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Essa é, talvez, a parte mais difícil desse texto, pois a dança nunca se conclui. Se isso acontece, então nada fica. Ela se dissolve na memória como a neve no verão. Dessa maneira, esses são aspectos conclusivos momentâneos e em constante dinâmica de movimento e mudança.

Uma característica da dança, e da arte, contemporânea é sua não- linearidade, os caminhos percorridos, sejam eles durante os processos criativos quanto nas manifestações artísticas, quebram-se a medida que avançam, criam novos e inusitados percursos. Reinventam-se a cada passo.

Nesse trabalho, assim como no experimento cênico que o acompanhou, a percepção do corpo enquanto espaço de possibilidades, do espaço enquanto corpo em movimento, do meu e dos nossos corpos na interação que se estabeleceu durante as apresentações de meus pensamentos aqui presentes, tanto de forma teórica quanto prática, em suma, a percepção como elemento crucial e fundamental de nossa relação no mundo, como no pensamento epicurista, tenta trazer a tona algo que deixou de ser visível. Isso porque, a partir do pensamento racionalista, desaprendemos a ver o que não aparece aos olhos.

Quando Artaud nos propõe um corpo sem órgãos ele nos fala de um corpo não limitado por regras estabelecidas, que vê por onde não pode, e por onde não deve. Que sente a realidade mais do que a confirma.

Os minotauros que aqui proponho são expansões de nosso ser em um universo de contradições. Seres que “sobrevivem” ao fato de não existirem no mundo cotidiano. Como na peça Dorotéia (1949), de Nelson Rodrigues, onde a personagem Maria das Dores, que nasceu morta, ainda vive porque não foi comunicada de sua morte.

Temos que abrir caminho para sensações diferenciadas e para corpos livres das muralhas da razão. Corpos que não tenham medo de (simulacros) fantasmas, que sejam capazes de deixarem-se levar pela mágica do teatro alquímico, pela transmutação dos valores, pela realização do insólito.

Todo o artista propõe e, também, espera que seu trabalho “sobreviva” de alguma forma. Que ele plante alguma semente na alma do espectador. Mesmo sabendo que essa é uma arte supérflua, torcemos para que

alguém, algum dia, venha a dizer: eu me lembro, eu estava lá quando isso aconteceu, e alguma transformação ocorreu em seu pensamento ou sentidos ou forma de aprender o mundo no exercício da vida.

A gênese desse corpo entre/corpos, tão buscada, tão esperada, é, por fim, a esperança de que um resquício desse corpo se instale no corpo afluente, que ele, de certa forma, estabeleça sua existência. É a busca pela criação de espaços vazios, vácuos, possíveis mesclas.

Da mesma forma, espero que esse trabalho possa gerar algum fruto, algum novo corpo, na mente de alguém que venha a trilhar este percurso da dança e da criação coreográfica; que ele possa servir de suporte, ou apoio neste caminho tão cheio de dúvidas e questionamentos.

Este texto narra um trajeto de aprendizagem, de experimentação e reflexão. Falho como aquele que o escreve, profundo como cada olhar atento sobre o corpo em movimento. Um olhar, um corpo, que ainda se surpreende, que, nas palavras de Ferreira Gullar (1980, p. 13/14),

desde então segue pulsando como um relógio num tic tac que não se ouve

(senão quando se cola o ouvido à altura do meu coração) tic tac tic tac

enquanto vou entre automóveis e ônibus entre vitrinas de roupas

nas livrarias nos bares tic tac tic tac

pulsando há 45 anos esse coração oculto

pulsando no meio da noite, da neve, da chuva debaixo da capa, do paletó, da camisa

debaixo da pele, da carne,

combatente clandestino aliado da classe operária meu coração de menino (…)

( Ferreira Gullar )37

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