9 Den avsluttende saksgangen
10.2 Interessehevding og forhandling
Precisamos, antes de qualquer coisa, compreender a importância da literatura para a compreensão do mundo e que a sua aprendizagem não deve seguir os padrões estabelecidos para as outras disciplinas do currículo escolar, assim como não deve ser tomada como uma disciplina sem importância ou que sirva como propósitos para o ensino de outras disciplinas.
Muitas vezes entendida, equivocadamente, como supérflua e secundária, por responder supostamente apenas ao entretenimento, a literatura deve, em primeiro lugar, ser compreendida em sua natureza e função – natureza transgressora e irreverente, cuja função desemboca na constituição de uma consciência de mundo e de sujeito, por meio de processos de aprendizagem completamente diferentes daqueles previstos pelos diversos métodos pedagógicos já criados (LOYOLA, In: BARBOSA; BARBOSA, 2013, p. 118).
Ao fazermos uma análise sobre a literatura no Brasil, constatamos que ela permanece, ainda hoje, em lugar algum, pois os nossos alunos são alfabetizados e preparados para entender textos - orais ou escritos - mas não são educados para a literatura, a exemplo do que está estabelecido nos PCN. Se antes a literatura figurava como um fim, agora nem para isso serve de referência.
Assim, se antes – conforme o modelo originário da Grécia que institucionalizava o canônico e que ainda vigora nos Estudos Literários – a literatura ficava no fim ou de fora, agora ela não está em parte alguma. A dissociação faz com que a literatura permaneça inatingível às camadas populares que tiveram acesso à educação, reproduzindo-se a diferença por outro caminho, respondendo os letrados não mais por aqueles que sabem ler, e sim pelos que lidam de modo familiar com as letras - os especialistas.
Como a estética e as teorias da literatura proclamaram, por muito tempo, a autossuficiência da obra poética, reconstitui-se a sacralidade dessa e mantém-se a aura
flagrada por Walter Benjamin, mais uma vez com a colaboração da escola e da pedagogia (ZILBERMAN, In: PAIVA; MARTINS; PAULINO; VERSIANI; 2007).
A literatura é plena de saberes sobre o homem e o mundo. Por ela é possível tornar o mundo compreensível, traduzindo por palavras a sua materialidade, em cores, odores, sabores, formas e emoção.
É verdade que a literatura como expressão humana precede em muito o surgimento da instituição escolar tal como a conhecemos hoje, mas também é verdade que, uma fez consolidada, a escola tornou-se a responsável pela habilitação do leitor e pela sua iniciação na educação literária (LOYOLA, In: BARBOSA; BARBOSA, 2013, p. 113).
Observamos ainda uma confusão acerca do papel que a literatura deve ocupar na escola, mesmo após os documentos oficiais preconizarem a importância da leitura prazerosa, mas pouco é percebido em termos de mudanças de atitude com relação ao modo como a literatura deve ser abordada na escola, reflexo também do próprio professor que nem sempre está preparado até mesmo para reconhecer o texto literário e que o confunde com texto utilitário.
Ainda é comum encontrarmos confusões de toda ordem envolvendo a presença da literatura na escola básica, confusões que vão desde a utilização meramente didática dos livros de literatura até os mais sofisticados projetos pedagógicos que sublocam ao literário a função educativa, disfarçada de lugar de importância e espaço de prazer, passando pela confusão que resulta da (in) capacidade de boa parte dos mediadores de discernir sobre o que é o literário e onde ele reside (LOYOLA, In: BARBOSA; BARBOSA, 2013, p. 114).
Justifica-se o estudo de literatura nas escolas não somente para ensinar a ler e escrever, mas também para a formação cultural do indivíduo. Nas nossas escolas, no ensino fundamental a literatura tem a função de sustentar a formação do leitor e, no ensino médio, integra o leitor à cultura literária brasileira. No entanto, não observamos que tais objetivos sejam alcançados do modo como a escola tem conduzido a forma como ensina literatura.
Discordamos que no Ensino Fundamental ela tenha cumprido a sua função de sustentar a formação do leitor, pois percebemos que os alunos estão cada vez mais se distanciando das leituras literárias, fato comprovado pela pesquisa Retratos da Leitura do Brasil, apresentada no início de nosso trabalho. Assim como no Ensino Médio, não percebemos a integração dos leitores à cultura literária brasileira e sim que eles decoram
teorias, nomes de autores e de obras relevantes da nossa literatura. Percebemos ainda uma prática muito frequente nos estudantes que intencionam o ingresso em nível superior em pesquisar excertos de obras ou mesmo resumos das obras que são cobradas nos exames admissionais na internet, acreditando que é suficiente para acertarem as questões objetivas dos testes.
De acordo com os PCN Língua Portuguesa – Ensino Médio, nos estudos literários a história da literatura costuma ser o foco da compreensão do texto: uma história que nem sempre corresponde ao texto que lhe serve de exemplo. O conceito de texto literário é discutível.
O próprio documento (p. 16) afirma que bem sabemos que os problemas oriundos do domínio básico e instrumental, principalmente da língua escrita, o aluno deveria ter adquirido no Ensino Fundamental. Eles apontam para que o ponto de partida seja o que o aluno sabe e o que não sabe como princípio das ações do Ensino Médio, entretanto, as finalidades devem visar a um saber linguístico amplo, tendo a comunicação como base das ações; a língua compreendida como linguagem que constrói e desconstrói significados sociais.
Os objetivos da Educação Básica, no Art. 22 da LDB, já apontam a finalidade da disciplina, ou seja, ―desenvolver o educando, assegurar-lhe formação indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos superiores‖.
No Art. 27, a Lei fala sobre as diretrizes dos conteúdos curriculares, a questão da cidadania e do trabalho serve de exemplo do uso social da língua, vista como conhecimento de mundo em interação, em que a linguagem representa fonte da ética e estética em ação.
Na seção IV, a Lei dispõe sobre o Ensino Médio, destaca-se o aprofundamento dos conhecimentos como meta para o continuar aprendendo; o aprimoramento do aluno como pessoa humana; e a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico com flexibilidade, em um mundo novo que se apresenta, no qual o caráter da Língua Portuguesa deve ser basicamente comunicativo.
Acrescenta (p. 17) que a unidade básica da comunicação verbal é o texto, compreendido como a fala e o discurso que se produz, e a função comunicativa, o principal eixo de sua atualização e a razão do ato linguístico. O aluno deve ser considerado como produtor de textos, que produz e que o constituem como ser humano. O texto só existe na sociedade e é produto de uma história social e cultural. O homem visto como um texto que constrói textos.
O estudo da gramática passa a ser uma estratégia para a compreensão/interpretação/produção de textos e a literatura integra-se à área de leitura (p. 18).
Na escola, a exigência de se dar espaço para a verbalização do não-dito será uma possibilidade para a construção de múltiplas identidades (p.20). Como percebemos, há várias sinalizações para uma reflexão sobre os estudos de literatura, principalmente no que se refere ao que foi aprendido/apreendido no Ensino Fundamental, pois literatura é um bom exemplo do simbólico verbalizado.
Acreditamos que os estudos de literatura devam ser direcionados para a formação de leitores. Se os alunos não são leitores, não há o que se sustentar no Ensino Fundamental e não faz muito sentido estudar a cultura literária por não conhecer os objetos de estudos. Se conseguirmos formar leitores, todo o processo fica extremamente facilitado pelas vivências dos estudantes leitores.
Chegamos a apostar, às vezes, nas releituras como pretextos para que os alunos se aproximem das obras. Existem no mercado algumas inclusive com ilustrações como atrativos, outras em forma de história em quadrinhos e que são de boa qualidade literária. Acreditamos que servem para aguçar o gosto pela leitura. A partir dela, leitores mais afoitos partem para leituras de obras originais, de textos mais complexos.
Não há como evitar que a literatura, qualquer literatura, não só a literatura infantil e juvenil, ao se tornar ―saber escolar‖, se escolarize, e não se pode atribuir, em tese, [...] conotação pejorativa a essa escolarização, inevitável e necessária; não se pode criticá-la, ou negá-la, porque isso significaria negar a própria escola [...]. O que e pode criticar, o que se deve negar não é a escolarização da literatura, que se traduz em deturpação, falsificação, distorção, como resultado de uma pedagogização ou uma didatização mal compreendidas que, ao transformar o literário em escolar, desfigura-o, desvirtua-o, falseia-o (SOARES, 2001 apud COSSON, 2009, p. 18).
No entanto, o ensino de literatura nas escolas baseia-se em uma didática informativa que enfatiza o conhecimento da historiografia literária, autores e obras representativas. Às vezes os direitos do texto são abusivamente confundidos com os direitos do leitor, que a interpreta a partir do que o texto não permitiu.
Mas não é nesse tipo de sistema, adotado pelas escolas brasileiras, que conseguiremos preparar os nossos alunos para a sensibilidade e para a fruição. Não é obrigando os alunos a lerem obras indicadas e selecionadas pelos professores, a partir do que é cobrado nos exames admissionais, que conseguiremos contribuir para que eles vivenciem uma verdadeira experiência estética.
É importante que leiam as obras que são ―cobradas‖ nos exames, afinal, são canônicas, mas também é fundamental que experimentem - ou que iniciem suas experiências – por outros tipos de leitura que, antes de tudo, proporcione uma recepção agradável pelo leitor, por ter sido capturado pelo prazer de efetuar leituras que lhe são indicadas ou que tenham sido descobertas por ele mesmo. Quando o sujeito se torna realmente leitor, tudo o que advém disso são as consequências de leituras que não são feitas por obrigação.
As crianças pedem para ouvir inúmeras vezes a mesma estória ou assistir a filmes repetidamente porque querem experimentar novamente o prazer já vivenciado. A isso chamamos de carga nostálgica e que são ignoradas na escola, quando a criança é obrigada a ler textos que às vezes são insignificantes do ponto de vista literário e ontológico e que objetivam o estudo de conteúdos de cunho linguístico.
A escola maternal está preocupada em construir relações afetivas entre o livro e a criança, não se esforça muito para sancionar divagações singulares e apropriações abusivas, que são aquelas que criam ou fortalecem os estigmas nos leitores ingênuos. O objetivo maior é a criação de um elo entre a escola/ o professor e o aluno e não o estabelecimento de hábitos de leitura.
De acordo com Rouxel, Langlade e Rezende (2004), o primeiro ciclo do ensino fundamental não tem como objetivo aprender a explicar os textos e sim construir as condições para que se inicie um diálogo entre o próprio texto e o leitor empírico. Sobre o mesmo assunto, Cosson afirma:
No ensino fundamental, a literatura tem um sentido tão extenso que engloba qualquer texto escrito que apresente parentesco com ficção ou poesia. O limite, na verdade, não é dado por esse parentesco, mas sim pela temática e pela linguagem: ambas devem ser compatíveis com os interesses da criança, do professor e da escola, preferencialmente na ordem inversa. (COSSON, 2009, p.21)
O que percebemos é que, no Ensino Fundamental, os textos precisam ser curtos, contemporâneos e divertidos, a exemplo da crônica, pois falta tempo para efetuar leituras no ambiente escolar. Tal fato é também associado à própria condição dos adolescentes em efetuar leituras rápidas, que não lhes ocupem muito o tempo. Os atrativos tecnológicos que surgiram com o advento do século XXI estão distanciando cada vez mais os jovens dos livros.
As leituras de obras literárias estão cada vez mais restritas às atividades de leitura extraclasse ou atividades especiais de leitura, talvez justificados pela falta de tempo em contemplar esse tipo de atividade na escola. No entanto, quando são passadas orientações para que os alunos efetivem as leituras em casa, eles raramente as cumprem. O ideal seria que a escola oportunizasse um espaço de tempo maior para a Literatura.
No Ensino Médio estuda-se a história da literatura brasileira – cronologia literária, os estilos de época, cânone e dados biográficos dos autores, estudos teóricos sobre gêneros, formas fixas em uma perspectiva bem tradicional. Estudam-se os fragmentos de textos literários para comprovar as características dos períodos literários.
Zinani e Santos (In: Paulino; Cosson, 2004) apontam, em estudo sobre os PCN e ensino da literatura, que a literatura no Ensino Médio é um apêndice ou disciplina autônoma; presume que esteja inserida na área de Língua Portuguesa; houve perda de espaço; preconiza a periodização literária; atenta-se para o conhecimento distinto do científico, assume papel reflexivo; tem como objetivo ―recuperar, pelo estudo do texto literário, as formas instituídas de construção do imaginário coletivo, o patrimônio representativo da cultura e as classificações preservadoras e divulgadas, no eixo temporal e espacial‖ (PCN-EM).
Os autores enfatizam que, muito mais do que elemento conservador do patrimônio cultural, a literatura pode ser o instrumento que vai contribuir para a adequação a um mundo novo e para a formação total do ser humano; há necessidade de uma nova metodologia para o seu ensino; é necessário um professor que tenha sensibilidade para captar os acontecimentos e os problemas que envolvem a sociedade; é necessário trabalhar literatura com interdisciplinaridade. Para eles é preciso proceder- se, em sala de aula, à leitura do texto literário, a fim de que o aluno perceba a importância que essa modalidade textual detém como elemento deflagrador das diferentes abordagens que podem ser realizadas nos diversos campos do conhecimento.
Para os mesmos autores é imprescindível que seja repensado o papel da literatura no cenário dos PCN. A literatura, dada a sua importância, não pode ser mencionada apenas como guardiã do patrimônio cultural, ou simplesmente, como recuperação dos períodos literários.
Para Roland Barthes (1988, p. 53) ―[...] a história da literatura é um objeto essencialmente escolar, que precisamente só existe por seu ensino‖. Para o autor o ensino de literatura na escola centra-se nos estudos de gêneros, nas escolas literárias com seus autores.
... a que se poderia quase chamar monemas da língua metaliterária ou da língua da história da literatura; tais objetos são, certamente, os autores, as escolas, os movimentos, os gêneros e os séculos. E depois, sobre esses objetos, há certo número, aliás, bastante reduzidos na realidade, de traços ou de predicados que vêm se fixar e evidentemente combinar-se (BARTHES, 1988, p. 54).
Ele afirma que a literatura deve ser ensinada através do texto literário, mas não como pretexto para outras atividades, mas a utilizar a literatura como mediadora do saber.
A escola promove atividades desenvolvidas entre dois extremos: a exigência de domínio de informações sobre a literatura e o imperativo de que o importante é que o aluno leia. Ainda sobre a leitura, o que mais importa, para cumprimento de planejamento escolar, é a fruição, sendo que no fundamental são solicitados resumos dos textos, fichas de leitura e debates em sala de aula, objetivando, principalmente recontar a história lida com suas próprias palavras. Enquanto que no Ensino Médio resume-se a seguir de maneira descuidada o livro didático adotado e raramente promovem a leitura de um texto integral.
De acordo com Cosson (2009, p. 23), ―estamos adiante da falência do ensino da literatura‖. Ele argumenta que a literatura não está sendo ensinada para garantir a função essencial de construir e reconstruir a palavra que nos humaniza, pois falta um objeto próprio de ensino.
O estudo de literatura deve trazer uma experiência de leitura a ser compartilhada, ampliada, exercida sem o abandono do prazer, através da leitura efetiva dos textos e não das informações acerca deles. É importante fundamentar o estudo na organização segundo os objetivos da formação do aluno em sujeito crítico, compreendendo que a literatura tem um papel a cumprir no âmbito escolar que é o de transformar - formar leitores.
Sobre a análise literária praticada na escola, ela não destrói a magia e a beleza da obra, quando analisados os seus mecanismos de construção. Ao contrário, torna a literatura (como um processo de comunicação), uma leitura que demanda respostas do leitor, um convite a penetrar na obra de formas diferentes e explorá-la sob os mais variados aspectos. No entanto, não há muito espaço para fazer análises literárias na escola - por necessidade de se cumprir um planejamento que não contempla a análise de obras completas, por exemplo - e que destina um tempo irrisório para a literatura. Como dito anteriormente, há necessidade de reestruturação da grade escolar, redefinindo o
tempo de aulas atribuído à disciplina Língua Portuguesa para que a literatura possa conquistar maior tempo para ser ministrada.
A antecipação do conteúdo da obra a partir das capas dos livros, seguindo-se de leitura de imagens interiores ou de excertos de obra (inseridos página por página nos livros didáticos) acabou se espalhando em todo o ensino primário e alcançou o ensino médio sob o disfarce de que servem para desenvolver comportamentos de leituras experientes. O que acabou se tornando consenso, significa perigo de prática, negligenciando dois fatos importantes:
-um leitor experiente, capaz de fazer boas antecipações baseadas na sua familiaridade com os gêneros ou com os autores – antecipações que no máximo, porém, permite vislumbrar uma personagem típica, cenas típicas, uma atmosfera, um universo singular -, espera ser surpreendido pelo enredo e adora deixar-se surpreender. É um leitor disponível para a aventura e nada o desagrada mais do que encontrar no texto o que já colhera em sua memória narrativa. Ele não antecipa, em absoluto, a partir de uma imagem da capa, uma história inteira (salvo se se tratar de um livro da série Arlequim, que ele não precisa mais ler). A única coisa que ele antecipa é o prazer de entrar em um mundo desconhecido; - um leitor não experiente – o aluno com dificuldade de leitura, que me interessa hoje e sobre o qual eu focalizarei minha atenção – é um aluno que possui usualmente três características: ele não dispõe de roteiros textuais ampliados, não está disponível para a aventura e, no entanto, pratica a vagabundagem sem bússola. Essas três características conjugadas, reforçadas pela demanda docente de antecipar livremente, o conduzem a formas extremas de levitações: aquilo que ele foi obrigado a antecipar inicialmente, segundo informações fragmentadas e abertas, em conformidade aos frágeis estereótipos de que ele dispõe, desvia-o de uma confrontação posterior à literariedade da coisa escrita e termina por se tornar a realidade do texto. Sua antecipação, sua especulação subjetiva viram usurpação. De uma forma desviante de cooperação, o leitor toma o lugar do autor, e o ―texto‖ ilegítimo de um recobre o texto legítimo do outro, definitivamente perdido. Somente resta na memória o texto antecipado. (TAUVERON, In: ROUXEL; LANGLADE; REZENDE (org.), 2013, p. 118- 119).
Encontramos duas formas de recuperação nesse pano de fundo de leitura: aqueles alunos do primário com dificuldade, que têm medo de se perder nos mundos imaginários e que procuram o conhecido no desconhecido e releem indefinidamente a mesma história ou os alunos que, ao encontrarem um texto que desafia sua cultura narrativa ou seu sistema de valores, não são capazes de ultrapassar aquilo que percebem como um escândalo cognitivo ou ético. Aqueles elaboram então uma história substitutiva tranquilizadora. A segunda forma consiste em ler o texto como um estímulo à imaginação.
Portanto, a antecipação não apresenta vantagens quando livremente solicitada, a não ser que o texto forneça índices destinados a desorientar o leitor, levando-o a seguir
previsões que jamais se verificarão. Se a antecipação for provocada pelo professor, ela não tem real eficácia a não ser que convoque um duplo leitor modelo: ingênuo, primeiro; crítico, depois, capaz de retroceder. Ela só é pertinente se a ingenuidade da primeira leitura for retomada e desmascarada.
Tauveron (2002) acredita que o princípio da leitura literária é trazer docemente, de volta, os alunos que partiram em levitação para a superfície granulosa do texto. Assim é possível garantir os direitos do texto e os direitos dos leitores empíricos, cientes de que os direitos dos leitores são limitados pelos direitos do texto, compreendendo-se que os direitos do texto são aqueles cuja interpretação ele autoriza, ou seja, que não fogem ao que foi dito por ele. No entanto, ele aceita, em alguns casos que haja a inversão desses valores em prol de um bem maior: o movimento que origina a recepção do texto pelo leitor. Como ele próprio metaforiza: ―pouco importa o vinho servido contanto que se embriague‖ (TAUVERON, In: ROUXEL; LANGLADE; REZENDE,