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(...) os ativos do conhecimento, assim como o dinheiro ou equipamentos, existem e só vale a pena cultivá-los no contexto da estratégia. Não se pode definir e gerenciar os ativos intelectuais sem saber o que se está tentando fazer com eles. (STEWART, 1998)

O texto que inicia esta seção deixa bem claro o importante papel da estratégia da empresa no processo de avaliação e gestão de seu capital intelectual. Diversos trabalhos, como o de Leitner (2002), Jóia (2001), Koch, Leitner e Bornemann (2000), Marr, Gray e Neely (2003), Mouritsen (2003), Comissão Europeia (2002), Sánchez, Chaminade e Olea (2000), destacam o tema e ratificam as palavras de Stewart (1998), pontuando a

relevância da definição da estratégia para a elaboração dos indicadores que serão utilizados nos modelos e relatórios de avaliação do capital intelectual.

De acordo com alguns dos pioneiros na avaliação do CI, Edvinsson e Malone (2008) indicam que a informação gerada a partir dos intangíveis tem pouco valor se não estiver ligada à estratégia da empresa. Assim, o desenvolvimento não só dos indicadores, mas também de todo o conjunto utilizado para avaliar e mensurar o capital intelectual da organizações, deve ser guiado por suas estratégias.

Embora seja geralmente aceito – chegando até a parecer óbvio em alguns momentos – o fato de que a implementação da estratégia da empresa tem forte implicação no modo como as organizações avaliam e gerenciam seus negócios, uma pesquisa mostrou que executivos admitem que nem sempre colocam em prática aquilo que pregam na teoria. Marr, Gray e Neely (2003) citam o respeitável trabalho de Chatzkel, no qual é verificado que 70% dos presidentes de empresas admitem que existe um grande vale entre o que é mensurado e aquilo que realmente impacta na performance das corporações. Os mesmos autores ainda citam outro trabalho, de Stivers et al., no qual, embora 63% dos presidentes de empresas achem realmente importante a avaliação dos intangíveis, somente 10% utilizam seus resultados para avaliar ou reavaliar suas estratégias.

O projeto MERITUM, apresentado anteriormente, destaca que um passo fundamental para se ter uma visão correta da empresa é descrever e ilustrar corretamente os ativos intangíveis críticos que permitem o alcance de seus objetivos estratégicos. Sánchez, Chaminade e Olea (2000) compartilham desse entendimento e sugerem a abertura desses ativos críticos em recursos e atividades intangíveis, conforme pode ser observado na figura 11.

Figura 11 − Um modelo compreensivo para a análise de intangíveis

Fonte: Sánchez, Chaminade e Olea (2000).

Uma vez que a organização possui o entendimento da necessidade do estabelecimento dos objetivos estratégicos para conhecer seus recursos e atividades intangíveis essenciais e que o conhecimento desses intangíveis irá ajudar no acompanhamento e redefinição de sua estratégia de médio e longo prazo, passa então a buscar meios para mensurar os intangíveis. Isso ocorre por meio da utilização de indicadores, que nada mais são, como é atestado pela Comissão Europeia (2002), do que ferramentas capazes de demonstrar, a partir de dados quantitativos, como a companhia gerencia seus intangíveis, permitindo aos leitores do demonstrativo de capital intelectual acessar quão bem esta empresa está cumprindo seus objetivos.

No processo de definição dos indicadores, primeiramente é imprescindível que sejam conhecidos os motivos da utilização do demonstrativo de capital intelectual, se para fins de evidenciação externa ou para fins de gestão interna dos intangíveis, conforme já salientado anteriormente neste trabalho. Independentemente de qual seja o fim a que se destina, Leitner e Warden (2004) destacam duas notáveis dificuldades nesse processo:

• a primeira está ligada aos limites do que pode ser publicado em um relatório de

capital intelectual em função da natureza do conhecimento, já que nem tudo pode ser transformado em conhecimento explícito. Além disso, Ortiz (2009) lembra que, em muito casos, o contexto dos dados, necessário para uma interpretação adequada dos fatos, está ausente dos relatórios;

• a segunda está ligada à complexa natureza de todo esse processo, que, muitas

vezes, não é possível de ser capturada. A mensuração dos resultados é focada apenas em um número limitado de indicadores. Em muitos casos, os relatórios Objetivos estratégicos Recursos intangíveis Atividades intangíveis Identificação Gerenciamento

se perdem ao se tentar estabelecer um número muito grande de indicadores, impossível de ser analisado.

Sánchez e Elena (2006) chamam a atenção para tal fato, alertando que deve haver uma reflexão sobre como encontrar meios de evitar uma extensiva lista de indicadores, a fim de facilitar a construção de um quadro simplificado, permitindo uma análise comparativa entre diferentes instituições.

De acordo com Koch, Leitner e Bornemann (2000), a interpretação dos indicadores pode ser realizada por meio de comparações a partir de informações históricas, comparações relacionadas à realização de metas estratégicas previamente definidas ou analisados comparativamente com outras organizações semelhantes, desejo este também externado por Sánchez e Elena (2006).

Uma vez identificados os recursos e atividades intangíveis, as organizações procedem com a elaboração dos indicadores que servirão como fundamental instrumento para mensurá-los. No entanto, a Comissão Europeia (2002) elenca uma série de características que devem ser preenchidas pelos indicadores para que sejam validados e possam ser utilizados por qualquer modelo de avaliação de capital intelectual:

• comparabilidade: um indicador é comparável se computado e apresentado

seguindo critérios claros e adotados por outras organizações, permitindo, assim, sua comparação;

• confiabilidade: um indicador é confiável se a informação gerada é fidedigna,

sendo objetiva, verdadeira e verificável;

• objetividade: um indicador é objetivo se seu valor não é afetado por nenhum

fator nascido de interesses de partes envolvidas na elaboração das informações divulgadas pela empresa;

• veracidade: um indicador é verdadeiro se a informação que ele apresenta reflete

a real situação da empresa;

• verificabilidade: um indicador é verificável se é possível o acesso à informação

• viabilidade: um indicador é viável se os dados que ele utiliza para ser elaborado

podem ser obtidos a partir do sistema de informações gerenciais da companhia ou se o custo de captação desses dados é compensado pelos benefícios que são gerados a partir das informações resultantes desse indicador.

Sánchez, Chaminade e Olea (2000) e Comissão Europeia (2002) afirmam que é útil a distinção do indicador entre geral, específico para a área de atuação do negócio (chamado pelos autores de industry specific) e específico para a empresa. Os indicadores gerais são aqueles que podem ser comparáveis entre empresas e diferentes indústria ou setores de atividade da economia. Assume-se que são específicos para a área de atuação do negócio quando se referem a processos e definições que são particulares ao ramo de atividade da empresa; e específicos para a organização quando necessitam de uma prévia definição da empresa ou quando a definição desse indicador pode variar entre diferentes companhias.

Quadro 9 − Visão do sistema de mensuração

Nível de análise Classificação dos intangíveis Classificação dos

indicadores

Recursos intangíveis Capital humano Geral

Atividades intangíveis Capital estrutural Específico para o setor de atividade

Capital relacional Específico para a empresa

Fonte: Sánchez, Chaminade e Olea (2000).

Além da classificação dos indicadores mostrada no quadro 9, os autores informam que estes podem, ainda, ser divididos entre financeiros e não financeiros, sendo aplicáveis para qualquer nível de análise, tanto para os recursos como para as atividades intangíveis. No entanto, Leitner e Warden (2004) alertam que, se possível, é preferível a utilização de indicadores relativos, com o único intuito de permitir a comparação de dados, como nos casos nos quais os resultados são expressos em percentual (ex.: número de professores doutores em relação a todo o quadro de docentes de uma instituição de ensino).

No quadro 10, são exemplificados indicadores de capital intelectual, segregados por capitais humano, estrutural e relacional, a partir de modelos elaborados por três diferentes autores.

Permitir a análise comparativa de indicadores de CI de diferentes organizações é perfeitamente aplicável quando utilizados indicadores gerais e específicos para o setor de atividade. No entanto, esse entendimento deve ser repensado quando for aplicado indicadores específicos a cada instituição, que deverão ser elaborados apenas levando-se em consideração questões relacionadas à estratégia da empresa avaliada. Ademais, conforme comentado anteriormente, deve-se atentar para o fato de não definir um número elevado de indicadores, incorrendo no risco de propor um modelo inviável de ser avaliado.

Quadro 10 − Exemplos de indicadores de capital intelectual

Indicadores Leitner e Warden (2004) Secundo et al. (2010) Sánchez, Elena e Castrillo (2009) CAPITAL HUMANO

Número de docentes com doutorado n n

Fundo para P&D / número de pesquisadores n n

Número de funcionários / total de estudantes n n

Gastos de treinamento / número de

funcionários n