Os países latino-americanos sofreram, ao longo da história, iminências constantes de invasões militares norte-americanas quando os interesses dessa potência eram ameaçados. No início do século XX, os Estados Unidos buscaram a hegemonia no continente, fazendo frente aos europeus. Os Estados Unidos defendiam o uso de força militar para assegurar seus negócios e propriedades no continente latino-americano. A Doutrina Monroe, imposta pelos norte-americanos ainda no século XIX, manifestava hostilidade a qualquer tipo de intervenção de potências europeias no hemisfério ocidental, garantindo aos Estados Unidos o direito, como única potência, de intervir nesse hemisfério.207
203 “primero muertos que vendidos” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2005, p.247).
204 “tuve que firmar solo pensando madre mía Bendición Alvarado nadie sabe mejor que tú que vale más
quedarse sin el mar que permitir un desembarco de infantes” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2005, p.273).
205 “condición amarga de calanchín de infantes” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2005, p.59).
206 “tomaron medidas de todo y ni siquiera se dignaron saludarme sino que me pasaban la cinta métrica
por encima de la cabeza mientras hacían sus cálculos en inglés y me gritaban con él intérprete que te apartes de ahí” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2005, p.59-60).
Os interesses estrangeiros na América Central estavam relacionados tanto ao fator comercial quanto ao geopolítico. Esse último motivou, em vários momentos, tanto no século XIX quanto no XX, a intervenção e a ocupação dos fuzileiros norte- americanos em vários países desse continente. Diversos tratados econômicos, que visavam à garantia dos interesses dos Estados Unidos, também foram impostos à região.208
O país fictício do romance, localizado no mar do Caribe, pode ser caracterizado como um Estado delimitado territorialmente, mas que tem a sua soberania constantemente ameaçada pelo desembarque dos fuzileiros navais, além de ser gradualmente despojado de seus recursos naturais pelas potências estrangeiras.
Sobre a questão da submissão do país caribenho de O outono do patriarca às potências estrangeiras, essa já havia sido explorada por outros críticos, como colocado no primeiro capítulo deste trabalho. Por exemplo, Márcia Hoppe Navarro defende que, no livro analisado, o ditador é manipulado por mecanismos de controle político e econômico estrangeiros.209 Gustavo Alfaro comenta em seu ensaio sobre o fato de no Caribe e na América Central o imperialismo norte-americano ter exercido o seu poder com mais frequência e mais abertamente.210
Em relação a O outono do patriarca, deve-se lembrar que o ditador foi imposto àquela nação pela potência estrangeira: naquele momento eram os ingleses que logo foram substituídos pelos norte-americanos. No dia em que o patriarca ascende ao poder, o comandante Kitchener211 diz a ele, apontando o cadáver do presidente deposto: “está vendo bem, general, é assim que acabam os que levantam a mão contra seu pai, não se esqueça quando estiver em seu reino” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.238).212 O patriarca repete essa mesma frase àqueles que ousam desafiar o seu governo internamente, como os soldados de um quartel que havia se rebelado e que ele mandou pelos ares com a explosão de uma bomba escondida na carroça de entrega do leite.
Além disso, “durante a ocupação dos fuzileiros navais, encerrava-se no gabinete para decidir o destino da pátria com o comandante das tropas de desembarque”
208 URÁN, 1987, p.229-242. 209 NAVARRO, 1989. 210 ALFARO, 1978.
211 Comandante da esquadra britânica que depõe o governante antecedente ao patriarca.
212 “ya lo ves, general, así es como terminan los que levantan la mano contra su padre, no se te olvide
(GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.11).213 Quando as forças estrangeiras de ocupação abandonaram o país, levando tudo e destruindo os quartéis para que ninguém soubesse como construí-los, “impuseram-lhe a ele a medalha da boa vizinhança, renderam-lhe honras de chefe de estado e lhe disseram em voz alta para que todo mundo ouvisse que aí o deixamos com o seu bordel de negros” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.52).214
Assim, a soberania do país fictício do romance é constantemente ameaçada pelas potências estrangeiras que, além das invasões, despojaram o país de diversos recursos naturais, culminando com a venda do mar do Caribe, em pagamento das dívidas. Conforme disse o embaixador, não havia outra saída,
(...) de modo que levaram o Caribe em abril, levaram-no em peças numeradas os engenheiros náuticos do embaixador Ewing para semeá-lo longe dos furacões nas auroras de sangue e de Arizona, levaram-no com tudo o que tinha dentro, meu general, com o reflexo de nossas cidades, nossos tímidos afogados, nossos dragões dementes (...) (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.232).215
A pátria do romance, para os estrangeiros, não passava de um país do qual exploravam os recursos naturais, culminando com o episódio em que levam o mar. As potências estrangeiras asseguram os seus interesses ao invadirem o país, impondo os seus ditadores, em desrespeito à soberania desse. Observa-se, pela perspectiva dos estrangeiros, o menosprezo pelo país, pois o denominam, de maneira pejorativa, de “bordel de negros”. Nesse sentido, a pátria governada pelo patriarca está submetida às potências estrangeiras que dominam o continente pelo uso da força militar, política e econômica.
Os estrangeiros também tentam mudar a ideia de pátria dos nativos, pois, de acordo com o próprio patriarca, eles “trataram de convencer nossos soldados de que a pátria é um negócio e que o sentimento de honra é uma sacanagem inventada pelo governo para que as tropas lutassem grátis” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.232-
213 “durante la ocupación de los infantes de marina, se encerraba en la oficina para decidir el destino de la
patria con el comandante de las tropas de desembarco” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2005, p.14).
214 “le impusieron a él la medalla de la buena vecindad, le rindieron honores de jefe de estado y le dijeron
en voz alta para que todo el mundo lo oyera que ahí te dejamos con tu burdel de negros” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2005, p.61).
215 (...) de modo que se llevaron el Caribe en abril, se lo llevaron en piezas numeradas los ingenieros
náuticos del embajador Ewing para sembrarlo lejos de los huracanes en las auroras de sangre de Arizona, se lo llevaron con todo lo que tenía dentro, mi general, con el reflejo de nuestras ciudades, nuestros ahogados tímidos, nuestros dragones dementes (…) (GARCÍA MÁRQUEZ, 2005, p.272-273).
233).216 Depreende-se desse trecho que o modo como os estrangeiros tratam o país leva os nativos a perderem o sentimento de patriotismo e a encararem a sua pátria como um negócio, o que acaba ocorrendo pelas mãos do patriarca que negocia os diversos recursos naturais do país em pagamento das dívidas.