A coleta de dados para este estudo necessitava da fala de pessoas com e sem gagueira na expressão das atitudes certeza e dúvida. Para tanto, era preciso que os participantes da pesquisa fossem gravados numa tarefa diretiva de produção de fala. Por mais fáceis que possam parecer as tarefas anteriormente descritas, elas foram um ponto de grande dificuldade no desenvolvimento da pesquisa.
A maior dificuldade para coletar os dados foi o estado de estresse dos participantes com gagueira durante a gravação da fala. O estresse foi observado devido a alguns fatores, como suderese, tremor de mãos e inquitação. Como consequência, não sabíamos se os resultados encontrados representavam a fala desses indivíduos ou se foram artefatos causados pela situação de gravação.
Jäncke (1994) também se questionou em seu estudo com pessoas que apresentam gagueira sobre o estresse que tarefas de produção e gravação de fala produzem nesses
indivíduos, visto que os mesmos sabem de sua dificuldade na fala.
Conscientes de que esse é um limite importante na pesquisa com pessoas que tem
distúrbios na comunicação, fizemos algumas tentativas a fim de diminuir o desconforto com a
gravação. Todas as tentativas deveriam incluir, como corpus final, enunciados neutros e enunciados com expressão das atitudes de certeza e dúvida. Cada tentativa foi realizada com participantes diferentes, ou seja, como foram cinco tentativas com métodos de coleta diferentes, participaram 11 pessoas com gagueira no total. Ao contrário dos dados finais desta pesquisa, essas tentativas iniciais foram realizadas com indivíduos com gagueira de ambos os sexos.
Primeira tentativa:
A primeira tentativa foi realizada com três indivíduos com gagueira e três indivíduos sem gagueira. Foi apresentado o termo de consentimento livre e esclarecido com explicação da pesquisa. Em seguida, um microfone de cabeça foi posicionado pela pesquisadora nos participantes. Uma conversa informal foi introduzida para que o participante pudesse se acostumar com a situação. Após um tempo de conversa que variou entre os participantes, os mesmos leram frases fornecidas em papéis (cada frase em um papel para evitar o fenômeno de enumeração), sendo que todos leram todas as frases silenciosamente antes do início das gravações. Inicialmente, os participantes deveriam ler de forma neutra, a partir da instrução: leia a frase em voz alta. Em seguida, foi explicado a diferença entre certeza e dúvida. No momento seguinte, foram expostas situações com uma breve introdução seguida de um
diálogo com apenas duas frases: A primeira, uma pergunta feita pela pesquisadora, e a
segunda, a resposta do participante. A resposta deveria ser lida, mas de forma que fosse expressa certeza ou dúvida.
O resultado foi uma leitura neutra em todos os momentos: leitura neutra, leitura com expressão de certeza e leitura com expressão de dúvida. E, ainda, foram observados sinais de estresse durante as gravações, como sudorese, tremor de mãos e inquietação.
Levantamos a hipótese de que os resultados encontrados eram devidos a algum problema metodológico. Ler e expressar uma determinada atitude poderia ser uma tarefa que tirasse a naturalidade do discurso das pessoas com gagueira que fizeram parte do primeiro teste. A partir dessa hipótese, fizemos uma segunda tentativa.
Segunda tentativa:
Participaram da segunda tentativa dois indivíduos com gagueira e dois sem. Todos os passos da primeira tentativa foram seguidos, com uma diferença: o participante não lia a frase
enquanto expressava a atitude (o participante só tinha acesso à frase escrita antes do procedimento de gravação em si). Dessa forma, o participante lia a frase apresentada e a mesma era retirada. Em seguida foi simulada a situação e o participante deveria expressar a atitude com base na frase lida. No entanto, o resultado não foi o esperado, uma vez que os participantes introduziram expressões como “eu acho”, “não tenho certeza” ou “tenho certeza”, mesmo sendo instruídos para não utilizarem esse tipo de apoio. Além disso, os sinais de estresse observados na primeira tentativa se mantiveram nesta.
Levantamos, então, outra hipótese: a coleta de dados deverá ser realizada em três momentos diferentes, um para leitura neutra, outra para expressão de certeza e outro para expressão de dúvida. Acreditávamos que a separação dos dias, numa terceira tentativa, poderia, além de ajudar na expressão das atitudes, diminuir o nervosismo dos participantes.
Terceira tentativa:
Participaram da terceira tentativa dois indivíduos com gagueira e dois sem. Optou-se também por entregar o termo de consentimento livre e esclarecido após as gravações. Foram, então, seguidos os passos da segunda tentativa, mas em três dias diferentes de gravação. No entanto, o nervosismo dos participantes ao colocar o microfone era claro. Dessa forma, retiramos o microfone de cabeça e colocamos o microfone de pedestal, o que não melhorou em nada o estado emocional dos participantes. Consequentemente, os resulttados também foram ruins, com frases neutras em todos os momentos. Optamos por fazer uma quarta tentativa, pensando na questão do microfone.
Quarta tentativa:
Participaram da quarta tentativa dois indivíduos com gagueira e dois sem. Os mesmos passos da terceira tentativa foram seguidos, no entanto escondemos o microfone. Tivemos,
pela primeira vez, resultados com maior expressividade por parte do grupo experimental. Optamos por fazer mais uma gravação para assegurar que, dessa forma, os participantes se sentiriam mais tranquilos durante as gravações.
Quinta tentativa:
Participaram da quinta tentativa dois indivíduos com gagueira e dois sem. Foram seguidos os procedimentos da quarta tentativa. Assim, os participantes deveriam responder a pergunta feita pela pesquisadora com apenas uma frase e sem expressões de apoio. Os participantes pareceram mais tranquilos durante as gravações, apesar de ainda utilizarem muito as frases de apoio. Optamos, então, por manter a coleta da quinta tentativa e, após a coleta de dados, separamos os enunciados que não tinham expressões de apoio para as atitudes de certeza e dúvida.
Após a coleta e edição dos dados, deveríamos repensar quais os parâmetros prosódicos
deveriam ser incluídos no estudo.