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Interests: The financial sector lobby and Basel II

In document Regulating risk (sider 74-78)

Chapter 4 Ideas, interests and institutions in the redefining of risk

4.4 Interests: The financial sector lobby and Basel II

2.1- Geologia e geografia da Faixa Atlântica Peninsular

A compreensão da exploração das matérias-primas num território está, obviamente, directamente relacionada com a compreensão da sua geografia e da estrutura geológica onde esta assenta. A Faixa Atlântica e o Sudoeste Peninsular são compostos por três grandes unidades geológicas: o Maciço Hespérico, as Orlas Mesocenozóica Ocidental (ou Lusitana) e Meridional (ou Algarvia) e a Bacia Cenozóica do Tejo e Sado (Ribeiro et al., 1979).

O Maciço Hespérico corresponde ao maior trecho do Soco Hercínico, cuja orogenia está na origem da emersão destes territórios desde o Paleozóico (anterior a 251Ma), e é constituído por rochas de origem magmática, sedimentar e metamórfica. Esta unidade tem sofrido, desde então, constantes deformações de tipo horst associadas a falhas que estão na origem de relevos como o conjunto Lousã-Estrela (Ribeiro et al., 1979). No seu limite ocidental, esta unidade aflora na Plataforma Continental, sob a forma do arquipélago das Berlengas. No âmbito deste trabalho, o limite geográfico estudado corresponde grosso modo ao Oeste da Zona Centro Ibérica, por representar uma unidade geográfica claramente distinta, essencialmente montanhosa. Pelo contrário, as zonas de Ossa-Morena e Sul Portuguesa foram contempladas visto corresponderem a um contínuo paisagístico com a Estremadura, o Ribatejo e o Algarve.

A zona de Ossa-Morena é composta por rochas eruptivas e metamórficas, de onde se destaca uma espessa sequência pelito-quartzítica (Ferreira, 2000, p.52). Difere das restantes por apresentar retalhos de maciços carbonatados com alguma dimensão (onde não se conhece sílex), bem como maciços de rochas básicas. Nesta região, afloram xistos e grauvaques, afectados por um baixo grau de metamorfismo, bem como metavulcanitos e depósitos de

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sulfuretos maciços (Almeida, et al., 2000). A Zona Sul-Portuguesa é composta por xistos, grauvaques, quartzitos, alguns calcários dolomíticos e por rochas de origem ígnea datadas do Devónico médio, o que permitem especular a existência de um limite continental activo nesta altura. Na Zona Centro Ibérica são comuns os afloramentos de quartzitos, de onde se destacam a Formação dos Quartzitos Armoricanos (datados do Ordovícico inferior), bem como os de Valongo, Marão, Moncorvo, Marofa, Buçaco, Espinhal-Envendos, Ródão, Fajão e Penha Garcia. Estes afloramentos exibem fracturas e planos de estratificação até grandes profundidades, pelo que é muito comum oferecerem nascentes que podem ter caudais razoáveis (Almeida, et al. 2000).

As orlas Ocidental e Meridional correspondem a depósitos carbonatados de idade mesozóica e cenozóica. A Ocidental (ou Lusitana) corresponde a um fosso orientado NNE- SSW preenchido durante o Mesozóico por sedimentos provenientes de depósitos situados a Este e Oeste e onde se registam maciços anulares subvulcânicos. Para Sul, a paleogeografia da Orla Meridional (ou Algarvia) é dominada por um talude orientado ENE-WSW que leva a que as séries sejam mais espessas e de fácies mais profundas a Sul (Ferreira, 2000, p.46-47). Em ambos os casos os níveis Turonianos, Bajocianos e Cenomanianos apresentam amiúde nódulos de sílex.

As bacias Cenozóicas do Tejo e do Sado correspondem a potentes depósitos detríticos, eminentemente continentais, de idade neocénica, organizados em terraços, cobertos por coluviões resultantes do desmantelamento dos terraços elevados, compostos essencialmente por argilas ferruginosas e clastos rolados de quartzito e quartzo, e onde se verificam intercalações marinhas de idade miocénica. Tratam-se de fossos alongados, sendo que no primeiro caso, se encontra orientado a ENE-WSW até ao final do Médio Tejo, altura em que, no Baixo Tejo e foz, passa a orientar-se a NE-SW. No segundo caso, encontra-se orientado

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NW-SE. Os clastos de quartzito e quartzo presentes nestas bacias são carreados desde os afloramentos no interior.

O quadro geológico global apresentado é, finalmente, cortado por uma riquíssima rede hidrográfica, composta por diversas bacias de drenagem autónomas, bem como por afluentes principais e secundários que, no seu conjunto, permitem uma intensa erosão e uma consequente distribuição dos clastos pelos depósitos fluviais. Esta dinâmica torna-se especialmente importante no estudo da exploração do quartzito uma vez que esta matéria- prima era maioritariamente obtida não directamente das suas fontes primárias – os afloramentos localizados essencialmente no interior – mas antes nas cascalheiras dos terraços fluviais, sob a forma de seixos rolados. De acordo com a Tipologia de Rios em Portugal Continental, os contextos estudados enquadram-se nos Rios de Transição Norte-Sul, Rios do Litoral Centro, Rios do Sul de Pequena Dimensão, Rios do Sul de Média-Grande Dimensão, Rios dos Calcários do Algarve e aos Grandes Rios (Alves et al., 2008).

No caso do Tejo, do Guadiana e do Mondego, as respectivas bacias cortam directamente as cristas quartzíticas. Noutros casos, como os do Lis e Lena, as respectivas bacias de drenagem apenas reorganizam os materiais previamente depositados pelo mar ou por antigas bacias sedimentares. O mesmo padrão de localização primária, erosão, distribuição e obtenção é aplicado ao quartzo, pelo que ambas, são presenças ubíquas e coexistentes na paisagem. No caso do sílex, a sua distribuição poderá também ela ser considerada ubíqua, porém apenas no que diz respeito ao território ocupado pelas Orlas Sedimentares, uma vez que não existem forças naturais que o carreiem para montante, isto é, para o interior. Relativamente ao afluxo de matérias-primas às áreas estudadas, de salientar ainda uma importante distribuição de grauvaque no litoral do Alentejo e Algarve, sob a forma de blocos angulosos com frequentes linhas de quartzo que seriamente o fragilizam. Esta matéria-prima foi amplamente utilizada pelas populações paleolíticas do Sul tendo em vista

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não só a produção de lascas mas também de utensílios como bigornas, percutores, suportes para arte móvel, cadinhos e utensílios configurados, de onde se destacam os machados mirenses (Pereira & Bicho, 1994; Raposo, 1994).

De um ponto de vista geográfico, as regiões em análise enquadram-se no Maciço Calcário Estremenho, na Bacia do Médio Tejo, Bacia do Médio Guadiana e o Barlavento Algarvio, sendo que todas elas fazem parte do Sul de Portugal (Ribeiro, 1945), caracterizado por uma homogeneidade paisagística (com cotas que raramente ultrapassam os 400m) e climática (mediterrânica). Esta região opõe-se, por contraste, claramente ao Norte de clima atlântico e também continental, montanhoso, de cotas elevadas, vales encaixados e precipitação elevada, cuja faixa litoral representa muito mais um prolongamento para Oeste da Meseta Ibérica do que propriamente um prolongamento para Norte da fisiografia da Orla Lusitana.

A matéria-prima analisada, o quartzito, caracteriza-se por ser uma rocha extremamente dura, granulosa e que, quando quebrada, parte de forma concoidal, sendo que a fractura corta tanto os grãos como o cimento que os une. De forma mais detalhada, divide-se em dois grupos: os ortoquartzitos e os metaquartzitos. Os primeiros são arenitos formados em ambientes de alta energia e compostos em mais de 95% por areia de quartzo bem triada e bem rolada, quase sem cimento a uni-la. Os segundos são arenitos compostos em mais de 90% por areias de quartzo mas metamorfizados, ou seja, devido a fenómenos de pressão os grãos foram recristalizados, criando grãos de maiores dimensões. A sua textura pode ser argamassada, espumosa ou porfiroblástica (Costa, 1998; Farndon, 2006).

No território em análise, esta rocha encontra-se, como vimos, em posição primária e secundária. Quando em posição primária, trata-se normalmente de potentes cristas destacadas na paisagem que resultam essencialmente da diferença de resistência entre esta rocha e a as rochas existentes na paisagem imediatamente envolvente, normalmente xistos. Quando em

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posição secundária, trata-se de clastos rolados com calibres que variam entre cascalho e blocos mas que tendem a enquadra-se nas pedras e calhaus. Surgem normalmente nos depósitos correspondentes a terraços fluviais e praias elevadas, em camadas que tendem a ultrapassar um metro de potência e milhares de metros quadrados.

Durante este estudo surgiram, por vezes, artefactos produzidos segundo os mesmos padrões tecnológicos mas noutras rochas, designadamente, grauvaque, riolito, arenito e pórfiro. Essencialmente, trata-se de rochas com géneses completamente distintas mas que apresentam em comum uma textura granulosa e áspera, associada a uma dureza muito considerável e que são possíveis de se identificar, pontualmente, dentro das cascalheiras fluviais ou de praias elevadas. No caso do grauvaque, a sua presença é significativa nas jazidas do Algarve, dada a sua utilização como substituto do quartzito, o qual escasseia tanto do ponto de vista da quantidade como da qualidade nos depósitos detríticos da região (Cascalheira, 2009; Marreiros, 2009; Mendonça, 2009).

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Ilustração 1: Localização das jazidas analizadas e enquadramento geológico simplificado do Sudoeste peninsular (desenho do autor sobre a Carta Geológica de Portugal 1:500 000 (SGP, 1992)).

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Ilustração 2: Principais concentrações de quartzito (a cinzento terraços, a preto as cristas) (desenho do autor sobre a Carta Geológica de Portugal 1:500 000 (SGP, 1992)).

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Ilustração 3:Cristas de quartzito em Vila Velha do Ródão (Portas do Ródão) (Foto: Telmo Pereira).

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Ilustração 4: Pormenor de depósitos detríticos continentais. a) Médio Tejo: Terraço Q3 junto à povoação do Granho (Salvaterra de Magos). b) Terraço Q2, formação F1 do Lis, a Nordeste de Leiria (Fotos: Telmo Pereira).

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Ilustração 5: Exploração do Areeiro do Aeródromo Este, na bacia do Rio Lis (Foto: Telmo Pereira).

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Ilustração 7: Leito de cheia da Ribeira da Caranguejeira, Vale do Lapedo - Leiria (Foto: Telmo Pereira).

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Ilustração 9: Aspecto de amostragem efectuada numa cascalheira junto à jazida de Vinhas, Alqueva (Foto: Paul Tacker).

61 2.2- Maciço Calcário Estremenho e de Sicó

O Maciço Calcário Estremenho (MCE) é um complexo carbonatado de idade jurássica e que se apresenta “grosso modo” sob a forma de um trapézio orientado NE-SW. São cinco os sítios que se enquadram neste Maciço. O Abrigo do Alecrim, encontra-se no sector NW, estando implantado na margem direita do Vale do Lapedo, tributário do Rio Lis, no limite da transição entre a frente Oeste do MCE com a bacia hidrográfica deste Rio e com a frente costeira continental; a Terra do Manuel e o Abrigo Grande das Bocas, ambos no sector SW, implantados na margem direita, no limite Este do MCE com a Bacia do Tejo na zona rica em sílex de Rio Maior; o Abrigo da Pena d’Água, no limite exterior Sudeste do MCE com a Bacia Terciária do Tejo no sopé da parede do Arrife; a Lapa do Picareiro, num ponto alto, bem destacado na paisagem, também num limite interior Sudeste do MCE com a Bacia Terciária do Tejo; e, finalmente, a Gruta do Caldeirão, na face voltada a Sul de um vale encaixado de um tributário direito do Rio Nabão, num limite interior da transição entre o Sudeste do MCE com a Bacia do Tejo, mas também num limite interior Este do MCE com a Zona Centro-Ibérica.

A bacia do Rio Lis, com cerca de 945.5km2, estende-se por cerca de 39.5km, nascendo a 430m de altitude. O seu curso alto está entalhado em calcários jurássicos e apresenta um acentuado declive, perdendo cerca de 100 metros de altitude nos primeiros 4kms. De seguida, na zona de calcários detríticos de idade jurássica e cretácica, desenvolve o seu curso médio e recebe as águas de diversos afluentes, com destaque para o Rio Lena. Nesta fase, alarga-se e forma meandros. Por fim, no curso baixo, encaixa em depósitos neocénicos e recebe as águas de afluentes com origem na vertente SW da Serra de Sicó e na vertente NW da Serra dos Candeeiros, atravessa o cordão dunar e desagua no mar (Cunha-Ribeiro, 1999).

Geologicamente, a zona onde o Abrigo do Alecrim se encontra implantado, o Vale do Lapedo, situa-se na Orla Meso-Cenozóica ocidental, cujas rochas – sedimentares de origem

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marinha ou litoral, frequentemente com composição carbonatada – afloram ao longo de um eixo orientado NNE-SSW e formam o esqueleto da faixa litoral e perilitoral de Portugal central (Angelucci, 2004). Estes materiais foram sucessivamente deformados pelas fases orogénicas do ciclo Alpino (Manuppella, et al., 1985; Ribeiro et al., 1979).

O aspecto da região resulta da deformação ocorrida durante o Cenozóico e o Quaternário. A orogénese Alpina activou famílias de diáclases com diferentes orientações, deformações frágeis e dúcteis, fenómenos de diapirismo e actividade vulcânica que deram origem a serras moderadamente deformadas ou tabulares (Angelucci, 2003). A partir do Cenozóico, grande parte da região está já em condições continentais (Ribeiro et al., 1979) e ainda hoje sujeita a um levantamento tectónico regional, a fenómenos neotectónicos e a actividade sísmica (Cabral, 1995). Neste contexto, o Vale localiza-se entre o Maciço Calcário Estremenho (Martins, 1949) e o Sistema Condeixa-Sicó-Alvaiázere (SCSA) (Cunha, 1990), no limite setentrional do MCE. A composição carbonatada destes maciços, e a sua situação geológico-estrutural, levou à sua dissolução e ao desenvolvimento de cavidades e morfologias cársicas, como o Vale do Lapedo (Teles, 1992).

Litologicamente, a bacia hidrográfica a montante do Lapedo está afeiçoada em rochas detríticas do Cretácico Inferior (areia, grés, conglomerado e marga), do Cenomaniano ao Neocomiano e em unidades Jurássicas (rochas carbonatadas e detríticas, do Oxfordiano ao Kimmeridgiano inferior) (Angelucci, 2004). O canyon está entalhado numa unidade carbonatada turoniana ligeiramente inclinada para W (Angelucci, 2004), composta por camadas bem estratificadas de calcário compacto, margoso, pinholado e margas, muitas vezes fossilíferos, de espessuras variáveis (Teixeira & Zbyszewski, 1968). Estratigraficamente acima, e em desconformidade estratigráfica com os depósitos mesozóicos, existem nas imediações do vale formações terciárias, sobretudo clásticas (areias, grés, argilas,

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conglomerados, subordinadamente margas e calcários) de épocas Eocénica, Oligocénica, Miocénica e Pliocénica (Serviços Geológicos De Portugal, 1966).

O vale do Lapedo forma uma ampla curva, orientado a montante SSE-NNW – onde é assimétrico, com a vertente esquerda curta e íngreme e a direita comprida e suave – mudando de direcção para WSW ao entrar no Canyon (Angelucci, 2003).

Segundo Teles (1992), o vale divide-se em três sectores. O superior é largo e orientado ENE-WSW, onde as paredes têm um comando máximo de 75m, a convexidade superior é complexa e pouco desenvolvida, a secção rectilínea longa e de grande declive (70º a 90º) - cuja base se encontra tapada por depósitos de vertente e blocos calcários derivados do recuo da vertente - e a concavidade basal é pequena mas complexa, entalhada em arenitos cretácicos (Teles, 1992). O sector mediano é orientado NNE-SSW. As encostas têm um menor comando e é onde se regista a largura mínima do canhão – cerca de 100m. Aqui afloram apenas calcários margosos. As vertentes têm pouca convexidade e o sector rectilíneo está dividido num subsector com cerca de 20m com 80º e num subsector imediatamente abaixo com 55º regularizado por depósitos de vertente, terminando subitamente no fundo do vale (Teles, 1992). No sector inferior, orientado E-W, o comando das paredes decresce gradualmente até à desembocadura da garganta, a convexidade superior é mais desenvolvida, o sector vertical continua a ser o mais relevante e a vertente termina bruscamente no vale (Teles, 1992).

As ocupações arqueológicas in situ conhecidas situam-se nos abrigos sob rocha, formas pouco profundas e com desenvolvimento horizontal entalhadas nas camadas mais margosas, acompanhando perfeitamente a estrutura. Apesar da maioria das formas serem alongadas e de dimensões reduzidas (1.5m a 2m de altura por 1m a 3m de profundidade verificam-se também formas circulares tipo Buraca muito pequenas e verticais, aproveitando diáclases e zonas de fragilidade (Teles, 1992).

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As formas em viseira (Choppy, 1985) resultam da alternância de calcários, calcários margosos, calcários apinholados, calcários margosos com argilas e o arenito de base, aproveitando as bancadas mais margosas e apresentando um tecto rugoso – a bancada de calcário apinholado, por sua vez encimada por uma bancada de calcário compacto - e uma base talhada nos calcários mais espessos (Teles, 1992).

O Vale é um amplo meandro encaixado - configurado por agentes geológicos e pelo embutimento gradual - cujo encaixe se iniciou numa superfície calabriana (Teles, 1992) ainda hoje preservada acima da cornija em vários pontos fora do vale e posteriormente limitado na sua expansão lateral pelas paredes (Angelucci, 2004).

Segundo Teles (1992), o perfil longitudinal do vale não acusa nem a diferenciação litológica nem o canhão, talvez devido a uma possível posição numa área de fragilidade tectónica onde os calcários diaclasados permitem uma evolução mais rápida do perfil longitudinal. No entanto, este encaixe está patente no vale suspenso Ribeiro do Souto do Meio. O vale apresenta, assim, duas fases de encaixe, uma verificável no desnível 150- 160m/120-130m, com encostas suaves (3% a 8%) e outra a 120-130m/80-90m onde o declive é de 12,5% a 25%.

Ainda segundo Angelucci (Angelucci, 2002) existem morfologias e sedimentações quaternárias, estando a Ribeira embutida num drift aluvial. No fundo do vale foram já estudadas duas sequências - uma no Abrigo do Lagar Velho com 30ka (Angelucci, 2002) e outra no terraço inferior cuja datação é desconhecida (Angelucci, 2004; Pereira & Almeida, 2005). Até agora, não foi possível fazer correspondê-las. Outros terraços foram identificados na entrada do vale, nos arredores de Grinde e da Caranguejeira, preferencialmente conservados na margem direita, e cujos topos se encontram a 25m, 45m e 60m acima do nível actual da ribeira (Angelucci, 2004).

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Segundo a Carta Geológica 26D (Caldas da Rainha) à escala 1:50000, o sector Sudoeste do Maciço Calcário Estremenho representa um esporão carsificado desenvolvido sobre calcários do Jurássico Médio e Superior, delimitado a Oeste por formações de grés, não cársicas, do Jurássico Superior indiferenciado: “Grés superiores com vegetais e dinossáurios”, e a Sul e a Este por formações também gresosas de idade cretácica do Albiano, Aptiano e possível Neocomiano; do Cenomaniano e Turoniano; paleogénicas do Eocénico e Oligocénico; miocénicas do Sarmato-Pontiano por vezes carbonatadas; do Plio-plistocénico pertencentes ao “complexo asitano de Nadadouro e Angas Santas” e “Camadas vilafranquianas com lignitos e diatomitos”; plistocénicas correspondentes a antigos terraços e, finalmente, por aluviões modernos.

No caso de Terra do Manuel, a jazida encontra-se sobre os Calcários jurássicos do Lusitaniano médio, concretamente das “Camadas de Montejunto”, que aqui se apresentam sobre a forma de lapiás, recorbertos por sedimentos de origem aluvial, alternando entre depósitos de granulometria fina (argilas) e mais grosseiras (cascalheira), os quais estão associados à dinâmica do Rio Maior e de um ribeiro seu afluente. Do ponto de vista topográfico, a jazida encontra-se localizada junto à entrada Oeste do Vale da Senhora da Luz, a poucas dezenas de metros para montante da entrada do Canhão da Bocas, onde se localiza a jazida do Abrigo Grande das Bocas. O Abrigo Grande das Bocas encontra-se implantado no Canhão das Bocas, um vale encaixado, com cerca de 670 metros de extensão, que corre em ligeiro zig-zag num sentido NWW-SEE representando um intervalo do curso do rio num sentido geral NW-SE, cujas paredes curtas e muito íngremes, se apresentam com um comando de cerca de 70 metros, escavado nos calcários jurássicos do Lusitaniano Médio, especificamente do Caloviano, Batoniano e Bajociano correspondendo às chamadas “Camadas de Montejunto”. Tanto o Vale da Senhora da Luz como o Canhão das Bocas enquadram-se no sector mesial do Rio Maior, tributário direito do Rio Tejo, sendo que tanto

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no canhão como nas suas mediações são conhecidas diversas ocupações pré-históricas de ar livre e em gruta. A extremidade Este do canhão representa aqui o momento de transição entre o Maciço Calcário Estremenho com a Bacia Terciária do Tejo.

Na face Sudeste do Maciço Calcário Estemenho, a transição entre este e a Bacia Terciária do Tejo é abrupta, derivado da falha do Arrife. O Arrife é um fenómeno geológico com cerca de 50kms de extensão resultante da acção de falha tectónica normal, orientada NE- SW, que levou ao sobreelevamento, a Sul, dos calcários micríticos da Serra d’Aire, datados do Jurássico médio Batoniano, do Maciço Calcário Estremenho relativamente à Bacia do Tejo que, adoçada a essa parede, é representada pelos Arenitos de Monsanto. Do ponto de vista geomorfológico, trata-se de uma crista bem destacada na paisagem, com uma paredes bastante abrupta, cujas cotas variam entre os 98 metros de altitude, no topo do terraço Q2, e os 242 metros, no vértice geodésico do Almonda representando o contraforte da Serra d’Aire, sendo a fronteira física entre a dita Bacia e o Maciço. De permeio, na base da parede, são comuns a presença, por um lado de exsurgências, bem como de uma ligeira vertente constituída pela acumulação de mega-blocos que se desprenderam da parede ao longo do tempo e de sedimentos resultantes eminentemente da dissolução da mesma.

Numa situação mais interior, a Sudoeste da Pena d’Água, já em plenos calcários micríticos da Serra d’Aire, localiza-se a jazida da Lapa do Picareiro, a qual está implantada numa elevação orientada SW-NE que representa o regume NE da depressão do polje de Minde. Esta situação faz com que a vertente se encontre voltada a NW, bem destacada na

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