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14.2 INTERESSEMOTSETNINGER OG AVBØTENDE TILTAK
Como vimos no segundo capítulo, Baudelaire também apresenta uma dinâmica própria entre o dentro e o fora de si que assume um importante papel nas suas concepções estéticas de forma geral. Esta dualidade, tematizada nos escritos íntimos do poeta pela oposição entre concentração e dispersão do eu, por exemplo, foi devidamente notada por diversos críticos. Se a intuição de Simmel estiver correta, qual seja, a de que o sentimento de uma existência radicalmente cindida caminha junto com a experiência moderna, então podemos dizer que a ocorrência dessa cisão e dos seus desdobramentos em Baudelaire, nos seus contemporâneos e
na crítica, é algo mais do que um “clichê romântico”.375
Ela constitui, como notamos no segundo capítulo, uma das razões pela qual parte da crítica supôs a força da fraqueza de Baudelaire.
374 KANT, Immanuel. Crítica da razão prática, p.235-236. Em itálico, grifos meus. 375
Para Antoine Compagnon, uma boa parte dos críticos de Baudelaire – para estabilizar as noções do belo e da modernidade concebidas pelo poeta – recorre às dualidades que se encontram em Baudelaire e em seus contemporâneos. Após citar dois trechos (Balzac e Victor Hugo) que apresentam a dualidade entre o um (da beleza, da vontade e da virtude) e o múltiplo (do vício e da feiúra), o autor conclui: “On pourrait citer beaucoup d’autres polarités fondées sur l’opposition de l’un et du multiple, mais ce ne sont que des stéréotypes romantiques, trop répandus pour établir véritables emprunts et signifier grand-chose”. A esse respeito ver: COMPAGNON, Antoine. Baudelaire devant l’éternel, p.75.
Nos escritos íntimos do poeta há, de forma geral, uma identificação entre os polos do trabalho, de Deus, da vontade e do espírito em oposição ao jogo, ao Diabo, à indolência e à matéria. Num plano ideal de “higiene moral”, as orações, por exemplo, enquanto exercícios da vontade, são comparadas a verdadeiros “reservatórios de energia”, associando-se – através da economia baudelairiana estabelecida entre as faculdades – diretamente ao trabalho: “force progressive et accumulative, portant intérêts comme le capital, dans les facultés comme dans
les résultats”. É a partir daí que o poeta condena em tom categórico o materialismo moderno – “l’enthousiasme qui s’applique à autre chose que les abstractions est un signe de faiblesse et de maladie”376 –, o amor, concebido como “gosto pela prostituição”; assim como procura
justificar a autossuficiência do artista que não sai de si: “Foutre, c’est aspirer à entrer dans un
autre, et l’artiste ne sort jamais de lui-même”.377
Mesmo sabendo que estes “belos” princípios morais do poeta nem sempre foram
colocados em prática, e que Baudelaire não se cansa de confessar sua própria vulnerabilidade diante dos prazeres dispersantes do eu, a princípio, parece que podemos encontrar aqui, como já havíamos identificado, um resumo de certo programa estético ideal de Baudelaire: a possibilidade de uma criação autossuficiente comandada pela vontade e pelo trabalho em oposição à inspiração romântica; ou ainda, a realização da unidade do ser por via de uma ascese estética a partir da qual o egoísmo daquele que não sai de si é assumido com um orgulho aristocrático. Eis porque ao dândi não parece desagradar minimamente viver diante do seu espelho.
Tudo isso aparece em certos escritos íntimos do poeta como uma espécie de receita para o sucesso, a garantia da produtividade necessária a um homem de letras através do trabalho, da força de vontade e do autocentramento. No caso de uma vitória do eu único sobre a vaporização oferecida pelo prazer e pela banalidade moderna, ganha também o ideal a batalha contra o materialismo grosseiro acusado por Baudelaire entre seus contemporâneos. Nesse sentido, a estética baudelairiana poderia ser reduzida, não sem alguma razão, a um neo- platonismo cristão que procura submeter a dispersão da natureza à unidade da alma ou do verdadeiro ser: “Toute idée est, par elle-même, douée d’une vie immortelle, comme une
personne. Toute forme crée, même par l’homme, est immortelle. Car la forme est indépendant de la matière, et ce ne sont pas les molécules qui constituent la forme”.378
Desde já, percebe- se a complexidade contraditória dessa posição de Baudelaire: estamos diante de um idealismo
376 BAUDELAIRE, Charles. Fusées. In: BAUDELAIRE, Charles. Œuvres Complètes, vol. I, p.653.
377 BAUDELAIRE, Charles. Mon coeur mis a nu. In: BAUDELAIRE, Charles. Œuvres Complètes, vol. I, p.702. 378 BAUDELAIRE, Charles. Mon coeur mis a nu. In: BAUDELAIRE, Charles. Œuvres Complètes, vol. I, p.705.
de ares aristocráticos que, ao mesmo tempo, reivindica o trabalho regular – simultaneamente acúmulo de força espiritual e de capital – como modo de vida, isto é, como forma de subsistência física e de criação literária. Supondo que tal condição ideologicamente contraditória se realizasse, pergunta-se: qual seria, na opinião do poeta, o resultado de uma vida artística plenamente satisfeita e adaptada ao contexto moderno do trabalho, da produção regular, etc? Ora, a julgar pela opinião de Baudelaire sobre Victor Hugo – um dos autores identificados por ele como modelo bem sucedido desse ideal artístico trabalhador –, a resposta deve ser no mínimo negativa. Aliás, trata-se de um resultado totalmente adverso: nas análises de Baudelaire sobre Victor Hugo, o poeta enfatiza justamente o caráter inepto das suas obras, isto é, a completa falta de espírito. Baudelaire parece ter consciência dessa contradição entre o trabalho – metódico, regular e virtuoso – e o resultado, a obra de arte que se apresenta, devido justamente à sua irretocável saúde física e moral, como inadequada à
natureza humana: uma categoria de beleza “abstrata e indefinível” tal como a da “única mulher antes do primeiro pecado”. É exatamente essa mesma característica que ele encontra
nos personagens dos Miseráveis, dignos de um elogio certamente irônico:
Il est bien évident que l’auteur a voulu, dans Les Misérables, créer des abstractions
vivantes, des figures idéales dont chacune, représentant un des types principaux nécessaires au développement de sa thèse, fût élevée jusqu’à une hauteur épique.
C’est un roman construit en manière de poème, et où chaque personnage n’est
exception que par la manière hyperbolique dont il représente une généralité.379
A contradição de algumas posições que se encontram nos escritos íntimos de Baudelaire, a qual não nos cabe apaziguar ou resolver, salta aos olhos. Sabe-se que esse modelo de criação ascética – a despeito dos aforismos contidos nos seus escritos íntimos e de algumas considerações mais esparsas – dificilmente foi adotado pelo poeta. Em Baudelaire, se ascese há, trata-se quase sempre, como lembra Albert Camus, de uma “ascese degradada”. Assim, nota-se que a economia baudelairiana do “Plus on veut, mieux on veut. Plus on travaille et plus on veut travailler. Plus on produit, plus on devient fécond” não é compatível
com o efeito esperado pelo artista: “Ce qui n’est pas légèrement difforme a l’air insensible; – d’où il suit que l’irrégularité, c’est-à-dire l’inattendu, la surprise, l’étonnement sont une partie
essentielle et la caractéristique de la beauté”.380 Baudelaire sabe exatamente disso. O trabalho artístico, ao entrar no ritmo regular e indefinido de produção imposto pelo progresso, ao se
379 BAUDELAIRE, Charles. Les misérables par Victor Hugo. In: BAUDELAIRE, Charles. Œuvres Complètes,
vol. II, p.220.
apropriar violentamente da natureza pela técnica e pela sistematização da vida, perde justamente o espírito na medida em que suprime a imaginação.
Na oposição entre o prazer que nos usa (gasta, despende) e o trabalho que nos fortifica (economiza, concentra), o segundo polo permitiria ao artista não sair de si. Aqui, percebe-se a ambiguidade da noção de progresso colocada em cena por Baudelaire. A quem ele serve? A Deus ou ao Diabo? À concentração ou à dispersão do sujeito na modernidade? Num primeiro momento, a partir dos escritos íntimos do poeta, poderíamos colocá-lo exclusivamente ao lado da vaporização, uma vez que, via de regra, o progresso impulsiona o “materialismo” da
sociedade moderna: “la mécanique nous auras tellement américanisés, le progrès auras si bien
atrophié en nous toute la partie spirituelle, que rien parmi les rêveries sanguinaires, sacrilèges, ou anti-naturelle des utopistes ne pourra être comparé à ses résultats positifs”.381 Entretanto, como quase tudo em Baudelaire – graças à lei da reversibilidade ou da ironia –, o progresso serve a dois deuses, de tal maneira que a sua estrutura deve igualmente apresentar algumas afinidades com o polo divino da concentração. Caso contrário, o trabalho jamais poderia ser associado a um ideal puro de criação artística. Nesse sentido, podemos encontrar recorrentemente nas menções de Baudelaire ao progresso a associação de pelo menos dois termos que permitem ao artista moderno não sair de si: a sistematização (abstração) da vida e o desejo de apropriação e reprodução da natureza, de forma geral. Percebe-se logo que esses dois termos encontrados na estrutura baudelairiana do progresso, num regime ideal de higiene moral, poderiam facilmente garantir o acúmulo de energia espiritual requerido pelo poeta. Porém, na prática, são esses mesmos pressupostos que acusam a completa falta de espírito dos artistas modernos. Talvez isso só seja possível porque a lógica divina do progresso que, segundo Baudelaire, invade os ateliês dos artistas modernos, encontra-se dessacralizada. O progresso baudelairiano é uma espécie de eternidade imanente, em outras palavras, o próprio inferno:
Je laisse de côté la question de savoir si, délicatisant l’humanité en proportion des jouissances nouvelles qu’il lui apporte, le progrès indéfini ne serait pas sa plus
ingénieuse et sa plus cruelle torture ; si, procédant par une opiniâtre négation de lui- même, il ne serait pas un mode de suicide renouvelé, et si, enfermé dans le cercle de feu de la logique divine, il ne ressemblerait pas au scorpion qui se perce lui-même avec sa terrible queue, cet éternel desideratum qui fait son éternel désespoir?382
381 BAUDELAIRE, Charles. Fusées. In: BAUDELAIRE, Charles. Œuvres Complètes, vol. I, p. 665-666.
382 BAUDELAIRE, Charles. Exposition universelle – 1855. In: BAUDELAIRE, Charles. Œuvres Complètes,
A lógica divina dessacralizada do progresso transforma a eternidade em eterno desespero. Como notou Antoine Compagnon, o uso do adjetivo hiperbólico éternel de maneira geral na poética baudelairiana privilegia o sentido humano do termo – ligado à idéia de perpétuo, sem fim – em detrimento do significado transcendente que remete ao Verbo ou ao Pai eterno. De qualquer forma, aqui como nas Flores do Mal, “la connotation
métaphysique ou même théologique est rarement absent”. Mais especificamente: “c’est avant
tout le mal qui est éternel ou perçu comme tel, sans fin et de tous les temps (...). L’éternel de
Baudelaire est à la fois majuscule e minuscule: sa minuscule désigne l’absence de sa
majuscule ”.383 Essa reflexão se aplica bem ao nosso caso. O progresso em Baudelaire possui a estrutura de um ato Providencial que afasta do mundo a própria Providência, isto é, que instaura uma eternidade dessacralizada, imanente, capaz de encerrar os homens no círculo de fogo domínio progressivo da matéria. Ao fazê-lo, ele satisfaz a busca incessante por
“jouissance nouvelles” de uma sociedade americanizada e glutã. Do ponto de vista do
consumidor de mercadorias, o progresso – enquanto uma espécie de “suicídio renovado” – atua à maneira de um solvente da subjetividade; da perspectiva do artista, do público, ou do fabricante moderno, ele serve à concentração de si ou de renda. O efeito dessa economia sobre as representações artísticas é um egoísmo indesejável que expulsa simultaneamente o espírito e a imaginação das mesmas. É esta relação que, a partir de agora, tentaremos demonstrar.