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3  Behov

3.2  Interessentanalyse

Para Davidson, "o monismo anômalo lembra o materialismo na sua asserção de que todos os eventos são físicos, mas rejeita a tese, usualmente considerada essencial para o materialismo, que os fenômenos mentais podem ter explicações puramente físicas”191

(DAVIDSON, 1970b, p. 214). Dito de outra forma, o viés ontológico do MA permite-lhe, sem que todos os eventos sejam mentais, afirmar que "todos os eventos são físicos" (DAVIDSON, 1970b, p. 214). Esta ideia vai no sentido de uma “identidade sem leis correlacionantes“ (DAVIDSON, 1970b, p.213), coerente tanto com monismo como com o anomalismo do mental. Deste modo, existem quatro classes de teorias que se posicionam quanto à existência de leis psicofísicas e quanto à identidade entre eventos físicos e mentais:

Teorias sobre a relação entre eventos mentais e físicos que enfatizam a indepen- dência de afirmações acerca de leis e afirmações acerca da identidade. Por um lado existem aqueles que aceitam, e aqueles que negam a existência de leis psi- cofísicas; por outro lado, existem aqueles que dizem que eventos mentais são idênticos a eventos físicos, e aqueles que o negam. Assim, as teorias estão divi- didas em quatro categorias: monismo nomológico, que afirma que existem leis correlacionando, e que os eventos correlacionados são um só (os materialistas pertencem a esta categorias); dualismo nomológico, que engloba várias formas de paralelismo, interacionismo, e epifenomenalismo; dualismo anômalo, que combina o dualismo ontológico com a falha geral das leis correlacionando o mental e o físico (Cartesianismo). E finalmente existe o monismo anômalo, que classifica a posição que eu gostaria de ocupar192 (DAVIDSON, 1970b, p. 213- 14).

191 Tradução do autor. No original, "Anomalous monism resembles materialism in its claim that all events are physical, but rejects the thesis, usually considered essential to materialism, that mental phenomena can be given a purely physical explanation".

192 Tradução do autor. No original, “theories of the relation between mental and physical events that emphasizes the independence of claims about laws and claims of identity. On the one hand there those who assert, and those who deny, the existence of psychophysical laws; on the other hand there are those who say mental events are identical with physical and those who deny this. Theories are thus divided into four sorts: nomological monism, which affirms that there are correlating laws and that the events correlated are one (materialists belong in this category); nomological dualism, which comprises various forms of parallelism, interactionism, and epiphenomenalism; anomalous dualism, which combines ontological dualism with the general failure of laws correlating the mental and the physical (Cartesianism). And finally there is anomalous monism, which classifies the position I wish to occupy”.

O conteúdo deste parágrafo pode ser abreviado no quadro seguinte:

Figura 9 – Distinções entre as principais posições em teorias da identidade.

Neste sentido, a perspectiva do argumento, de pressupostos materialistas, em que eventos físicos e mentais rediscritos (com predicados físicos) convivem sob a mesma descrição física, é coerente com a superveniência (S) do mental no físico:

Tal superveniência poderia ser levada a significar que não poderia haver dois eventos iguais em todos os aspectos físicos, mas diferindo no que respeita ao mental, ou que um objeto não pode ser alterado no que respeita ao mental sem que seja alterado em algo respeitante ao físico193 (DAVIDSON, 1970b, p. 214).

Ou seja, se dois eventos são iguais, são iguais em todos os aspetos físicos e em todos os aspetos mentais (1) e não pode haver alterações no mental sem haver no físico (2). Esta tese assinala, primeiro a identidade, e depois a hierarquia entre eventos físicos e eventos mentais a favor dos primeiros, conservando a valência conceptual de predicados mentais. Vejamos as expressões relativas a (1) e (2), respetivamente194:

= → ( = = ) (3)

≠ → ≠ (4)

Analisando as anteriores expressões 195 , podemos concluir para concluir a consistência entre (3) e (4), mas para isso teríamos de estabelecer a priori o valor de verdade da identidade de eventos ou da causalidade de eventos (e consequente mudança de

193 Tradução do autor. No original, "Such supervenience might be taken to mean that there cannot be two events alike in all physical respects but differing in some mental respect, or that an object cannot alter in some mental respect without altering in some physical respect".

194 Onde e são eventos, e são predicados físicos, e e são predicados mentais.

195 Assumindo a lógica do CPC, sabendo que uma implicação lógica ( → ) só é falsa ( = ) se o antecedente for verdadeiro ( = �) e o consequente falso ( = ), que uma conjunção lógica ( ) só é verdadeira ( = �) se o antecedente for verdadeiro ( = �) e o consequente

predicados), conforme podemos perceber no apêndice 1. Esta perspectiva aparenta não apresentar problemas, sendo coerente com concepção externalista e extensionalista de eventos e da afirmação a priori da identidade e causalidade no argumento do MA.

Contudo, Davidson apresenta outra definição de superveniência a partir de

Thinking Causes (DAVIDSON, 1993): “um predicado � é superveniente sobre um

conjunto de predicados se, e somente se, � não distingue quaisquer entidades que não podem ser distinguidas por ” (DAVIDSON, 1993, p. 5). Este argumento é um pouco mais complexo, e teremos de recorrer à lógica do CQC: partamos de uma linguagem ℒ , composta por objetos e predicados resultantes da união entre o predicado � e o conjunto de predicados 196 (ou seja, � ∪ )197. Assim, podemos pensar sobre um conjunto de

fórmulas conseguidas a partir dos predicados de , de modo a proceder às distinções propaladas pela definição de Davidson. A linguagem ℒ estaria associada a uma estrutura �, composta por um conjunto de imagens e a função interpretação �. O que a definição nos levaria a concluir é que a interpretação do predicado � (ou seja, �(� )) estaria contida no conjunto das interpretações das fórmulas predicados que compõem o conjunto = { , , … , } = { } para objetos , ou seja, �(� ) ⊂ �( )198. Consequentemente,

pode acontecer que haja predicados contidos em com a mesma extensão de �, ou que sejam parte de fórmulas com a mesma extensão de �, permitindo que a extensão dos predicados supervenientes dependa da extensão dos predicados subvenientes (DAVIDSON, 1993, p. 5).

Apesar de Davidson reconhecer o equívoco que o levou utilizar a palavra superve- niência199, em Thinking Causes (1993), a noção de S mantém-se, e constitui um ponto de debate e objeção ao MA, principalmente por Kim (1989 e 1993). Será que a tese da S apresentada por Davidson, em conjunto com descrições de eventos conseguem sustentar a dificuldade em lidar com a identidade e a causalidade entre eventos físicos e eventos mentais, e os predicados constantes em suas descrições?

196 De modo a incluir casos em que o predicado

� está contido no conjunto , isto é, � ⊂ .

197 Todavia, “que não podem ser distinguidas por ” (DAVIDSON, 1993, p. 5) tem um sentido lato, e portanto, poderemos entender daqui, que a distinção em pode ser conseguida através de fórmulas simples e complexas, resultantes da conexão entre os predicados de .

198 A definição de Davidson é complexa, e mereceria um estudo mais aprofundado, ao qual não procederemos neste trabalho. Não é claro se a definição, nos conduz a deduzir de um conjunto de fórmulas (como aliás aqui sugerimos), ou se devemos tratar o problema com uma lógica de predicados de 2a ordem (até para acomodar, mais adiante, a possibilidade de redescrição de eventos).

199 Davidson (1993) em nota de rodapé afirma ter usado a noção de superveniência num sentido diferente do original, por R. M. Hare que a toma por uma “redução nomológica” (DAVIDON, 1993, p. 4). Para mais informações consultar The Language of Morals (1952), de R. M. Hare.

Eventos físicos e eventos mentais relacionam-se causalmente (P1), mas para que seja instanciada uma lei, eventos mentais devem ser rediscritos como eventos físicos (identidade de descrições coerente com S), só assim pode ser instanciada uma lei estrita (através de P2) que relacione apenas eventos físicos (como requer P3). Esta apresentação simplificada/resumida do MA, entenda-se MA+P+S, aparenta superar a contradição inicial, contudo existem críticas e objeções a esta tese de Davidson.