DEL II: HYPOTESER OG METODE
6. Funnenes validitet
6.2 Intern validitet
Os bairros de Mafalala e Polana Caniço A situam-se no Distrito Municipal 3 da cidade de Maputo,50 mas, se o de Mafalala está praticamente rodeado pela ―cidade de ci-
mento‖, o de Polana Caniço A está separado desta pelo Campus Universitário. O bairro de Hulene B fica mais distante da ―cidade de cimento‖, situa-se no Distrito Municipal 4, e é um bairro de características mais rurais. A origem destes bairros
remonta ao período antes da independência, mas, desde então, têm-se expandido con- sideravelmente e densificado em termos populacionais. No Polana Caniço A, a zona que fica nas barreiras da faixa oriental da Avenida Julius Neyere e em Hulene B a zona norte junto à lixeira e ao cemitério só foram ocupadas por casas de deslocados de guerra na década de 80.
O bairro de Mafalala, formado no princípio do século XX (um dos mais antigos ―bairros de caniço‖ da cidade de Maputo) é o mais antigo dos bairros estudados. Por esse facto, e por nele terem nascido ou residido algumas das personagens importantes da vida de Moçambique, é considerado um bairro histórico. Em meados do século XX começou a albergar um número crescente de pessoas vindas do Norte de Moçambique e muitas destas e dos seus descendentes ainda aí residem. No período anterior à inde- pendência contava um número relativamente grande de ―assimilados‖51 e o conjunto
destas características conferia-lhe, e ainda lhe confere, uma certa originalidade quer em termos da sua população residente quer em termos do habitat. Contrariamente ao que era regra no tempo colonial — época em que as casas dos africanos nos bairros perifé- ricos eram, na sua maioria térreas, de planta rectangular e paredes de caniço — muitas das casas em Mafalala eram em madeira e zinco, espelhando o poder económico relati- vamente mais elevado dos seus habitantes em relação aos habitantes dos outros bair- ros. Actualmente, e à semelhança do que acontece nos outros bairros suburbanos de Maputo, muitas das casas em caniço (e as de madeira e zinco de Mafalala) têm vindo a ser substituídas por casas de alvenaria (que no tempo colonial só podia ser utilizada em casas de régulos ou de funcionários coloniais) (cf. Raposo e Quintela 2000: 34-35). Nos três bairros, a situação em termos populacionais tem vindo a transformar-se de forma significativa. Como já se mencionou, os entraves que existiam à fixação dos africanos nas cidades diminuíram após a independência (embora tenham surgido novos entraves) e a população destes bairros (como de outros) aumentou. Poste-
51 De acordo com o Estatuto dos Povos Coloniais das Possessões Portuguesas em África, de
1954, era considerado ―assimilado‖ todo o africano que tivesse mais de 18 anos, falasse correctamente a língua portuguesa, exercesse uma profissão da qual tirasse o rendimento necessário à subsistência própria e das pessoas da sua família a seu cargo ou possuísse bens suficientes para o mesmo fim, tivesse um bom comportamento e tivesse adquirido a educação e os costumes necessários à aplicação integral do direito público e privado dos cidadãos portu- gueses. Os restantes africanos eram considerados ―indígenas‖ e não cidadãos de pleno direito (cf. Castro 1980: 413).
riormente, devido à guerra civil, estes bairros receberam muitos ―deslocados‖ de guerra, sobretudo provenientes das províncias do Sul do país.
O bairro de Mafalala tem uma maior densidade populacional do que os bairros de Hulene B e Polana Caniço A, embora, em termos absolutos, tenha um número menor de habitantes — os bairros têm, respectivamente, 21.189, 38.664 e 45.528 pessoas (Instituto Nacional de Estatística 1998b: 5).
Mafalala e Polana A ficam relativamente próximos do centro da cidade, mas, a par dessa proximidade e de outros factores, como sejam o carisma histórico do bairro de Mafalala ou a intervenção urbanística e o parcelamento a que a parte mais antiga do Polana Caniço A foi sujeita em 1997, persistem inúmeros problemas. Em Mafalala, o alto nível freático da zona dificulta a drenagem das águas pluviais, que inundam mais de metade do bairro na época das chuvas. A situação agrava-se, ano após ano, pois as valas de drenagem estão obstruídas ou por falta de limpeza ou por nelas se terem construído habitações.
Figura 2.2 — Casa alagada no Bairro de Mafalala
No Polana Caniço A, apesar de ter havido uma urbanização e um parcelamento, o que não aconteceu em Mafalala, a erosão constitui na época das chuvas um dos maiores problemas. Nos últimos anos assistiu-se a enormes desmoronamentos na Avenida Julius Neyere que destruíram várias casas (é o ―buraco‖ de que falaram os entre- vistados) e várias famílias que habitavam na zona foram ―obrigadas‖ pelo Conselho Municipal a sair para um outro bairro muito mais periférico, o de Zimpeto. Porém, alguns não conseguiram ou não quiseram fixar-se aí e por isso regressaram à zona do ―buraco‖. Entretanto, os terrenos deixados vagos foram, na sua maioria, ocupados por novas famílias que os ―compram‖ aos seus supostos donos (sejam esses os particulares que daí saíram, especuladores ou membros das estruturas administrativas do bairro ou da cidade). Estas famílias vivem literalmente à beira de um precipício que em pouco tempo se vai transformando na vala de lixo do bairro e de todas as zonas vizinhas. A erosão da Avenida Julius Neyere rebentou também com uma das condutas de água que abasteciam a cidade, o que significa que os habitantes destas zonas têm de percorrer distâncias cada vez maiores para terem água (cf. Raposo e Quintela 2000: 36).
Figura 2.3 — Bairro de Polana Caniço A - ―buraco‖ na Avenida Julius Neyere
Grande parte da área que corresponde hoje em dia ao bairro de Hulene B foi ocupada por habitações ―espontâneas‖ e apenas foi parcelada, em 1967, uma pequena parte que faz fronteira com o bairro de Hulene A. Mas a ocupação desordenada, a extensão do bairro e a sua má acessibilidade (as estradas, caminhos e ruas são na sua maioria de areia e os poucos asfaltados estão em muito mau estado) são apenas alguns dos pro- blemas. Em Hulene B situa-se igualmente a lixeira municipal da cidade. Nesta é depo- sitado todo o tipo de lixos (tóxicos e não tóxicos) que a cidade produz. À volta da lixeira existem casas onde vivem pessoas que todos os dias convivem com cheiros e produtos que ameaçam a sua saúde. Estes habitantes de Hulene, muitos ex-deslocados de guerra, não só vivem na lixeira, como muitas vezes vivem da mesma. Aí tudo se recupera e tudo é passível de venda e, por isso, é aí que muitos se ―desenrascam‖.
Figura 2.4 — Lixeira no Bairro Hulene B
Terminamos a caracterização do ambiente onde decorre a investigação com alguns excertos de um pequeno texto escrito pouco tempo depois do regresso do trabalho de campo, em Julho de 1999:
Primeiro é o contacto com o bairro e as pessoas. Centenas caminham nas ruelas e nas estradas de areia, que em todas as direcções e dos mais variados tamanhos, percorrem o bairro. E, se em algumas dessas estradas a largura é suficiente para permitir a circulação de automóveis e camiões — e estes, sem prevenir, surgem do nada a velocidades inacreditáveis, obrigando as crianças que brincam no meio da rua a fugir assustadas —, noutras cabe apenas uma pessoa que se desvia quando outra aparece em sentido contrário.
Muitas dessas pessoas com que nos cruzamos são mulheres e crianças e raras são as que não carregam bidões ou baldes de água, bebés, trouxas de roupa, fardos de lenha, cestos misteriosos…
Depois são as ―vendas‖. Em grupo ou sozinhas, as pessoas, mais uma vez na sua maioria mulheres e crianças, vendem uma variedade inacreditável de artigos: laranjas, limões, papaias, roupas das ―calamidades‖,52 pilhas, velas, amendoim,
arroz, sal, açúcar, frituras e bolos, refrigerantes e cervejas, lenha e carvão e montinhos de muitas coisas que não conseguimos identificar. Estes vendedores estão em todo o lado: encostados aos muros, no largo à sombra da árvore, debruçados num balcão improvisado no parapeito da janela de sua casa.
Depois são os estranhos muros (cercas, vedações, sebes…) que rodeiam os quintais e as casas. Nos muros, a variedade de materiais utilizados desafia a imaginação: espinhosa, tijolo, cimento, arame, chapa, restos de automóveis, latas velhas, garrafas vazias de coca-cola… E, então, com um ―dá licença‖ entra-se em casa. E a casa é um espaço múltiplo, ―cá fora‖, no quintal (talhão), cozinha-se, conversa-se, trabalha-se, dorme-se a sesta, cultivam-se pequenas (por vezes microscópicas) hortas. Cá fora, há esteiras na sombra das árvores de fruto ou na sombra das árvores onde repousam espíritos de antepassados. Por vezes, cá fora, ainda há um poço que muito raramente tem água e alguidares ou tanques com roupa muito colorida a lavar, galinhas ou patos, e pode ainda haver algo que faz pensar numa carpintaria ou oficina de automóveis, um carro abandonado, um sofá velho… Neste espaço, o que se nota imediatamente é o chão de terra batida, imaculada- mente limpo e varrido muitas vezes ao dia.
E espalhadas, ou juntas, no espaço do quintal, ―cá fora‖, ficam as ―casas‖ ou a ―casa‖ e aí a variedade é imensa: a ―casa‖ pode ser formada por várias ―casas‖, cada uma com apenas uma divisão — o quarto de dormir (?) —, podem ser duas
ou mais divisões, ou pode apenas haver uma casa com várias divisões; por vezes, há mesmo casas de dois andares (vivendas que ficaram de outros tempos e vivendas que surgem nos novos tempos).
E os materiais: caniço, zinco, ferro, tijolo cru, alvenaria pintada, por pintar ou com restos de tinta muito antiga, cimento por rebocar… Há mesmo casas muito antigas, onde parte do espaço exterior já foi interior, onde no chão do actual quintal se notam os restos das paredes de antigas divisões que foram sendo ―comidas‖ para, com esses materiais, se recuperarem as paredes e os telhados das divisões que ainda sobrevivem. Mas muitas das casas são de construção relativamente recente, surgiram como ―cogumelos‖ nas últimas duas décadas em qualquer pedaço de chão que estivesse ―livre‖. Nestas construções, os materiais utilizados são, sempre que possível — sempre que haja dinheiro para isso —, o cimento (os blocos de cimento nas paredes) e o zinco (nos telhados, por vezes nas portas). Esses mesmos materiais são utilizados na reformulação das antigas ―palhotas‖ e o emblemático ―caniço‖ que dantes era a regra vai aos poucos desaparecendo.
É ―cá fora‖ que normalmente somos recebidos, primeiro. Depois do tal ―dá licença‖ há um silêncio durante o qual, normalmente crianças, trazem bancos, cadeiras ou esteiras e aí nos sentamos. Então, começam os cumprimentos, demoram algum tempo, o visitante (por vezes o tradutor ou o guia) pergunta pela saúde do dono da casa, e este responde com um ―hummm‖, pergunta pela saúde dos seus pais, dos seus avós, dos seus filhos, dos seus netos, e a todas essas perguntas a resposta é esse ―hummm‖. Quando acaba, é a vez de quem recebe fazer as mesmas perguntas ao visitante e este responde da mesma forma. Só depois desta cerimónia é que somos apresentados, explicamos o que viemos fazer e pedimos autorização para conversar e a entrevista começa.