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Intern analyse

3. Strategisk analyse

3.3 Intern analyse

Todo enunciado é um elo na cadeia da comunicação discursiva. É a posição ativa do falante nesse ou naquele campo do objeto e do sentido (BAKHTIN, 2003, p.289).

Para alguns lingüistas, determinadas "funções" relativas ao falante e ao ouvinte ainda persistem, no sentido de atribuírem apenas ao falante uma atitude ativa no processo de comunicação verbal, "restando" ao ouvinte uma atitude passiva, ou seja, a de quem apenas "recebe" a mensagem. Assim como Bakhtin (2003), acreditamos que esse tipo de postura, quando pretende representar o todo real da comunicação verbal, acaba se transformando em “ficção científica”. Afinal, é evidente que uma compreensão passiva é apenas um elemento abstrato de um fato real que é constituído pela “compreensão responsiva ativa”.

A esse respeito, Bakhtin (2003, p.271, grifo do autor) afirma que

[...] o ouvinte, ao perceber e compreender o significado lingüístico do discurso, ocupa simultaneamente em relação a ele uma ativa posição

responsiva: concorda ou discorda dele (total ou parcialmente),

completa-o, aplica-o, prepara-se para usá-lo, etc.; essa posição responsiva do ouvinte se forma ao longo de todo o processo de audição e de compreensão desde o seu início, às vezes, literalmente a partir da primeira palavra do falante.

Tal como o estudioso russo, acreditamos que toda compreensão é prenhe de resposta e, de uma forma ou de outra, forçosamente a produz; assim, o ouvinte torna- se o locutor. Todo enunciado, dialógico por natureza, constrói-se, portanto, levando em conta as atitudes responsivas do outro (ou dos outros). Para Bakhtin (2003, p.301, grifo do autor),

o papel dos outros, para quem constrói o enunciado, é excepcionalmente grande (...). Esses outros, para os quais meu pensamento pela primeira vez se torna um pensamento real (e deste modo também para mim mesmo), não são ouvintes passivos, mas participantes ativos da comunicação discursiva. Desde o início o falante aguarda a resposta deles, espera uma ativa compreensão responsiva. É como se todo enunciado se construísse ao encontro dessa resposta.

O locutor é, em certo grau, um “respondente”, pois não é o primeiro locutor; ele sempre se utiliza de enunciados anteriores - dele próprio ou do "outro" - aos quais o

seu enunciado está vinculado por algum tipo de relação. De acordo ainda com Bakhtin (2003), nossas manifestações verbais, ou seja, nossos enunciados estão repletos de palavras dos "outros"; as palavras dos "outros", embora tenham sua própria expressividade e o seu tom valorativo, ao serem "tomadas" em nossos enunciados, são reestruturadas, modificadas.

A visão de mundo, a tendência, o ponto de vista, a opinião têm sempre sua expressão verbal e isso constitui o discurso do "outro" que, por sua vez, não pode deixar de repercutir no enunciado. Daí, o caráter dialógico da linguagem. Como dizia Bakhtin (2003, p.299), "cada enunciado é um elo da cadeia muito complexa de outros enunciados”. É interessante destacar o que Marchezan (2006, p.118) afirma a esse respeito: “os diálogos não se repetem de maneira absoluta, mas não são completamente novos, reiteram marcas históricas e sociais que caracterizam uma dada cultura, uma dada sociedade”.

De acordo com Pontes (1988), no plano da interação verbal há de se considerar, também, a relação social em dois níveis: o macro-social (em que os interlocutores são classificados de acordo com a sua posição social na hierarquia sociocultural e profissional de uma dada comunidade) e o micro-social (onde são caracterizados os papéis sociais distribuídos nas situações concretas de interação).

Segundo Bakhtin (2003), o discurso se molda sempre à forma do enunciado que pertence a um sujeito do discurso e não pode existir fora dessa forma. Koch e Travaglia (1989) afirmam que é preciso verificar o que é adequado à determinada situação enunciativa, como o grau de formalidade, a variedade dialetal e o tratamento a ser dado ao tema, por exemplo. O lugar e o momento da comunicação, as imagens recíprocas que os interlocutores fazem uns dos outros, bem como os papéis que desempenham, os pontos de vista que assumem, o objetivo da comunicação, enfim, todos os dados situacionais influenciam tanto na produção do texto como na sua compreensão.

Para Bakhtin (2003), enquanto o locutor fala, ele leva em conta o fundo aperceptivo sobre o qual a sua fala será recebida pelo destinatário, visto que o grau de informação que esse destinatário tem da situação, seus conhecimentos especializados na área de determinada comunicação cultural, suas opiniões e suas convicções, seus preconceitos - segundo a visão do locutor -, suas simpatias e antipatias, por exemplo, são aspectos que condicionarão sua compreensão responsiva do enunciado.

Os fatores que determinam a produção de dados enunciados ou de determinadas trocas verbais estão relacionados ao que se diz e à forma como se

diz. Por isso, de acordo com Faria (2003), cada enunciado é regulado pelo “discurso

anterior”, num processo de “tomada de palavras” (ou “tomada de vez”) entre os interlocutores, que pode ocorrer:

a) de forma automática, como na saudação;

A – Tudo bem? B – Tudo.

b) pela repetição do verbo;

A – Você gosta de pizza? B – Gosto.

c) pela utilização de um hiperônimo;

A – Por que você não compra um passarinho? B – Não gosto de animais.

d) pela ordem de apresentação da informação nova no enunciado;

A – Qual é o seu nome e quantos anos tem? B – Ana e tenho 15 anos.

Porém, nem todas as “tomadas de palavras” ocorrem de maneira tão explícita, pois o falante A, por exemplo, pode, a partir do conhecimento adquirido e/ou compartilhado com B, resgatar um enunciado de B, exposto há algum tempo no processo interacional, para a partir disso, criar um novo enunciado:

A – Você malha bastante?

B – Sinceramente não gosto de esportes.

A- Então você deve fazer regime...

B – Na verdade, eu controlo pouco minha alimentação. A – E como faz para manter esse “corpinho”?

B- Eu costumo andar bastante a pé e de bicicleta. Evito usar o carro.

Como podemos observar, ao analisarmos um processo de interação verbal, não podemos julgá-lo apenas pelo que é comunicado, mas também pelas formas em que e como a comunicação se estabelece. Como destaca Marcuschi (2007b, p.14), “a coerência não é um requisito a ser preenchido pelo texto e sim uma atividade desenvolvida num momento de colaboração”.

Para Koch e Travaglia (1989), o processo de compreensão do texto obedece a regras de interpretação pragmática; daí o fato da coerência textual não se estabelecer sem que se leve em conta a interação e as crenças, os desejos, as preferências, as normas e os valores dos interlocutores. Textos aparentemente incoerentes, por exemplo, tornam-se compreensíveis quando inseridos em um contexto que os legitime. Portanto, a coerência se mostra como algo dinâmico, que “estaria mais na mente do que no texto” (MARCUSCHI, 2007b, p.13).

Ainda segundo Marcuschi (2007b), existem pelo menos três tipos de noções de coerência: a estrutural, a inferencial e a interacional (cf. Marcuschi, 2007b, p.14-15), sendo esta com a qual compartilhamos, tal como Marcuschi (2007b). Assim, cabe destacar que a noção interacional assume uma

[...] perspectiva que não concebe a coerência como uma propriedade do texto nem como um processo inferencial apenas, mas como uma construção resultante do trabalho colaborativo do ouvinte/leitor no ato de co-produção do texto oral interativamente21. A operação de

produção de coerência não é um ato puramente individual, mas coletivo. Neste caso, a coerência não tem uma evidência empírica instalada no texto, [tal como prevê a “noção estrutural”], nem é uma atividade em que se dá primazia aos processos inferenciais [como na “noção inferencial”]. Rigorosamente, a noção interacional de coerência toma como base para a produção de sentidos, os processos colaborativos no uso efetivo da língua. O sentido passa a ser uma construção social realizada na comunicação (MARCUSCHI, 2007b, p.15 [interpolação e nota nossas]).

Para Bourdieu (1997), o discurso revela condições emocionais, sistemas de valores e pode veicular as representações de um grupo, em condições sócio- econômicas e culturais específicas. Nesse sentido, podemos concluir que diferentes grupos, vivendo em diferentes condições de ordem pessoal, social e econômica,

21 Embora o autor se refira à fala, ele mesmo ressalta que não exclui a escrita da noção interacional de

coerência, pois, segundo o autor, no processo da escrita, o autor simula uma série de movimentos interativos com seu interlocutor. O autor avança um conjunto muito grande de elementos que visam ao diálogo com seu possível leitor, oferecendo-lhe pistas para processamento.

produzem diferentes representações sociais, expressas em diferentes discursos. Os discursos do indivíduo são, portanto, “discursos de representação” do que ele é, enquanto indivíduo socialmente construído; como sabemos, a linguagem não é neutra e assim, todo discurso tende a refletir e, ao mesmo tempo, difundir valores culturais. A escolha das

[...] formas de tratamento entre locutores, os tipos de saudação, a expressão das emoções, os graus de maior ou menor formalidade na seleção do léxico a utilizar e, nomeadamente, das expressões idiomáticas, a expressão verbal da maior ou menor distância e solidariedade entre os falantes, são aspectos que reflectem a existência de normas de natureza sociocultural a preservar na interação verbal, a par dos graus de adequação que a freqüência de uso pelas diferentes gerações e entre gerações diferentes lhes reconhece (FARIA, 2003, p.677, grifo da autora).

Em relação às formas de “tratamento” entre os interlocutores, no Português existem duas formas básicas: no PP, o “tu” e o “senhor” e, no PB, o “tu/você” – na maior parte do país, usa-se o “você” – e o “senhor”. Essas formas, geralmente, costumam ser distinguidas, respectivamente, como “informais” e “formais”. Entretanto, acreditamos que a questão é mais complexa do que parece.

É comum atribuirmos valores às formas de tratamento que nem sempre estão vinculados à questão da formalidade – ou apenas a ela - mas sim, a padrões hierárquicos ou costumes culturais ou regionais, por exemplo. Por isso, um rapaz, mesmo em um ambiente dito “informal”, como em um evento de confraternização na empresa em que trabalha, pode continuar se dirigindo ao seu chefe como “senhor”, mesmo que neste ambiente, ambos dispensem a relação “chefe-funcionário” e estabeleçam uma relação de “pares”.

Um outro exemplo: pensemos numa situação envolvendo familiares, já que a literatura, de um modo geral, costuma tratar esse “espaço” como protótipo da informalidade; um filho, por maior “liberdade” e intimidade que tenha com seus pais, pode chamá-los de “senhor” e “senhora” e, isso, nada ter a ver com formalidade, mas, provavelmente, com um costume de uma determinada família, de uma dada região ou até mesmo de uma geração. Por outro lado, numa situação que costumamos classificar como “formal”, como uma conferência acadêmica, por exemplo, um ouvinte pode se dirigir ao conferencista por “você” ou “tu”, caso o identifique como um “par”.

E, mais uma vez, podemos observar que a forma de tratamento não está ligada à questão da formalidade.

Por isso, concordamos com Faria (2003, p.59), ao afirmar que “o tipo de relação social, estabelecido a partir de relações de semelhança ou dissemelhança entre locutores, regula, à partida, o processo interacional”. Afinal, muitas estratégias discursivas são criadas numa situação de interlocução a partir não apenas da intenção que o locutor tem ao fazer uso da linguagem, mas também do tipo de relação que estabelece com o seu(s) interlocutor (es), a qual pode ser de proximidade ou distância (pessoal, social e espacial).

O sujeito, assim, sempre procurará reconhecer sua posição social dentro de um ato ilocutório e, feito isso, tentará utilizar uma linguagem adequada a tal situação, a partir do que Faria (2003) chama de “formas de auto-referência” que, segundo a autora, permitem-lhe se apresentar como um indivíduo específico (“eu”) ou como uma categoria mais geral (doente/ médico; mulher/homem; jovem/idoso etc). A escolha dessas “formas de auto-referência” está condicionada a diversos fatores, dos quais a autora destaca o assunto tratado pelos interlocutores, a intenção que lhes motiva a atividade verbal e, sobretudo, o reconhecimento da posição social que ocupam dentro do ato ilocutório.

Ainda em relação às formas de tratamento, Faria (2003) ressalta que, embora reconheça que a relação social tenha, muitas vezes, tradução nas formas de tratamento utilizadas pelos interlocutores, nem sempre a relação social se rege pelo mesmo conjunto de princípios. A esse respeito, a autora afirma que,

[...] se, por exemplo, doente e médico partilharem valores materiais e simbólicos que lhes permitam reconhecer-se reciprocamente como semelhantes, as formas seleccionáveis para se dirigirem um ao outro, mesmo dentro da situação de entrevista médica, são as disponíveis no sistema de tratamento entre semelhantes (FARIA, 2003, p.60).

Segundo Gumperz (1992), existem “pistas de contextualização”, sinais verbais ou não verbais que os interlocutores utilizam para relacionar o que está sendo dito num dado momento e num dado lugar com o conhecimento adquirido por experiências anteriores. Essas “pistas” orientam os interlocutores a um procedimento de facilitação da interpretação, o qual é essencial para que o sentido se faça.

Afinal, como nos lembra Faria (2003, p.71, grifo da autora),

[...] a interpretação de um dado enunciado não depende exclusivamente do conteúdo proposicional das frases que o constituem, mas do significado que resulta da utilização de mecanismos, nomeadamente inferenciais, que atribuem à frase, ou ao mesmo conjunto de frases que constituem o enunciado, um

significado pragmático ou comunicativo para a situação específica

de interacção.

Numa situação de interação verbal é fundamental considerarmos também o nível de conhecimento que é (com) partilhado entre os interlocutores, pois isso resultará, inclusive, no uso de estratégias de referenciação diferenciadas; quanto

mais conhecimento mútuo existir entre os interlocutores, maior será o universo de referência.

Cabe ressaltar que este “conhecimento compartilhado” é fruto não apenas do conhecimento de mundo do falante/ouvinte, mas também das inferências que podem ser construídas no momento da interlocução, a partir da retomada analítica de algo que já foi dito pelo interlocutor. Informações extralingüísticas, de natureza social, como por exemplo, o conhecimento da idade, da profissão e das crenças políticas do “outro” podem servir, também, para a elaboração de pressupostos verbalmente exteriorizados no ato de fala.

Faria (2003) ressalta que não podemos falar em interação verbal se a “informação não passar”. Isso porque a informação,

[...] assenta sobre o pressuposto de que os interlocutores, numa dada situação ou cenário, partilham ou podem vir a partilhar conhecimentos, convicções, gostos, planos, interesses, etc., isto é, que existe uma

base comum de que partem para, em conjunto, produzirem e

compreenderem o sentido da interação. Tal base pode ser definida enquanto um conjunto partilhado de representações que recrutam, em cada locutor, uma certa analogia de percepções, conhecimentos, crenças, pressupostos (FARIA, 2003, p.69-70, grifo da autora).

Por fim, não poderíamos deixar de dedicar nesta seção, mesmo que de maneira breve, uma referência ao filósofo da linguagem Paul Grice (cf. Grice, 1975), que propôs o “Princípio da Cooperação” para as situações de interação verbal. Tal princípio diz respeito à contribuição que cada um dos sujeitos do discurso dá ao processo interativo do qual participam e que, segundo ele, é o princípio básico que

rege a comunicação humana. Ao se referir a este princípio, Koch (2007, p.27), afirma que “quando duas ou mais pessoas se propõem interagir verbalmente, elas normalmente irão cooperar para que a interlocução transcorra de maneira adequada”.

Grice (1975) apresenta quatro máximas que compõem o “Princípio da Cooperação”:

a) máxima da quantidade, segundo a qual não se deve dizer nem mais e nem menos que o necessário;

b) máxima da qualidade, segundo a qual só se deve dizer o que se reconhece como, de fato, verdadeiro;

c) máxima da relevância - muito próxima do que se propõe na “máxima da quantidade” -, segundo a qual só se deve dizer o que for relevante;

d) máxima do modo, segundo a qual o sujeito deve ser claro e conciso, evitando, portanto, a obscuridade, a ambigüidade e a prolixidade, por exemplo.

Ao refletirmos acerca dessas máximas, fica-nos claro que tal teoria nem sempre está evidenciada nas situações enunciativas e, assim como Koch (2007, p.28), acreditamos que

[...] essa teoria não dá conta de toda a ‘malícia’ e manipulação tão presentes na interação verbal humana: estamos constantemente ‘jogando’, ‘blefando’, simulando, ironizando, fazendo alusões e criando subentendidos, fenômenos nem sempre explicáveis apenas com base nas ‘máximas’ griceanas.

Portanto, levando em consideração todos os aspectos da interação verbal ora apresentados, podemos defini-la como um comportamento verbal governado por regras que têm a finalidade de assegurar que as intenções comunicativas sejam adequadamente interpretadas. Tal como afirma Faria (2003, p.73, grifo da autora), “faz parte da competência comunicativa de qualquer falante distinguir uma ordem de um pedido, uma intenção de um compromisso, uma asserção de uma representação de um estado emocional”.

Assim, coadunando-nos com a autora, podemos afirmar que existe um significado pragmático subjacente a cada ato de fala. O lugar e o momento da comunicação, as imagens recíprocas que os interlocutores fazem uns dos outros, bem como os papéis que desempenham, os pontos de vista que assumem, o objetivo da comunicação, enfim, todos os dados situacionais influenciam tanto na produção do texto, como na sua compreensão.