível a outras ideias sobre arte e literatura fora, e ao arrepio, da linha presencista: a adesão a uma linha relativamente pura do Modernismo, a compreensão pela ação neorrealista e pela lição surrealista. O Surrealismo é para ele um exemplo na arte; claro que pelos pressupostos estéticos surrealistas nunca enveredou, salvo na rebeldia intrínseca da sua linguagem e da sua

8 Idem, p. 100.

9 Idem, p. 105. Há aqui a recuperação por parte do Surrealismo da ideia de vidência própria da condição do poeta; assim, o Surrealismo vai recuperar a lição dos grandes poetas videntes como Rimbaud, Lautréamont, Baudelaire, Rilke, Pessoa, Apollinaire, Eliot. O Surrealismo supera, para Casais Monteiro, em muito, os Manifestos de Breton, embora este fosse “senhor de um dos mais belos estilos de que se pode orgulhar a literatura francesa” (idem, p. 100), e atinge o seu auge, ao nível da poesia, num Éluard, num Michaud, que nunca se deixaram arrastar por automatismos gratuitos.

voz. Por tudo isto, não tem dúvidas em afirmar que “a omissão do Surrealismo como movimento deixaria por explicar aquilo mesmo que fez a sua vitalidade. Ser, dentro da arte e da literatura, um movimento cujo valor estava precisamente na sua recusa em ser arte e literatura”10. Ao lado, ou a par, deste mergulho no desconhecido, no mais estreme individualismo, da subjetividade mais radical, coabita, em Casais Monteiro, uma natural tendência altruísta que o leva a sentir o drama social e a torná-lo em tematização central de uma parte importante da sua obra poética. Divide-se, assim, entre um individualismo radical, intuitivo, excessivo e apaixonado, e um impulso solidário rumo ao Outro, à consciência histórica. Reconhecendo em si esses impulsos de ordem contrária, ensaia a explicação:

Uma da minhas mais persistentes vocações foi sempre a de me interessar pelo que me permitirei chamar as manifestações coletivas da literatura, em relação sobretudo aos meios de comunicação. De me interessar por e de me empenhar nelas. Como é que o meu conhecido e feroz individualismo se harmoniza, ou se entende em função de tais disposições de interesse pela difusão da obra alheia é o que não perderei tempo a decifrar, pois para mim está decifrado há muito – é que a defesa da individualidade não implica de modo algum a falta de interesse pelos outros, pois esta indiferença se deve, apenas, a outra ferocidade, a da vaidade, que essa, sem dúvida, isenta quem sofra de semelhante vocação. Seja como for, a tais tendências devo, creio, a possibilidade de ter compreendido, desde cedo, a literatura como convergência e coincidência de esperanças comuns, e não como uma arena onde se debatem ferozes antagonismos de talentos exclusivistas.11

Gaspar Simões glosa negativamente (em seu interesse argumentativo, na polémica que entre ambos estala) esta aparente contradição verificada na personalidade social e artística de Casais Monteiro: “Nunca, em verdade, entre os homens que na Presença tinham proclamado o primado do individual sobre o coletivo se chegara a tais extremos de individualismo, excessivamente cultivado e excessivamente argumentado. O triste futuro da Presença como lugar de cooperação de um individualista tão exaltado que, ao mesmo tempo que era individualista, cultivava a ‘fraternidade’, com

10 Idem, p. 112.

11 Adolfo Casais Monteiro, O que Foi e o que não Foi O Movimento da Presença, Lisboa, INCM, 1995, p. 15. É aliás interessante a forma como Régio dá conta a Gaspar Simões do seu conhecimento de Casais Monteiro. Desde logo verificamos que os autores referidos por Régio, nas estantes de Casais Monteiro, vão estar na base da doutrinação estética presencista. Daí decorre que Casais Monteiro entrou naturalmente na revista; a vivência cultural era idêntica aos homens da Presença. “Cá no Porto apresentaram-me um Casais Monteiro, assinante, «avis rara» (no Porto) que possui todo o Gide, todo o Proust e vários Valérys, Pirandellos, etc. – o qual me falou com elogio da presença e de alguns dos teus artigos”. Ver João Gaspar Simões, José Régio e a História do Movimento da “Presença”, ob. cit., p. 57.

individualistas de moderada exaltação, de homens como Régio, a quem eram indiferentes os extremos’”12.

Estreia-se na Presença, como colaborador, com um texto sobre Eça de Queirós, no número 17, de Dezembro de 1928, publica seguidamente mais três poemas nos números 19, 21 e 23, bem como ensaios e críticas sobre Mário de Sá- Carneiro e Benjamin Jarnés nos números 21 e 22, o que perfaz cinco números consecutivos de colaboração ativa. A entrada definitiva como diretor da publicação dá-se no número 33, de Julho-Outubro de 1931, por proposta de José Régio e a imediata anuência de Gaspar Simões. Torna-se “o elemento mais novo da grande trindade teórico-doutrinária e crítica da Presença”13, substituindo assim o “dissidente”14 Branquinho da Fonseca. Segue-se um empenhamento ativo na teorização estética da literatura, tanto por intermédio do seu labor crítico e ensaístico na “Folha de Arte e Crítica” como posteriormente numa prática poético-literária autónoma, levada a cabo nas dezenas de obras publicadas no campo da crítica, do ensaio, da poesia e do romance (um só, como se sabe). Gaspar Simões, nas suas páginas autobiográficas, não obstante o ressentimento nunca ocultado em relação a Casais Monteiro, e apesar de algumas reticências sobre as mudanças verificadas na revista com a sua entrada (mínimas, num primeiro momento, mais nítidas, com o passar do tempo), não deixa de identificar e elencar o que de novo Casais Monteiro trouxe à Presença em termos internos e externos, por assim dizer: “Em todo o caso é depois da entrada de Casais Monteiro para a revista que os comentários da Presença se tornam mais oportunos e direi, mesmo, mais contundentes, embora, valha a

12 João Gaspar Simões, José Régio e a História do Movimento da “presença”, ob. cit., p. 110. O individualismo de Casais Monteiro era, como o de Régio, uma das marcas da sua poesia e da sua crítica, não obstante a sua consciência do tempo e do homem, que se exprime de forma mais nítida na sua poesia do que na de Régio; o que não quer dizer que Régio não possua, à sua maneira, uma profunda consciência social e a manifeste na sua obra, apesar de tantos se recusarem a ver. Ou a ler. Mas há marcas idiossincráticas diversas entre Régio e Casais Monteiro: este tem uma mais interiorizada conceção de modernidade e da sociedade, enquanto Régio é mais virado para os seus conflitos interiores de ordem religiosa e mística, que quase inexistem em Casais Monteiro: “Não obstante, nada está mais longe de ‘mim’ do que os temas dominantes da sua poesia, e ‘encontro-me’ muito mais em Sá-Carneiro ou em Pessoa”. Ver Adolfo Casais Monteiro, A Poesia Portuguesa Contemporânea, Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora, 1977, p. 207.

13 Vieira Pimentel, ob. cit., p. 566.

14 Forma ácida como João Gaspar Simões se referia a Branquinho da Fonseca. José Régio e a História do movimento da “presença”, ob. cit., p. 60.

verdade, de princípio, tanto Régio como eu espontaneamente os aprovássemos”15. E acrescenta em abono da ação de Casais Monteiro na Presença:

Fôramos nós próprios quem entendera que esses comentários deveriam ser mais frequentes e contundentes, avivando o tom das nossas críticas à vida literária e cultural do País. […] Sem dúvida que o aguilhão da ‘carta aberta’ de 1930 e a presença de Casais Monteiro tinham espevitado em nós, presencistas acoimados de academizantes, o ardor combativo. Se esse ardor combativo, o dos dois fundadores da revista, nunca, em verdade, esmorecera, agora, com aquele sangue novo, e desejosos que estávamos de desmentir as aleivosias dos que nos davam como inclinados a fáceis consagrações, mais e mais efervescera16.

Os textos compilados no volume Considerações Pessoais são aqueles que revelam mais fielmente o Casais Monteiro destes primeiros tempos como colaborador e diretor da Presença, o seu testemunho no contexto de uma prática doutrinária até aí estranha ao país. Integra-se num projeto coletivo liderado por José Régio, mas não deixa de expressar o seu próprio entendimento sobre os caminhos a trilhar pela literatura e pela arte do seu tempo, revelando, nesse aspeto, uma maior maturidade na crítica do que no livro de versos por essa mesma altura publicado, Confusão, que nos dá a ver o jovem ainda imaturo e indeciso poeta dessa fase17. Já encontrámos alguns textos críticos em

Considerações Pessoais que mostram o caminho definitivo de Casais Monteiro:

recusando formalismos de toda a espécie, mas bebendo num vocabulário e num pensamento de ordem filosófica, e sobretudo da filosofia da linguagem, que expande e reatualiza com o tempo18. Também se distingue da ensaística de penetração intimista e psicológica de José Régio e de uma análise psicológica e obsessivamente biografista

15 Idem, p. 103. Apesar da acrimónia que ressalta a cada passo, Gaspar Simões acrescenta ainda elogios, não sem alguma ironia em fundo, que sustentam o reconhecimento pelo trabalho de Casais Monteiro na Presença: “Foi José Régio quem descobriu o poeta no Porto e quem o trouxe para a Presença. Em boa hora. […] Com ele, conhece a Presença um dos seus mais meritórios ‘esteticistas’”. Idem, p. 113.

16 Idem, p. 104. Ainda, Gaspar Simões, partindo de um prefácio complacente de Fernando Pessoa ao poeta Luís Pedro, severamente causticado por Casais Monteiro na Presença, defende ser muito mais aguda e acutilante a exegese crítica dos presencistas do que a crítica avulsa vinda dos homens de Orpheu.

17 Gaspar Simões, sarcasticamente, jogando com os títulos do primeiro livro de poemas e do primeiro livro de crítica de Casais Monteiro, afirma que ele “como poeta se proclama ‘confuso’, e como ensaísta afirma-se ‘pessoal’”. E reconhece que o caminho trilhado por Casais Monteiro na Presença era tão pessoal que extravasava o arco de orientação dos dois diretores fundadores: “E, de facto, no próprio

In document ÅRSMELDING 2015 (sider 84-90)